O Comitê de Liberdade Sindical, embora com limites de efetividade nas suas manifestações no enfrentamento de práticas nacionais ou na reformulação de condutas por parte dos Estados, mesmo assim, é inovadora ferramenta de controle de aplicação de normas internacionais, seja pelo seu modo organizativo (tripartite), seja em razão do dinamismo funcional no controle do cumprimento das convenções fundamentais (Convenções ns. 87 e 98 da OIT).
A consolidada jurisprudência do CLS, expressa na Recopilação de Decisões e Princípios,345 ou mesmo na consulta direta aos casos em tramitação, via sistema NORMLEX,346 constituem-se como renovada fonte hermenêutica em matéria de Direito Sindical. Poder-se-ia, inclusive, conceber esse conjunto de enunciados emanados do CLS como um corpo de precedentes internacionais sobre liberdade sindical, tendo em vista a importância desse órgão da OIT para a promoção do valor da liberdade sindical.
Nesse sentido, quanto ao monitoramento de condutas antissindicais, o CLS cumpre papel como fonte doutrinária e de melhor exegese na aplicação de normas internacionais, conforme anota Marcio Túlio Viana:
É que, ainda uma vez, o juiz do trabalho já poderá aplicar (e às vezes já aplicava) as mesmas regras, que constam genericamente não só
345 ORGANIZACIÓN INTERNACIONAL DEL TRABAJO. La libertad sindical: recopilación de decisiones y principios del comité de libertad sindical del consejo de administración de la OIT.
5. ed. rev. Ginebra: Oficina Internacional del Trabajo, 2006. Disponível em:
<http://www.ilo.org/global/standards/applying-and-promoting-international-labour-standards/committee-on-freedom-of-association/WCMS_090634/lang--es/index.htm>. Acesso em: 06 maio 2016.
346 ORGANIZACIÓN INTERNACIONAL DEL TRABAJO. Casos sobre libertad sindical.
Disponível em: <http://www.ilo.org/dyn/normlex/es/f?p=NORMLEXPUB:20030:0::NO:::>.
Acesso em: 06 maio 2016.
da CF como de convenções da OIT (a de n. 98, p. ex.) e das decisões de seu Comitê de Liberdade Sindical, que formam uma verdadeira jurisprudência.347
É iniludível que o CLS representou grande avanço em matéria de Direito Internacional do Trabalho, porém o organismo também foi afetado pelas profundas transformações ocorridas no final do século XX, incluindo a dissolução do campo socialista, agrupado no entorno da então URSS, que congregava pólo de poder e influência no equilíbrio dos debates atinentes aos interesses dos trabalhadores, uma vez que essa força mundial de compensação repercutia nas deliberações da OIT. Portanto, a “queda do muro de Berlim” simbolizou o esvanecimento desse bloco político e de um redesenho no jogo de forças dentro da OIT.
Soma-se a esse episódio o fato da emergência e potencialização do pensamento único em matéria econômica, entronizando organismos de natureza econômica (Fundo Monetário Internacional – FMI, Organização Mundial do Comércio – OMC e Acordo Geral de Tarifas e Comércio – GATT), com certo esvaziamento da OIT. Além disso, um dos efeitos colaterais da derrocada socialista foi a sensível alteração nos posicionamentos internos das bancadas. Isso se verificou com o reposicionamento dos governos de modo mais claro na adesão a pautas mais flexibilizantes e desregulamentadoras em matéria laboral.
Esse novo contexto geopolítico e econômico intensificou manifestações externas sinalizadoras de uma mudança perceptível na atuação e nas futuras deliberações dos organismos de controle. Novos movimentos indicavam para uma produção normativa diretiva no sentido do “piso normativo”, não mais com normas inovadoras ou avançadas em matéria laboral. Isso muito se deve à
347 VIANA, Márcio Túlio. A nova competência na justiça do trabalho no contexto da reforma sindical. In: Revista do Tribunal Superior do Trabalho, Brasília, v. 71, n. 1, p. 160-173,
jan./abr. 2005. Disponível em:
<http://aplicacao.tst.jus.br/dspace/bitstream/handle/1939/3723/010_viana.pdf?sequence=7>.
