2.1 TRAJETÓRIA DO SINDICALISMO BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO . 24
2.1.2 Disputa do modelo sindical na Constituinte (1986-1988)
Depois de mais de vinte anos de ditadura, a reorganização social do Brasil atinge seu ponto máximo em 1988, com a Constituição Federal, abrindo espaço para a consolidação das lutas por liberdades democráticas. O trabalho e a livre iniciativa são tratados como princípios fundamentais da República, que tem como objetivos a erradicação da pobreza e a redução das desigualdades.
A atual Constituição da República, todavia, foi resultado de um longo processo, situado num ambiente de reconstrução da democracia. Tudo começou com a aprovação da Lei da Anistia, a Lei n. 6.683, de 1979, possibilitando a retomada da liberdade de expressão das organizações sociais.
Em 1982, são realizadas eleições diretas para governadores de estado e parlamentares; em 1985, para prefeituras de capitais. Só faltava a eleição direta para Presidente e Vice-Presidente da República. Nos anos 1970-1980, a luta pela terra e reforma agrária originou o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra; enquanto que na área urbana, a ação sindical deu origem ao Partido dos Trabalhadores.
No dia 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves é eleito, pelo Colégio Eleitoral, como o primeiro presidente civil em mais de duas décadas. Vindo, porém, a falecer no dia 21 de abril, José Sarney assume a Presidência. No dia 15 de maio de 1985, o Congresso Nacional aprova a Emenda Constitucional n.
25, estabelecendo as regras para a realização de eleição direta para Presidente e Vice-Presidente da República, fixando-se o dia 15 de novembro para sua realização.
No processo constituinte, vários agentes sociais tiveram participação ativa, destacando-se as classes sindicais, da advocacia, intelectuais e parlamentares. Segundo Santana, o setor do patronato não recepcionou favoravelmente a ideia de vários direitos trabalhistas serem elevados à categoria de direitos constitucionais, pois isso “oneraria” muito a folha de pagamento dos empregadores, levando ao desemprego.12
No plano sindical, nos anos que se seguiram, antes da Constituição de 1988, essas duas correntes ideológicas defenderam, junto a diversas bases sindicais do país, suas respectivas ideias. De fato, conforme aponta Queiroz, o objetivo inicial era a constituição apenas de uma central sindical. Todavia, acabou por gerar um movimento dissidente. Esse grupo, que tinha como liderança Lula, Jacó Bittar e Olívio Dutra, criou a Central Única dos Trabalhadores (CUT), cujo primeiro presidente foi Jair Meneguelli. O outro grupo, liderado por Arnaldo Gonçalves, do Sindicato dos Metalúrgicos de Santos e do PCB, Hugo Peres, independente e dos eletricitários de São Paulo, José Francisco da Silva, da CONTAG, e Joaquinzão,13 que se recusou a participar da chapa unitária, manteve-se na CONCLAT, a qual, em 1986, foi transformada na CGT – Confederação Geral dos Trabalhadores, tendo Antônio Rogerio Magri como presidente.14
Logo, antes mesmo da Constituição Federal de 1988, o próprio movimento dos trabalhadores também estava dividido sobre o modelo de organização sindical a ser constituído, uma vez que havia parcela do movimento sindical que defendia um modelo de unicidade, com contribuição sindical obrigatória e poder normativo da Justiça do Trabalho, mas, também, havia aqueles que valorizavam as condições previstas na Convenção
12 SANTANA, Marco Aurélio. Estruturas em tempos de mudança: os trabalhadores, a constituição de 1988 e o projeto de reforma sindical. In: KREIN, José Dari; ______;
BIAVASCHI, Magda Barros (Org.). Vinte anos da constituição cidadã no Brasil. São Paulo:
LTr, 2010. p. 54.
13 Foi interventor no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Era a principal liderança do sindicalismo conservador, que fazia contraponto ao chamado novo sindicalismo, liderado por Lula.
14 QUEIROZ, Antonio Augusto. Movimento sindical: passado, presente e futuro. Brasília:
DIAP, 2012. p. 33.
Internacional n. 87 da Organização Internacional do Trabalho, nesse caso representados pelo novo sindicalismo cutista, com liberdade de associação sindical, sem unicidade, contribuição obrigatória e interferência do Judiciário por meio do poder normativo.
