Capítulo III – Quebrando grades
3.2 Disputas pelo espaço
Consta no Diário do Congresso Nacional, do dia 2 de Junho de 1899, a ata da 21a reunião da Câmara dos Deputados daquele ano. Nela, o Sr. Heredia de Sá, deputado pela capital, levou ao debate acontecimentos a respeito de uma contenda entre Barbosa Rodrigues, as autoridades da Gávea e a população deste bairro, no qual se localizava a instituição. Contando com o apoio de mais um deputado, o Sr. Guillon, dizia representar a “revoltosa” população e descrevia as atitudes punitivas tomadas pelo diretor: “(...) sob pretextos os mais fúteis, muitas vezes prendendo mulheres e crianças, allegando que tiravam lenha e flores” (Diário do Congresso Nacional, 1899).
Barbosa Rodrigues foi acusado por iniciar uma perseguição contra a população da Gávea, que, no final do século XIX, era composta por número significativo de trabalhadores, em virtude da recente instalação de fábricas de tecidos. Em sua perseguição, o diretor teria estendido sua influência ao delegado da freguesia, obrigando-o a abrir inquéritos contra
muitos moradores. Consideradas insignificantes pelos deputados, as faltas resumiam-se à quebra de cercas para entrar no Jardim, com o intuito de coletar lenha, flores e frutos.
Em defesa de Barbosa Rodrigues, outro deputado, o Sr. Costa Júnior, realizou um longo discurso, definindo a disputa como uma “lucta entre o funccionario correcto e os depredadores indisciplinados, que tudo queriam destruir” (Diário do Congresso Nacional, 1899). Segundo o deputado, em 1890 Barbosa Rodrigues assumiu a direção do JBRJ e manteve uma administração tranquila até 1894, momento no qual se abriram as fábricas.
Desde então, eram frequentes as reclamações e ataques contra a pessoa do diretor, sendo necessário, portanto, averiguar a postura das partes envolvidas na querela. Tal averiguação foi realizada por Costa Júnior, e outros tantos deputados, destacando a opinião pública expressa nas notícias de jornais, notas do sindicato dos operários, opiniões do meio científico do período e, mais frequentemente, por certo senso comum sobre as posições em disputa.
Costa Júnior defendeu Barbosa Rodrigues reconstruindo a cena de modo a exaltá-lo enquanto correto funcionário, sábio naturalista e renomado cientista, que arriscava sua vida para proteger o patrimônio nacional, mesmo sem nenhum apoio das instâncias governamentais contra a classe operária, classificada como “vagabunda, desordeira, e selvagem” (Diário do Congresso Nacional, 1899). Por sua vez, o deputado da oposição, Heredia de Sá, insinuava corrupção e tirania do serviço público, em defesa dos operários, dando pouca relevância aos atos de invasão e roubo.
O deputado Costa Júnior alegava que o debate era motivado por politicagem, uma vez que, entre os 3 mil operários habitantes do bairro da Gávea, 300 seriam eleitores responsáveis por empossar, coincidentemente, os deputados que os defendiam. Segundo Costa Júnior, o objetivo dos ataques ao diretor era então “(...) arredá-lo da direcção do Jardim, que pretendem reduzir a logradouro publico da clientella eleitoral” (Diário do Congresso Nacional, 1899). A politicagem realizada na Gávea foi classificada como uma “politicagem da roça” (Diário do Congresso Nacional, 1899).
Ao mesmo tempo, a defesa clamava não apenas pela proteção do funcionário público, mas também pelos “grandes males que dahi resultarão para a Nação e sobretudo ao pessimo juizo que os estrangeiros farão de semelhantes acontecimentos” (Diário do Congresso Nacional, 1899). Estava, assim, evidente no discurso do deputado que, se a Câmara defendesse os atos realizados pelos operários, privilegiaria a politicagem e o ataque ao
Tais ideias vinculavam-se à imagem do naturalista Barbosa Rodrigues, figura respeitada no cenário cientifico internacional, cuja teoria sobre a forma e destinação de um jardim botânico diferia muito de um espaço natural, aberto à coleta para a população local. Suas diretrizes foram apresentadas em Notícia sobre alguns jardins botânicos da Europa (Barbosa Rodrigues, 1904a), relatório enviado ao Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas, em que discorre sobre a organização dos jardins botânicos de diversas capitais europeias, que visitara. O propósito do relato era, acima de tudo, apresentar informações relevantes que seriam utilizadas no projeto elaborado por Barbosa Rodrigues, recém empossado na direção, para a reorganização do Jardim Botânico da cidade. Desse modo, as descrições dos outros jardins serviram de comparação às necessárias mudanças para o Jardim sob sua responsabilidade, uma vez que os jardins europeus, assim como muitas outras práticas europeias, eram tidos enquanto modelos de excelência.
