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4. O ALCANCE DA UNIVERSALIDADE NA SEGURIDADE SOCIAL A PARTIR DA

4.1 Discussão do Valor do BPC e Primado do Trabalho:

A Constituição de 1988 instituiu a seguridade social como um sistema

para que seus três elementos (saúde, previdência social e assistência social) atuem

de forma coordenada e promovam a cobertura universal das situações que causam

vulnerabilidade social.

A saúde, conforme visto no item 1.3.4 do capítulo 1, é direito de todos e

dever do Estado, garantindo-se o caráter universal e igualitário, com prioridade para

as políticas de prevenção. Verifica-se que o subsistema saúde proporciona serviços

que são usufruídos por todos, nos termos do artigo 196 da Constituição de 1988.

Os outros dois subsistemas – previdência e assistência – são dotados de

benefícios e serviços que visam à proteção dos trabalhadores e seus dependentes

e daqueles que estão em situação de pobreza ou extrema pobreza,

respectivamente.

A proteção se faz necessária a partir do momento em que um dos

subsistemas de seguridade social – a previdência – não protege a todos os

cidadãos, já que possui caráter contributivo e nem todas as pessoas se encontram

no exercício da atividade laborativa, ou, mesmo que estejam trabalhando, estão

com condições precárias de vida (pobreza, informalidade, miséria) ou se trata de

trabalho voluntário e, por isso, não contribuem.

Os benefícios da previdência social são classificados como substitutivos

ou não substitutivos de remuneração. Aqueles não podem ser inferiores ao salário

mínimo, no termos do artigo 201, § 2º, da Constituição de 1988. Os demais têm

natureza indenizatória ou de auxílio.

Além da quantia mínima, existe um limite máximo de valor de benefício

que é o teto da previdência social, cujo valor, para o ano de 2016, é de R$

5.189,82. Isso porque a previdência obrigatória protege até um determinado valor.

Acima do citado limite, a proteção é concedida facultativamente por meio da

previdência complementar, conforme já referido no primeiro capítulo, item 1.3.4,

deste trabalho.

A atual Constituição prescreve o que deve ser protegido quando

estabelece a cobertura devida pelo salário-mínimo, pago em razão do exercício do

trabalho. Segundo o preceito constitucional do artigo 7º, inciso IV,

182

a remuneração

mínima deve atender às necessidades essenciais da pessoa que o recebe, bem

como de sua família. É por essa razão que os benefícios previdenciários não

podem ter valor inferior ao mínimo, quando substitutivos da remuneração do

trabalhador, o que ocorre com a maior parte deles

183

.

182

Artigo 7º: São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria

de sua condição social: [...] IV – salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de

atender a suas necessidades básicas e às de sua família como moradia, alimentação, educação,

saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe

preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim.

183

São eles: aposentadoria por idade, aposentadoria por tempo de contribuição, aposentadoria por

invalidez, aposentadoria especial, auxílio-doença, salário-maternidade, auxílio-reclusão,

seguro-desemprego.

De acordo com dados do Boletim Estatístico da Previdência Social

(PREVIDÊNCIA, 2016)

184

, que traz resultados do Regime Geral de Previdência

Social até novembro de 2016, 29.132.623 pessoas receberam benefícios

previdenciários e acidentários e 4.561.659, benefícios assistenciais

185

.

A previdência social, além de pagar seus próprios benefícios, é

responsável pelo pagamento do benefício de prestação continuada da assistência

social. A previdência paga 22,3 milhões de benefícios no valor de um salário

mínimo, o que corresponde a 66,3% de benefícios pagos

186

. Deve-se levar em

consideração que esses benefícios são concedidos, de um lado, para os segurados

do Regime Geral de Previdência Social, como contrapartida dos valores pagos a

título de contribuição social, haja vista tratar-se de seguro social. Isso quer dizer

que o trabalhador passa todo o tempo de atividade laborativa contribuindo para ter

direito a um benefício que, na sua maioria, conforme dados citados acima, é no

valor de um salário mínimo.

De outro lado, tem-se o benefício assistencial de prestação continuada

no valor de um salário mínimo (inciso V do artigo 203 da Constituição), também

pago pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), devido ao idoso ou à pessoa

com deficiência que não tenha meios de prover a própria subsistência, nem de tê-la

provida por sua família, independentemente do pagamento de contribuição à

seguridade social.

