Rafaela Campos de Carvalho
Flora domesticada:
percepções sobre os jardins do Rio de Janeiro (1890 - 1909)
CAMPINAS 2015
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL
Rafaela Campos de Carvalho
Flora domesticada: percepções sobre os jardins do Rio de Janeiro (1890 - 1909)
Orientadora: Prof.ª Dr.ª Nádia Farage
Dissertação apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp para obtenção do título de Mestra em Antropologia Social
Este exemplar corresponde à versão final da dissertação, defendida pela aluna Rafaela
Campos de Carvalho,
orientada pela Prof.ª Dr.ª Nádia Farage.
CAMPINAS 2015
Ficha catalográfica Universidade Estadual de Campinas
Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Cecília Maria Jorge Nicolau - CRB 8/3387
Carvalho, Rafaela Campos de,
C253f CarFlora domesticada : percepções sobre os jardins do Rio de Janeiro (1890 -1909) / Rafaela Campos de Carvalho. – Campinas, SP : [s.n.], 2015.
CarOrientador: Nádia Farage.
CarDissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
Car1. Rodrigues, J. Barbosa (João Barbosa), 1842-1909. 2. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. 3. Biopolítica. 4. Botânica. I. Farage, Nádia,1959-. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. III. Título.
Informações para Biblioteca Digital
Título em outro idioma: Domesticated flora : perceptions about Rio de Janeiro's gardens (1890 - 1909)
Palavras-chave em inglês:
Botanical Garden of Rio de Janeiro Biopolitics
Botany
Área de concentração: Antropologia Social
Titulação: Mestra em Antropologia Social
Banca examinadora:
Nádia Farage [Orientador] Sidney Chalhoub
Luiz Fernando Dias Duarte
Data de defesa: 08-07-2015
Programa de Pós-Graduação: Antropologia Social
Resumo
Essa dissertação pretende realizar um estudo sobre o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, durante a administração do naturalista João Barbosa Rodrigues, entre 1890 e 1909. Trata-se de buscar o conjunto de representações sobre a flora, veiculadas pela instituição através da montagem de uma coleção botânica, cuja composição deixa transparecer alguns conflitos – entre flora indígena e flora exótica, e entre conhecimento botânico e conhecimento rentável. Pretende-se, ainda, analisar as diferenciações construídas entre Jardim e floresta e, no centro da cidade, entre jardins e rua. As diferentes percepções sobre as árvores no período serão ponto relevante, pois tanto evidenciavam o projeto de higienização e ocupação urbana do Estado, quanto a resistência da população às restrições do espaço público.
Palavras-chave: Jardim Botânico do Rio de Janeiro; João Barbosa Rodrigues; biopolítica;
Abstract
The present dissertation intends to accomplish a study of Rio de Janeiro Botanical Garden during the management of the naturalist João Barbosa Rodrigues, between 1890 and 1909. Its main goal is to determine the set of representations about the flora conveyed by the institution through the display of a botanical collection whose composition revealed intellectual conflicts (exotic flora versus indigenous flora and botanical knowledge versus profitable knowledge). It is also an objective of this dissertation to compare the legal treatment destined to gardens and local forests and, in the city center, between gardens and street. The different perceptions of trees in the period will be relevant because it demonstrates both the hygienic design and urban occupation of the State as well as the population's resistance to restrictions of public space.
Sumário
Introdução ... 1
Capítulo I – Cercando espécies… ... 7
1.1 A ciência em jardins ... 7
1.2 Desenvolvimento de um espaço botânico ... 11
Capítulo II – O celeiro exótico e o exótico indígena ... 15
2.1 Um discurso sobre o sensível ... 17
2.2 Solo aberto à semente apátrida ... 19
Capítulo III – ... Quebrando grades ...55
3.1 Higienizar por muros ... 55
3.2 Disputas pelo espaço ... 61
3.3 Um recanto protegido ... 67
3.4 Ordem e gradil ... 75
Conclusão ...95
Agradecimentos
À minha tia Denise, que me abriu outros caminhos, por todo o carinho. À Neyde e à Maurícia, pois sem elas não teria existido chão. À minha prima Carol, por sempre estar lá. Aos meus padrinhos, Victória Sulocki e Marcus Vinícius, por sempre me apoiarem. Ao escritor e amigo Donald Acosta, por ter cedido sua casa longe dos homens e perto dos mudos, e aos queridos Ivan Freitas e à Tânia Lima, por terem me ajudado a fazer um refúgio ao lado. Ao Hriday Rishi, por me acompanhar no caminho de volta.