Conforme lição de Nascimento, apesar de o país ainda não se encontrar, nessa época, sob a égide da Constituição Federal de 1988, algumas medidas liberalizantes foram tomadas pelo governo, a exemplo da revogação da portaria do Ministério do Trabalho que proibia a existência de centrais sindicais, a edição de resolução reabilitando sindicalistas punidos e edição de portaria que permitiu aos sindicados elaborar seus próprios estatutos.15
Com o desenvolvimento dos debates no processo constituinte, a CUT permaneceu na defesa da ampla pluralidade sindical, conforme a orientação da OIT, enquanto que a Central Geral dos Trabalhadores, acompanhada de sindicatos e entidades sindicais de grau superior (federações e confederações), defendia a unicidade, o imposto sindical e o sistema confederativo, conforme apontado na pesquisa de Lourenço Filho.16
Para propiciar um debate mais amplo entre os atores sociais acerca da matéria a ser incorporada na nova Constituição, a Assembleia Nacional Constituinte foi dividida em oito comissões, e cada uma dessas comissões foi dividia em três subcomissões. A matéria trabalhista foi submetida a debate e análise pela Subcomissão dos Direitos dos Trabalhadores e Servidores Públicos.
Cada linha sindical defendeu sua proposta na Constituinte: de um lado, a CUT, propondo um modelo de liberdade sindical plena, sem contribuições compulsórias, levando à possibilidade de ratificação da Convenção n. 87 da OIT, e, de outro, as confederações (inclusive as patronais), com a defesa da unicidade, do sistema confederativo e da contribuição sindical compulsória. No
15 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Direito do trabalho na constituição de 1988. São Paulo:
Saraiva, 1989. p. 134.
16 LOURENÇO FILHO, Ricardo Machado. Liberdade sindical: percursos e desafios na história constitucional brasileira. São Paulo: LTr, 2011. p. 68-71.
plano dos partidos políticos, PT, PL, PTB e PFL colocaram-se de modo favorável à proposta de pluralidade e o PMDB, PDT, PSB, PCB e PCdoB se puseram a favor da proposta de unicidade e da contribuição sindical. Discursos de grande destaque foram os dos parlamentares Afif Domingos (PL/SP) e Luiz Gushinken (PT/SP), na defesa da pluralidade, e do deputado José Fogaça (PMDB/RS), na defesa da unicidade.17
O deputado Afif Domingos (PL-SP), que subscreveu a emenda derrotada, concluiu seu discurso afirmando que “Todos nós, que defendemos o pluralismo político e a democracia, temos de defender o pluralismo sindical, como base do nosso desenvolvimento”. Por seu turno, o deputado Luis Gushiken (PT-SP) iniciou seu discurso afirmando estar a atual organização sindical do Brasil sustentada por quatro pilares: i) direito de intervenção do Estado nos sindicados, ii) imposto sindical, iii) sistema confederativo e iv) unicidade sindical.18
Por outro lado, o Senador José Fogaça (PMDB-RS) rechaçou os argumentos opostos à unicidade, defendendo o sindicato único por base territorial e por categoria profissional, a fim de não fragmentar e nem enfraquecer as representações. Por fim, ele citou pesquisa de opinião pública19 feita nos mais importantes centros urbanos, a qual apontava a preferência da população pela unicidade.
Sobre o modelo sindical, foram a votação duas emendas aglutinativas.
A primeira trazia a proposta do sistema de pluralidade sindical, articulada por Afif Domingos,20 mas foi rejeitada por 305 votos contrários, sendo 148 a favor e 19 abstenções. A segunda emenda, com a defesa da unicidade sindical e da
17 QUEIROZ, Antonio Augusto. Movimento sindical: passado, presente e futuro. Brasília:
DIAP, 2012. p. 37.
18 Idem.
19 Em São Paulo, por exemplo, 60% dos consultados foram favoráveis e 34% contra. No Rio 68% contra 25%. Em Belo Horizonte, 54% contra 32%. Salvador 54% contra 44% e, em Brasília, 53% contra 38%. Cf. Ibidem. p. 36-38.
