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2 A MARCHA DAS MARGARIDAS É NOTÍCIA? REFLEXÕES ACERCA DO

3.4 HETEROGENEIDADE DO DISCURSO

3.4.1 Discurso relatado

Relatar um discurso consiste em dizer aquilo que outra pessoa falou. É uma estratégia muito comum no discurso jornalístico. Em nome da imparcialidade, o jornalista-locutor dá voz a outras vozes em seu enunciado. O jornalista-locutor assume, com frequência, ao menos no gênero informativo, o papel de mediador do fato noticiado. Não toma posição, não participa do acontecimento. Por isso, seleciona pessoas que podem comentar o fato por ele. Isso, muitas vezes, gera uma relação ambivalente, já que é comum o jornalista procurar fontes para legitimar o que gostaria de enunciar, mas coloca a responsabilidade deste enunciado para outrem. É, pois, um dito sobre outro dito.

Assim, a palavra do outro está sempre presente em todo ato de enunciação de um sujeito falante, instituindo um ‘dialogismo’ permanente entre o outro e o sujeito que fala, fazendo de todo discurso um discurso heterogêneo por definição, uma vez que se compõe freqüentemente ‘dos traços das enunciações do outro’. A palavra do outro aparece, entretanto, sob diferentes formas, de maneira mais ou menos explícita, com significações diversas, daí por que seja necessário distinguir diferentes tipos de heterogeneidade, dentre os quais o ‘discurso relatado’. (CHAURAUDEAU, 2009, p. 161).

Tuchman (1976/1999) identifica a colocação de aspas judiciosas como o terceiro dos quatro procedimentos utilizados para obtenção da objetividade.

Os jornalistas vêem as citações de opiniões de outras pessoas como uma forma de prova suplementar. Ao inserir a opinião de alguém, os jornalistas acham que deixam de participar da notícia e deixam os fatos falar. O uso de citações faz desaparecer a presença do jornalista (TRAQUINA, 2005, p. 140).

Dad Squarisi (2005, p. 36) ensina que “palavras, opiniões e declarações alheias podem ser transcritas literalmente ou não”. No CB, esse enunciado de outro, se ipis literis, devem vir entre aspas. Essa marca gráfica – assim como o travessão, os dois pontos – tem grande interesse para a AD, pois está ligada ao caráter de imprevisibilidade do dito e possuem relação

com o implícito. “Colocar entre aspas não significa dizer explicitamente que certos termos são mantidos à distância, é mantê-los à distância, e realizando este ato, simular que é legítimo fazê-lo” (MAINGUENEAU, 1997, p. 90).

Outra marca discursiva comum nas matérias jornalísticas é a reprodução do discurso

por meio de uma citação indireta. Esse fenômeno está fortemente ligado ao da polifonia37, em

que estão presentes outras vozes, além daquela do locutor. É possível perceber essas vozes por meio da colocação de verbos discendi e da própria sintaxe da frase, em geral na ordem indireta. Squarisi (2005) divide os verbos em categorias de dizer e sentir. Os do dizer estão divididos em nove áreas semânticas:

De dizer: afirmar, declarar; De perguntar: indagar, interrogar; De responder:

retrucar, replicar; De contestar: negar, objetar; De concordar: assentir, anuir; De

exclamar: gritar, bradar; De pedir: solicitar, rogar; De exortar: animar, aconselhar; De ordenar: mandar, determinar; (SQUARISI, 2005, p. 37).

Já os verbos de sentir exprimem não uma ação, mas um sentimento, um estado de espírito, uma reação psicológica. É o caso de gemer, suspirar, lamentar, explodir (ibid). A escolha desses verbos tem implicações sobre o valor de verdade daquilo que está sendo relatado, alguns indicam posição cronológica, outros uma hierarquia. Seguindo a proposta de Squarisi, verbos utilizados para designar as ações e os sentimentos expressos no corpus de

análise foram38:

Tabela 2 – Verbos de dizer, verbos de sentir

Título da Matéria Verbos de dizer Verbos de sentir

Mulheres lutam por

direitos iguais

Explicou, explicou Lamenta, lembra,

comemora, lembra Mulheres têm o comando

do campo

Promete, reclamam,

reivindicam, diz, justifica

pretende

Mulheres contra a

violência

Invadiram, pedir, berrava, anunciou, disse, afirmou, reclamou, disse, conta, disse (revoltada), assegura.

Esperava, queixava-se.

37 O fenômeno da polifonia é muito importante para se tratar da heterogeneidade do discurso. Esta noção

aparecerá em outras categorias da heterogeneidade tratadas aqui. A polifonia diz respeito a outros discursos, a outras vozes, dentro do enunciado. Ao falar, a pessoa pensa ser sujeito daquilo que diz, contudo, os enunciados estão inscritos na história e a pessoa é tomada pelo discurso e não o contrário (MAINGUENEAU, 1997, p. 75- 77).

38 Como o dito relatado é uma forma mais utilizada pelo gênero informativo, em reportagens e notícias,

excluímos desse recorte ora apresentado, as inserções que se encaixam no gênero opinativo e os destaques de capa e de índice.

No caso da matéria Mulheres lutam por direitos iguais, de Freddy Charlson, o verbo explicou aparece para designar o relato de dois ditos: um de uma estudante, outro da pesquisadora Lia Zanotta. Para identificar a fala da líder sindical feminista Raimunda Celestina, o jornalista utiliza apenas verbos de sentir. Isso evidencia um processo subjetivo de desvalorização do lugar de fala de lideranças feministas. Situação semelhante não ocorre na matéria de Marina Oliveira, Mulheres têm o comando do campo, em que a maior parte dos verbos utilizados para designar as ações das trabalhadoras rurais se encaixam na categoria do dizer.

Na matéria Mulheres contra a violência é possível perceber uma tendência com viés sexista na escolha dos verbos selecionados. Para relatar a fala das manifestantes, o jornalista utiliza queixar e berrar. A fala das mulheres não tem valor de opinião, evidenciam que as mulheres reclamam e gritam. A escolha desses verbos remete a representações sobre as mulheres muito presentes no discurso médico do século XIX em que as mulheres eram tradadas na psicanálise como histéricas. Sobre a organização do evento, o verbo esperava é selecionado para designar a quantidade de pessoas reunidas. Essa escolha expõe fragilidades e procura desvalorizar a mobilização feminista, que teve sua expectativa de público frustrada.

A mesma desvalorização não é notada para designar a fala de homens. Os ditos relatados do presidente Lula demonstram assertividade: anunciou, disse, afirmou. Já na parte da matéria que trata do trânsito os verbos utilizados para relatar os ditos também colocam os homens em posições mais equilibradas e determinadas. O funcionário público reclamou, o motorista de ônibus disse e contou, o gerente de fiscalização do Detran assegurou. Já a bancária Celeste se disse revoltada. A única pessoa que teve o estado de espírito adjetivado.