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MARCELA TEMER, A PRIMEIRA-DAMA DO BRASIL É A “BELA, RECATADA E

4 GÊNERO, CORPO, SEXUALIDADE E HISTERIA

4.4 MARCELA TEMER, A PRIMEIRA-DAMA DO BRASIL É A “BELA, RECATADA E

A mídia ocupa um lugar social que lhe garante um status de verdade. O espaço midiático, por meio do processo de subjetivação, estabelece enunciados que têm grande circulação, ou seja, a mídia (histórica e socialmente) é um dos meios que põem os discursos em circulação dando-lhes validade a partir da repetição, da ressignificação ou ainda do esquecimento.

A mídia, enquanto meio de circulação dos discursos, exerce sua força, tanto para silenciar um fato ou dar ainda mais voz a um determinado acontecimento. Ao silenciar ou legitimar poder a uma produção, a mídia se coloca num lugar que impõe o seu discurso como uma verdade única e inquestionável. Portanto, não é possível defender a ideia de que

uma revista, um jornal, um blog, entre outros suportes midiáticos são imparciais, uma vez que esse meio se apoia numa FD para se construir discursivamente.

Trazemos a reflexão de Courtine (2014) para compreendermos a questão do posicionamento e da luta de classes, para tanto, pensaremos como a mídia se posiciona em relação aos seus interlocutores. Courtine aborda a luta de classes a partir do que escrevemos no capítulo anterior, a respeito de maio de 1968, quando estudantes franceses e parlamentarem se envolveram numa luta por seus interesses políticos – essa luta além de ter envolvido violência física, deixou marcas enunciativas em muros e prédios da cidade parisiense. Quando Courtine aborda o discurso político que envolveu esse momento histórico (maio de 1968), ele analisa como políticos, cristãos, estudantes e trabalhadores utilizaram do discurso para se inscreverem perante a sociedade, e como cristãos e políticos se enfrentaram de maneira ferrenha a fim de constituir o seu discurso como uma materialidade de predominância. Courtine se utiliza do conceito de ideologia, em Pêcheux, e de Formação Discursiva, a partir de Foucault, e constitui sua análise fazendo o casamento entre essas duas teorias, aplicando os conceitos da AD com o propósito de compreender que há forças ideológicas que gritam e discutem entre si para serem vistas e ganhar o seu espaço de dominância – a mídia é um campo de batalhas e ela se posiciona no jogo, dominando as peças.

Se a Análise do Discurso está ligada a objetos atravessados pela luta de classes, se, em Análise do Discurso político, todo discurso concreto remete a uma posição determinada na luta ideológica de classes, então é bem possível que o sentido primeiro de uma intervenção do materialismo histórico nesse campo teórico-prático seja o de lhe resolver os princípios, esquecido de maneira diferente pelo sociologismo ou pelo teoricismo, da primazia da contradição sobre os contrários, bem como do caráter desigual da contradição;

(COURTINE, 2014, p. 35).

A mídia, compreendida enquanto um mecanismo de controle, agirá de maneira estratégica para que o discurso que ela propaga seja de dominância. Foucault em “O jogo de Michel Foucault” (1977) começa a entrevista respondendo que há um imperativo estratégico, ou seja, todas as ações do dispositivo são bem planejadas, sabem como tem que se posicionar para que atinjam seu público; embora nem todo receptor da mensagem encare a produção discursiva como uma verdade única, participando assim de um jogo de poder, como mencionado no início deste texto. Foucault coloca essa estratégia como um modo primitivo utilizado pelo dispositivo para que haja o controle da sujeição.

Além disso, Foucault (1977, p. 48) acrescenta: “É o dispositivo que permite separar, não o verdadeiro do falso, mas o inqualificável cientificamente do qualificável”. Podemos compreender que a mídia determina o que será publicado, de forma estratégica, utilizando-se do “saber” enquanto poder, ou utilizando-seja, há uma utilizando-seleção do que utilizando-será exposto de acordo com o que pode e deve ser dito dentro de uma FD dominante. Além disso, Foucault (1977) acrescenta que o poder não é sempre dado de cima para baixo, dessa forma, não é a mídia quem despeja toda a ideologia sobre os sujeitos, mas ela recorre à própria sociedade e busca entre as FDs quais são os discursos que estão em circulação e os que estão esquecidos e podem voltar em evidência.

