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1 INTRODUÇÃO

2.2 O princípio hologramático e o recurso da metonímia:

2.2.2 Literatura e Direitos Humanos em interfaces transdisciplinares

2.2.2 Literatura e Direitos Humanos em interfaces transdisciplinares

O grande desafio que se coloca para os professores ainda se constitui

da superação do caráter dualista, enciclopédico e hierarquizante do currículo

utilizado como parâmetro para a elaboração do plano de trabalho docente.

Persiste a preocupação do papel do professor enquanto um transmissor de

conhecimentos, em casos quando os encaminhamentos metodológicos

contemplam técnicas de memorização e decoreba, que contribuem para o

caráter mecanicista da ação formativa.

Igualmente ainda é inquietante pensar na prática docente voltada para

transmitir-se um acúmulo de informações fragmentadas, descontextualizadas,

nas quais a teoria é trabalhada de forma reducionista, inviabiliza ou dificulta

para o próprio docente e discente fazer conexões com outros saberes, pois se

apresenta desvinculada das possibilidades pragmáticas no campo das relações

inter-semióticas. A falta de correlação para a produção de significados entre os

conceitos apresentados pelo professor e aquilo que o estudante tem condições

cognitivas de acompanhar implica na ausência de dialogicidade.

A aquisição de um novo saber e a reestruturação da estrutura cognitiva

demanda que tenham sido oportunizadas condições para que o educando

construa em seu aparato intelectual cognitivo esquemas representacionais que

o possibilitem a fazer operações mentais. Esses esquemas só ocorrem por

meio da mediação entre o sujeito cognoscente e o objeto cognoscível. Ora, se

o estudante nunca ouviu falar em determinado assunto, objeto cognoscível,

não pode ter construído esquemas de representação mental que lhe propicie

dinamizar a plasticidade cerebral para novas construções de estruturas

cognitivas. Também é de mister importância considerar os sentimentos e as

emoções na ação formativa para que possa ser construído o respeito. No

entendimento de Piaget, 1988, o respeito é fruto de sentimentos como a

afeição e o temor:

Três espécies de sentimentos ou de tendências afetivas capazes de interessar à vida moral se apresentam inicialmente na constituição mental da criança. Em primeiro lugar, uma necessidade de amor, que irá desempenhar um papel essencial desenvolvendo-se sob uma multiplicidade de formas, desde o berço até a adolescência. Um sentimento de medo, por outro lado, em relação aos maiores e mais fortes que ele, tendência que desempenha um papel que não é de desprezar nas condutas de obediência e do conformismo utilizadas em graus diversos, por vários sistemas de educação moral. Um

sentimento misto, em terceiro lugar, composto

simultaneamente de afeição e de temor: é o sentimento do respeito, cuja importância excepcional na formação ou no exercício da consciência moral foi ressaltada por todos os moralistas (p. 64).

Ao dissertar sobre a educação intelectual, Piaget, 1998, p. 62, considera

a importância de estímulos recíprocos, do controle mútuo e do exercício do

espírito crítico para que se atinja a objetividade, visando à intensificação da

atividade da inteligência. A (co) operação implica operar racional e moralmente

em conjunto por meio de relação onde haja a reciprocidade intelectual. Emissor

e receptor precisam se compreenderem, por meio de trocas intersemióticas

entre os interlocutores, deve-se buscar o compartilhar dos sentidos a cada

enunciação. O respeito e a cooperação mental são imprescindíveis para

engajar o sujeito cognoscente em atividades cada vez mais complexas,

visando a novas aquisições cognitivas. Importa outrossim considerar a carga

de emotividade presente no ato sensibilizador que induz o aprendente a

colocar o aparato cognitivo em funcionamento.

Stoltz, 2010, quando traz reflexões sobre o ambiente no

desenvolvimento do sujeito, em inferências ao questionamento que constitui o

título do artigo “Por que Vygotsky na educação? considera as interações entre

1. Que o papel de qualquer fator ambiental varia entre diferentes grupos etários.

2. Que a criança muda no processo de desenvolvimento. O fator essencial que explica a influência do meio no

desenvolvimento psicológico das crianças e no

desenvolvimento de sua personalidade consciente é tomado de sua experiência emocional surgida de cada situação ou de cada um dos aspectos de seu meio determina que tipo de influência essa situação ou esse meio vai ter sobre a criança. Portanto, não são os fatores por si mesmos (sem referência ao sujeito) que determinam como eles vão influenciar o curso do desenvolvimento, mas os mesmos fatores refletidos por meio do prisma da experiência emocional da criança. (Vygotsky, 1994ª, p. 339-340). [...] A experiência emocional é uma unidade

indivisível que representa características pessoais e

características situacionais. [...] O ambiente exerce sua experiência por meio das características emocionais (STOLTZ, 2010, p. 175).

