Capítulo 5 – Análise de dados e considerações finais
5.2. Diretrizes para a melhoria do material Start
A terceira pergunta de pesquisa visava trazer nortes de como melhorar o material Start a partir da experiência de seu uso em sala de aula e também de trazer inspirações que auxiliem no processo de produção de novos materiais digitais on-line:
3. Há melhorias que precisam ser implementadas e metas pedagógicas revisitadas no material Start? Se sim, quais?
Levando-se em consideração a análise anterior, podemos afirmar que os
posts temáticos contribuíram positivamente para o uso do material e também para o
trabalho com os temas eleitos. Assim, caso haja uma próxima revisão do material, é sugerido que haja o reforço do trabalho com esses temas e inclusive o maior aprofundamento dos mesmos, através de mais atividades no próprio material ou de instruções para que o professor desenvolva-o em classe.
Ainda sobre os temas, observamos em conjunto com a professora que há uma lacuna referente a temas que busquem mostrar a importância da língua inglesa no mundo globalizado e a conscientização de que em nossa sociedade ela é um importante instrumento de prática social.
Sobre as expectativas do material de incentivar os alunos a serem autores digitais, verificamos que para tornar isso viável, é preciso que haja antes um trabalho que ofereça segurança ao professor em conduzir essa possibilidade. É necessário que junto ao Start haja um material que oriente o professor em como fazer um blog e que o conteúdo do Start ensine aos alunos como criar um blog pessoal.
Quanto à seção de comentários, sugerimos que para o seu melhor planejamento, haja uma orientação anterior ao professor de como funciona esse espaço tanto no material quanto em espaços reais na internet. Além disso, sugerimos que no próprio material sejam inseridos conteúdos através dos textos dos personagens sobre exemplos reais de espaços de comentários na internet e atividades (continuamente presentes no material) que envolvam isso, como a solicitação dos comentários dos alunos no material para diferentes finalidades54 e o
desafio de buscar blogs reais (de maneira contextualizada ao que esteja sendo
54 Como exemplo, podemos citar o pedido de contribuição realizado em um blog real exposto na seção 3.3.1. desse trabalho.
trabalhado no material) para inserir comentários. Acreditamos que isso esteja também intimamente ligado ao trabalho com os multiletramentos.
Sobre a exploração dos recursos digitais, verificamos que é fundamental a aproximação com a área de desenvolvimento web e web design para a construção de uma nova versão do material, já que tornar o material mais interativo e intuitivo aos olhos dos alunos motiva-os a realizar as atividades. Ainda nessa área, avaliamos que o recurso de automatização das respostas, inspirado nos materiais autossuficientes, deve ser melhor planejado de maneira que não seja criada uma competição com as escolhas pedagógicas do professor. Talvez precisemos de fato pensar em espaços e caminhos intermediários que permitam que o tipo de Mentalidade 1 migre para a Mentalidade 2 sem muitos conflitos.
Nossa sugestão é que esse recurso seja utilizado em momentos mais estratégicos, de modo que a autonomia do aluno bem como o desenvolvimento de sua consciência crítica no seu processo de aprendizagem possam também ser trabalhados. Consideramos que o meio digital facilita esse tipo de trabalho através, mas não somente, desse tipo de recurso, no entanto, vimos que é necessário um maior cuidado de planejamento instrucional para que ele seja eficaz. Embora se defenda a inclusão do acervo digital nas práticas de sala de aula, a instituição escolar ainda permanece na Mentalidade 1, não possibilitando a inclusão das novas formas de pensar o mundo.
Também sobre a exploração dos recursos digitais, embora não tenham sido implementados, também acreditamos que os recursos de popover e tooltip são fundamentais para trabalhar através do material digital a ampliação do vocabulário e de conceitos e o uso de conexões multimídia e de hiperlinks. Partilhamos da ideia de que isso torna os conteúdos na tela mais dinâmicos e amigáveis aos alunos e está alinhado à necessidade do material ser visto como em rede com a internet.
Com relação à essa necessidade, sugerimos que no material sejam feitas alterações de modo a tornar os enunciados das atividades mais claros quanto ao que é possível fazer utilizando os recursos da internet, como dicas que sugerem a busca por informações desconhecidas usando os buscadores on-line ou em tipos específicos de sites. Além disso, tentar mostrar diferentes ferramentas e recursos que estão disponíveis e como usá-los com discernimento, como por exemplo, saber avaliar ferramentas de tradução on-line e discernir em que momentos elas podem ser úteis.
Sobre o recurso de guest post, é importante haver no material um trabalho para que fique mais claro o que é esse recurso e qual sua relevância para a educação do aluno do século XXI e para a aprendizagem da língua inglesa. Para isso, sugerimos que haja uma explicação formal por um dos personagens sobre o que é o recurso e que sejam construídas mais atividades que explorem isso no ambiente real da internet, como mais guests posts no material com diferentes finalidades (como propaganda, participação especial e distribuição de informação).
Por fim, considerando o contexto da escola pública em que o material foi testado, acreditamos que para que o uso de um material digital on-line seja viável e eficaz, são fundamentais duas melhorias: o desenvolvimento de um material mais robusto tecnicamente e a elaboração de um guia que oriente o professor quanto ao seu uso, à qual pode ser agregada uma formação inicial para os professores que irão utilizá-lo.
