2.5 Função do Princípio da Subsidiariedade 93
3.2.1 Benefício de Prestação Continuada
3.2.1.3 Requisitos para concessão
De acordo com o artigo 20 e parágrafos da Lei n. 8.742/93, para que a
pessoa tenha acesso ao benefício de prestação continuada é necessário que
preencha alguns requisitos. São eles: ser idoso (65 anos de idade) ou pessoa com
deficiência (aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental,
intelectual ou sensorial), ter renda per capita familiar inferior a ¼ de salário-mínimo
e não ter outra renda oriunda da seguridade social ou de outro regime, salvo os de
assistência médica e da pensão especial de natureza indenizatória.
Num primeiro momento, é necessário mencionar que o Supremo Tribunal
Federal considerou, em sede da decisão da ADI n. 1232/1998, que todos os
requisitos devem ser cumpridos cumulativamente
140, isso quer dizer que o
requerente só teria acesso à prestação assistencial se, e somente se, preenchesse
todos eles simultaneamente.
O primeiro dos requisitos está relacionado à sujeição ativa do benefício.
Assim, somente o idoso ou a pessoa com deficiência poderão requerer referida
prestação. O idoso, para fins de concessão do benefício de prestação continuada, é
torna desnecessária a comprovação da deficiência. (fls.20) A renda familiar da requerente,
segundo o estudo social de fls. 77/80, é de R$ 1.970,00 (mil, novecentos e setenta reais), total
referente à aposentadoria do esposo e salário do filho, montante que deve ser rateado entre os três
residentes no imóvel. Com efeito, considerando o valor mínimo essencial de acordo com o
cálculo do DIEESE, conclui-se que a família da requerente insere-se em situação financeira
absolutamente desfavorável. Desse modo, preenchidos os requisitos legais, de rigor a
procedência do pedido da inicial” (BRASIL. Processo n. 0001864-44.2014.8.26.0629. Disponível em:
<http://esaj.tj.sp.jus.br/cpopg/show.do?processo.codigo=HH00004EZ0000&processo.foro=629&uuid
Captcha=sajcaptcha_c67d00e838f0437381b085cfacc3281c>. Acesso em: 02 set. 2016) (grifos não
existentes nos originais).
140
Exceto o primeiro requisito, que se refere à sujeição ativa do benefício: ou o idoso, ou a pessoa
com deficiência tem direito ao benefício de prestação continuada.
aquele que tem mais de 65
141anos de idade, de acordo com o artigo 34 do Estatuto
do Idoso e artigo 20 da Lei n. 8.742/93, alterado pela Lei n. 12.435/2011.
Mesmo que o Estatuto do Idoso estabeleça, no seu artigo 1º, a definição
de idoso para fins de proteção a partir da respectiva legislação específica, esta é
clara no artigo 34, fazendo referência a uma idade maior no que tange ao benefício
assistencial de prestação continuada. Observa-se, com isso, que a própria
legislação que visa a proteger o idoso
142estabelece dois conceitos de idoso que
estão relacionados ao critério cronológico, deixando de lado, para fins legais, os
demais critérios
143.
Na verdade, deve-se levar em consideração o critério que mais atende
às necessidades da pessoa idosa e esta merece uma atenção especial pelo
Estado, visto que já se encontra numa situação de vulnerabilidade pelo fato de ter
idade avançada, decorrente do desgaste que é peculiar a esse momento da vida.
Além disso, há que se fazer referência à vulnerabilidade social, que deve ser
constatada para aquele que é merecedor da proteção assistencial por parte do
Estado, quando ele próprio ou sua família não têm condições de prover o seu
sustento.
141
Importante anotar que hoje tramita no Congresso Nacional a PEC n. 287/2016, que visa a
promover a reforma da previdência social. Nessa proposta de reforma, contemplaram-se algumas
mudanças no benefício de prestação continuada da assistência social, em razão do impacto dessa
prestação econômica no orçamento da seguridade social. Uma das propostas é no sentido de
aumentar a idade para percepção do benefício assistencial de prestação continuada para 70 anos
(artigo 1º, parte final, da PEC).
142
Para Simone de BEAUVOIR (1990, p. 33-35), “no homem, o que caracteriza fisiologicamente a
senesciência é o que o Doutor Destrem chama ‘uma transformação pejorativa dos tecidos’. A massa
dos tecidos metabolicamente ativos diminui, enquanto aumenta a dos tecidos metabolicamente
inertes [...]. A aparência do indivíduo se transforma e permite que se possa atribuir-lhe uma idade,
sem muita margem de erro. Os cabelos embranquecem e se tornam rarefeitos [...]. O coração não
muda muito, mas seu funcionamento se altera; perde progressivamente suas faculdades de
adaptação [...]. O sistema circulatório é atingido [...]”.
