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Capítulo 3 – Material digital Start: o início, o fim e o meio

3.3. Contexto instrucional previsto para o material Start

3.3.1. Construção do protótipo e estrutura do material Start na forma atual: reavaliações

3.3.1.3. Incorporando diretrizes dos multiletramentos

Durante a construção do protótipo, conforme já dito nesta pesquisa, o conceito de multiletramentos (explorado na seção 1.4.2. deste trabalho) orientou a produção de novos conteúdos e a visão através da qual foi realizada a revisão. Junto a ele, trabalhamos sob a luz do conceito de new ethos (explorado na seção 2.2. deste trabalho) e em busca do desenvolvimento dos seis componentes47 trazidos por Coll e

Illera (2010, p. 301) e das dimensões apontadas48 pelo estudo PISA (COLL, ILLERA,

2010, p. 30) para integração dos novos letramentos no material. Acreditamos que todos esses pressupostos estão em harmonia e oferecem caminhos para a elaboração de materiais digitais.

Na prática, focamos em trazer o viés do letramento crítico para realizar alterações que englobassem os diálogos entre os personagens, os objetivos das atividades, as reflexões propostas e os textos que seriam de autoria de cada personagem. Além disso, buscamos trabalhar diretamente em atividades que fizessem uso de recursos da internet e em conteúdos que fizessem parte do

46 O recurso está disponível em https://jqueryui.com/draggable/. Acessado em 02 de fevereiro de 2015.

47 “Os três primeiros componentes são referentes às linguagens letrada, visual e audiovisual (...). Os três últimos componente referem-se mais às novas competências que devem ser adquiridas com o intuito do desenvolvimento da capacidade de tirar o máximo proveito que as TDICs podem oferecer, sendo eles o manejo informacional (saber selecionar e buscar informação, por exemplo), o manejo comunicacional (aprender a lidar com as diferentes esferas sociais e com as diferentes formas de comunicação, como os ambientes colaborativos, por exemplo) e o manejo em mídias (que abrangem as questões referentes à produção, distribuição e utilização das mídias e dos conteúdos presentes no meio digital).” Trecho copiado do Capítulo 2 deste trabalho.

funcionamento da mesma, como espaço vivo, pulsante e inerente à Sociedade da Informação, na pretensão de propiciar ao estudante a experiência em algumas das práticas sociais decorrentes das TDICs.

Para organizar e orientar essa parte da revisão, foi realizado um agrupamento dos principais tipos, descritos a seguir, de alterações que foram realizadas:

a. Conflitos entre personagens

Aproveitando o espaço dos posts, em que o conteúdo traz textos simulando a autoria de cada personagem, inserimos trechos que mostram o posicionamento da opinião de cada um sobre diferentes assuntos. Para melhor organizar, alinhamos esses trechos ao tema de cada semana e exploramos diferentes visões sobre assuntos simples, como as preferências pessoais.

Nosso objetivo com isso era trabalhar o letramento crítico, trazendo ao estudante a possibilidade de entender que há diferentes leituras sobre os mesmos objetos (podendo ser um texto, um vídeo, um fato, etc) e que, a partir de cada leitura, é possível reproduzir diferenças e desigualdades, perpetuando estereótipos. Tentamos, através dos textos dos personagens, demonstrar que é preciso estar sempre atento quanto ao posicionamento que tomamos com relação a alguma opinião, uma vez que ele pode estar excluindo pessoas e privilegiando outras e, esperamos que, no momento em que o estudante se deparasse com isso dentro de sala, houvesse a oportunidade de debate com os colegas mediado pelo professor. Para elucidar como isso foi desenvolvido no material, descreveremos dois exemplos.

O primeiro exemplo trata-se de um post do personagem Erdy. A imagem a seguir, traz um post do Erdy em que ele escreve “O Coreba disse que meu gosto é brega (...)”. Esperamos que aqui haja a possibilidade de início de discussão entre os estudantes, mediados pela professora, sobre a postura do Omar com relação ao gosto pessoal do Coreba e o uso da palavra “brega” como pejorativo.