Acesso em: 06 maio 2016.
consolidação do Direito Comunitário Europeu, garantidor de direitos sociais mais avançados em relação às normativas da OIT.
Toda essa conjuntura construiu uma visão da OIT (e, por conseguinte, dos órgãos de controle e do CLS) muito mais flexibilizada e com progressivo abrandamento dos efeitos de suas deliberações, produzindo certa
“conservadorização” da jurisprudência do CLS.348 Dessa forma, os casos paradigmáticos apresentados neste capítulo resultaram em soluções sinalizadoras do contexto histórico e político no qual se insere a OIT.
Assim, no caso 11, o Comitê convalidou duvidosas práticas nacionais, inclusive quanto ao capítulo da organização sindical da CLT (1943), claramente com tonalidade de controle e interventivo. Esse posicionamento refletia a consolidação da emergência do bipolarismo mundial, levando à convalidação da suspensão e dissolução da CGT, em 1947 (obviamente por suas estreitas ligações com o PCB).
Esse mesmo pensamento se mostrou no caso 2656, cujos fatos ocorreram na década de 1990, sobretudo num Brasil fortemente influenciado pela doutrina neoliberal. Esse modelo organizativo (da economia, sociedade e governança estatal) influenciou os casos destacados. A marcha do receituário neoliberal registrou a resistência do Sindiquímica, primeiramente, ao processo de privatização e, posteriormente, às danosas consequências da desestatização da empresa envolvida nas relações de trabalho, além da antissindicalidade sistêmica denunciada.
Nos dois casos, os informes definitivos do CLS não enfrentaram os aspectos fáticos com a esperada diligência de um organismo de controle, deixando de reprovar ou mesmo de reforçar seus precedentes, relegando o conflito para uma solução segundo “saídas internas e nacionais”. Ou seja, o CLS absteve-se de enquadrar e reprovar as condutas antissindicais, ignorando
348 URIARTE, Oscar Ermida. Crítica de la libertad sindical. Revista Derecho PUCP, Lima, n.
68, p. 33-61, 2012. Disponível em:
<http://revistas.pucp.edu.pe/index.php/derechopucp/article/view/2825>. Acesso em: 06 maio 2016.
a fundamentalidade que o livre associacionismo sindical tem como vetor estruturante político-institucional da OIT.
Por fim, mesmo no grave contexto do caso 2739, inédito do ponto de vista da confluência e do simbolismo de representação política das maiores centrais sindicais brasileiras, expondo gravíssimas distorções nacionais, inclusive da ação estatal (por parte das ações empreendidas pelo Ministério Público de São Paulo, Ministério Público do Trabalho e das decisões judiciais da Justiça de São Paulo, bem como dos precedentes judiciais da Justiça do Trabalho), do mesmo modo, não houve solução claramente satisfatória.349
Encerra-se este capítulo, portanto, com uma visão crítica sobre o tenso e controverso processo de afirmação da liberdade sindical, tanto no plano interno como no plano internacional. A quantidade de pactos, declarações, normas internacionais e internas, construção doutrinária e institucional da OIT, inclusive como organismo de controle, por meio do CLS, deveriam ser suficientes para consolidar uma tradição jurídico-política suficiente para o reconhecimento, proteção e rechaço de ações estatais, empresariais ou de qualquer natureza que inibissem a existência, funcionamento e ação das entidades sindicais.
Por isso, pretende-se refletir, no próximo capítulo, acerca dos sentidos da liberdade sindical brasileira, demarcada por uma incorporação regulatória (nacional/externa) transversalizada por práticas nacionais conservadoras, assecuratórias do modelo patrimonialista em detrimento das formas de resistência organizadas pelo movimento social mais representativo na ordem capitalista, que é o movimento sindical.
349 As ações estatais – via Estado-fiscalizador (MP/MPT) ou Estado-juiz (TJSP/TST) – revelam, primeiro, uma visão omissa do Estado brasileiro no sentido de regular de modo mais democrático o fenômeno sindical, no que diz respeito ao custeio sindical e à forma do exercício do direito de greve; segundo, explicitam o divórcio entre as normas internacionais e recomendações internalizadas no Brasil, e sua pouca ou baixa efetividade como elemento balizador das decisões judiciais.
