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Direitos das mulheres são direitos humanos

No documento Debatendo a procriação medicamente assistida (páginas 192-194)

NA ITÁLIA, ENTRE PROIBIÇÕES LEGISLATIVAS E JULGAMENTOS JURISPRUDENCIAIS

2. Direitos das mulheres são direitos humanos

Os direitos humanos sexuais e reprodutivos vêm sendo incorporados desde a década de 90 do século passado no âmbito internacional através da ratificação dos tratados in- ternacionais de direitos humanos e da adesão aos acordos internacionais pelo governo italiano, que assumiu obrigações internacionais de tomar medidas para a sua imple- mentação através de leis e políticas públicas no plano nacional. No âmbito dos tratados e compromissos internacionais, a II Conferência Internacional de Direitos Humanos (Viena, 1993) enfatizou que os direitos das mulheres são direitos humanos e que, por- tanto, devem estar incluídos na agenda das políticas de direitos humanos das nações. Em 1994, no Cairo4, a Conferência Internacional de População e Desenvolvimento (CIPD) consagrou os direitos reprodutivos como direitos humanos e reconheceu o aborto inse- guro como um grave problema de saúde pública. No ano seguinte, em Pequim, a Confe- rência Mundial sobre Mulheres revelou a distância das mulheres em relação aos espaços de poder, a relação entre o empoderamento de gênero e a superação dos desequilíbrios mundiais, e orientou os Estados no sentido de eliminar leis e medidas punitivas contra as mulheres que se submetam a abortos ilegais, garantindo o acesso a serviços de qualidade para tratar complicações derivadas desses abortos. No ano 2000, as Metas do Milênio expressaram o nexo entre saúde sexual, saúde reprodutiva, mortalidade materna e polí- ticas de desenvolvimento.

Os direitos reprodutivos referem-se, resumidamente, ao direito de decidir livre e res- ponsavelmente sobre o número, o tempo e a oportunidade de ter filhos, bem como o di- reito a ter acesso à informação e aos meios para tomar esta decisão. Já os direitos sexuais dizem respeito ao direito de exercer a sexualidade e a reprodução livre de discriminação, coerção ou violência. Se por um lado esses direitos estão inter-relacionados — dado que o exercício da sexualidade de forma livre e segura só é possível se a prática sexual estiver desvinculada da reprodução —, por outro lado, a distinção por tratamento jurídico di-

zioni), in Pol. dir., 1991, p.346; E. Cheli, Il fondamento storico della Costituzione italiana, in S. La-

briola (a cura di), Cinquantenario della Repubblica italiana, Quaderni della Rassegna Parlamentare, Milano, 1997, p. 51; V. Violini — A. Osti, Le linee di demarcazione della vita umana, in AA.VV.,

I diritti in azione. Universalità e pluralismo dei diritti fondamentali nelle Corti europee, a cura di M.

Cartabia, Il Mulino, Bologna, 2007, p.201.

4 Segundo o parágrafo 7.3 do Programa de Ação do Cairo: [O]s direitos reprodutivos abrangem

certos direitos humanos já reconhecidos em leis nacionais, em documentos internacionais sobre direitos hu- manos e em outros documentos consensuais. Esses direitos se ancoram no reconhecimento do direito básico de todo casal e de todo indivíduo de decidir livre e responsavelmente sobre o número, o espaçamento e a opor- tunidade de ter filhos e de ter a informação e os meios de assim o fazer, e o direito de gozar do mais elevado padrão de saúde sexual e reprodutiva. Inclui também seu direito de tomar decisões sobre a reprodução livre de discriminação, coerção ou violência, conforme expresso em documentos sobre direitos humanos.

ferenciado é o que assegura o exercício pleno da cidadania pelas mulheres5.

O termo «direitos reprodutivos» tornou-se público no I Encontro Internacional de Saúde da Mulher realizado em Amsterdão, Holanda, em 1984. Neste contexto, houve um consenso global de que tal denominação traduzia um conceito mais completo e adequado da «saúde da mulher» na ampla pauta de autodeterminação reprodutiva das mulheres. A formulação do conteúdo dos direitos reprodutivos teve início, pois, num marco não-institucional, de desconstrução da maternidade como um dever, por meio da luta pelo direito ao aborto e anticoncepção em países desenvolvidos.

