Para que os estudos em AD tivessem seu início, era preciso um objeto de análise.
Segundo Courtine (2014) a AD elegeu o discurso político para realizar suas análises a partir do estudo sobre as demarcações, alianças e especificidades. Courtine adota como seu corpus de análise “o discurso comunista”, dos anos de 1960 na França, que engloba tanto os discursos políticos quanto religiosos.
Courtine (2014) destaca que a Análise do Discurso é um exercício de leitura de textos políticos, que envolve a compreensão dos fatos e de sua duração. Por isso, a AD, com base em indícios linguísticos e em uma análise ideológica, conseguiu apontar o processo pelo qual a política francesa se desenvolvia.
Na França, Courtine tinha como corpus o discurso do Partido Comunista e seu direcionamento frente aos cristãos, com o discurso da “política de mão estendida” (1936 – 1976) buscava-se encontrar os sentidos, por meio de uma análise que contemplasse a relação entre língua e ideologia.
Dessa forma, o discurso é pensado como uma relação, uma correspondência entre língua e questões que surjam no exterior desta, no que diz respeito a todo discurso concreto: quem fala, qual o sujeito do discurso, e como é possível caracterizar a emergência do sujeito nos discursos? Do que fala o discurso, como identificar dentro dele a existência de temas determinados? Em quais condições, enfim, o discurso é produzido, mas também compreendido e interpretado? Em que medida tais condições inscrevem-se na relação do discurso com a língua?
Como o exterior da língua se reflete na organização linguística dos elementos do discurso? (COURTINE, 2014, p. 30).
A Análise de Discurso é um estudo que, ao investigar seu corpus pretende analisar as marcas linguísticas e ideológicas que constroem os sentidos. Igualmente, o funcionamento da materialidade se estrutura por meio de um sujeito que emite o seu discurso, em uma determinada condição de produção.
De acordo com Courtine (2014), os discursos provêm do campo da língua e da ideologia, entretanto não é possível criar uma linha que demarque o que é da linguagem e o que pertence ao campo ideológico. Limitar o que pertence a cada campo não é a necessidade da AD, o que ela analisa é como as relações entre língua e ideologia permitem aos discursos posições de aceitação e de confrontamento, como pode haver uma concordância ou não sobre os sentidos aplicados aos discursos; como as palavras podem apresentar sentidos diversos mesmo que pertençam a uma mesma língua.
Havia uma análise do discurso que pretendia articular a história e linguística.
Hoje, existem análises de discursos que, na sua maioria, abandonaram esse projeto. Não se trata de lamentar essa situação, mas de compreender essa evolução e de apreender seus efeitos em relação às questões – centrais na perspectiva deste texto – das modalidades de existência histórica das práticas discursivas, da relação entre história e linguística (COURTINE, 2006, p. 46).
Mesmo que a política viera a ser um grande objeto de pesquisa, ela não era o único objeto que compunha as investigações da AD. Entretanto, o discurso político foi um material de análise importante para compreender as relações entre a linguagem e aquilo que estava no exterior dela – a linguística moderna, na França, pretendia realizar uma análise que descrevesse a situação do marxismo francês presente no final da década de 1960.
Em muros e prédios da cidade era possível encontrar as marcas linguísticas deixadas pelos manifestantes. Em maio de 1968, na França, estudantes universitários pediam reformas no setor educacional, e junto aos operários houve a maior greve geral na Europa (com cerca de 9 milhões de pessoas).
O governo francês, em contraposição às manifestações da população, travava uma luta ferrenha que viera acompanhada por um discurso de fechamento de escolas e expulsão de alguns alunos por pertencerem aos movimentos militantes estudantis. Além do discurso de enfrentamento, o governo ordenou à polícia uma intervenção durante os protestos – tal intervenção viera em forma de ataque, por meio de violência física, aos estudantes.
De acordo com Courtine (2006), essa foi a primeira “revolução” midiatizada, que além de ter seus enunciados e textos verbais espalhados nos meios de comunicação, eles também estavam inscritos em espaços públicos de diversos municípios. Courtine destaca, ainda, que as imagens tiveram grande relevância para a constituição da materialidade discursiva dessa época.
A partir da situação discursiva que o cenário francês desafiava, é possível compreender que AD passa a investigar os sentidos presentes nos enunciados, nas discussões, nas fotografias, enfim, em toda materialidade que constituísse aquele momento histórico.
Os textos desse período de formação do discurso comunista dirigido aos cristãos insistem sobre o respeito às liberdades religiosas, assim como sobre a existência de aspirações comuns que unem uns aos outros: solidariedade, justiça, caridade, patriotismo, devoção, espírito de sacrifício, desenvolvimento da personalidade, esse conjunto de valores morais que fazem do comunismo um “verdadeiro humanismo” (COURTINE, 2014, p. 144).