Courtine (2014) destaca que os discursos se compreendem numa condição de produção, sim, aquilo que se defende como ideia parte de um sujeito, mas esse sujeito não está imóvel, ele depende de questões históricas, psicológicas e sociais para construir o seu discurso.

O caráter heterogêneo e instável da noção de CP de um discurso faz dela, nessa perspectiva, o lugar onde se opera uma psicologização espontânea das determinações propriamente históricas do discurso (o estado das contradições de classe em uma conjuntura determinada, a existência de relações de lugar a partir das quais o discurso é considerado, no centro de um aparelho, o que remete a situação de classe) que ameaça continuamente transformar essas determinações em simples circunstâncias em que interajam os “sujeitos do discurso”, o que equivale também a situar no “sujeito do discurso” a fonte de relações de que ele é apenas o portador ou o efeito (COURTINE, 2014, p. 51 – 52).

As condições de produção envolvem as relações do sujeito com aquilo que o cerca (questões sócio-históricas, a ideologia que o constitui enquanto sujeito). Além disso, a posição que o sujeito ocupa é fundamental para compreender os mecanismos pelos quais o seu discurso se inscreve. Não há, nos fundamentos da Análise do Discurso, uma teoria que busque analisar o sujeito empírico, mas a posição que ele ocupa dentro de uma dada ideologia. Essa fundamentação parte de Pêcheux e é trazida por Courtine na 3ª fase AD, em consonância com o pensamento de Foucault, que destaca a posição-sujeito justificada com base na FD em que esse sujeito se constituiu enquanto tal.

Como já vimos, a posição que o sujeito ocupa e a FD à qual ele se alia são importantes para compreender os efeitos de sentido de um discurso. Quando uma matéria é divulgada por um site, revista, blog, jornal etc., e sua materialidade passa por uma análise discursiva, ou seja, além dos aspectos da língua, é feita uma busca pelos efeitos de sentido,

pois ao se deparar com um discurso, cada sujeito tem uma interpretação a partir do lugar que ele ocupa.

A AD desconsidera que o sujeito seja dono do seu dizer, pois se vale da perspectiva de que o discurso se edifica nas relações e no interior das formações discursivas.

Vejamos, a partir da compreensão de que os discursos lutam em relações de poder, como a mídia atua estrategicamente para destacar seu discurso, enaltecer uma pessoa, defender uma ideologia – e, assim, é parcial.

Marcela Temer: bela, recatada e “do lar”

A quase primeira-dama, 43 anos mais jovem que o marido, aparece pouco, gosta de vestidos na altura dos joelhos e sonha em ter mais um filho com o vice

Figura 18: Bela, recatada e do lar.

“Bacharel em direito sem nunca ter exercido a profissão, Marcela comporta em seu curriculum vitae um curto período de trabalho como recepcionista e dois concursos de miss no interior de São Paulo (representando Campinas e Paulínia, esta sua cidade natal). Em ambos, ficou em segundo lugar. Marcela é uma vice-primeira-dama do lar. Seus dias consistem em levar e trazer Michelzinho da escola, cuidar da casa, em São Paulo, e um pouco dela mesma também (nas últimas três semanas, foi duas vezes à dermatologista tratar da pele)” (Revista Veja Online – Juliana Linhares).35

Com o título: “Bela, recatada e do lar”, a matéria divulgada pela Revista Veja foi alvo de muitos questionamentos e memes na internet, pois exaltava a personalidade de Marcela Temer como um exemplo a ser seguido pelas mulheres brasileiras.