Os estudiosos do direito começaram a refinar o conceito de direitos reprodutivos, tentando dar precisão ao seu conteúdo e pondo em destaque a importância da escolha re- produtiva como um direito humano universal. As leis que negam, obstruem ou limitam o acesso aos serviços de saúde reprodutiva violam os direitos humanos básicos previstos em convenções internacionais. Para ser realmente universal, o direito internacional dos direitos humanos deve exigir aos Estados que tomem medidas preventivas e paliativas para proteger a saúde reprodutiva da mulher, dando-lhe a possibilidade de exercer a sua autodeterminação reprodutiva.

Os direitos sexuais, por sua vez, começaram a ser discutidos no final da década de 80, com a epidemia do HIV/Aids, principalmente dentro do movimento gay e lésbico, a quem se juntou a refleção do movimento feminista. O termo “direitos sexuais” foi intro- duzido na CIPD, em 1994, para que os direitos reprodutivos fossem garantidos, como visto, no texto final da Declaração e Programa de Ação do Cairo e na IV Conferência Mundial sobre a Mulher6.

O desenvolvimento dos direitos sexuais só foi possível de forma negativa, ou seja, enunciando o direito de não ser objeto de abuso ou exploração, no sentido de combate às violações. Porque é tão mais fácil declarar a liberdade sexual de forma negativa, e não em um sentido positivo e emancipatório? Por que é mais fácil chegar a um consenso sobre o direito de não ser objeto de abuso, exploração, estupro, tráfico ou mutilação, mas não sobre o direito de usufruir plenamente de seu próprio corpo?

5 M. Braithwaite, Mainstreaming Gender in the European Structural Funds, Paper prepared

for the Mainstreaming Gender in European Public Policy Workshop, University of Wiscon- sin-Madison, 2000, p.14-15; E. Chrystalla, Promoting Women’s Rights. The Politics of Gender in

the European Union, New York, Routledge, 2003; L. Bisio, A. Cataldi, The Treaty of Lisbon from a Gender Perspective. Changes and Challenges, Brussels, WIDE Network, 2008.

6 Consoante previsto no parágrafo 96 da Declaração e Plataforma de Ação de Pequim: Os

direitos humanos das mulheres incluem seus direitos a ter controle e decidir livre e responsavelmente sobre questões relacionadas à sua sexualidade, incluindo a saúde sexual e reprodutiva, livre de coação, discriminação e violência. Relacionamentos igualitários entre homens e mulheres nas questões referentes às relações sexuais e à reprodução, inclusive o pleno respeito pela integridade da pessoa, requerem respeito mútuo, consentimento e divisão de responsabilidades sobre o comportamento sexual e suas conseqüências.

Como se pode ver essa ainda não é uma definição propriamente dita dos direitos sexuais. Refere-se aos direitos que supostamente compõem os direitos sexuais, permanecendo o prazer, como um fim em si mesmo, oculto do discurso das Conferências Internacionais da ONU.

Apresenta-se necessárioo desenvolvimento dos direitos sexuais com a ampliação do conceito positivo, que vá além do combate às discriminações e abusos cometidos contra as minorias sexuais, incluindo-se aí as mulheres que não se enquadram nas formas domi- nantes de seu gênero. Assim, devem englobar as chamadas «titularidades (entitlements) afirmativas», já que as titularidades afirmativas e negativas são os dois lados da mesma moeda: não posso gozar de meu corpo sexual se estou constantemente submetida ao te- mor, digamos, de um abuso.

Tendo em vista a atual formulação dos direitos sexuais e reprodutivos, passamos à análise dos obstáculos e desafios para o reconhecimento jurídico dos direitos sexuais na arena italiana.

No documento Debatendo a procriação medicamente assistida (páginas 192-194)

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