A política da mão estendida não previa um diálogo com a hierarquia da igreja, mas aceitava a presença de alguns cristãos dentro do movimento político, entretanto essa participação era seletiva, passando por cima, inclusive, do clero católico. O pensamento marxista vem marcar a oposição entre as frentes do materialismo dialético e da doutrina cristã – o marxismo é o racionalismo cartesiano.
Courtine (2014) afirma que os discursos comunistas direcionados aos cristãos passam por uma estabilidade. Embora a filosofia comunista e a doutrina cristã não compartilhassem dos mesmos pensamentos, os ideais daquele partido se opunham a qualquer perseguição religiosa, portanto pregava o respeito à liberdade.
Após o fim da Guerra Fria, os discursos direcionados aos cristãos passaram a ser bastante isolados, com citações que defendiam o poder de escolha dos cristãos (sem querer interferir nos ideais e na liturgia religiosa). Mais do que realizar uma política de mão estendida para mostrar quem tinha maior poder, a proposta buscava um motivo pelo qual lutar e defender a sua forma de pensar.
Nesse momento, a AD consegue apontar como as manifestações discursivas ficam aparentes por meio de um discurso que representa a luta de classes, ou seja, cada dizer, cada ideologia se faz presente com o intuito do desejo e do poder; assim, cristãos, operários e partidos políticos defendiam suas perspectivas a fim de alcançar seus objetivos, legitimar seu discurso com propriedade e torna-lo eficaz.
Como afirma Foucault (2014, p 10): “O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo porque, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apropriar”. As manifestações discursivas demonstram como estão presentes as relações do desejo e do poder. Para Foucault (2014), todo o processo discursivo envolve a relação de classes, de raça, status, nacionalidade cujos enunciados se
registram não pela atitude de apenas demarcarem território, mas com uma concepção além, a luta discursiva tem o seu objetivo do “por quê?” e “do que?” esse discurso quer se apropriar (lugar, status).
Se a análise do discurso está ligada a objetos atravessados pela luta de classes, se, em Análise do discurso político, todo discurso concreto remete a uma posição determinada na luta ideológica de classes, então é bem possível que o sentido primeiro de uma intervenção do materialismo histórico nesse campo teórico-prático seja o de lhe devolver os princípios, esquecidos de maneira diferente pelo sociologismo ou pelo teoricismo (COURTINE, 2014, p. 35).
Segundo Courtine (2006), a AD, no início de suas pesquisas, mantinha-se apenas a um estudo que propusesse a descrição dos textos. Com o desenvolvimento das análises, foi possível agregar o discurso oral na busca pelos sentidos. No início da década de 1970, a linguística estrutural vai se remodelando a uma visão sociológica, para efetivar a relação da história com a linguística. Com essa vertente, os mecanismos de análise automática do discurso passam a dar seus primeiros passos – valendo-se da proposta marxista que pretendia pesquisar as diferenças entre os discursos social e político.
Assim, a AD não fixava uma demarcação para compreender os sentidos baseando-se nos diversos funcionamentos linguísticos. O que importava à AD, de 1970, era apresentar o modo como as ideologias eram atravessadas umas pelas outras – tanto na perspectiva linguística quanto na do historiador.
Para Courtine (2006, p. 65), a AD “[...] toma como objetos três noções cruciais para a compreensão do processo discursivo: o corpus, o enunciado, o sujeito”. Dessa forma, para que um discurso pudesse ser compreendido não bastava analisa-lo pelo viés puramente gramatical, era necessário compreender que a materialidade presente no corpus trazia as marcas do sujeito, não aquele empírico, mas o ideológico.
Courtine (2006) propõe uma estrutura para a compreensão do seu objeto de análise, organizando, por meio de uma ação definida, as sequências discursivas de maneira estruturada às condições de produção das manifestações discursivas.
Dessa maneira, a operação de extração de um corpus de discurso político, primeiramente, consiste em delimitar o campo discursivo de referência (que é um tipo de discurso: discurso político; seja o discurso que nasce a partir de uma fonte particular no interior do campo do discurso político: discurso produzido pelo falante que pertence àquela formação política, seja o discurso que nasce de uma fonte em um momento histórico definido, por exemplo, o discurso produzido pela formação naquela conjuntura etc.), ao impor uma série sucessiva de coerções sobre os materiais que os tornam homogêneos (COURTINE, 2006, p. 66).