4 TRANSIÇÃO INCONCLUSA: PERCURSOS E AFIRMAÇÕES POSSÍVEIS DA LIBERDADE SINDICAL NO BRASIL
As premissas constituintes e de efetividade da liberdade sindical na esfera internacional foram, e são, constantemente testadas quando da sua internalização e materialização nas práticas nacionais, pois não se trata de mera transição teórica ou interpretativa, mas, em verdade, cuida-se da inserção de um valor universal que é filtrado a partir de elementos culturais, econômicos e sociopolíticos do Brasil.
Em outras palavras, a concretude do valor de liberdade sindical, forjado pela impulsão e luta dos trabalhadores e regulado do ponto de vista estatal, reflete o estágio de desenvolvimento social e político de cada país, sendo que, no caso brasileiro, é revelador de contradições, virtudes e retrocessos, plasmado por um conjunto identitário social e político.
Por isso, a opção desta pesquisa na definição jurídico-política é pela afirmação de um movimento sindical com singularidades e diferenças, não em contraponto à liberdade sindical europeia ou da OIT, mas ressaltando a complexa relação política e social nacional, decorrente do estágio de relações numa democracia, no capitalismo periférico, num país continental, com assimetrias no seu desenvolvimento econômico e social, que, por vezes, se assemelha, mas, em muitos momentos, não é enquadrável nos rígidos parâmetros discursivos e metodológicos da OIT.
Dessa forma, a análise da organização dos atores sociais das relações de trabalho, destinatários da liberdade sindical, traduz-se naquilo que se denomina “liberdade sindical brasileira”, marcada por um acúmulo de complexas tradições e práticas mais ou menos desenvolvidas, porque pouco democráticas ou muito reprimidas, seja pelo Estado, seja pelo patronato.
Esse sincretismo é verificado também na própria estrutura jurídica nacional contemporânea, na qual convivem, paralelamente, marcos regulatórios do sistema sindical brasileiro, inicialmente por uma legislação
esparsa, posteriormente agrupada no capítulo da organização sindical da CLT.
Mais contemporaneamente, esse regramento foi sucedido por diversas alterações legislativas decorrentes dos períodos histórico-políticos em ambiências de liberdades democráticas ou não, refletidas também nos textos constitucionais e que, finalmente, são densificadas no processo constituinte incorporador, parcialmente, do modelo sindical histórico, e culminando na atual redação do artigo 8º da Constituição de 1988.
Em suma, os contornos do movimento sindical brasileiro traduzem os limites e potencialidades ético-políticos concernentes aos desafios à concretização do conceito de liberdade sindical no contexto nacional.
Atualmente, o projeto de modelo sindical brasileiro está materializado na proposta de sociedade inscrita no texto da Constituição, mas não se pode ignorar a problematização acerca da validação democrática desse modelo sindical histórico, conforme destacado anteriormente, quando foram descritos os acontecimentos ambientados no processo constituinte da década de 1980.
Para além do estudo do modelo organizativo sindical, a pesquisa avança na fronteira das relações de trabalho no cenário da democracia capitalista brasileira,350 desmitificando o argumento condicionante de liberdade sindical segundo o modo organizativo unidimensional preconizado pela Convenção n. 87 da OIT. Contudo, não se busca excluir esse paradigma do diálogo de fontes; aliás, neste capítulo, haverá demonstração da potencial harmonização do modelo existente em relação às práticas de liberdade sindical no Brasil, desde que viabilizado por ferramentas operacionais, representadas pelas recomendações da Organização Internacional do Trabalho em matéria de liberdade sindical.
350 A liberdade sindical no Brasil adquire contornos peculiares, porquanto sua experiência comporta conformação plural do ponto de vista territorial, categorial e de tradições políticas múltiplas, uma vez que a liberdade sindical é exercida ou limitada de modo diverso nas diversas categorias profissionais situadas no campo e na cidade, em estabelecimentos públicos ou privados, além das consideráveis assimetrias socioeconômicas no espaço territorial brasileiro, determinantes da singularidade e do estágio de desenvolvimento das relações sindicais.
4.1 DA TRANSIÇÃO DE LIBERDADES E MODELOS DE LIBERDADE