Seria, portanto, exaltado na remodelação o melhoramento dos serviços do Jardim no que dizia respeito a produzir “os melhores serviços à sciencia e à lavoura, mostrando as nossas riquezas naturaes” (Barbosa Rodrigues, 1904a:3). Em tal curta frase, Barbosa Rodrigues sintetizou o que era esperado de seu trabalho: a necessidade de exaltar a flora nacional; a promessa de tornar o estabelecimento reconhecido por sua cientificidade; e realizar o que era cobrado pela república para suas instituições, uma utilidade prática aplicada, no caso, à lavoura.
No relatório, prosseguiram os grandes elogios aos jardins botânicos europeus, por serem capazes de se organizar com excelência científica, superando a função de passeios públicos. Para tanto, Barbosa Rodrigues elencou os diversos segmentos que os qualificavam enquanto instituição de renome: herbários, museus, estufas, bibliotecas, laboratórios e ensino da prática botânica, além do jardim propriamente dito. Não eram, porém, apenas esses os pontos que os diferenciavam, mas também quem os frequentavam: “Não há quem se atreva a apanhar uma só flor ou danificar uma só árvore; pelo contrario, o público parece auxiliar a fiscalização” (Barbosa Rodrigues, 1904a:10).
No relatório, igual valor foi dado por Barbosa Rodrigues aos espaços físicos vinculados às pesquisas do Jardim e ao público que o frequentava. Do mesmo modo que os jardins europeus eram instituições científicas exemplares, sua população também o era. Assim, ao transcrever os rígidos regulamentos desses jardins, que restringiam a entrada de animais, de crianças, de carros, e proibiam que plantas fossem colhidas, sob penas e multas, Barbosa Rodrigues afirmou também que tal conjunto de restrições “não é lettra morta e todos
cumprem sem considerações, porque a educação do povo comprehende as suas vantagens, que só visam o interesse público” (Barbosa Rodrigues, 1904a:27). Enfatizava ainda, a necessidade de a população brasileira seguir tal exemplo.
Nesse sentido, segundo Von Ihering (1911:26), havendo encontrado o Jardim Botânico em total desordem, Barbosa Rodrigues decidiu retomar o projeto estritamente científico. Para tanto, deu início à recuperação de mudas e placas de indicação classificatória, e reabriu os laboratórios de pesquisa botânica. Retomou ainda, o intercâmbio de plantas com outros jardins do mundo, reorganizou canteiros e viveiros, contratou novos funcionários e inaugurou uma biblioteca, reformando e criando novas instalações físicas para o espaço. Da mesma maneira, seguindo o padrão administrativo dos jardins europeus, modificou também o regulamento interno do Jardim:
Art. 4° É proibido a todo e qualquer visitante, dentro do Jardim: […]
§ 2° Arrancar ramos, folhas, flores, frutos ou plantas sem autorização do diretor. § 3° Damnificar por qualquer maneira as cercas, grades ou reparos que houver ao redor das plantas.
§ 5° Almoçar, jantar, ou tomar qualquer refeição ou bebida alcoólica. § 7° Tomar banhos, ainda que com vestuários decentes.
§ 9° Inscrever em qualquer parte dísticos, letreiros e figuras. § 12° Arrancar, destruir ou mudar placas e etiquetas das plantas.
Art. 5° Qualquer empregado do Jardim ou cidadão deverá prender aqueles que forem encontrados em flagrante violação das disposições deste regulamento […]. Regulamento Policial de 9 de Julho de 1890 para o Jardim Botânico
(Barbosa Rodrigues, 1894:XXXVIII)
O primeiro regulamento policial do JBRJ foi escrito em 1838, devido ao grande aumento de visitantes no Jardim. Foi, entretanto, completamente abandonado pelas direções anteriores à de Barbosa Rodrigues, que o resgatou e o recolocou em vigor (Barbosa Rodrigues, 1894).
