1.2.1.2. A Saúde dos Portugueses numa Perspetiva Global 25
1.2.1.2.3. Disponibilidades Alimentares e Nutricionais 36
Os dados para a vigilância nutricional podem ser obtidos através da recolha direta, por avaliação da ingestão alimentar de grupos populacionais, ou indiretamente, através da avaliação de disponibilidades alimentares. A realização de Inquéritos Alimentares (IA) de âmbito nacional é a abordagem mais adequada para se conhecer a adequação alimentar/nutricional da ingestão. No entanto, a complexidade do processo de avaliação de amostras representativas da população aumenta o respetivo custo, pelo que se recorre frequentemente a dados indiretos, tal como os das Balanças Alimentares (BA), que avaliam a disponibilidade alimentar de um país num determinado período de tempo (habitualmente um ano civil). São ainda importantes os Inquéritos aos Orçamentos Familiares (IOF), que avaliam a disponibilidade alimentar através da análise da situação real das famílias no que diz respeito às despesas, aos rendimentos e às condições de vida.(87).
Portugal ainda carece de dados relacionados com a alimentação, recolhidos a nível nacional; em resultado, a informação neste domínio é fornecida pelos IOF e pela Balança Alimentar Portuguesa (BAP). Esta é sem dúvida uma forte limitação quando se pretende identificar associações entre a ingestão de alimentos, bem como avaliar o
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estado nutricional e de saúde, e prejudica a definição de políticas nacionais neste domínio (87).
Foi em 1980 que se realizou pela primeira vez em Portugal um IA de âmbito nacional, tendo a informação sido obtida através de um registo alimentar. Verificou-se então que os indivíduos apresentavam valores médios de ingestão energética de 2436 kcal/dia (55,2% provenientes de HC, 33,7% de lípidos e 12,8% de proteínas). Em 2009, foi realizado o estudo com representatividade nacional designado Alimentação e Estilos de Vida da População Portuguesa (88); este revelou que em média os adultos ingeriam 1949 kcal, 86 g de proteínas, 210 g de HC e 64 g de lípidos, uma contribuição respetiva de 19%, 46% e 31% para o valor energético total, contribuindo o etanol com 4% (89). Neste estudo Poinhos et al. verificaram que o fator mais indicado
como tendo influência na saúde foi a alimentação (56,8%) (90). Mais recentemente, em
2015, foi iniciado o 2.º Inquérito Alimentar Nacional e de Atividade Física (91-94).
Na ausência de um IA nacional recente, recorre-se a disponibilidades para se inferir consumos alimentares, sendo estes dados de disponibilidades organizados em BA. Contudo, o consumo real de determinado alimento poderá diferir consideravelmente das suas disponibilidades alimentares, podendo haver sobrestimação ou subestimação dos dados, sobretudo em relação a alguns alimentos específicos, já que a produção familiar e o autoconsumo, situações comuns nas zonas rurais, não são incluídos nas estatísticas (95). Outra limitação inerente à utilização das BA para a
caracterização da situação alimentar de qualquer país é não permitirem distinções regionais, já que se referem a dados nacionais; para além disso, não distinguem os diferentes grupos etários ou socioeconómicos (96). Pese embora as suas limitações, constituem uma importante ferramenta para recolha de informação sobre a situação alimentar dos países, sobretudo na ausência de IA nacionais periódicos aos hábitos alimentares. As BA são pois um importante instrumento para a delineação de estratégias na área da alimentação e nutrição, até porque permitem também analisar as principais tendências temporais (96).
O relatório da Fundação Calouste Gulbenkian, de 2013, O Futuro da Alimentação ambiente, saúde e economia, (97), ciente da importância do conhecimento da situação
alimentar da população, recomenda um melhoramento da base de informação sobre a alimentação dos portugueses (98).
Portugal dispõe de dados anuais sobre a disponibilidade alimentar, que foram até ao momento organizados em quatro BAP: a primeira referente ao período de 1980-1992; a segunda referente a 1990-1997; a terceira referente a 2003-2008 e a última referente
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a 2008-2012 (99-102). A BAP utiliza dados globais obtidos pela contabilização da
disponibilidade de alimentos para consumo humano per capita, bem como de energia e macronutrientes, calculados com recurso à tabela de composição dos alimentos (103).
Ao longo do tempo, temos assistido a alterações na disponibilidade de produtos alimentares (104). Acentuaram-se os desequilíbrios alimentares dos Portugueses, que
são o reflexo de uma disponibilidade excessiva de calorias.