O enunciado da revista se inscreve em uma FD machista, para fecundar nesse espaço o seu posicionamento. O uso do adjetivo “bela” enaltece a moça que é 43 anos

35 Manchete, figura e notícia – Revista Veja. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/brasil/marcela-temer-bela-recatada-e-do-lar/>. Acesso em: 7 jul. 2016.

mais jovem que seu marido36, “recatada”, aquela que fica em casa, não se exibe, não usa roupas sensuais e extravagantes, “aparece pouco, gosta de vestidos na altura dos joelhos” e, para finalizar a descrição de Marcela Temer, “do lar” aquela que cuida do marido, dos filhos, segue os paradigmas de uma família tradicional (discurso patriarcal) em: “e sonha em ter mais um filho com o vice”, reforçando uma memória discursiva que associa a mulher naturalmente à maternidade.

Ao descrever esse tipo de mulher dando-lhe atributos aprazíveis, esse discurso faz uma distinção, ou seja, há uma classificação do tipo de mulher que merece os olhares de respeito e admiração em oposição àquela que não merece. O texto não aponta todas as mulheres em diversas formas de atuação, mas há uma específica, a mulher determinada pelos moldes machistas: a donzela, a bela, a que protege e cuida da família. Não há uma mulher divorciada, que trabalha fora e que não tem tempo de cuidar da beleza – esse modelo feminino fica descartado do discurso de dominância que é empregado na materialidade dessa publicação.

Quando um discurso é colocado em circulação, entra nos jogos de poder nas instâncias discursivas, assim, há aceitação e/ou resistência sobre ele. Na reportagem, a FD patriarcal marca influência sobre os enunciados. Não há uma preocupação sobre a vida política da vice-primeira-dama, seus compromissos com o governo, o que interessa ao Brasil é saber da rotina de beleza, dos concursos de miss, de como Marcela cuida do lar.

Essa é função da mulher na política, estar como enfeite, porque o lugar a ser administrado pelo sujeito feminino é o lar.

O controle de sujeição acontece com base numa verdade que não provém da revista, mas da própria sociedade que defende que esse seja o padrão ideal de mulher - o discurso midiático articula as estratégias e o que é qualificável para ser publicado.

No entanto, é nesse efeito de impressão da liberdade, efeito ideológico, que, o sentido escapa, esvazia, deriva. [...] Assim, apesar da grande mídia, os manifestantes criam outras versões dos acontecimentos ao reporta-los e comentá-los na rede, em condições de produção digitais, atravessadas pecomentá-los sentidos do digital. Criam novos gestos de leitura dos fatos, muitas vezes divergindo da política editorial presente em grandes portais de notícias. Através desses gestos de leitura assumem uma posição-sujeito, inscrevendo-se assim em uma formação discursiva, projeção da ideologia (DIAS; COELHO, 2014, p. 238 - 239).

36 Ideal de beleza associado à juventude – toda mulher jovem é bela, portanto, toda mulher velha é feia.

Toda manifestação discursiva (texto, quadro, livro, música etc.) é carregada por forças ideológicas que atingem os sujeitos, ou seja, as forças internas e externas a ele colidem entre si. É por isso que cada sujeito tem uma leitura diferente da materialidade, e os sentidos se constroem tanto para a aceitação quanto para a resistência.

O sujeito que se vê representado na figura de Marcela Temer, como a “Bela, recatada e do lar”, aceita esse tipo de construção feminina como um modelo feminino na política, e toma para si essa matéria como algo agradável e respeitado. Entretanto, existem outros tipos de leitura dessa materialidade, a FD feminista rebate esse molde de mulher e novos discursos se constroem a partir do: “bela, recatada e do lar”.

As manifestações na mídia demonstram que os sujeitos se utilizam dos discursos constituídos, de um “já-dito”, por uma formação discursiva, no caso da nossa análise:

“bela, recatada e do lar” (cuja materialidade traz aspectos de uma FD machista) e se apropriam desse objeto acrescentando a ele manifestações de outras FDs.

O enunciado “bela, recatada e do lar” aciona um pré-construído, um já-dito, que é exterior a essa matéria. Portanto, a revista Veja não traz a priori esse discurso, ela reforça seu discurso sobre um objeto já existente na FD machista.

O processo de assujeitamento acontece pela identificação, que um determinado sujeito tem com o discurso que é manifestado, ou seja, os processos sócio-históricos e psicológicos vão determinar a posição-sujeito.