Entendemos que como norte para a elaboração desse guia temos as seguintes considerações:
- um material que aponte ao professor quais são as situações no Start que podem gerar oportunidades de discussão em sala de aula e algumas orientações sobre as mediações que podem ser realizadas;
- um material que traga sugestões de intervenção do professor durantes as aulas com o Start, mas que fuja do controle previsto pela Mentalidade 1;
- um material que traga guias de como mexer em determinadas ferramentas digitais e em como lidar com determinados recursos presentes na internet;
- uma catalogação do que é tratado em termos de currículo em cada parte do material, de maneira a facilitar o planejamento das aulas pelo professor e mostrar que o material atende melhor as novas diretrizes oficiais do que a grande maioria dos livros didáticos que circulam nas escolas;
- um material que descreva as expectativas de cada post do Start de modo que auxilie através de sugestões e inspirações o planejamento das aulas pelo professor. Sugerimos inclusive que essas sugestões sejam feitas em formato wiki on- line cujo conteúdo seja passível de ser construído colaborativamente pelos professores que utilizarem o material.
O material Start, em seu propósito como protótipo, alcançou bons resultados e mostrou-se pertinente às necessidades existentes de formação exigidas
pelos documentos oficiais e pelos processos avaliadores como o PISA. Apesar de limites esperados em situação de teste, a experiência mostra um caminho promissor para a utilização das TDICs na sala de aula.
Considerações finais
Frente aos resultados trazidos por esse trabalho, foi possível verificar que a presença de um material digital on-line, posto como inovador, em uma sala de aula não garante a alteração das práticas que já ocorrem naquele ambiente. Muito pelo contrário, ele pode expor tanto os alunos quanto o professor em suas lacunas de aprendizagem e em seu distanciamento da realidade da sociedade da informação, da mesma maneira que pode ocorrer quando o tema tecnologia na educação é reduzido à utilização e presença de artefatos tecnológicos.
Esperava-se com a construção do protótipo que o uso do material digital abrisse muitas novas possibilidades na dinâmica em que o ensino ocorre e, no entanto, vimos que para que isso ocorra é fundamental que haja o investimento na formação do professor com relação aos multiletramentos que integre teoria e prática. Acreditamos que devemos voltar os olhos com mais intensidade para a formação continuada do professor e conscientizarmo-nos de que ele é parte vital do processo de aprendizagem dos alunos e desse momento de transição em que a escola situa- se na tentativa de aproximar-se à realidade da Sociedade da Informação. O papel do professor apenas mudou, não foi excluído do processo, e essa mudança foi reflexo das mudanças ocorridas na Sociedade da Informação que geraram novas formas de aprender e de construir sentidos.
Julgamos que através do uso das novas tecnologias e do proveito dos recursos disponíveis na internet, sejam esses as ferramentas ou as informações e os conteúdos, o professor tenha mais e melhores condições de exercer o seu papel como condutor e mediador do ensino mais do que tinha com as abordagens mais tradicionais nas quais o professor muitas vezes é posto apenas na função de expositor de seu conhecimento. Sobre essa questão, Braga (2013) coloca a visão de que partilhamos sobre o que é ser professor:
Como professores, nossa meta é expandir as condições de circulação social de nossos alunos, permitindo que eles desenvolvam as habilidades necessárias para a construção de conhecimento e modos de compartilhar informações privilegiadas pela sociedade atual. Nosso trabalho amplia as possibilidades de aceitação e participação do nosso aluno em diferentes tipos de comunidades que dominam e pressupõem o domínio de determinados conteúdos e de perspectivas discursivas. Junto com os “conceitos de área” ensinamos também as formas de comunicação esperadas por essas diferentes comunidades. Isso sustenta a afirmação de que todos os docentes estão diretamente
envolvidos na ampliação do repertório de letramento de seus alunos. (BRAGA, 2013, p.49)
Nesse sentido, reforçamos que a formação continuada do professor para lidar com as TDICs é fundamental e que somente a partir desse ponto é possível fazer o uso eficaz de materiais como o Start que buscam flexibilizar as práticas de ensino no sentido de alinhá-las a esse novo “ethos” (KNOBEL, LANKSHEAR, 2007). As dificuldades enfrentadas pela docente no uso do material mostram que colocá-la para ser produtora de materiais digitais, sem experiência prévia, mais que utópico, é injusto com o professor.
Com o presente estudo esperamos, portanto, instigar a produção de novos materiais digitais e principalmente materiais que partam do desafio de serem construídos a partir do meta uso de ferramentas já existentes na internet, como foi o caso do blog. Cremos que nesse caminho é possível trabalhar de maneira mais profunda os recursos que tornam a internet uma rede viva e que fazem parte das práticas sociais que permeiam a sociedade globalizada e é também uma alternativa para envolver o aluno em um processo de formação em que o aprendizado lhes permita participar plenamente da vida pública, comunitária e econômica (NEW LONDON GROUP, 1996).
E, por fim, enfatizamos que, para a concepção do projeto instrucional de um material digital, é fundamental a composição multidisciplinar da equipe envolvida, uma vez que o trabalho que considera o conhecimento específico de cada área garante a produção de um material que realmente faça melhores usos pedagógicos dos recursos do meio digital e, se for o caso, dos recursos da internet.
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