• Nenhum resultado encontrado

3.1 LEGITIMAÇÃO NORMATIVA E INSTITUCIONALIZAÇÃO UNIVERSAL DA

3.2.1 Morfologia doutrinária da liberdade sindical

Analisados os aspectos internacionais atinentes à proclamação da liberdade sindical, agora serão estudadas as facetas desse direito fundamental.

Afinal, conforme assinala Alfredo Ruprecht, para que a atividade sindical seja livre há necessidade de uma série de garantias frente ao empregador, ao Estado e até aos demais trabalhadores.180

Mauricio Godinho Delgado categoriza a liberdade sindical como um princípio de Direito coletivo, ensinando que tal princípio envolve as liberdades de criação e/ou vinculação a alguma entidade associativa, a qual seria a dimensão positiva, e também a faculdade de rompimento dessa filiação, que corresponde à dimensão negativa; por outro lado, a liberdade sindical também englobaria a livre criação e extinção de sindicatos, sendo a extinção somente por iniciativa da própria entidade; por fim, relativamente aos trabalhadores, estes poderiam filiar-se e desfiliar-se da entidade sindical quando lhes aprouvesse.181

Também para Gino Giugni, o direito à liberdade sindical é um princípio, e se apresenta como um “direito público subjetivo”, impedindo ao Estado estabelecer “fins e formas organizativas da realidade sindical”. Ressalta, entretanto, que a liberdade sindical tem maior potencialidade de violação não nas relações entre as entidades sindicais e o Estado, mas entre os próprios

180 RUPRECHT, Alfredo J. Relações coletivas de trabalho. Tradução de Edilson Alkmin Cunha. São Paulo: LTr, 1995. p. 228.

181 DELGADO, Mauricio Godinho. Direito coletivo do trabalho. 4. ed. São Paulo: LTr, 2011. p.

48-49.

sujeitos privados, ou seja, trabalhadores e empregadores.182

Nesse sentido, Helios Sarthou acrescenta que essa liberdade deve vir acompanhada da garantia de outros direitos igualmente fundamentais, tais como as liberdades de integridade física e moral, de expressão e de reunião.

Apresenta-se, portanto, a liberdade sindical como complexa, não possuindo máxima efetividade se não estiver acompanhada de outras liberdades civis e políticas. Para o referido autor:

La libertad sindical es profundamente solidaria con las demás libertades que integran el sistema de derechos humanos reconocidos.

Esto fija a la libertad sindical y al derecho colectivo un objetivo essencialmente humanista. Si bien su sujeto proprio es el sindicato, ese sujeto colectivo no es un fin en sí mismo sino que es un medio para lograr la libertad, la justicia económica y el bienestar del hombre, que en definitiva debe ser el fin del derecho como el de toda la cultura.183

Para Villavicencio Ríos, o princípio da liberdade sindical significa o direito, titularizados por trabalhadores, de constituição e afiliação a organizações sindicais, além da atuação dessas entidades na atividade de defesa e promoção dos interesses de seus representados, sendo, portanto,

“um produto da instauração do sistema capitalista e da generalização do trabalho subordinado a partir das revoluções industrial e francesa.”184

Segundo essa definição, três seriam os elementos componentes da liberdade sindical: i) liberdade de constituição de entidades sindicais, ii) liberdade de filiação a essas mesmas entidades e iii) ação na defesa de interesses. É uma ideia mais ampla do que a mera fundação e filiação sindicais, uma vez que a ação sindical é tema da maior riqueza quando se fala

182 GIUGNI, Gino. Direito sindical. Tradução de Eiko Lúcia Itioka. São Paulo: LTr, 1991. p. 46-47.

183 SARTHOU, Helios. Trabajo, derecho y sociedad. Estudios de derecho coletivo del trabajo.

Tomo I. Montevideo, Uruguay: Fundación de Cultura Universitaria, 2004. p. 22.

184 VILLAVICENCIO RÍOS, Alfredo. A liberdade sindical nas normas e pronunciamentos da OIT: sindicalização, negociação coletiva e greve. Tradução de Jorge Alberto Araujo. São Paulo:

LTr, 2011. p. 11.

nesse direito/princípio fundamental da liberdade sindical, e é a partir dele que podem ser visualizadas eventuais antissindicalidades.