O valor do benefício assistencial, que é devido sem exigir qualquer

contribuição, é igual ao piso estipulado para a previdência social do segurado, que

tem que contribuir por, no mínimo, 15 anos (período de carência – 180

contribuições mensais) para ter acesso à prestação econômica previdenciária.

Verifica-se que o sistema brasileiro de seguridade não se coaduna com o modelo

184

Disponível em:

<http://www.previdencia.gov.br/a-previdencia/politicas-de-previdencia-social/resultados-do-rgps/>. Acesso em: 15 dez. 2016.

185

Desse total de benefícios assistenciais, 4.399.186 pessoas recebem benefício de prestação

continuada da assistência social.

186

Dados apurados até novembro de 2016. Disponível em:

<http://www.previdencia.gov.br/a-previdencia/politicas-de-previdencia-social/resultados-do-rgps/>. Acesso em: 15 dez. 2016.

proposto por Beveridge, no sentido de que viabiliza a concessão de benefício

assistencial com valor igual ao piso da previdência social (um salário mínimo),

contrariando o que o Relatório Beveridge previu: a proteção da assistência nacional

tem que ser menos desejável que o seguro (BEVERIDGE, 1943, p. 219).

Como a assistência social tem caráter subsidiário, de acordo com a

forma pela qual foi inserida no sistema de seguridade social, desarrazoada a

igualdade estabelecida pelo constituinte que previu valor do benefício de prestação

continuada igual ao piso da previdência social, uma vez que a assistência pública

deveria, nessa prestação econômica, de acordo com o relatório mencionado no

parágrafo anterior, proporcionar proteção menor que o seguro social, com vistas a

não desestimular a contribuição que é peculiar à previdência social.

Dessa forma, o idoso ou a pessoa com deficiência, na condição de

necessitado, será amparado pela assistência social via benefício de prestação

continuada no valor de um salário mínimo, sem que tenha vertido qualquer

contribuição direta para o sistema de seguridade social.

Conforme mencionado anteriormente, essa proteção assistencial, de

acordo com o Relatório Beveridge, não deveria concorrer com os benefícios da

previdência social e, por essa razão, a assistência social assume papel subsidiário,

e, com isso, o valor dos benefícios decorrentes dos programas de transferência de

renda não pode ser igual àquele aplicado como piso para os beneficiários da

previdência social.

A concorrência dos valores do piso da previdência social e do benefício

assistencial de prestação continuada fere o norte da subsidiariedade e, portanto, é

de se considerar que o inciso V do artigo 203 da Constituição, quando prevê o valor

de um salário mínimo a ser pago ao idoso ou à pessoa com deficiência que

demonstre não possuir meios de prover sua subsistência ou de tê-la provida por

sua família, deveria ser considerado como inconstitucional, visto que a supracitada

concorrência descaracteriza a essência da assistência social preconizada no

Relatório Beveridge e impede que a previdência social e a assistência social

assumam os papéis para os quais foram designados pelo constituinte.

Com essa possibilidade de concorrência de valores entre esses dois

subsistemas, há, na verdade, uma falta de estímulo, principalmente ao trabalhador

de baixa renda ou autônomo, para recolher a contribuição social devida, uma vez

que, se o mesmo passar toda sua vida laborativa sem contribuir, terá direito, ao

completar 65 anos (homem ou mulher), a um benefício no mesmo valor que

receberia se tivesse contribuído por todo o período em que trabalhou.

Não se pode olvidar que, diante dos argumentos antes expendidos,

verifica-se que o constituinte originário inseriu duas disposições (§ 2ºdo artigo 201

e artigo 203, inciso V) que se chocam, na medida em que, diante do modelo de

proteção social adotado – sistema de seguridade social –, a cobertura da

assistência pública deveria ser menos desejável que a proteção mínima devida pelo

seguro social.