Agradeço a Paulo Victor e Giulia Levay pela leitura atenta. A Guilherme Christol, Vanessa Sander, Fábio Pimentel, Thaís Lassali e Antony Diniz, pela cumplicidade. Agradeço a Rafael Nascimento César, por estragar meu ascetismo no primeiro ano de mestrado. A Jussara Welle, Isabel Millán, Lucas Krasucki, Hugo Melo e Alexandre Scoqui, pela satsanga, e ao último, pela imensa disposição para me ajudar com a burocracia. A Fabrício Labre e Patrícia Reis pela amizade, mesmo que distante. A todos os amigos libertários.
Agradeço a Alda Heizer e Magali Romero Sá, pela ajuda nos passos iniciais dessa pesquisa. A Georgia Tavares, do AGCRJ, a Maria da Penha, da Biblioteca Barbosa Rodrigues, e a todos os outros funcionários pela ajuda na busca de documentos. Ao Bene do xerox do IFCH, pelas horas no scanner.
Agradeço a Amnéris Maroni, por todos os anos de ideias geradoras durante a graduação, que me ensinaram a “ver o que é nosso como se fossemos estrangeiros, e como se fosse nosso o que é estrangeiro”.
A Sidney Chalhoub, pela paciência e gentileza em ajudar uma antropóloga a entender a materialidade dos documentos; a ele e ao Prof. Luiz Cesar Marques, por todas as suas sugestões e leitura na banca de qualificação.
E agradeço, especialmente, à minha orientadora Nádia Farage, pelo convite à reflexão, por afastar o mundo do espetáculo, e por ser, para mim, um exemplo do bom pensamento.
A Unicamp, por ser minha casa por tantos anos, e ao financiamento da Fapesp, por ter possibilitado a presente pesquisa.
Índice de Ilustrações
Figura 1: Exposição Nacional de 1908 ... 21
Figura 2:Estufa do Jardim Botânico na Exposição Nacional de 1908 ... 36
Figura 3: Prancha pintada por Barbosa Rodrigues ... 46
Figura 4: Prancha pintada por Barbosa Rodrigues ... 47
Figura 5: Foto do Dea Palmaris ... 51
Figura 6: Recorte de jornal do Dea Palmaris ... 52
Figura 7: Desenho de um gradil de jardim ... 83
Figura 8: Arborização da Rua 1º de março ... 86
Introdução
We may decide then that the fence is a basic and essential feature of the garden, which we found to be an enclosure in the first place. Humphry Repton seems again to be right when, in discussing fences, he says: The most important of all things relating to a garden, is that which cannot contribute to its beauty, but without which a garden cannot exist; the fence must be effective and durable ...
(A.Erp-Houtepen, 1986:229)
Estranhamente, não é tarefa simples definir o que é um jardim. Suas ramificações são mais palpáveis do que sua raiz. As pesquisas acadêmicas (A.Amherst, 2013; H.Ritvo, 1992; H.Segawa, 2010; A.Cunningham, 1996; entre outros) que se ocuparam do tema projetaram diversos olhares, sem fornecer uma definição precisa. Ainda assim, é possível localizar uma linha narrativa compartilhada pela historiografia a respeito de quais seriam as bases conceituais do jardim, apoiadas nos ensinamentos do mestre de jardinagem, de meados do século XVIII, Humphry Repton.