A compreensão de um discurso passa pelas suas condições de produção. Courtine (2006) sugere um modelo de análise a partir de uma delimitação que envolve compreender de que tipo de discurso se fala, e qual o campo de surgimento desse discurso. Além disso, ele traz a questão do sujeito, de que lugar ele vem, de onde ele fala, quem seria esse sujeito que enuncia um discurso, e quais são as vozes que constituem esse sujeito falante. Para isso, é preciso considerar que o sujeito vem de um campo cuja formação discursiva é dada num cenário político que depende do momento histórico. Essa delimitação faz com que a compreensão de uma materialidade possa ser baseada a partir de um modelo de homogeneidade.
Segundo Courtine (2006) o corpus de uma análise segue uma sincronia, determinando, assim, que a materialidade é parte constituinte de uma doutrina – no caso do estudo de Courtine, a política. Os enunciados provenientes dessa doutrina se definem em uma tradição discursiva, ou seja, há uma reorganização dos enunciados, que lhes permite uma retomada.
Mas o fato de um discurso ser proveniente de um campo discursivo “político” não lhe confere o direito de ser homogêneo, uma vez que esse campo permite a existência de vários partidos, sendo assim, se há diferenças entre esses grupos, os discursos são caracterizados como heterogêneos.
O estudo de contrastes ente conjuntos de discurso político, na verdade, permite investigar a diferença linguística de grupos políticos sobre os quais se baseiam muito de suas identidades: um partido político é distinto de outro por sua língua, é pelo seu discurso que ele é reconhecido, é ao seu discurso que as pessoas aderem, é seu discurso que é repetido. Posto isto, ainda permanece um problema:
o fato de que os discursos políticos enfrentam-se uns aos outros, entrando em contradições ideológicas que ao mesmo tempo os unem e os dividem (COURTINE, 2006, p. 68).
Assim, as contradições políticas estão no interior de cada grupo e se manifestam como uma ideologia que se estabeleceu de maneira homogênea dentro do campo discursivo político. Ou seja, a homogeneidade é possível por pertencer ao mesmo grupo, porém é na heterogeneidade que esses discursos são compreendidos, uma vez que cada discurso é refletido de maneira diferente. A heterogeneidade discursiva propicia aos discursos uma transformação que ocorre com o tempo. De acordo com Courtine (2006), a AD foi se moldando e encontrando novas formas de analisar o seu objeto, pois este também passou por transformações.
O discurso político é descrito por Courtine (2006) como um objeto de descrédito e que muitos rejeitam, por carregar redundâncias, formas fixas e longas em sua materialidade.
Rejeita-se o monologismo de discursos e critica-se o apagamento de sujeitos em órgãos de organizações políticas. Mostra-se uma máscara verbal no lugar dos traços do homem político, apagados sob o anonimato de uma causa ou separados no corpo de um partido sem face (COURTINE, 2006, p. 84).
Por conta do descrédito e de novas ideologias incorporadas ao discurso político, Courtine (2006) observa que esse objeto de análise da AD vem sofrendo mudanças ao longo da história, ou seja, esse é um discurso que está em movimento e se adequando para atingir seus níveis de veiculação. O autor afirma que essa política discursiva está se desenvolvendo, com uma fala mais fluida, imediatista, que busca atacar verbalmente ao invés de fazer uso de formas rebuscadas.
A intenção do discurso político é o convencimento, e quer, por meio de sua fala realizar uma conquista, ou seja, seduzir o eleitorado. As maneiras de se expressar, utilizando uma retórica clássica passam a dar lugar a um discurso que se adequa ao sistema de comunicação e informação audiovisual. Courtine (2006) acrescenta, ainda, que essa transformação ocorreu inclusive no modelo de análise, a qual era baseada numa gramática da política e passa a ser uma pragmática da política, dessa forma, tanto o objeto quanto a análise foram se moldando com o tempo.
E o texto político foi trabalhado por partes no interior de novas práticas de escrita e leitura: produziu e recebeu novas formas, diálogos, entrevistas, holofotes de televisão, videoclipes políticos. Leem-se menos frequentemente as páginas impressas de um jornal ou livro do que se ouve ou se vê em uma tela. De agora em diante, o discurso político não pode ser dissociado da produção e recepção de imagens da mesma maneira que o discurso do homem político não poderia mais se separar de sua imagem (COURTINE, 2006, p. 84 – 85).
O discurso político que se pautava de formas rebuscadas se viu na necessidade de encontrar novos meios de inserção para o seu discurso. Agora, esse enunciado além de ser analisado como um objeto verbal da linguística, ele recebe uma arte visual que passa a ser a performatividade do discurso: é preciso, então, analisar o discurso político em sua apreensão global.
Ao analisar o discurso político, Courtine (2006) descreve que, apesar das transformações desse discurso, ele é ainda um “lugar de memória”. Esse campo possibilita que todos os dados indicativos da identidade de um partido fiquem transcritos, organizados
e recolhidos em um depósito, para que a continuidade do discurso possa ser garantida. Para isso, toda a estrutura deve ser conservada, principalmente as estratégias utilizadas e, sem dúvida, os discursos que levaram ao fracasso. Conservar os enunciados nesse “lugar de memória” é ter um recurso que conserve os arquivos, de modo que fiquem à disposição em forma de estratégia discursiva.