A articulação de enunciados. O interdiscurso, enquanto lugar de constituição do pré-construído, fornece os objetos dos quais a enunciação de uma sequência discursiva se apropria, ao mesmo tempo que (ele) atravessa e conecta ente si esses objetos; o interdiscurso funciona assim, como um discurso transverso, a partir do qual se realiza a articulação com o que o sujeito enunciador dá coerência “ao fio de seu discurso”: o intradiscurso de uma sequência discursiva aparece nessa perspectiva como um efeito do interdiscurso sobre si próprio (COURTINE, 2014, p. 75).

Todo discurso está no meio de jogos de poder e sujeito a indagações, pois é atravessado pelo interdiscurso, ou seja, um enunciado será reestruturado, modificado, esquecido, questionado, pois busca fazer do seu discurso, um discurso de primazia.

Rebater o enunciado “bela, recatada e do lar” foi um discurso de resistência também veiculado nas redes sociais – surgiram memes, hashtags, publicações de outros veículos midiáticos em conflito a esse posicionamento divulgado pela Veja.

Figura 19: O protesto - #belarecatadaedolar.37

Uma internauta, ao utilizar a hashtag #belarecatadaedolar, rebate esse discurso, porque se inscreve em outra FD, portanto, manifesta aliança a uma posição social que não se adequa aos moldes construídos de mulher tradicional, exaltados não somente pela revista, mas por toda uma sociedade que se constituiu com base em um discurso machista.

Encontramos, na materialidade desse discurso de resistência, o seguinte enunciado:

“O protesto #belarecatadaedolar não é contra mulheres que escolhem uma vida tradicional” – ao analisarmos esse enunciado, deparamo-nos com marcas de uma FD feminista a partir da expressão “não é contra mulheres”. A expressão pode produzir efeitos de sentido que se aliam às bases do movimento feminista, ou seja, o sujeito feminino pode ser o que ele quiser (do lar, do bar, da rua, da escola, da empresa etc.). Além disso, a internauta acrescenta: “É contra a ideia de que só essas mulheres têm valor” – enquanto sujeito interlocutor da matéria, ela chama os olhares da sociedade aos outros sujeitos femininos (mães, filhas, prostitutas, presidenta, mulher divorciada), pois a revista assume um discurso de que somente o modelo Marcela Temer (donzela) deve ser visto como padrão e de prestígio.

Ao ser capaz de criar conteúdo, produzindo sentidos acerca dos acontecimentos, deixando de ser apenas consumidores de notícias e passando a ser também produtores em rede, a relação de poder entre os sujeitos e os canais de notícia muda. Os sentidos produzidos por esses sujeitos reverberam, produzindo deslocamentos na rede de constituição dos sentidos, mas também na rede de atualização da tela (DIAS; COELHO, 2014, p. 239).

O espaço midiático e a evolução da internet permitiram aos sujeitos se expressarem em um campo de grande visibilidade, dessa forma, possibilitou a conexão e o

37 Disponível em: <https://www.obaoba.com.br/comportamento/noticia/10-provas-de-que-voce-definitivamente-nao-e-bela-recatada-e-do-lar>. Acesso em: 20 jun. 2016.

compartilhamento dos discursos de maneira rápida – antes da era digital, os interlocutores expressavam-se por cartas do leitor, as quais eram selecionadas para a publicação. Hoje, esse espaço de lutas ainda é controlado, entretanto, refrear a veiculação de variados discursos (dos interlocutores) é uma luta incansável e interminável no campo discursivo.

Da forma como pontuamos, a mídia dá a ver, a partir de seu discurso, sua inscrição em uma FD determinada, carrega o prestígio de informar o verdadeiro, no entanto, os discursos circulam e é impossível controlar seus efeitos de sentido – cada leitor vai reagir de um determinado modo frente à materialidade. No exemplo da reportagem “Bela, recatada e do lar” pudemos analisar que este enunciado produz efeitos de aceitação e/ou rejeição por parte dos sujeitos e se refletem na construção dos sentidos, os quais são dados a partir das concepções históricas e sócias que provem do núcleo das FDs.

4.5 A PRIMEIRA-DAMA E O SEU PRIMEIRO DISCURSO ENQUANTO