A liberdade sindical pode ser analisada em suas dimensões individual e coletiva. A primeira pode ser subdividida em positiva, consistindo no direito de o trabalhador afiliar-se a um sindicato de sua opção (o que pressupõe a aceitação do estatuto da entidade e o pagamento de uma contribuição), e negativa, correspondendo ao direito do trabalhador de não se filiar a entidade sindical alguma.185

O aspecto coletivo da liberdade sindical significa o conjunto das prerrogativas e direitos direcionados especificamente à entidade sindical, envolvendo i) o direito de fundação da entidade e ii) o livre exercício da liberdade sindical. Este último está relacionado a vários aspectos: negociação coletiva, greve, eleição de membros para compor comitês de empresa, defesa dos associados em processos judiciais e administrativos, direito de reunião etc.186

Antonio Ojeda Avilés comenta que o plano individual da liberdade sindical foi o primeiro a surgir historicamente, compreendendo as faculdades de criar sindicato e afiliar-se a eles, não se afiliar a nenhum e também de participar das atividades que constituem a vida da entidade. Por outro lado, a liberdade sindical no plano coletivo significa a possibilidade de auto-organização sem ingerências por parte de outrem e de utilizar os mecanismos de defesa de interesses e direitos dos trabalhadores classicamente atribuídos aos sindicatos, a exemplo da negociação coletiva e da greve.187

Acerca das funções da liberdade sindical, Villavicencio Ríos ensina que elas são cinco: i) “função de equilíbrio”, buscando compensar a desigualdade existente entre a figura singular do trabalhador e seu empregador; ii) “função de composição ou pacificação do conflito empresarial”,

185 GRAU, Antonio Baylos. Sindicalismo y derecho sindical. 5. ed. Albacete, Espanha:

Editorial Bomarzo, 2011. p. 16-18.

186 Ibidem. p. 18-19.

187 AVILÉS, Antonio Ojeda. Derecho sindical. 8. ed. Madrid, España: Editorial Tecnos, 2003.

p. 101.

instrumentalizada por meio das negociações do sindicato com o empregador, a fim de evitar uma situação de permanente tensão entre esses dois agentes; iii)

“função normativa”, significando a regulação, pelas entidades de representação sindical e empresarial, das condições de trabalho para determinado grupo de trabalhadores e empregadores; iv) “função de coesão social e democracia material”, segundo a qual a ação das organizações de trabalhadores tem, além de um caráter econômico, natureza social, aumentando o grau de democracia de uma dada sociedade; e v) “função de vigência real do Direito do Trabalho”, que implica a existência de mecanismos de fiscalização e efetivação prática do Direito do Trabalho, seja por meio de instrumentos do Estado, seja através dos próprios trabalhadores, os quais necessitam, para tanto, de sindicatos que os conduzam nessa tarefa.188

Ao contrário do que se pode pensar, a liberdade sindical não implica apenas comportamentos negativos por parte daqueles a quem essa liberdade se dirige, mas também envolve condutas positivas. Com efeito, Martinez propõe que não há direito fundamental com contornos exclusivamente abstencionistas ou prestacionais; logo, além da não interferência nas entidades sindicais, o exercício da liberdade sindical acarreta para o Estado o dever de impedir violações a esse direito por parte de terceiros, incentivando o diálogo social.189

Sobre esse duplo aspecto da liberdade sindical, Villavicencio Ríos atesta que a proteção negativa se coloca no plano estatal, visando a supressão de quaisquer limites ou dificuldades ao livre exercício da liberdade sindical. Por outro lado, a proteção positiva impõe a adoção de mecanismos, formas de reparação e sanções voltados ao empregador, a fim de garantir a concretização da liberdade sindical.190

188 VILLAVICENCIO RÍOS, Alfredo. A liberdade sindical nas normas e pronunciamentos da OIT: sindicalização, negociação coletiva e greve. Tradução de Jorge Alberto Araujo. São Paulo:

LTr, 2011. p. 15-18.

189 MARTINEZ, Luciano. Condutas antissindicais. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 124-125.

190 VILLAVICENCIO RÍOS, Alfredo. A liberdade sindical nas normas e pronunciamentos da OIT: sindicalização, negociação coletiva e greve. Tradução de Jorge Alberto Araujo. São Paulo:

LTr, 2011. p. 48.

É exatamente no exercício da liberdade sindical que mais aparecem seus obstáculos, representados por comportamentos estatais ou patronais inibidores da efetivação prática do princípio teoricamente proclamado da liberdade sindical, conforme será estudado no próximo item.