Há várias situações nas quais professores reclamam que os alunos não

entendem nada daquilo que tentam ensinar/transmitir. Isso ocorre por não estar

acontecendo o diálogo entre o discurso do professor e a capacidade cognitiva

do educando em acompanhar esse discurso, atribuindo-lhe significado. A falta

do ato de compartilhar saberes e de (co)operação mental pode consequenciar

no aumento dos índices de indisciplina em sala de aula, na redução da

autoestima e do senso de autoeficácia tanto do professor quanto do aluno.

Diante da complexidade destes tempos, é preciso se pensar num planejamento

formativo que considere algumas inferências salutares para intervir nos

processos formativos escolares e não-escolares. Nas palavras de Carvalho

(2003) citado por Sá, 2008:

O atual contexto sociohistórico, midiático, cultural, tecnológico, político, ecológico e científico na contemporaneidade enseja inter-retro-relações complexas e dinâmicas entre os sujeitos individuais e as coletividades. Vive-se em tempos de paradoxos, nos quais convivem modelos de ordem/desordem; conhecimento/ignorância;inclusão/exclusão;instituições/indivídu os corruptos; manipulação midiática [...] A teoria da complexidade procura de alguma forma organizar, sistematizar e articular um diálogo junto aos novos paradigmas emergentes (MORAIS 1997) das ciências. O fenômeno complexo ‘[...] é imposto pelo real e [...] não pode ser rejeitado” (MORIN, 1993,

p. 87 ) [...] Complexo vem do latim complexus e quer dizer um

conjunto de coisas, fatos e circunstâncias, eventos que apresentam ligação e são interdependentes. São elementos partícipes de um mesmo todo, o que equivale a dizer que esse todo se torna uma unidade complexa. “[...] identifica-se com tudo aquilo que se tece em conjunto, que reassocia o que está dissociado, comunica o que é incomunicável, religa o que está separado” (p 222).

A proposta de religar os saberes para facilitar a compreensão de como

os fenômenos se entretecem e se afetam mutuamente implica ampliar o

horizonte de expectativas de todas as pessoas envolvidas no ato formativo.

Para compreender a complexidade humana, importa ter uma atitude reflexiva

perante a vida em sua variadas formas de manifestações. Não basta pensar o

ser humano na sua dimensão ontológica, biológica, ética, moral, psíquica,

cognitiva,... no reflexo do micro-, meso-, exo- e macrossistema na edificação da

subjetividade, mas pensá-lo a partir de tentar compreender metacognitivamente

como se constituiu a própria alteridade no entrelaçamento do self-selves, da

emoção, da sensação, da percepção, do sentimento, da motivação, da razão:

A compreensão do ser humano baseia-se, implicitamente ou não, numa antropologia complexa que reconhece a dupla

natureza do homo sapien/demens e assume as consequências

éticas da concepção de MacLean do cérebro triúnico, comportando o paleocéfalo(herança dos répteis), fonte de agressividade, do cio, das pulsões primárias; o mesocéfalo (herança dos antigos mamíferos) onde se desenvolvem ligadas a afetividade e a memória a longo termo; o córtex que cresce nos mamíferos até envolver as outras estruturas e formar os dois hemisférios cerebrais. O neocórtex alcança no homem um desenvolvimento extraordinário. Ora, não há hierarquia, mas antes permutações rotativas entre as três instâncias cerebrais, ou seja, razão/afetividade/pulsão. Conforme os indivíduos e os momentos há dominação de uma instância sobre as outras, o que indica não apenas a fragilidade da racionalidade, mas também que a noção de responsabilidade plena e lúcida só tem sentido para um ser controlado em permanência pela sua inteligência racional. (MORIN, 2005, p. 114)

A inteligência racional pode auxiliar no controle do Homo demens a partir

de quando todos e todas se sintam co-responsáveis pelo (des)envolvimento

humano, compreendam o quanto suas ações e omissões afetam, não somente

à vida de outrem, mas a própria vida, tendo em vista que se co-habita no

mesmo planeta. Com isso se pode retomar o questionamento sobre o que dirão

as gerações vindouras daqui a cem, duzentos, trezentos anos, sobre quais

foram as melhores invenções da humanidade para a preservação e

manutenção da vida no século XXI. Quem sabe, de fato, possam dizer que a

criação mais virtuosa e sublime foram os ensinamentos propostos na

Declaração Universal dos Direitos Humanos/DUDH, bem como quando

profissionais dos diversos setores, em especial da educação, reúnem-se para

inserir a discussão dos DH em suas apostas curriculares.