20 Resultou na fusão das emendas ns. 2.038 (Afif Domingos), 1.207 (João Paulo Pires Vasconcelos), 1.159 (Marco Maciel), 1.483 (José Lins), 1.201 (Olívio Dutra), 1.012 (Carlos Chiarelli) e 472 (Cardoso Alves). Cf. Idem.
contribuição sindical compulsória, liderada pelo deputado José Fogaça, obteve aprovação com 340 votos favoráveis, sendo 103 contra e 42 abstenções.21
Após as votações das duas emendas com o texto base sobre organização sindical, foi aprovado destaque do deputado Paulo Paim (PT/RS) e do senador Marco Maciel (PFL/PE), que garantia a estabilidade do candidato à eleição sindical, desde o registro da chapa até um ano após o fim do mandato.22
A Comissão de Ordem Social recebeu projeto de texto com relativo grau de amplitude quanto aos direitos sociais. Aprovado por essa comissão, foi enviado para a Comissão de Sistematização. Finalmente, após algumas alterações, o texto final foi enviado para votação plenária, imortalizando-se no texto da Constituição Federal de outubro de 1988.23
Venceu o argumento político segundo o qual era preciso proteger os trabalhadores, isto é, a pluralidade sindical poderia trazer desagregação aos sindicatos. Prevaleceu a tese, portanto, de que o modelo de unicidade seria um mal necessário.24 A esse respeito, emblemática intervenção do relator-geral, Bernardo Cabral, concluiu que “a permissão para a criação de mais de um sindicato de igual categoria, na mesma base territorial, provocará um enfraquecimento do organismo sindical. Unicidade nada tem a ver com autonomia.”25
Não obstante a crítica doutrinária, no sentido de não existir verdadeira liberdade sindical no contexto brasileiro, em virtude da adoção da regra da unicidade obrigatória, não há, na visão de Nascimento, um impedimento à liberdade sindical. Isso porque na Assembleia Constituinte teve um movimento
21 Antonio Augusto. Movimento sindical: passado, presente e futuro. Brasília: DIAP, 2012. p.
36-37.
22 Ibidem. p. 38.
23 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Direito do trabalho na constituição de 1988. São Paulo:
Saraiva, 1989. p. 16.
24 LOURENÇO FILHO, Ricardo Machado. Liberdade sindical: percursos e desafios na história constitucional brasileira. São Paulo: LTr, 2011. p. 94-95.
25 Ibidem. p. 85.
de trabalhadores (o mesmo que impediu a ratificação da Convenção n. 87, em 1987) que considerou melhor a manutenção da estrutura já existente, sob o fundamento de que, caso fosse adotada a pluralidade, a consequência seria o fracionamento dos sindicatos. Por isso, foram os próprios interlocutores sociais que decidiram manter a organização sindical vigente, de modo que a legislação sobre essa temática não é violadora do princípio da liberdade sindical, mas apenas reguladora do modelo sindical no Brasil.26
Apesar de manter alguns elementos próprios do sistema corporativista anterior, como a unicidade sindical, a Constituição Federal de 1988 avançou muito no que tange ao reconhecimento da liberdade sindical, abrindo espaço para as entidades sindicais promoverem ações destinadas à categoria profissional ou econômica representada. Sobre esse aspecto, é importante ressaltar que a greve foi finalmente reconhecida como direito coletivo fundamental. É a primeira vez que esse tratamento é visto no Direito brasileiro.27
A partir do momento que a nova Constituição Federal ampliou a liberdade sindical de um modo até então desconhecido no Direito brasileiro, o corpo legal básico de regramento do Direito Individual e Coletivo do Trabalho, a CLT, sofreu o impacto das novas normas e direitos constitucionais, atritando-se, notadamente o capítulo sobre organização sindical, com a Constituição de 1988. Algumas disposições foram recepcionadas pela ordem constitucional então inaugurada. Outros, todavia, abriram margem para fundadas dúvidas acerca dessa compatibilidade. Tal diálogo entre a CLT e a Constituição de 1988 ainda guarda colisões nos dias atuais, e será analisado no item 4.1.2 deste trabalho.
26 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Direito do trabalho na constituição de 1988. São Paulo:
Saraiva, 1989. p. 226-227.
27 Ibidem. p. 17.