3 DIREITOS HUMANOS: DOS MACROSSISTEMAS INTERNACIONAIS AOS
3.2 DIREITOS HUMANOS E EDUCAÇÃO: DIVERSOS OLHARES
A discussão sobre Educação em Direitos Humanos - EDH ainda precisa ser
reiterada na pauta da agenda de políticas públicas voltadas para a formação
humana integral. O exercício da democracia requer políticas públicas voltadas
para a irradiação dos preceitos implícitos no campo dos DH, visando à
construção de novos saberes e práticas articuladas sob diferentes
perspectivas, com ênfase na emancipação política, na autonomia e no aguçar
da percepção a respeito da capacidade autobiográfica que cada um tem de
intervir positivamente escrevendo e reescrevendo a história de vida individual e
coletiva.
Abordar a temática dos Direitos Humanos e pesquisar sobre temas
relacionados aos DH requer do enunciador, pesquisador, provocar
ressonâncias a respeito do debate sobre a prática da tolerância, da empatia, do
respeito à ideologia altera, da compreensão sobre a edificação da subjetividade
e do homem como um ser sociohistórico. Não raro, jornais policialescos
assistidos por grande parte da população brasileira, especialmente pelas
classes populares, reforçam a ideia de que direitos humanos se limitam à
defesa de pessoas que cometeram atos infracionais.
A história dos direitos humanos no Brasil pode ser vista como obra de todos aqueles que, através de insurreições, rebeliões e revoltas, lutaram contra uma estrutura de dominação que vigorou em nosso país durante séculos e que ainda persiste em muitos aspectos, principalmente no que concerne às desigualdades sociais. Por isso mesmo, a ideia de direitos humanos em nosso país permanece sendo vista como algo subversivo e transgressor. Nas últimas décadas, as classes populares e os movimentos sociais têm feito um uso intenso dos direitos humanos como instrumento de transformação da ordem dominante, o que explica a ação enérgica de determinados grupos conservadores, no sentido de tentar associar a causa dos direitos humanos à mera defesa das pessoas que cometeram um delito. Daí acusações falsas do tipo: “direitos humanos é coisa de bandido” ou “onde estão os direitos das vítimas?” (RABENHORST, 2001, p. 8)
Rabenhorst, 2001, ainda alerta para o fato de que movimentos
organizacionais como a Anistia Internacional lutam pela defesa do direito de
pessoas em privação de liberdade. Por outro lado, outras entidades oferecem
assistência a vítimas de ações delituosas, como é o caso do Grupo de Apoio
Jurídico às Organizações Populares - GAJOPE. A multidimensionalidade dos
DH se constitui de uma ampla gama de direitos além da esfera penal, como
exemplo os direitos relacionados à liberdade religiosa, ao desenvolvimento, à
paz, ao meio ambiente protegido, aos direitos sociais, econômicos, civis,
políticos, dentre tantos outros.
Ao falar sobre Educação e Direitos Humanos, Morin (2000) tece
considerações sobre como vivemos em um período de grandes riscos que
sincrônica e paradoxalmente podem ser considerados como grandes
promessas de esperança para a humanidade. Sublinha que há duas
mundializações em curso. Por um lado, desenvolve-se um processo de
integração técnica e econômica, com o estreitamento dos laços de
interdependência entre todos os habitantes da terra e a disseminação do
sistema capitalista de mercado, ocorre, no entanto, mais lentamente, a
sedimentação de uma cultura, de um código cultural comum, isto é, a
mundialização das ideias políticas de democracia e dos direitos humanos.
Em artigo intitulado “Direitos Humanos: considerações sobre o
fundamento e a validade de um projeto político á luz do desenvolvimento”,
Costa (2004) retoma a indagação do educador colombiano José Bernardo Toro
sobre qual foi a maior contribuição dos séculos XX e XXI para a
preservação/manutenção da vida no planeta terra. O que concluirão daqui a
trezentos anos as gerações vindouras?
Pode-se tentar responder a esta questão a partir dos avanços da
medicina, da revolução dos meios de transporte, as viagens espaciais, do
campo das comunicações. Outrossim, é angustiante lembrar que ao lado
destas maravilhas que compõem o acervo tecnológico do séc. XX emerge
também a memória aterrorizante de outras descobertas da ciência que levaram
a um fim avassalador, por exemplo, a construção da bomba atômica. A
proposta poderia ser de, daqui a trezentos anos se olhe pro século XXI e possa
ser constatado que, para a manutenção da vida no planeta terra, os feitos
heroicos não se refiram às invenções da ciência e da técnica, mas sim se
avalie que a monumental oferenda que este século deixa para a humanidade é
a invenção da Declaração Universal dos Direitos da Pessoa Humana, criado
em 1948, no grande pacto civilizacional firmado entre as nações, no final da
segunda guerra. O documento prima por evitar as arbitrariedades horripilantes
ocorridas durante o período de guerras.
O Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH) (2010),
articulado a outros órgãos, como o Ministério da Educação (MEC) e da Justiça,
traz reflexões sobre a educação inclusiva, acolhedora das diversidades
humanas. Trata-se de pensar na educação como um direito de todos,
objetivando o desenvolvimento da personalidade humana e o fortalecimento do
respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais, baseada na no
artigo XXVI da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH, 1948).
O PNEDH, em suas diretrizes mostra a busca de contribuição dos
grupos de interesse para a constante reflexão quanto ao desenvolvimento de
uma cultura voltada para o respeito aos direitos fundamentais das pessoas, ao
que se refere à educação em direitos humanos o compromisso na promoção
da educação, afirma o propósito de melhoria na qualidade social da vida, sendo
pautado em políticas em processos democráticos; políticas estas que
contribuam para a construção da cidadania, onde os alunos constroem seus
conhecimentos baseado nos direitos fundamentais, o respeito à pluralidade e à
diversidade sexual, étnica, racial, cultural, de gênero e de crenças religiosas.
A Constituição Federal (1988) preconiza os direitos à liberdade,
igualdade, solidariedade, direito a democracia. Porém, na prática há
necessidade de uma ação mais positiva e concreta principalmente por parte do
Estado, com a existência de leis e políticas distributivas, defendendo os direitos
econômicos, sociais e culturais do cidadão brasileiro.
O que se nota na maioria das vezes é a política do "Bem-Estar" dando
ênfase ao assistencialismo e à exclusão. Políticas Públicas significativas como
Educação para/em Direitos Humanos, lançada em 1996 pelo Ministério da
Justiça/Governo Federal, onde os redatores do PNEDH ”vislumbram uma
vinculação indissociável entre o Desenvolvimento Humano e a forma de política
democrática, sendo esta a via por ele utilizada para conferir ao Estado papel
absolutamente indispensável na promoção, na efetivação, na proteção e na
repressão às violações do desenvolvimento Humano.” Como o homem é um
ser em construção e a sua existência é resultado da busca pelo
aperfeiçoamento e pela superação dos instintos negativos ao convívio social, a
defesa e a promoção da dignidade do indivíduo podem ser promovidas por
meios educativos. Uma educação voltada aos direitos humanos deve fornecer
ao homem os instrumentos necessários para que ele possa constituir as bases
de um viver compartilhado e baseado nos valores de solidariedade, justiça,
respeito mútuo, liberdade e responsabilidade.
A realização desses valores o torna mais apto a viver com dignidade.
Porém, sem eles, o homem se revela destituído de sua essência fundamental,
ou seja, ele perde aquilo que define o seu ser: a sua humanidade. A educação
em direitos humanos é, pois, uma forma do sujeito reconhecer a importância da
dignidade e, sobretudo, agir visando à conquista, a preservação e a promoção
de uma vida digna.
Uma parte significativa da população brasileira ainda enfrenta a exclusão
social, digital, etnicorracial, dificuldade de acesso e especialmente de
permanência na educação formal é uma das causas dessa exclusão. O atual
momento exige profissionais cada vez mais qualificados com domínios de
competências e habilidades que atendam aos anseios motivados pelos
diversos avanços em especial, da cibernética. Criatividade e criticidade podem
viabilizar a promoção de uma cultura que tenha no conceito de paz e
convivência harmoniosa dos seres vivos um projeto formativo a ser priorizado.
Quando aborda Cultura de Paz: Estratégias, Mapas e Bússolas, Milani
(2009) chama a atenção do leitor para o papel de protagonista que pode ter na
busca por uma educação voltada para a paz. Ressalta que:
Por importantes que sejam mapas, bússolas e estratégias, nada mais são que instrumentos. Sua utilidade só é revelada quando estão nas mãos de alguém disposto a agir, a buscar, a tentar. O título da obra deixa entrever um sujeito, aquele que fará bom uso desses instrumentos, seja disseminando e mobilizando, seja indo além, criando estratégias e desenhando novos mapas. Esse sujeitoé você, estimado(a) leitor ou leitora. Somente do seu desejo e vontade é que pode nascer à decisão de iniciar essa viagem, esse empreendimento. Por mais longa e desafiadora que seja a jornada, ela sempre se inicia com um simples passo (MILANI, 2009, p. 19).
Em suas reflexões sobre “Cultura de Paz x Violências: Papel e desafios
da escola” (p.31), Milani (2009) alerta que enquanto os determinantes culturais,
econômicos, políticos, sociais, emocionais, morais, etc., mantiverem princípios
que se constituem em fatores hierárquicos de violência, dominação e conflito, a
paz se estabelece apenas enquanto intervalo entre guerras, pois a mera
assinatura de acordos tratados não será o suficiente para se estabelecer a paz.
A História já comprovou que a mera assinatura de acordos e tratados insuficiente para estabelecer a paz, pois os fatores que permitem e favorecem a eclosão das guerras têm permanecido inalterados. Em outras palavras, quando a cultura – em seus diversos aspectos econômicos, políticos, sociais,
emocionais, morais etc. – mantém seus valores de violência,
dominação e conflito, a paz se torna apenas o intervalo entre guerras (ibidem, p.31).