As investigações neste estudo apontam uma possibilidade de iniciar o

debate dos DH em sala de aula partindo da releitura dos “Capitães da Areia”,

enquanto texto ficcional para contrapor ao plano real, por compreender que a

verossimilhança adotada na postura do escritor quando se insere no meio dos

meninos de rua de Salvador na década de trinta para construir seu romance

revela situações reais de inúmeros capitães que interagem em outros espaços.

A mímesis enquanto imitação da realidade pode ser aprofundada na

visão de Auerbach (apud

WAIZBORT

, 2007), quando considera o realismo

presente na estética literária como possibilidade de condensar a expressão da

forma como o escritor vê a si mesmo e aos fenômenos que norteiam a

condição humana em um determinado momento histórico situado dentro de

certas circunstâncias intrínsecas ao contexto no qual momentaneamente

emergem:

Pode-se argumentar que a condição humana não se confunde com a imagem do homem ou com o modo como eles vêem a si mesmos. Mas a assunção do caráter intrinsecamente histórico da condição humana acaba por conduzir a essa aproximação, desde que se pretenda – como é o caso em Auerbach – evitar atribuir um conteúdo arbitrário ou extemporâneo à condição humana. Por outras palavras: Auerbach procurou revelar como os seres humanos, em situações determinadas, enxergavam a si mesmos e formulavam essa visão que tinham de si e do mundo no qual viviam. E entende que a obra literária – assim

como outras formas culturais – é uma espécie de depósito ou

condensação dessa maneira de ver a si mesmo e o mundo.

[...]Nesse sentido, a obra literária oferece-lhe uma

possibilidade, em virtude dessa articulação complexa de di-ferentes dimensões, de acesso às formas de consciência e, portanto, ao modo como a condição humana é percebida pelos

homens em diferentes momentos e situações.

“Realismo” : Auerbach empregou, na falta de termo melhor, a palavra (mas não o conceito) “realismo” para designar o modo como a realidade exposta aparece na obra literária. Mas empregou-a sempre adjetivando-a, de modo a especificá-la: não se trata de “realismo”, mas sempre de uma modalidade particular de realismo, ou seja, de uma modalidade de exposição da realidade. (WAIZBORT, 2007, p.4)

A estética literária que compõe os “Capitães da Areia” sensibiliza o leitor

para perceber manifestações da existência a partir da perspectiva de pessoas

que vivenciam cotidianamente situações de violações e violências. A fim de

estimular os educandos para a leitura do romance, pode-se utilizar como

atividades de pré-aquecimento alguns recursos audiovisuais que instigam a

curiosidade pela leitura. Recentemente, em 2010, Cecília Amado, neta do

escritor baiano, lançou o filme “Capitães da areia”, cujas cenas sensibilizam os

telespectadores, especialmente em sala de aula com adolescentes. O filme

viabiliza um trabalho articulado entre a Literatura e outras áreas do

conhecimento. Encontra-se na íntegra disponibilizado no site abaixo da figura:

FIGURA 4 – Imagens do filme “Capitães da Areia”

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FONTE:http://www.ufrb.edu.br/cinecachoeira/wp-content/uploads/2011/10/capitaes.jpg

Os recursos audiovisuais são grandes parceiros no processo de

mediação entre o conhecimento espontâneo e os conceitos cientificamente

elaborados. O texto: “Integração da TV e do Vídeo em Projetos

Multimidiativos”

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, estimula o trabalho com vídeos e fragmentos de filmes,

considera que uma imagem vale mais do que mil palavras. Não raro,

especialmente quando os adolescentes vivenciam ou conhecem pessoas que

vivenciaram situações semelhantes aos “Capitães da Areia”, encontram uma

projeção/identificação com nas experiências de vida das personagens.

