O Brasil tem recebido uma quantidade grande de migrantes em busca de uma vida melhor, pois os motivos que levam o deslocamento são peculiares de cada refugiado, podendo ser perseguição política, intolerância ou até mesmo o deslocamento venha a ocorrer para se ter uma vida melhor. Muitos imigrantes não têm conhecimento da legislação local, e acabam ficando irregulares, então é de grande importância destacar os direitos e deveres dos refugiados em âmbito local.
Para Kelsen (1979), os direitos políticos têm grande importância para os refugiados, pois esses direitos políticos garantem a cidadania e podem ser classificados como capacidade, onde se pode ter uma participação nas decisões que são tomadas pelo estado, diretamente ou indiretamente.
Para Kelsen (1979, p. 97):
Os chamados direitos políticos encontram-se entre os direitos que a ordem jurídica costuma reservar aos cidadãos. Eles são comumente definidos como os direitos que dão ao seu possuidor um poder de influência na formação da vontade do Estado. O principal direito político é o direito de votar, isto é, o direito de participar na eleição dos membros do corpo legislativo e de outros funcionários de Estado, tais como chefe de Estado e juízes.
Os direitos políticos são encontrados na ordem jurídica e tem grande relevância aos refugiados, pois a nacionalidade está diretamente ligada ao vínculo político e jurídico. Mesmo o refugiado sendo de outro país pode se analisar que tem direito ao voto que é um grande evento político podendo expressar sua opinião a quem quer que represente no local que estiver abrigado.
A Constituição Federal de 1988 demonstra em seu artigo os direitos políticos para brasileiros e refugiados:
Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: I – plebiscito; II – referendo; III – iniciativa popular.
§1º. O alistamento eleitoral e o voto são: I – obrigatórios para os maiores de dezoito anos; II – facultativos para: a) os analfabetos; b) os maiores de setenta anos; c) os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos. §2º. Não podem alistar-se como eleitores os estrangeiros e, durante o período do serviço militar obrigatório, os conscritos. §3º. São condições de elegibilidade, na forma da lei: I – a nacionalidade brasileira; II – o pleno exercício dos direitos políticos; III – o alistamento eleitoral; IV – o domicílio eleitoral na circunscrição; V – a filiação partidária.
O próprio artigo da constituição deixa claro que todos têm direitos políticos, contudo, deve se impor condições de elegibilidade como descritos na lei. É possível identificar que este artigo se contradiz em relação ao artigo 5°, pois neste garante direitos iguais para todos, inclusive aos refugiados. É importante citar a possibilidade
do estrangeiro se naturalizar no Brasil, abrindo mão da sua nacionalidade, tendo assim mais garantias políticas.
Para Sen (2000, p. 31), além da privação econômica, pode se gerar privação social, como também na política, desta forma:
Mesmo quando não falta segurança econômica adequada a pessoas sem liberdades políticas ou direitos civis, elas são privadas de liberdades importantes para conduzir suas vidas, sendo-lhes negada a oportunidade de participar de decisões cruciais concernentes a assuntos públicos. Essas privações restringem a vida social e a vida política, e devem ser consideradas repressivas mesmo sem acarretar outros males (como desastres econômicos). Como liberdades políticas e civis são elementos constitutivos da liberdade humana, sua negação é, em si, uma deficiência. Ao examinarmos o papel dos direitos humanos no desenvolvimento, precisamos levar em conta tanto a importância constitutiva quanto a importância instrumental dos direitos civis e liberdades políticas.
Na perspectiva dos direitos humanos, ainda se tem muita privação em direitos e liberdades para o ser humano não tendo condições para conduzir suas vidas em virtude de privações tirando a total liberdade de expressão. No entendo é uma afronta a direitos humanos já garantidos. Essa privação deve ser extinta, pois quem impôs isso são governos, e dignidade da pessoa humana se encontra em primeiro lugar, se tratando de sua liberdade e sua vida.
Para Moreira (2014), na integração local é aonde o solicitante que é o refugiado pede para se refugiar no país que quer residir, se chamando de estado destino, para que possa interagir com a sociedade, pois é um processo complexo que muito leva tempo e de se analisar com cuidado.
Neste sentido, Haydu (2010, p. 111) elenca fatores em que angolanos dizem a respeito de como se sentem como refugiados:
Desemprego. Moradia precária. Falta de conhecimento por parte de muitos brasileiros de quem vem a ser um refugiado. Muitos são os fatores alegados pelos refugiados entrevistados para não se sentirem integrados à sociedade na cidade de São Paulo. No entanto, outro fator é verificado por essas pessoas e colocado como aquele que de forma mais marcante impede que eles se integrem: o preconceito.
