2.1 Recursos Educacionais Abertos
2.1.2 Conceito e Identificação de REA
2.1.2.1 Direitos Autorais
No Brasil, a Lei de Direitos Autorais – LDA (Lei 9610/1998) regula os direitos autorais das obras intelectuais, que são as obras literárias, artísticas ou científicas. O Art 7º (Brasil, 1998) define que são obras intelectuais protegidas as criações do espírito, expressas por qualquer meio ou fixadas em qualquer suporte, tangível ou intangível, conhecido ou que
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se invente no futuro. Pertencem ao autor os direitos morais e patrimoniais sobre a obra que criou. O autor pode transferir o direito patrimonial, inclusive, para pessoa física, mas não pode transferir o direito moral, porque este é inalienável e irrenunciável.
Cabe ao autor o direito exclusivo de utilizar, fruir e dispor da obra literária, artística ou científica (direitos morais), dependendo de autorização prévia e expressa do autor a utilização da obra. Os direitos patrimoniais do autor perduram por setenta anos, contados a partir de 1° de janeiro do ano subsequente ao do falecimento do autor. Após esse período, a obra torna-se de Domínio Público. Porém, para as fotografias e obras audivisuais, os 70 anos são contados a partir 1° de janeiro do ano subseqüente ao de sua divulgação (Brasil, 1998).
Conteúdos e recursos publicados são, por padrão, protegidos, não sendo necessário referir o direito autoral, pois este é garantido pela Lei 9610/98: “Art. 18 – a proteção dos direitos autorais das obras intelectuais independe de registro” (Brasil, 1998, p. 1). Sendo assim, somente é permitido usar, copiar, alterar uma produção se tiver a autorização expressa do autor, ou autores, ou licença que especifique essas condições (como as licenças abertas). Isso significa que, ao encontar um recurso educacional (ou qualquer outra produção intelectual) na Internet, sem informação sobre os direitos autorais ou licenças abertas, o recurso possui direitos autorais, pois como refere Zanin (2017, p. 16) “o que não é expressamente permitido é proibido”.
A autorização expressa do autor ou do detentor dos direitos patrimoniais8 de obra intelectual pode ocorrer por meio de cessão, licença ou concessão de direitos autorais, sendo que esses termos devem ser expressos e registradas. No entanto, a LDA não define no que consiste cada termo, sendo necessário interpertação jurídica. Uma maneira de licenciar obra intelectual é por meio das licenças Creative Commons, onde o autor define as permissões que adotará.
O Art. 33 da Lei de direitos autorais determina que “ninguém pode reproduzir obra que não pertença ao domínio público, a pretexto de anotá-la, comentá-la ou melhorá-la, sem permissão do autor” (Brasil, 1998, p. 1). Entretanto, em 1998, não existiam as licenças Creative Commons, as quais surgiram em 2001, e, desde então, além das obras de domínio público, podem ser alteradas e/ou reproduzidas as obras que possuem licenças que permitem a reprodução e a produção de obra derivada.
8 Autor é quem cria a obra; titular é quem detém os direitos sobre ela. Pessoas físicas são autoras, porém as
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A Lei de Direitos Autorais brasileira é altamente restritiva, porém apresenta algumas limitações, das quais destacamos as que favorecem as atividades docentes e discentes, como produção de material didático e trabalhos acadêmicos. Art. 46, inciso I letra d, inciso III e inciso VIII (Brasil, 1998, p. 1):
Art. 46 - Não constitui ofensa aos direitos autorais: I – Reprodução
d) de obras literárias, artísticas ou científicas, para uso exclusivo de deficientes visuais, sempre que a reprodução, sem fins comerciais, seja feita mediante o sistema Braille ou outro procedimento em qualquer suporte para esses destinatários.
Esta limitação é somente para a deficiência visual, sendo que outras deficiências não foram contempladas.
III - a citação em livros, jornais, revistas ou qualquer outro meio de comunicação, de passagens de qualquer obra, para fins de estudo, crítica ou polêmica, na medida justificada para o fim a atingir, indicando-se o nome do autor e a origem da obra;
VI - a representação teatral e a execução musical, quando realizadas no recesso familiar ou, para fins exclusivamente didáticos, nos estabelecimentos de ensino, não havendo em qualquer caso intuito de lucro;
VIII - a reprodução, em quaisquer obras, de pequenos trechos de obras preexistentes, de qualquer natureza, ou de obra integral, quando de artes plásticas, sempre que a reprodução em si não seja o objetivo principal da obra nova e que não prejudique a exploração normal da obra reproduzida nem cause um prejuízo injustificado aos legítimos interesses dos autores. (Grifo nosso).
O inciso III abre a possibilidade de citar, em meios de comunicação, “passagens” para fins de estudo, crítica ou polêmica. Esta exceção pode ser explorada nas redes sociais utilizadas com fins pedagógicos. Sobre música, permite somente a reprodução, em estabelecimentos de ensino, com fins didáticos, impedindo o remix, produções multimídia, hipermidiáticas e outras produções para diversificar os materiais didáticos e as tarefas escolares dos alunos.
No inciso VIII, a expressão “pequeno trecho” não é precisa e gera polêmica, pois não existe consenso na mensuração.
As limitações da LDA destacadas possibilitam a inclusão de pequenos trechos em materiais didáticos, citações diretas e indiretas em trabalhos acadêmicos sem infringir os direitos autorais. Branco (2015, p. 77) esclarece:
[...] a qualquer autor é permitido fazer citação de obra alheia sem necessidade de pedir autorização nem de efetuar qualquer pagamento ao titular do respectivo direito autoral. As
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citações são direito legalmente previsto e que deve ser exercido a fim de se criar material didático da melhor qualidade. Infelizmente, alguns livros ostentam informações incorretas, segundo as quais “copiar livro é crime” e “todos os direitos reservados - proibida a reprodução total ou parcial”, levando o leitor leigo a crer que a cópia ou a transcrição de qualquer parte da obra seriam vedadas por lei. De fato, dá-se o oposto: são garantias legais.
Da mesma forma, são livres as paráfrases e paródias que não forem verdadeiras reproduções da obra originária nem lhe implicarem descrédito (Art. 47) e a representação livre, por meio de pinturas, de desenhos, de fotografias e de procedimentos audiovisuais, das obras situadas permanentemente em logradouros públicos (Art. 48). Fotografar uma obra exposta em locais públicos e inserir a foto em um recurso educacional é um exemplo de representação livre.
Os conhecimentos básicos sobre a LDA são necessários, também no contexto escolar, para utilizar e produzir obras intelectuais, explorando as limitações da lei dos LDA, sem infringir os direitos. No entanto, como afirma Branco (2014, p. 37), “mecanismos mais seguros para o uso de obras alheias com fins didáticos devem ser institucionalizados, de modo a assegurarmos o direito humano à educação sem as incertezas promovidas pelo sistema de direitos autorais do Brasil.”
No contexto escolar permeado pelas tecnologias em rede, do mesmo modo que os direitos autorais, os conhecimentos sobre as licenças abertas, e mais especificamente, sobre as licenças Creative Commons, são cogentes.