4.4 Ambiguidades e discrepâncias entre o discurso referente à
4.4.4 Dos dirigentes das empresas fornecedoras
Esses depoimentos confirmam com os dos dirigentes das fábricas e da governança, a respeito dessas condutas, na prática da moral do oportunismo brasileira, presente no APL.
4.4.4 Dos dirigentes das empresas fornecedoras
Para os dirigentes das empresas fornecedoras o significado de ética nos relacionamentos entre empresas e nos negócios foi definido com as seguintes palavras-chaves ou expressões: caráter; profissionalismo; não querer levar vantagens em tudo; hombridade nos negócios; honestidade e senso de compromisso.
Um dos entrevistados, dirigente de microempresa, argumentou que a caridade deve se sobressair nos momentos em que um parceiro de negócio, passa por dificuldade, sugerindo ajudar-lhe, quando esse não tiver condições de honrar seu compromisso: “cumprir o que se assume, mas também ajudar o próximo quando estiver em dificuldade”; demonstrando uma motivação religiosa (moral da integridade brasileira) e uma ética baseada em princípios, em termos da Ética Deontológica (Srour, 1994; 2003).
Com os mesmos achados das entrevistas com outros grupos, os dirigentes das empresas fornecedoras se distinguem em termos de corrente
ética, em virtude do porte da empresa. Os maiores empresários tendem a
corresponder com a Ética Teleológica, e, em alguns aspectos com a Ética
Deontológica, enquanto os pequenos tendem a corresponder mais com a Ética
Deontológica, através da moral da integridade brasileira.
Foi apontada pelos dirigentes de empresas fornecedoras como uma das atitudes antiéticas por parte de seus clientes (fábricas de bonés) a quebra de sigilo de negociação:
Muitas vezes, quando se oferece ao cliente condições especiais, de modo confidencial ou sigiloso, por ser um cliente preferencial, o próprio cliente acaba informando outros concorrentes, o que prejudica as futuras negociações. Ele acaba se prejudicando (FORNECEDOR).
Neste caso, há duas situações a serem consideradas na análise. Uma, em que quebrar o sigilo de negociação, um acordo confidencial, representa a quebra de uma ética profissional, específica numa área profissional, uma espécie de etiqueta, como por exemplo, a ética profissional dos médicos ou dos advogados. Outra situação é a negociação sigilosa, sob o crivo da ética. Nesta questão, verifica-se tratamento preferencial em que se excluem outros clientes. Esse tipo de conduta recebe críticas de Matar Neto (2004, p.318): “quando há conflitos de interesses que, segundo a perspectiva ética, deve ser resolvido sem privilégios para nenhuma parte”. Também Passos (2004)
defende a equidade das oportunidades aos stakeholders na perspectiva da
Responsabilidade Social.
Outras atitudes antiéticas foram apontadas: blefes em falsa cotação de preços, irresponsabilidade e calotes.
A atitude antiética é mentir, dizendo que outro fornecedor tem preços mais baixos (cotação falsa). [...] O calote [...] Muitos casos de inadimplência tem como causa a má gestão, nem sempre é intencional (DIRIGENTE 1); nem sempre são éticos comigo. Já levei calote de clientes. [...] Deram contra-ordem nos cheques, para evitar o registro no SERASA (DIRIGENTE 2).
São fatos característicos da moral da oportunidade brasileira (Srour, 1994). Em caso de inadimplência de seus clientes, os dirigentes de empresas fornecedoras fazem distinção daqueles que intencionalmente dão calote, dos que passam por dificuldade financeira, mas procuram a renegociação das
dívidas. Foram relatados vários casos pelo fornecedor, de ter tomado bens,
como máquinas e itens de estoque, como pagamento de dívida. Em geral, dizem existir flexibilidade e negociação de dívida.
Foram também apontadas pelos fornecedores atitudes antiéticas entre os concorrentes fabricantes, como: assediar funcionários do concorrente;
infiltrar-se nas vendas do concorrente; enganar os clientes deles, como por
exemplo, enviar uma amostra de seu produto com determinadas características, e depois fornecer o produto final com matéria-prima inferior; oferecer propina os gerentes das empresas clientes (no APL, esse tipo de propina é chamado de bola); e a pirataria ou falsificação de produtos de marcas registradas. São revelações que depõem contra parte dos fabricantes, de modo mais explícito e contundente do que os próprios fabricantes revelaram, reforçando a constatação da presença no APL da moral do oportunismo brasileiro, de modo mais acentuado.
Acerca das atitudes éticas por parte das empresas compradoras (fábricas de bonés) foram apontadas: honrar os compromissos; pontualidade
nos pagamentos; sinceridade; e honestidade.
Todos os dirigentes afirmaram que o relacionamento entre sua empresa com as fábricas de bonés é uma relação ética. Na prática, as atitudes consideradas por eles como éticas com seus clientes são em síntese: agir com muita clareza e atender da melhor maneira possível.
Mas, houve incoerências nas afirmações durante as entrevistas, revelando ambiguidades e discrepâncias entre o discurso e a prática. Questionando aos dirigentes de empresas fornecedoras se eles admitem que
maneira, enquanto no íntimo sabem que não é ético, obtiveram-se os seguintes depoimentos:
Não. Há uma conduta de regras claras (DIRIGENTE 1); Já aconteceu sim. Mas foi para resolver problemas momentâneos, por exemplo: empurrar um produto para o cliente quando não tem o que ele precisa (DIRIGENTE 2); agi algumas vezes contra minha consciência. [...] Já disse alguma mentirinha para justificar uma situação, por exemplo, mentir para o cliente o motivo de atraso nas entregas (DIRIGENTE 3).
Entretanto, atitudes contraditórias isoladas não podem absolutamente generalizar nem ser interpretadas para invalidar o discurso dos entrevistados.
Considera-se que os fornecedores têm uma posição privilegiada de observar a conduta ética de um grande número de fabricantes, por lidarem diretamente com eles. Com isso, eles se posicionam em modo de defesa contra as armadilhas da moral do oportunismo brasileira.
Na análise, procurou-se categorizar os achados sobre ética nas relações interorganizacionais e identificar os fatores decorrentes do comportamento ético. Na próxima seção, numa análise integrada do caso, a explicação se concentra sobre a influência das correntes éticas nos relacionamentos presentes no APL.