143
Para Norberto Bobbio (1997, p. 17), há três critérios que trazem o conceito de idoso. São eles:
cronológico, psicobiológico e econômico-social. Para o primeiro critério o idoso é aquele que tem
uma idade avançada e as leis estipulam qual é essa idade. O Estatuto do Idoso, no Brasil, utilizou o
critério cronológico para definir idoso. O critério psicobiológico leva em consideração uma análise
individualizada do idoso. Isso quer dizer que a idade não importa para esse critério, já que o
condicionamento psicológico e fisiológico é que o definem. Por último, tem-se o critério
econômico-social, que está relacionado à hipossuficiência da pessoa, ou seja, quanto maior sua necessidade,
maior é a proteção devida.
Assim, o indivíduo, na qualidade de idoso e na condição de necessitado
socialmente, por disposição legal, é penalizado duplamente: pelo fato de estar na
condição de pessoa idosa (65 anos) e pela imposição da prova da condição de
necessitado, sob pena de não ter acesso ao benefício.
Em relação à pessoa com deficiência, deve-se aferir não mais a
incapacidade para a vida independente e para o trabalho
144, e sim o impedimento
de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em
interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva
na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas (artigo 20, §
2º,
145da Lei n. 8.742/93). Essa análise deve ser feita mediante perícia médica do
INSS – Instituto Nacional do Seguro Social.
Vê-se que a proteção da pessoa com deficiência pela assistência social
tem por objetivo o amparo daquele que fosse acometido de tal deficiência que o
excluísse da fruição das oportunidades oferecidas pela sociedade e pelo Estado, e
não uma pessoa que se encontrasse numa condição em que não teria como
desempenhar qualquer atividade diária, sem que houvesse uma pessoa o
ajudando.
Com a atual redação do Estatuto da Pessoa com Deficiência, que alterou
o § 2º do artigo 20 da Lei n. 8.742/93, leva-se em consideração o impedimento de
longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial e, por tal, entende-se
aquele que produz efeitos pelo prazo mínimo de dois anos (artigo 21 de referida lei).
Isso quer dizer que, ao final desse período, o INSS deverá reanalisar as condições
que ensejaram a concessão inicial do benefício de prestação continuada e, se elas
permanecerem, mantém-se o benefício por igual prazo, caso contrário, cancela-se o
mesmo.
144
O INSS, ao analisar a condição do deficiente sob a vigência da antiga redação (antes de 6 de
julho de 2015, quando foi publicado o Estatuto da Pessoa com Deficiência – Lei n. 13.146/2015),
estava considerando que, para que houvesse a concessão do benefício, seria necessário que a
deficiência fosse de tal monta que a pessoa deveria estar em estado vegetativo para fazer jus ao
benefício. Nesse momento, considerava-se o fator gerador do benefício a incapacidade para vida
independente e para o trabalho.
Até a edição da Lei n. 12.470/2011, a pessoa com deficiência não
poderia exercer atividade laborativa e, se o fizesse, teria seu benefício cancelado.
Com o acréscimo do artigo 21-A à Lei n. 8.742/93, ocasionado pela norma
inicialmente citada, viabilizaram-se duas situações em que a pessoa com
deficiência pode exercer atividade laborativa sem que seu benefício seja
cancelado
146.
Outro requisito a ser analisado para aferição do direito ao recebimento do
benefício de prestação continuada é o de que o requerente não pode receber
benefício decorrente de regime de proteção social. Isso foi exigido porque o
mencionado benefício é devido à pessoa que comprove a necessidade, ou seja,
que não tenha exercido uma atividade laborativa ou mesmo que a tenha
desenvolvido, não tenha contribuído o suficiente para ter a proteção previdenciária.
Diante disso, proíbe-se que esse indivíduo que percebe benefício decorrente da
seguridade social ou qualquer outro regime de proteção social tenha acesso ao
benefício de prestação continuada.
Por último, o requisito de cunho relevante na análise das condições que
ensejam o benefício de prestação continuada e que já foi amplamente abordado no
item anterior, qual seja, o conceito de necessitado. Este, nos ditames do inciso V do
artigo 203 da Constituição de 1988, é aquele que não tem condições de prover a
própria subsistência, nem de tê-la provida por sua família. De acordo com a lei (art.
20, § 3º, da Lei n. 8.742/93), o necessitado é aquele cuja renda per capita familiar é
inferior a ¼ de salário-mínimo
147. Isso quer dizer que, no estrito termo da lei, para
146
Essas situações fizeram surgir o Programa BPC Trabalho, que será analisado no tópico seguinte
(3.2.1.4).
147