Repton foi reconhecido por ter cunhado o termo landscape garden, por seus trabalhos remontarem a uma natureza em estado “natural”, em contraposição à moda dos jardins artificiais, cuja natureza era modelada pelas mãos do homem (A.Amherst, 2013). Apesar de não desejar a interferência humana no mundo natural, havia um elemento sem o qual, para o mestre jardineiro, não haveria o jardim: a cerca.
Uma cerca é, afinal, um modo de delimitar o espaço. Ela impede a entrada de elementos não desejados, do mesmo modo que impede a saída dos elementos escolhidos para formar a coesão interna do local. Uma cerca define o que é a propriedade, protege seus elementos e preserva a existência do espaço enquanto tal, na tentativa de manter a sua ordem. Enquanto característica essencial de existência, a ausência da cerca, de limites, pode ser entendida enquanto desconstrução da própria ideia de jardim. Assim como a cerca, outros elementos foram valorizados na definição desse ambiente:
Esmero, simetria e padrões formais sempre foram a maneira caracteristicamente humana de indicar a separação entre cultura e natureza. Mas a tendência para o cultivo uniforme parece, no mínimo, ter aumentado no início do período moderno. (K.Thomas, 2010:363).
qual a distinção entre o espaço domesticado e o espaço selvagem começou a ser demarcado com maior ênfase – ao menos na Inglaterra, segundo Keith Thomas (2010), em estudo pioneiro para uma história ambiental. Não são muitos os trabalhos existentes sobre a temática, mas no caminho aberto pelo autor, utilizarei prioritariamente sua análise, que correlaciona a estética dos jardins ingleses, entre os séculos XVIII e XIX, às mudanças na percepção social quanto à paisagem e à natureza.
Assim, com o desenvolvimento urbano, a demarcação entre cidade, campo e floresta tornou-se cada vez mais visível:
Essa paisagem cultivada distinguia-se por suas formas cada vez mais regulares. A aradura sempre trouxera simetria (…). A prática de plantar cereais ou vegetais em linhas retas não era apenas um modo eficiente de aproveitar espaços escassos; também representava um meio agradável de impor a ordem humana ao mundo natural desordenado (K.Thomas, 2010:362).
A natureza domesticada e produtiva, segura à ocupação humana, era a natureza desvinculada da floresta, fonte de perigos e motivo de terror no imaginário popular. Segundo K.Thomas (2010:293), foi somente com o êxodo rural e a eventual segurança proporcionada pelo urbano frente ao natural, que uma mudança de sensibilidade se impôs: ao mesmo tempo em que o espaço urbano foi entendido enquanto um local seguro, a noção da cidade como ambiente sujo e corrupto tomou força. Reciprocamente, a noção de ambiente rural enquanto local de pureza e virtude influenciou o plantio de árvores no perímetro urbano (K.Thomas, 2010:301). A apreciação controlada do meio natural estimulou e valorizou, assim, a construção de parques e jardins na cidade já urbanizada.
Ainda segundo o autor (K.Thomas, 2010:309), a idolatria do campo e da natureza começou a ser expressa também por um repúdio às formas artificiais no trato com o mundo natural. Na Inglaterra do século XVIII, os jardins domésticos, antes apreciados, passaram a ser vistos como integrantes de uma natureza degenerada. O toque civilizador transformou-se no toque impuro, e apenas na natureza selvagem o sentimento de transcendência fazia-se possível. As formas naturais, o campo inculto e a terra agreste começaram a ser compreendidas enquanto locais de beleza.