Imagem 17 – Exemplo de texto que mostra o conflito entre personagens

Outro exemplo está nas características dos posts do Tom. Os posts desse personagem são sempre os primeiros de cada semana e trazem em seu conteúdo (geralmente constituído por texto e podcast, sem atividade) o direcionamento de qual será o tema (ou temas) que circulará nos posts dos outros personagens daquela mesma semana. Como característica do personagem, ele problematiza algo que pareceu novo em sua vida depois que mudou-se geograficamente, como por exemplo, uma comida nova ou um hábito diferente presente em centros urbanos - como o funcionamento 24 horas de estabelecimentos comerciais. Posto isso, o personagem também descreve o posicionamento de algum dos personagens com relação ao fato, como por exemplo o de seu primo Omar tê-lo achado “esquisito” por desconhecer alguma coisa. A partir daí, os outros personagens também se posicionam sendo que sempre há ao menos um deles que traz a reflexão sobre como é preciso respeitar as diferentes opiniões e como algumas das opiniões podem ser preconceituosas e excludentes, mesmo que não haja a intenção de tal.

Esperamos que a partir desses conflitos colocados entre os personagens, os alunos percebam que é sempre preciso questionar seus próprios posicionamentos bem como os modelos sociais que circulam nossas vidas, desenvolvendo assim a capacidade de visualizar o mundo a partir de diferentes lentes, de maneira que possam contribuir para que não haja o silenciamento da diversidade e possuam uma melhor compreensão do mundo ao seu redor.

b. Assuntos que trazem problematizações

Assim como no item descrito anteriormente, na pretensão de desenvolver o letramento crítico e abrir espaço para o debate em sala de aula mediado pelo professor, abordamos no conteúdo dos posts temas que consideramos oportunos para serem problematizados e que fazem parte do repertório jovem, na tentativa de explorar reflexões que façam parte do cotidiano dos alunos.

Alguns dos temas abordados foram o bullying, o cyberbullying, o consumismo e a desigualdade social e também temas diretamente relacionados à língua, como as variedades regionais que também existem na língua inglesa e o uso de expressões que podem gerar conflitos de sentidos.

c. Material multimídia e recursos de internet

Para desenvolver as competências que são condizentes aos multiletramentos, buscamos explorar no conteúdo a multimodalidade e a utilização de recursos da internet em atividades que demandam do estudante habilidades inerentes às práticas da rede. Para ilustrar, seguem alguns exemplos:

 Atividade que mescla recursos em texto, áudio e imagem, em que o aluno precisa lidar com as diferentes linguagens para obter a resposta, conforme imagens 18 e 19.

Imagem 19 – Exemplo de atividade com áudio, texto e imagem.  Atividade que necessitam de pesquisa na internet para serem

realizadas, pois demandam conhecimentos que esperamos que o estudante não possua. Na imagem 20, é pedido que o estudante saiba avaliar como verdadeira ou falsa sentenças que trazem informações antigas sobre a música popular brasileira. Assim, para responder, esperamos que o estudante realize buscas na internet, sob a orientação do professor, trabalhando diferentes competências enquanto estuda a língua inglesa.

d. Recurso guest post

O recurso guest post (post convidado) é muito conhecido entre autores de

blogs (comumente chamados de blogueiros) e o público leitor de blogs. Trata-se da

situação em que o post é escrito por uma pessoa49 que não é a autora do blog mas

sim uma convidada, sendo que o conteúdo geralmente possui pertinência ao tema do

blog que fará a publicação.

Esse tipo de recurso possui várias finalidades dentro do funcionamento dos

blogs na internet, como por exemplo, fortalecer uma comunidade de blogs, prestigiar

algum texto ou autor, trazer um conteúdo especial e ajudar na disseminação de alguma informação. Diante disso, podemos inferir que o recurso guest post faz parte das práticas existentes dentro dos circuitos dos blogs e que conhecer esse recurso e seus percursos é interessante já que pode ampliar a participação social no espaço virtual que a internet possui.

Buscando o desenvolvimento de competências no estudante pertinentes a esse conhecimento, decidimos fazer uso desse recurso dentro do material Start, inserindo entre os personagens guest posts, ou seja, por exemplo, dentro de um post da Conny, um guest post do Erdy.

49 O termo “pessoa” nesse contexto pode ser expandido para diversos outros tipos de usuários que são os autores do blog, como o exemplo de blog que são de autoria de uma empresa, um coletivo, uma turma de amigos, etc.).