É notável perceber que apesar de estarem regulares no Brasil, ainda são taxados com estrangeiros que vem para roubar empregos ou tem preconceito em relação a sua etnia, ou cor, pois a maioria de refugiados não é oriundo de países ricos, mas sim de países pobres com vários problemas internos. A integração com a população é algo socialmente cultural de cada localidade, mas ainda predomina o preconceito para com esses refugiados.
Para Severo (2015), em relação à emissão do protocolo de refúgio, que é demorado nos tempos atuais, para que o refugiado possa exercer um trabalho é necessária a emissão da carteira de trabalho e previdência, para poder laborar. No entanto, vem enfrentando demoras perante o órgão emissor, tendo seu direito constrangido, e contrariando o estatuto do estrangeiro que garante direito ao trabalho e previdência social.
Marcelino (2019, p. 266) aponta como os refugiados enfrentam as dificuldades e qual é a sua atual realidade:
Fundamental se faz apontar que os refugiados no Brasil enfrentam as mesmas dificuldades que os nacionais, resultantes da pobreza e das desigualdades sociais que atingem a maioria da população nacional. A deficiente qualidade no atendimento aos serviços de saúde e de educação também atinge os refugiados, assim como as habitações inadequadas, que permanecem como questão de difícil solução. Um exemplo são as faltas de programas especiais para refugiados africanos, cuja economia no país de origem é essencialmente agrícola e não há, no Brasil, programas especiais de capacitação profissional para auxiliá-los na integração, levando-os a entrar no mercado por meio da economia informal. Por isso, os programas de microcrédito e a formação de cooperativas são um auxílio fundamental em seus processos de integração.
Portanto, o problema dos refugiados não atinge apenas a eles, mas sim a população, em geral, em virtude da crise econômica que o país enfrenta há muitos anos, pois o serviço de saúde e de educação também atinge diretamente os refugiados, afetando a qualidade de vida dos mesmos.
Outro grande problema é a falta de programas sociais voltados para os refugiados, pois a autorização de ficar no país não garante uma qualidade de vida adequada para eles, como, por exemplo, capacitação profissional para o mercado
de trabalho. Não tendo essa qualificação os refugiados se obrigam a adentram no mercado informal.
Neste sentido, o ACNUR (2019, p. 11) destaca os deveres dos refugiados perante Brasil e como devem se comportar:
Devem respeitar a Constituição Federal e as leis brasileiras, como todos os brasileiros e estrangeiros residentes no país. Qualquer crime ou infração cometida terá o mesmo tratamento legal dado aos cidadãos brasileiros; Observar especialmente as leis específicas de proteção das crianças, dos adolescentes e da mulher; Não exercer atividades de natureza política, nos termos do artigo 107 da Lei 6.815/80; Informar a Polícia Federal e o CONARE, no prazo de 30 dias, qualquer mudança de endereço; Manter sua documentação atualizada.
É possível observar os deveres que os refugiados têm com o Brasil, a partir do momento que se encontram regulares. Devem respeitar as normas internas como brasileiros fossem, e estão sujeitos a todas as sanções impostas a algum crime cometido. Não podendo exercer atividades de natureza política como específica a Lei nº 6.815/80 e sempre informando os aos órgãos competentes no caso de mudança de sua família para outra localidade. Esse tem suma importância para que o refugiado continue regular no Brasil.
Neste sentido, o ACNUR (2019, p. 11) demonstra os deveres específicos dos refugiados com mais suma importância:
Não sair do território nacional sem autorização prévia e expressa do CONARE, sob pena de perder a condição de refugiado; Não praticar atos contrários à segurança nacional ou à ordem pública, sob pena de perder a condição de refugiado.
Portanto, neste caso de saída do Brasil sem nenhuma autorização pode levar a consequência da perda da condição de refugiado, se tornando mais difícil se quiser retornar um dia novamente. Quando se tem atentado a ordem nacional ou ordem pública, se encaixa também na codificação do código penal, e mais a perda da condição de refugiado. Algo que não é admitido e se encaixa neste caso em atentado terrorista.
O art. 5º da Lei nº 9.474/97 especifica as condições jurídicas que o refugiado se encontra:
Art. 5º. O refugiado gozará de direitos e estará sujeito aos deveres dos estrangeiros no Brasil, ao disposto nesta Lei, na Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 e no Protocolo sobre o Estatuto dos Refugiados de 1967, cabendo-lhe a obrigação de acatar as leis, regulamentos e providências destinados à manutenção da ordem pública.
O refugiado terá a mesma equiparação ao estrangeiro, e terá os mesmos direitos e deveres aqui no Brasil. Devendo obedecer às leis locais, para cumprir de forma correta o período que permanecer no país. A fiscalização é feita de forma igual para todos, como brasileiro fosse, cumprindo com sua obrigação de refugiado.