K.Thomas (2010) demonstra que a desconstrução da ideia de jardim formal, assim como a aversão ao processo de expansão de outros domínios da ordem humana ao mundo natural, foi sensibilidade desenvolvida na ebulição do movimento romântico e de suas formas de contato com a natureza, mas não significou o fim do movimento de jardinagem, e sim a
modificação da estética produzida nos jardins. Aquilo antes apreciado para compô-lo, plantas ornamentadas e árvores enfileiradas, passou a ser visto como artificialidade corrompida. O jardim doméstico e os jardins de passeio tentaram, portanto, imprimir em si a marca da rusticidade e do acaso, em uma tentativa de levar a beleza do selvagem para o seio urbano – embora, diferentemente do amplo movimento de jardinagem doméstica, não foi o conjunto da sociedade inglesa integrante desse movimento. A possibilidade de apreciar a rusticidade e a terra inculta estava vinculada à disponibilidade de sustento garantido. De modo que o homem do campo, e o homem da cidade de classe popular, continuaram a apreciar a organização de seu jardim doméstico conforme padrões estéticos limítrofes. Assim como, em outros países, a estética dos jardins não seguiu, necessariamente, a receita desse paisagismo natural inglês.
O ponto relevante é que mesmo para um dos principais representantes da estética inglesa do período, Humphry Repton, independente de sua rusticidade, o jardim somente seria considerado enquanto tal conforme fossem apresentadas algumas marcas de diferenciação com o meio natural. Esse seria o “denominador comum” apresentado pelos diversos tipos de jardins: seus limites, além da reunião de diferentes espécies da flora. Fossem os muros da cidade, barras de ferro adornadas ou singelas cercas-vivas, a presença humana estava posta como condição organizadora dos elementos internos ao local. Ainda que selvagem, um jardim deveria emanar sentido, seleção e classificação.
Tal constatação relaciona-se diretamente ao modo pelo qual a elaboração da ideia de jardim foi narrada pela historiografia. De maneira generalizadora, é dito que sua criação é vinculada às necessidades humanas em diversas esferas, remetendo seu surgimento ao princípio dos tempos. O primeiro jardim teria sido o paraíso do gênesis, relacionado ao entendimento cristão do início da humanidade. Segundo H.Ritvo, a palavra paraíso deriva do antigo termo persa que significa parque fechado (H.Ritvo, 1992), motivo pelo qual os jardins buscariam sempre reproduzi-lo.
Não obstante a genealogia controversa, os jardins foram locais comumente desenvolvidos para passeio, para conforto estético e espiritual, para higienização, para afirmação do poder colonial, assim como para o desenvolvimento do conhecimento existente sobre a natureza, entre outros tantos. Trataremos aqui do desenvolvimento de uma dessas formas, através de um tipo específico de jardinagem historicamente construída: aquela vinculada fortemente ao desenvolvimento científico e à criação de instituições do Estado para lidar com a flora, a saber, o jardim botânico. Tomaremos para estudo, especificamente, o Jardim Botânico no Rio de Janeiro, no entresséculos do XIX ao XX.
Para tanto, a dissertação está dividida em três capítulos. No primeiro capítulo busquei revisar a literatura relativa aos jardins botânicos, uma das formas constituídas de organização do mundo vegetal, relacionada à produção de conhecimento pela ciência euroamericana moderna sobre a flora. Nesse intuito, percorri a bibliografia existente, acerca do surgimento de tais espaços, de sua importância para o desenvolvimento da história natural, e influência para o comércio no século XVIII e XIX, questões fundamentais que permitiram o estabelecimento desta instituição científica em escala mundial.
A história do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ) foi investigada, em grande parte, por meio dos estudos que se ocuparam em reconstituir a trajetória dessa instituição. Seguimos a história do Jardim até a administração de João Barbosa Rodrigues, através, principalmente, de um histórico escrito por este diretor, fonte recorrentemente utilizada pela historiografia. Busquei, porém, ampliar as fontes ao longo da dissertação, utilizando atas da Câmara dos Deputados, ofícios administrativos da instituição, relatórios ministeriais, cartas emitidas pela direção, notícias em periódicos, e do conjunto da obra de Barbosa Rodrigues.
No segundo capítulo, no intuito de compreender o papel exercido pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro no recorte temporal desse projeto (1890 – 1909), busquei realizar uma análise de uma coleção de plantas vivas e de seu inventário manuscrito, ambos produzidos pela direção da instituição para uma exposição temporária no início do século XX. Procurei, através dessa coleção, entrever as conexões entre seus atores, políticas e objetivos.