De acordo com Courtine (2006, p. 88): “[...] há enunciados que permanecem em vigília”. Para o autor, é possível que um enunciado seja esquecido, entretanto ele não está dissipado, ou seja, esse enunciado pode retornar ao campo discursivo quando necessário for. Além desses que se perdem, há os que são repetidos inúmeras vezes, podendo desaparecer sem deixar rastros.
Porque além da memória de uma organização, o discurso se pretende ainda depositário daquela de toda a classe operária; ele é seu patrimônio verbal, “a herança das lutas” conduzidas em seu nome, a recolha de um saber dos combates travados e da “experiência adquirida”. O discurso extrai sua legitimidade do fato de falar em nome de: da história dos mortos. E é preciso sublinhar aqui a importância histórica, tanto política quanto cultural, que revestiu a memória comunista. Ela foi um fator essencial tanto da identidade coletiva quanto da individual (COURTINE, 2006, p. 89).
Courtine (2006) destaca que a memória é importante na constituição da identidade política e cultural, seja de maneira comunitária ou individual. É pela memória que os valores se constroem, que eles se solidificam e demarcam as alianças de união ou confrontamento.
O discurso político, quando remodelado ou resgatado no campo da memória, traz consigo marcas de tantos outros discursos, ou seja, por meio das relações é possível fazer uma análise desse tipo de discurso e encontrar traços que se aproximem dos discursos:
religioso, científico, jurídico e, até mesmo, do literário.
Conforme destaca Courtine (2006), ao encontrar marcas de outros discursos no político, é possível analisar que o léxico nesse campo discursivo passa por relações de confrontamento, ou seja, as palavras podem indicar determinados sentidos num dado momento, e apresentarem outros com o passar do tempo – vale destacar que Courtine menciona a posição daquele que enuncia como um fator para a alteração desses sentidos.
Essas marcas que remodelam e fazem com que os discursos tenham em seus enunciados uma nova relação de pluralidade é chamada, por Courtine (2006), de interdiscurso.
Mas para que o interdiscurso aconteça é necessário que primeiro haja uma formulação de origem. Para exemplificar esse conceito, Courtine (2006), retoma a frase primeira de Marx: “a religião é o ópio do povo”. A partir desse enunciado, tantos outros que fazem crítica à religião, são discorridos no discurso marxista.
As formulações-origem derivam, assim, num trajeto complexo no seio da espessura estratificada da formação discursiva; durante o percurso, elas se transformam, se entrecortam, se escondem, para ressurgir adiante; por vezes esfumam e desaparecem (COURTINE, 2006, p. 91).
Conforme descreve Courtine (2006), o enunciado “a religião é ópio do povo”, enquanto formação de origem, sofre com uma mudança e é substituído por “suspiro da criatura oprimida”. Essa substituição tem por base os fatores políticos, ou seja, há uma luta entre poderes para a concretização dos discursos. Dessa forma, a qualidade de “ópio do povo” remetia ao partido de esquerda e sua oposição frente à religião e “suspiro da criatura oprimida” quando se busca uma aliança de parceria com a Frente Popular. Aquela primeira vai sendo silenciada pelo aparecimento da segunda, entretanto o “ópio do povo” não é apagado de vez do campo discursivo, mas quando retomado é utilizado com parcimônia e vigilância.
Se o discurso é lugar de memória, é porque ele traz o vestígio – inscrito nas suas formas – das flutuações e das contingências de uma estratégia; a impressão sedimentada de uma história, de suas continuidades e de suas rupturas. Fazer análise do discurso é aprender a deslinearizar o texto para restituir sob a superfície lisa das palavras a profundeza complexa dos índices de um passado (COURTINE, 2006, p. 91 – 92).
Courtine (2014) sustenta que é preciso questionarmos as relações entre a história e a língua, e diz que esta é agora uma questão talhada à AD, uma vez que essas relações são importantes para a compreensão do sujeito ideológico que enuncia um discurso. Portanto, esse sujeito pode utilizar-se dos recursos de lembrança, esquecimento e repetição como um processo interdiscursivo de resgate da memória.
Além do processo da memória discursiva, Courtine (2014) perfaz sua concepção de Formação Discursiva, dizendo que esse conceito não pode se caracterizar num grupo fechado, cujas fronteiras determinam as relações de aliança ou oposição. É preciso considerar a existência do interdiscurso, numa relação que a FD possui com o seu exterior, ou seja, compreender que as lutas pelo poder são o processo ideológico de uma determinada formação social.