para além das especificidades profissionais, estavam ancorados na filosofia e na retórica. Assim, a aristocracia agrária, a classe dominante brasileira desde a colô- nia, se caracterizava também por outro traço distintivo: muitos dos seus membros eram portadores do título de “doutor”, de preferência em Direito.
Portanto, o protótipo do governante no período do Império (1822-1889) era aquele que possuía, ao mesmo tempo, uma grande fazenda agropecuária, movi- da pelo braço escravo, e um título de “doutor” em Direito ou em Medicina. Aliás, a educadora alemã Ina von Binzer (1982), que na segunda metade do século XIX foi preceptora dos filhos da aristocracia agrária produtora de café, percebeu muito bem o significado social do tratamento de “doutor” dispensado aos fazendeiros quando fez a seguinte observação: “todo o brasileiro bem colocado na vida já nasce com direito a este título” (BINZER, 1982, p. 17).
Outro fato histórico a ser considerado é aquele relacionado com o ciclo do ouro das Minas Gerais. A partir da segunda metade do século XVII, processava-se, de forma lenta e gradual, a constituição de uma camada social intermediária existente entre a massa de escravos e as elites agrárias. Formada por peque- nos proprietários rurais e urbanos, comerciantes, artesãos e funcionários da burocracia estatal, esses setores sociais minoritários no conjunto da população concebiam a educação como um mecanismo de ascensão social, ou seja, alme- javam alcançar as condições econômicas desfrutadas pelas elites agrárias por meio da designação honorífica “doutor”. Em síntese: a distinção pela educação levava à condição de membro da classe dominante, isto é, o título de bacharel possibilitava, depois de alguns anos no exercício da profissão liberal, amealhar o capital necessário para se comprar uma fazenda, exercer o poder político e, enfim, ser considerado um membro das elites agrárias que desfrutavam do ócio proporcionado pelo trabalho escravo. Ou como observou, mais uma vez, a edu- cadora Ina von Binzer (1982) quando estabeleceu comparações entre as elites brasileiras e norte-americanas, estas últimas que haviam abolido a escravatura depois da Guerra da Secessão (1861-1865):
[...] o brasileiro, menos perspicaz e também mais orgulhoso, embora menos culto, despreza o trabalho e o trabalhador. Ele próprio não se dedica ao trabalho se o pode evitar e encara a desocupação como um privilégio das criaturas superiores (BINZER, 1982, p. 122).
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Figura 10 Fazendeiros de café comprando escravos em praça pública.
Mas como ficou estruturada a educação depois de 1822, quando o Brasil se tornou politicamente independente de Portugal?
Inicialmente, será apresentada uma breve consideração sobre a lógica histórica que presidiu a independência do Brasil. O ano de 1822 constituiu-se num momento histórico de descontinuidade sem ruptura com as estruturas her- dadas do período colonial, isto é, a separação administrativa do Brasil em rela- ção a Portugal não significou uma ruptura com o modo de produção escravista e o sistema político baseado no Padroado que vigoravam no passado colonial. Em síntese: o Brasil permaneceu como uma economia agrária mantida pelo tra- balho escravo e, por conseguinte, com uma estrutura social rigidamente cons- tituída: a massa de escravos desafricanizados, de um lado, e as elites agrárias regionalizadas, do outro. Assim, o Brasil continuou sendo um país periférico, economicamente dependente em relação aos centros metropolitanos europeus, cujo capitalismo avançava rapidamente para a plena era industrial.
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Figura 11 Castigos físicos impostos aos negros que se rebelavam contra a escravidão.
Nesse contexto de uma economia periférica e dependente, o processo de for- mação dos quadros dirigentes, dos governantes do Estado, realizava-se preferen- cialmente no âmbito dos cursos de Direito. O bacharel em Direito, cuja extração so- cial era originária da aristocracia agrária, foi o grande intelectual orgânico do status quo imposto a partir de 1822. Para formá-lo, o Império criou em 1827, dois cursos de ensino jurídico: um em Recife e outro em São Paulo. Esses cursos de Direito, os únicos de todo o período imperial, possuíam a seguinte estrutura curricular:
Quadro 5 Currículos dos cursos de Direito.
ANOS DISCIPLINAS
1o ano 1a Cadeira Direito Natural, Público, Análise da Constituição do Império,
Direito das Gentes, Diplomacia
2o ano 1
a Cadeira Direito Natural, Público, Análise da Constituição do Império,
Direito das Gentes, Diplomacia
2a Cadeira Direito Público Eclesiástico
3o ano 1
a Cadeira Direito Pátrio Civil
2a Cadeira Direito Pátrio Criminal com a Teoria do Processo Criminal
4o ano 1
a Cadeira Continuação do Direito Pátrio Civil
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ANOS DISCIPLINAS
5o ano
1a Cadeira Economia Política
2a Cadeira Teoria e Prática do Processo adotado pelas Leis do
Império Fonte: adaptado de Bastos (1998).
A estrutura curricular exposta evidencia o rígido controle ideológico que o Estado imperial mantinha sobre os cursos de Direito, particularmente em função de um dos pilares constitucionais de sustentação da monarquia: o Padroado, isto é, o cristianismo romano como religião oficial do Estado. Daí o porquê dos futuros advogados estudarem o “Direito Público Eclesiástico”. Assim, o regime monárqui- co, que as elites agrárias implantaram com a Constituição de 1824, estabelecia a vigilância ideológica não só por meio do controle que exercia sobre o currículo, mas também sobre outros aspectos da vida pedagógica dos cursos de Direito, tais como: o método de ensino, a nomeação de professores, os programas das disciplinas e os livros indicados nas bibliografias. Em síntese: os cursos de Direito que existiram no Império foram verdadeiros aparelhos ideológicos de reprodu- ção do status quo agrário e escravocrata que vigia no Brasil do século XIX. Por conseguinte, os seus egressos eram intelectuais conformados para manterem os fundamentos ideológicos que sustentavam o Estado e, por extensão, eram profissionais encarregados da manutenção e controle esmerado da máquina administrativa monarquista. Nesse sentido, podemos afirmar que os intelectuais orgânicos formados pelos cursos de Direito durante o Império eram católicos fer- vorosos e avessos às transformações socioeconômicas geradas pela Revolução Industrial. E mais, por causa dos ensinamentos assentados no jus naturalismo teológico (doutrina moral, jurídica e política católica), eles transformavam-se em governantes que concebiam o futuro apenas como uma eterna repetição do pre- sente, ou seja, pensavam o Brasil como sendo uma sociedade “eternamente” agrária, agrícola e escravocrata.