Nesse sentido, busquei localizar a discussão já existente sobre coleções, aprofundar-me no contexto histórico no qual a exposição temporária foi realizada, procurar relações entre os elementos da coleção selecionada, e rastrear as concepções de seu responsável, o botânico Barbosa Rodrigues, por meio da leitura de suas obras e de sua inserção no meio científico do período. Tal leitura busca somar-se aos estudos sobre o papel do JBRJ à época, como instituição responsável pela representação da flora nacional e, por esse motivo, sua relevância na construção de um imaginário para a nação.
No terceiro capítulo, busquei compreender a organização instituída ao meio natural no período, por meio da análise de algumas diferenciações desejadas, a saber, a separação entre jardim e floresta, em referência ao JBRJ e à floresta de seu entorno, e entre jardim e rua, referente aos jardins públicos da cidade do Rio de Janeiro e às suas restrições por grades, ao longo do século XIX e início do XX.
contínuo processo de desmatamento. Ao receber ininterruptamente verbas, e ter suas atividades em evidência, o JBRJ despontava como instituição altamente valorizada, em grande parte devido à sua esperada capacidade de produzir conhecimentos científicos passíveis de transformação em atividade rentável – motivos esses que afastaram, também, as práticas extrativistas no Jardim.
Já no centro da cidade, a oposição entre jardim e rua deveu-se ao projeto de urbanização excludente perpetrado pelo Estado. Através das séries documentais Jardins
Públicos e Arborização (Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro) observei que não apenas
os jardins, mas mesmo as árvores da cidade eram restritas circundadas por grades. Pude, também, constatar a resistência popular a esse controle, pretendido para o espaço público, e a defesa de outras formas de relacionar-se com o meio natural.
Capítulo I – Cercando espécies…
1.1 A ciência em jardins
O surgimento dos jardins botânicos é questão controversa. Segundo L.Brockway (1979) e B.Bediaga (2007), os jardins botânicos advém dos jardins de plantas medicinais reunidos por médicos, boticários e curiosos, tendo sido frequentemente anexos às escolas de medicina das universidades renascentistas europeias desde o século XVI. Além de sua vinculação acadêmica, os jardins reais também constituíram espaços nos quais coleções de plantas foram implementadas. Apesar das diferentes origens, e dos frequentes processos de diversificação de atividades ao longo de seu desenvolvimento, jardins foram qualificados como botânicos por seu vínculo à pesquisa científica da flora. Para compor as coleções desses laboratórios de pesquisa, hortus medicinaes, diversas plantas foram adquiridas, colecionadas e cultivadas (K.Thomas, 2010:383).
O interesse de cunho menos utilitário, e mais enciclopédico, pelas plantas em si, deveu-se ao desenvolvimento da botânica e da zoologia como passatempo das classes abastadas (K.Thomas, 2010). Com o sistema lineano, o divertimento consistia em descobrir novas plantas e classificá-las de acordo. Não apenas no que concernia à classificação, a botânica tornou-se atividade respeitada, uma filosofia que deveria ser ensinada. No final do século XVIII, para Rousseau, por exemplo, a botânica não era uma ciência das palavras e da memória, mas do conhecimento direto da natureza a ser ensinada aos jovens: “Antes que lhes ensinemos a nomear o que virem, comecemos ensinando-lhes á ver” (J.-J.Rousseau, 1801:53). A botânica constituía, assim, uma possibilidade de “estudar no livro da natureza” (J.-J.Rousseau, 1801), não necessariamente utilitária, mas um modo de acesso ao mundo sensível.