Essas duas regras, em vez de se complementarem, colidem e à relativa

à assistência social (artigo 203, inciso V) contraria o conteúdo constitucional no que

tange à não observância do princípio da subsidiariedade. Entretanto, essa

inconstitucionalidade nunca foi suscitada e, mesmo que tivesse sido, o Supremo

Tribunal Federal, em sede da ADI n. 815-3/DF, decidiu que, por ser a Constituição

de 1988 classificada como rígida, não permite a hierarquia de normas

constitucionais originárias e, portanto, não é concebível a declaração de

inconstitucionalidade de normas originárias.

Mesmo a partir desse entendimento da Suprema Corte e com o objetivo

de solucionar a problemática da atuação assistencial pela via do benefício de

prestação continuada, insta constar que o inciso V do artigo 203 da Constituição, ao

prescrever benefício no valor de um salário mínimo, desestimula a formalização no

mercado de trabalho, viola o princípio da subsidiariedade e, por isso, está eivado de

vício material, pois fere conteúdo constitucional.

Entretanto, conforme mencionado anteriormente, ao se apresentar a

Constituição como rígida, não há que aceitar a declaração de inconstitucionalidade

de norma originária

187

. Com isso, no intuito de sanar esse conteúdo avesso à

essência da Constituição referente à seguridade social, vislumbram-se duas saídas:

a tentativa de harmonização dessas normas por intermédio de uma interpretação

sistemática, visto que não existe hierarquia entre as normas constitucionais; ou

alteração do texto constitucional para viabilizar a efetiva concretização de

mencionado sistema, adequando a norma conflitante à configuração prescrita na

própria Constituição.

Diante dessa impropriedade constitucional mencionada acima, a PEC n.

287/2016 vem propor alteração nos requisitos para ter acesso ao benefício de

prestação continuada da assistência social, o que ratifica o que foi antes defendido,

ou seja, necessidade de mudança do conteúdo constitucional, visto que o inciso V

do artigo 203 da Constituição, ao prescrever concessão de benefício no valor de um

salário mínimo para o idoso ou para pessoa com deficiência, promove uma

concorrência entre este e os benefícios previdenciários substitutivos de

remuneração e isso fere a lógica do sistema de seguridade social, uma vez que

distribui os papéis entre os subsistemas, não levando em consideração o caráter

subsidiário da assistência social.

187

Para aprofundar sobre as normas constitucionais inconstitucionais, interessante a leitura da obra

de Otto Bachof – Normas constitucionais inconstitucionais?, indicada nas referências desta tese, que

defende a existência de hierarquia entre as normas constitucionais, e que a possibilidade de

considerar normas constitucionais inconstitucionais se relaciona ao conceito de Constituição, bem

como o poder constituinte que lhe deu origem. Isso porque referido autor defende que existe uma

ordem supralegal (Direito Natural) que limita a atuação do poder constituinte originário e, se este não

respeita as normas oriundas do direito natural, pode incorrer no erro de inserir na Constituição

normas conflitantes que não são passíveis de harmonização. Ainda afirma que o direito supralegal

quando positivado, pertence à Constituição e desta forma não pode ser violado. No que tange ao

direito supralegal não positivado, indaga-se se este faz parte ou não do conteúdo da Constituição. E,

neste sentido, necessário notar que há princípios que não escritos na Constituição, mas que devem

ser observados no âmbito do direito supralegal: princípio da razoabilidade, princípio da

subsidiariedade, por exemplo.

A partir de referida proposta de emenda à Constituição, o valor do

benefício devido ao idoso ou à pessoa com deficiência será o definido em lei,

188

e

não mais o de um salário mínimo, conforme consta na redação atual da

Constituição de 1988.

A atuação do legislativo, no sentido de definir o novo valor do benefício

de prestação continuada, permite que este não concorra com o piso da previdência

social, que é de um salário mínimo. Isso viabilizará que a assistência social, no que

tange ao citado benefício, cumpra efetivamente o seu caráter subsidiário e os

trabalhadores (de baixa renda ou mesmo autônomos) não se sintam

desestimulados a recolher a contribuição devida, uma vez que, com essa alteração

constitucional, não haverá benefício da assistência social (devido sem necessidade

de contribuição) no mesmo valor que o piso da previdência social e, por isso, não

há que se falar em concorrência entre as prestações econômicas da previdência

social e da assistência social.

4.2 A Proteção Assistencial do Estrangeiro Fundamentada no Princípio da