A essas reflexões se somam as preocupações quando se percebe que
muitos avanços têm sido notáveis no campo das ciências humanas para
promover a reconfiguração do pensamento sobre as concepções a respeito da
formação das sociedades humanas. Tratados e Acordos Internacionais tentam
legislar sobre a defesa dos direitos humanos, códigos de leis são alterados,
várias são as propostas de intervenção na prática social para minimizar os
índices de violências. No entanto, a prática do dia a dia parece ressoar um
quadro aterrorizante de uma sociedade na qual movimentos e protestos não
conseguem dar conta de expressar minimamente o pânico diante do caos que
se intensifica.
Atentar para estas reflexões pode contribuir para o desenvolvimento da
ética da compreensão. A tentativa de homogeneizar indivíduos ao se elaborar
normativas jurídicas no campo educacional, penal, civil, dentre outros, visando
ao estabelecimento de certa ordem, acaba por implicar o aumento da
desordem, na medida em que se reduz a complexidade imbricada nas relações
desiguais e assimétricas entre grupos heterogêneos de seres humanos. Ao se
desconsiderar a dialeticidade destas interações, suas complementaridades e
seus antagonismos, reduz-se a complexidade e a desordem se autoamplifica.
Enquanto fenômenos polissêmicos que se retroalimentam, as violências
precisam ser amplamente discutidas para que agressores e vítimas possam
perceber aspectos comportamentais do modo de ser violento. Assim, a
violência simbólica, psicológica, física, o bullying, a inferiorização do outro, as
chacotas e todas as formas de ações violadoras da integridade necessitam ser
debatidas por meio de vários instrumentos discursivos disponíveis nas
instituições de ensino, nos meios de comunicação de massa, especialmente
presenciais ou digitais, todas as formas de comunicação e exteriorização do
pensamento precisam ser utilizadas para disseminar-se um discurso em prol da
cooperação, da solidariedade, da tolerância, do altruísmo e da empatia, na
busca pela paz.
Ao considerar a afirmação de Minayo (1994) quando reflete que “é, hoje,
praticamente unânime (...) a ideia de que a violência não faz parte da natureza
humana e que a mesma não tem raízes biológicas” (p.7). (...) Trata-se de um
“fenômeno histórico-social, construído em sociedade”, que pode, portanto, ser
desconstruído (MINAYO, 1999, p.7).
A desconstrução de princípios e valores que muito legitimaram ações
tradicionais dos antepassados, que pareciam “funcionar” para outras épocas
requer indivíduos com mentes abertas e adaptáveis a novas demandas. As
consequências de ações violentas punitivas usadas na educação de crianças e
as agressões e torturas a transgressores das leis têm contribuído para explicar
o aumento avassalador dos índices de violência.
Uma educação por e para a defesa e a luta de Direitos Humanos tem
como primazia a edificação de um projeto multiculturalmente orientado para
despertar nas pessoas em constante desenvolvimento a sensibilidade ética e
suprassensível de valores como o respeito à alteridade e à dignidade do outro.
Emerge a necessidade de se pensar em instrumentos didático-metodológicos
que propiciem um trabalho que ofereça sustentabilidade para o indivíduo lidar
com situações adversas, mediar conflitos, superar obstáculos, agir
proativamente, antecipando consequências, prevendo possibilidades de mudar
eventos com agilidade e competência.
A militância em prol do bem coletivo requer o entendimento a respeito
dos entrelaçamentos que ocorrem na vida biopsicosociocultural, afetada
dialeticamente a partir da interação entre as relações socioafetivas, o
ecossistema e o universo. A concepção pedagógica planetária implica se
pensar uma proposta pedagógica curricular que contemple saberes histórica e
culturalmente elaborados cuja disseminação seja imprescindível para
racionalizar um determinado objeto cognoscente, um evento em particular, sem
perder a dimensão do todo.
Dessa forma, ao elencar os temas norteadores da ação educacional,
cabe salientar o debate sobre como ocorre a constituição das múltiplas
apresentado por Bronfrenbrenner (1996) favorece a busca de compreensão a
respeito da relação pessoa e ambiente, propõe possibilidades de tornar os
seres humanos mais humanos, conforme se apresenta no subtítulo da obra do
autor: “Bioecologia do Desenvolvimento Humano: Tornando os seres humanos
mais humanos”. O psicólogo russo americano é considerado representante
notável e reconhecido da psicologia ecológica. Suas pesquisas contribuem
para delinear teórica e metodologicamente diversas investigações cujos frutos
podem iluminar o campo das políticas sociais. Koller assim infere sobre
Bronfenbrenner:
Foi um lutador pelos direitos humanos e especialmente pelos direitos das crianças no seu país de residência e em muitos outros países pelo mundo, enfatizando a necessidade de atentarmos para a gravidade das condições ecológicas de vida atual e para a preparação em superar problemas no futuro próximo, com ações efetivas e imediatas em favor de crianças e famílias (KOLLER, 2013 p. 6)