Com as viagens marítimas, e a subsequente expansão das fronteiras conhecidas entre as nações, foi crescente a criação de clubes e sociedades destinados à difusão e ao acúmulo do conhecimento de história natural. Mais plantas eram coletadas e incorporadas às coleções botânicas a serem estudadas nos jardins, mais elementos do mundo natural eram catalogados e admirados em diversas instituições em processo de especialização, tais quais os jardins botânicos, os museus de história natural e as diversas coleções particulares (M.Lopes, 1997). Entretanto, a sistematização da natureza em grande escala por sociedades e, cada vez mais
pelo Estado, seguia a agenda imperialista:
Adverte-se claramente que o 'grande problema de descrição física do globo', como apareceu no final do século XVIII na Europa, não é, de maneira alguma, independente do grande projeto de expansão política e comercial que a Europa estava simultaneamente articulando na escala global. Além do que possam ser, as taxonomias européias descritivas, assim como seus museus, seus jardins botânicos e suas coleções de história natural, são formas simbólicas de apropriação planetária, articulações de uma 'consciência planetária' emergente através da qual, parafraseando Daniel Defer (1982), a Europa chega a ver-se a si mesma como um 'processo planetário' mais do que uma simples região do mundo (M.Pratt, 1991:154).
O caráter econômico do conhecimento da história natural foi cada vez mais especializado e estimulado pelos estados nacionais, os quais patrocinaram naturalistas para viajarem ao redor do mundo e coletarem plantas, animais, minerais e todo elemento de possível interesse para uso da economia nacional. As trocas de plantas, sementes e animais já eram realizadas, trazidas por marujos, principalmente para as coleções exóticas da aristocracia, mas tiveram seu ápice a partir do final do século XVIII (K.Thomas, 2010), momento no qual as instituições especializadas em história natural começaram a realizar suas próprias expedições. Das coleções privadas aristocráticas à organização sistemática pelo Estado, a diferença no tratamento do mundo natural passou da apreciação estética para um sentido de posse mais evidente; tal processo atingiu tanto a flora quanto a fauna: “Posteriormente, o zoológico tornou-se um símbolo da conquista colonial, bem como de riqueza e status.” (K.Thomas, 2010:391).
A relação entre ciência e comércio firmou-se com as pesquisas de aclimatação. Aclimatar era transferir espécies de um país, ou zona climática, para outro, e tentar aperfeiçoá-las no novo ambiente. O aperfeiçoamento consistia em encontrar formas de torná-las o mais rentáveis para a empresa colonial, ou seja, melhorar sua produtividade, resistência ao calor ou ao frio e diminuir o custo de sua implementação. Assim, durante o século XIX, a prática de mobilizar elementos do mundo natural para trocas entre regiões era o modo de desenvolvimento da pesquisa científica, de modo que:
(...) Assim como os líderes da Europa alteraram a geografia política do globo, também os aclimatadores alteraram a sua biogeografia. Durante este período, um discurso pervasivo sobre a migração de animais e plantas entre as zonas climáticas surgiu em cumplicidade com a política europeia de apropriação e de comando (W.Anderson, 1992:135, tradução minha)1.
Ciência adaptada às pretensões coloniais, a aclimatação entendia que cada espécie, animal ou vegetal, pertencia a uma região do globo, mas aquelas advindas das regiões tropicais, ou zonas tórridas, eram espécies degeneradas. Seu melhoramento, assim como o fascínio produzido por seu exotismo, estimulou a criação de diversas sociedades, interessadas em desenvolver a economia de suas colônias (M.Osborne, 2000). No início do XIX, os jardins botânicos tornaram-se, nessa circulação de espécies, a instituição responsável por aclimatar, melhorar e distribuir as mudas e sementes das plantas recebidas.
Uma vez que da flora derivava a maior parte das riquezas das nações, o conhecimento botânico era altamente mercantilizado. Assim sendo, várias medidas eram implantadas para dificultar a disseminação das pesquisas, tais como a proibição do cultivo nas colônias de diversas espécies vegetais. As mudas e sementes eram arduamente encontradas, protegidas por especialistas em plantio, acervos agronômicos e botânicos, para que potências concorrentes não conseguissem realizar sua produção. No Brasil, Portugal valeu-se de decretos, proibições, políticas de restrição, taxas e direitos, para proteger o conhecimento sobre a flora, pois seu poder econômico concentrava-se na capacidade de intercambiar espécies, transportá-las e aclimatá-las (D.Warren, 2007).