A última Balança Alimentar Portuguesa (BAP), referente ao período 2008-2012, revelou uma disponibilidade energética diária média per capita de 3 963 kcal (+2,1% que no período 2003-2008), o que permite satisfazer as necessidades de consumo de 1,6 a 2 adultos, tendo por base o aporte energético médio diário recomendado. Contudo, ao longo deste período, verificou-se um decréscimo médio anual de 0,7% no total de energia apurada, sendo 3 882 kcal em 2012 (102). A comparação da distribuição
das disponibilidades diárias per capita da BAP com o padrão alimentar preconizado pela Roda dos Alimentos (105) continuou em 2012 a evidenciar distorções, apontando
para excesso de produtos alimentares dos grupos “Carne, pescado e ovos”, e “Óleos e Gorduras” e défice em “Hortícolas”, “Frutos” e “Leguminosas secas”. Este desequilíbrio traduz-se numa inadequação dos hábitos alimentares, com uma predominância de proteínas de origem animal e excesso de lípidos (102).
O recurso a dados dos IOF, recolhidos em 1989/90 e 1994/95, permitiu igualmente a identificação de mudanças na disponibilidade de alimentos entre 1990 a 95, tendo-se verificado que Portugal está a afastar-se da tradicional “dieta mediterrânica”. Neste período, a disponibilidade de hidratos de carbono complexos e de azeite foi reduzida, ao passo que a disponibilidade de grupos de alimentos fornecedores de proteínas aumentou. Podem ser observadas disparidades consideráveis por localidade e em função do nível de escolaridade do chefe da família. As famílias em áreas urbanas e de nível socioeconómico mais elevado são os principais atores das mudanças nos hábitos alimentares "tradicionais" (106).
Entre 1990-2000 Portugal reduziu a proporção de famílias que cumprem os objetivos nutricionais populacionais da OMS (verificado com base na disponibilidade domiciliar per capita diária, recorrendo ao IOF) e a adesão ao padrão alimentar mediterrânico, destacando-se a redução de 4,5% de famílias que têm disponível pelo menos 400 g de hortofrutícolas per capita (107).
Comparando-se a disponibilidade alimentar entre 1974 e 2011 (tabela 4) verificam-se várias alterações per capita nomeadamente um aumento de 13% da disponibilidade
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energética (de 3050 kcal/dia para 3456 kcal/dia) com diminuição de 4,5% da contribuição energética dos alimentos de origem vegetal (de 2551 kcal/dia para 2437 kcal/dia), face a um aumento de 114% da contribuição energética dos de origem animal (de 499 kcal/dia para 1019 kcal/dia).
Tabela 4 – Balança Alimentar nos anos de 1974 e 2011.
(Fonte: elaborado a partir dos dados da FAOSTAT, 2015)(108)
Anos 1974 1984 1994 2004 2011 População Residente 8.754.365 9.996.233 9.991.526 10.483.862 10.557.560 Energia (kcal/pessoa/dia) 3050 2869 3489 3608 3456 Di s p o n ib il id ade de Ma c ro n u tr ie n te s (g /c a p /d ia ) Hidratos de Carbono 408,9 362,4 415,0 422,7 375,2 Proteínas 84,7 81,4 108,3 114,8 111,2 Lípidos 86,5 89,8 124,4 132,6 142,5 Etanol 42,4 40,9 39,4 37,9 32,6 Di s p o n ib il id a d e d e A li m e n to s (g /c a p /d ia ) Cereais 376,4 344,3 342,4 365,5 348,5 Açúcar 76,2 68,4 86,7 88,9 77,6 Óleos Vegetais 44,5 43,3 49,9 47,6 56,1 Azeite 17,8 11,5 12,5 13,3 21,3 Fruta 196,1 131,0 276,4 348,0 311,5 Bebidas Alcoólicas 332,8 328,3 355,8 339,6 287,0 Carne 112,0 114,8 211,5 230,4 247,4 Pescado 142,2 121,4 157,6 147,2 155,6 Hortícolas 371,6 394,5 452,0 585,5 455,2 Laticínios 219,4 234,5 437,0 567,9 585,6
O consumo de sal foi sendo referenciado desde a década de 60 como sendo excessivo face às recomendações da OMS (<5g/dia (109)). O único estudo recente
realizado em 2011-2012 numa amostra de 3720 pessoas, revela uma ingestão de 10,7g/dia (110).