Impor ordem ao Jardim era o objetivo de Barbosa Rodrigues. Em seu projeto de reforma, um dos itens inclusos era a seção de multas, cuja aplicação dizia ser imprescindível a quem danificasse o Jardim, uma vez que “(...) a simples prisão e a apresentação à autoridade policial de nada vale, pois esta os manda sempre em paz imediatamente” (Barbosa Rodrigues, 1904a:56).
Tal opinião era endossada no Congresso Nacional pelo deputado Costa Júnior, que acusava o delegado da freguesia de proteger “a vadiagem” ao invés da Fazenda Nacional
deputado acusou, ainda, um conluio entre o delegado e os deputados, que seriam empossados pela mesma população que danificava o Jardim.
As provas apresentadas para o envolvimento do delegado eram tão objetivas quanto as da bancada contrária: relatos, no caso, de Barbosa Rodrigues. O botânico, segundo relato da defesa, afirmava que apesar de diversos operários terem sido presos em flagrante pelos guardas do próprio Jardim, nenhum inquérito fora instaurado pelo delegado da freguesia, que liberava os infratores logo em seguida.
Descontente com a ineficácia do policiamento, Barbosa Rodrigues não apenas instaurou, no regulamento do Jardim, que a prisão de infratores poderia ser realizada por qualquer cidadão, como o fez ele mesmo, prendendo diversos invasores, em nome do chefe de polícia. Desse modo, maior pressão foi realizada pela abertura de inquéritos, mas, em tais ocasiões, segundo o deputado Costa Júnior, o delegado da freguesia teria apenas convocado para prestar depoimentos indivíduos que tivessem algo contra o diretor, como funcionários anteriormente despedidos por ele.
No dia 3 de junho de 1899, segundo a ata da Câmara dos Deputados, a disputa prosseguiu. Heredia de Sá acusou o deputado Costa Júnior de apenas reproduzir as queixas de Barbosa Rodrigues, já anteriormente publicadas nos jornais. De fato, em 23 de maio de 1899, alguns dias antes da disputa na câmara ser iniciada, o jornal O Paiz noticiou uma queixa de Barbosa Rodrigues para o 1° delegado auxiliar da Gávea, a respeito de constantes depredações realizadas pelos moradores vizinhos ao Jardim – tais como apedrejamentos de casas internas ao espaço, e corte de arbustos e cercas por alicates. O mesmo jornal revelou também, em 29 de maio de 1899, uma nota enviada pelo Centro Socialista, na qual é relatada uma reunião conjunta entre os operários da Gávea e um advogado convidado – Dr. Alberto de Carvalho – com vistas a “tratar do desaggravo das offensas que o director do Jardim Botanico dirigiu aos mesmos operarios”, que os havia caluniado (O Paiz, 29.05.1899). O resultado da reunião foi o pedido de demissão do diretor e um pedido de julgamento por crime de injúria, que demonstra a existência de operários organizados em disputa com Barbosa Rodrigues.
Dentre as depredações que, segundo Costa Júnior, eram cometidas no Jardim pelos operários, encontram-se: a quebra de cercas; o roubo de lenha, mudas e flores; o roubo de materiais de construção de casas internas ao Jardim; ameaças realizadas ao diretor e à sua família; e a destruição de uma plantação de canas, na qual havia as melhores espécies do mundo reunidas para ser distribuídas aos estados do país14. O deputado Heredia de Sá
continuou a contrapor-se às acusações feitas aos operários. Entretanto, ao longo do debate com o Sr. Costa Junior, admitiu que “uma vez ou outra alguém tem tirado um pedaço de pao ou um bocadinho de bambu” (Diário do Congresso Nacional, 1899).
Continuamente, as provas apresentadas pelos dois debatedores foram notícias de jornais e depoimentos de funcionários ou de guardas. Na tentativa de defesa aos operários, Heredia de Sá levou ao conhecimento de todos um documento assinado por uma “pessoa qualificada”, que atestava ser a esposa de Barbosa Rodrigues a verdadeira responsável por vender a lenha do Jardim:
(...) Neste documento, Sr. Presidente, ha a declaração da pessoa a que alludo, á qual, chamada para fazer uma compra de lenha no Jardim Botanico, o Sr. Barbosa Rodrigues, dissera que o resultado não era para si, mas para os alfinetes de sua senhora.