Isso significa afirmar que devemos considerar a apresentação de vídeos como uma potente ferramenta e, em muitos casos, mais eficaz do que a leitura de textos ou apresentações expositivas intensas. Essa constatação se torna ainda mais decisiva no processo de ensino-aprendizagem se levarmos em conta a teoria das inteligências

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Gênero: Drama / Direção: Cecília Amado / Roteiro: Cecília Amado / Elenco: Ana Graciela Conceição, Elielson Santos da Conceição, Evaldo Maurício Silva, Gabriel Conceição, Heder Jesus dos Santos, Israel Gouveia de Souza, Jamaclei Conceição Pinho, Jean Luis Amorim,

Jordan Mateus, Paulo Abade, Robério Lima / Produção: Bruno troppiana, Donald Ranvaud /

Fotografia: Guy Gonçalves / Trilha Sonora: Carlinhos Brown.

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Texto constante no segundo módulo – MTV – Integração da TV e Vídeo em projetos

multimidiativos, professora Faxina, disponível nas referências do curso de Especialização em

Mídias Integradas à Educação, p.03, no site:

http://www.cursos.nead.ufpr.br/mod/resource/view.php?inpopup=true&id=124931. (Acesso em 10 de outubro de 2012)

múltiplas (Gardner, 1998), que considera ser importante o uso de recursos diversos para desenvolvimento da aprendizagem (CIPEAD, 2012, p.3, apud Bueno;.XAVIER;, Asinelli-Luz, 2013, p. 09).

Também é possível despertar a curiosidade dos estudantes e motivá-los

para a leitura no Laboratório de Informática, solicitando-lhes que façam a leitura

da obra literária por meio da História em Quadrinhos, que joguem os jogos

digitais “Capitães da Areia”, disponível no link abaixo da imagem:

FIGURA 5 – Imagens dos jogos “Capitães da Areia”

FONTE: HTTP://www.jogoscapitaesdaareia.com.br (Acesso em 30/11/2013)

A ação formativa se torna mais efetiva quando articulada com

professores de diferentes disciplinas. Da área de filosofia, é possível

transdisciplinarizar o conceito de “conceitos como o de “Liberdade”; da área de

História, o contexto histórico que permite retomar a “Coluna Prestes”; Da arte,

há possibilidades de explorar as características de algumas vertentes de

vanguardas europeias como o Cubismo e o Surrealismo presente em “Os

Retirantes” de Cândido Portinari; Da química, pode-se fazer uma abordagem a

respeito dos efeitos das drogas no organismo. Da Matemática, trabalhar com

tabela e gráficos, dados estatísticos que demonstram o número de pessoas

contaminadas pelo vírus da varíola que matou a família da personagem Dalva,

bem como do vírus HIV e a consequente proliferação que se intensifica entre

usuários de drogas. Da Sociologia é possível realizar um trabalho profícuo a

partir da história de vida da personagem Dalva, que tão cedo tem que dar conta

da subsistência por meio da prostituição, a exploração sexual infantil e outros

temas relacionados a questões de gênero podem nortear as discussões.

Há em “Capitães da Areia” uma cena na qual um adolescente

homoafetivo é expulso do grupo por se identificar com um gênero sexual

diverso do padrão heteronormativo. O combate à homofobia e à discriminação

de gênero e diversidade sexual pode ser intensificado a partir de um debate

previamente articulado tendo como ponto de partida esse fragmento do livro de

Jorge Amado, bem como do filme “Capitães da Areia”. Essas são apenas

algumas sugestões de trabalho transdisciplinar com a Literatura e outras

disciplinas. Despertar nos educandos o espírito crítico é um enorme desafio.

Os apelos constantes ao consumismo como promessa de felicidade intensa

precisam pautar os debates pedagógicos de sala de aula para aguçar-se a

percepção crítica a respeito de quem lucra efetivamente com a indústria

cultural.

É imprescindível fomentar uma discussão pormenorizada sobre

preconceitos e estereótipos veiculados pelos meios de comunicação

radiofônicos, televisivos, por programas jornalescos sensacionalistas, pelos

ambientes virtuais presentes em especial nas redes sociais, bem como

ressaltar o papel os diversos meios midiáticos na disseminação de padrões

comportamentais. Ações educacionais que desocultem as sutilezas

persuasivas implícitas no universo multimidiativo devem considerar o respeito à

dignidade da pessoa humana.

3 DIREITOS HUMANOS: DOS MACROSSISTEMAS INTERNACIONAIS AOS