Vozes – Oh!
(Diário do Congresso Nacional, 1899)
Costa Júnior rebate a declaração da pessoa qualificada ao revelar que esta, na verdade, seria Manoel Soares de Azevedo, famoso ladrão de mudas do Jardim, que a teria escrito para o delegado, em troca de ser solto, em uma das vezes em que fora preso pelo delito de roubo.
Ainda assim, fosse pelo diretor ou pelos operários, de algum modo o Jardim Botânico teve suas cercas derrubadas e seus elementos internos danificados; quanto a isso, todos concordavam. Uma habitação antiga desocupada dentro dos limites do Jardim aos poucos foi sendo desmontada e suas partes roubadas, até nada restar: “(...) hoje uma porta, amanhã uma portada e assim foram demolindo até retirar a ultima peça de madeira da casa” (Diário do Congresso Nacional, 1899). Esse descaso era a prova de que o delegado da Gávea pouco ou nada fazia. Um operário, pego em flagrante furtando a estrutura da casa, foi levado à delegacia, e solto logo em seguida; uma hora depois, foi preso novamente, por estar roubando a casa mais uma vez.
O maior argumento mobilizado em favor de Barbosa Rodrigues, contra a acusação de ele ser o responsável pelos roubos de lenha, foi sua trajetória enquanto cientista. Costa Júnior enalteceu o diretor ao relatar sua recusa de cargos e de propostas de compra de seus desenhos botânicos, para que estes pudessem pertencer ao país e não aos jardins estrangeiros. Foram exaltadas também suas qualidades enquanto cientista brasileiro, “uma glória nacional” (Diário do Congresso Nacional, 1899), construindo-se o caráter do diretor por sua excelência acadêmica enquanto naturalista. Estava subentendido no discurso, mesmo daqueles que o
acusavam, de que não era possível falar contra a figura de um cientista de renome. Assim, depois de trazido à tona seu reconhecimento científico internacional, rapidamente outros deputados foram contrários em caluniar funcionários públicos como Barbosa Rodrigues, que representava o país no “mundo civilizado” (Diário do Congresso Nacional, 1899).
Heredia de Sá, ao sentir a mudança dos ânimos no debate, baixou o tom de sua fala, afirmando que os operários sempre respeitaram muito o Sr. Barbosa Rodrigues e a sua família. A contenda é encerrada com uma aparente vitória de Costa Júnior, mas não sem este antes apaziguar a situação com Heredia de Sá, afirmando que ele havia apenas sido enganado pela polícia da Gávea, com sua manipulação de provas e testemunhos. Desse modo, a Câmara fez prevalecer o espaço do Jardim como um espaço científico, e não um logradouro público.
Outras reclamações foram feitas por Barbosa Rodrigues, em outros momentos, no que concerne à intromissão de elementos não desejados no espaço do Jardim. Cabras constantemente invadiam suas cercas para pastar (Barbosa Rodrigues ao Sm. Pires Ferrao, ms de 03.07.1893, Infração de Posturas), indivíduos apropriavam-se de terrenos do Jardim há décadas (Livro de Ofícios, 1904), entre outros.
Ao analisar as desavenças entre os operários da Gávea e o diretor do JBRJ, é necessário compreender as diferentes visões manifestas sobre o uso do espaço. Uma possível hipótese acerca da repressão aos operários pela quebra de cercas e coleta de itens seria a de que a ideia de Jardim, enquanto tal, estaria vinculada à manutenção de sua ordem, limites, organização interna e projeto destinado a ele, o que excluiria atividades tais como coleta e pastoreio. Ao violarem os limites e quebrarem a coerência desses elementos, possivelmente os operários questionavam a proposta da sua existência enquanto Jardim Botânico, reivindicando para ele um uso, antes, utilitário do que contemplativo, ou científico. Não se trata, porém, de subordinar a apreciação estética dos trabalhadores às suas razões de ordem prática, mas de buscar contextualizar suas demandas à época.