Transformar a flora, indígena ou exótica, em uma flora domesticada tornou-se, assim, a missão dos jardins botânicos, prática condizente com a ideia da história natural enquanto produtora de conhecimento rentável. Para Mary Pratt (1999:75), o mapeamento sistemático das espécies, notadamente o sistema classificatório, botânico e zoológico desenvolvido por Carlos Lineu, estava “(...) correlacionado à crescente busca de recursos comercialmente exploráveis, mercados e terras para colonizar, tanto quanto o mapeamento marítimo está ligado à procura de rotas de comércio (...)”.
No quadro, portanto, dessa relação recíproca entre ciência e comércio, unindo o interesse botânico comercial à acumulação de conhecimento sobre o mundo natural, os jardins botânicos ocuparam a posição de importantes instrumentos de intercâmbio colonial. Constituíam espaços destinados à pesquisa, à experimentação agrícola e à aclimatação de espécies, sendo a marca visível e duradoura da apropriação e acumulação, por parte do Estado, das riquezas naturais de seus domínios coloniais. Criados em diversas colônias, possibilitavam a acumulação e sistematização das informações obtidas por naturalistas, sobre as espécies nativas existentes no território por eles explorados, desenvolvendo a partir delas
métodos de coleta, transporte, estufas e aclimatação. Consolidava-se, ao mesmo tempo, a observação como método para a produção desse novo conhecimento (N.Sanjad, 2010:187), construído pelos viajantes com o objetivo de um inventário, o mais exaustivo possível, da natureza.
O Brasil, desde o período colonial, constituiu um terreno atraente para os viajantes naturalistas e suas viagens filosóficas (L.Kury & M.Sá, 2009), em busca da catalogação, observação e possíveis usos da flora2. Além dos naturalistas, os jardins botânicos, ao se tornarem um espaço de produção de conhecimento, articulavam outros tantos atores, tais como agentes coloniais e fazendeiros. Na colônia brasileira, essas conexões estavam inseridas em um processo devido à implementação de plantas de potencial valor econômico. Mais do que a busca por novas espécies nativas para estudo e coleção, os jardins botânicos estabelecidos no Brasil, em seu início, tinham por função a transferência e aclimatação das espécies exóticas sobre as quais já houvesse conhecimento acumulado, de rentabilidade assegurada. Assim, em sua maioria, as espécies exóticas, advindas de outras colônias portuguesas, eram transferidas para os jardins botânicos brasileiros, para serem multiplicadas e distribuídas pelo território3.
O Jardim Botânico da Ajuda (1760) foi o primeiro jardim botânico criado em Portugal, detendo a função de coordenar as espécies coloniais. Assim, conforme N.Sanjad (2010:20):
Na década de 1790, D. Rodrigo de Souza Coutinho, ministro da Marinha e Ultramar do príncipe regente D. João, ampliou essa política com novas medidas administrativas. Dentre elas, consta a ordem expedida para vários pontos do império, determinando a construção de hortos botânicos.
Dentre os jardins botânicos estabelecidos por Portugal no Brasil encontram-se o Jardim Botânico do Grão-Pará, o Jardim Botânico de Olinda e o Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Apesar de apenas o último ainda restar, até o início do século XIX, os três jardins constituíram uma rede de trocas botânicas e científicas. Ainda assim, outros jardins foram criados posteriormente4.
No Brasil, revogadas as restrições mercantis em 1808, instituições estatais foram
2 Destaque-se, no período colonial, a viagem filosófica liderada por Alexandre Rodrigues Ferreira (1781-1786), única expedição científica financiada pela Coroa portuguesa para o conhecimento de seu domínio amazônico (M.Amoroso & N.Farage, 1994).
3
Segundo Dean Warren (1989:2), o açúcar e o gado foram alguns dos primeiros itens a serem transferidos para o Brasil pelos colonizadores portugueses, intensificando assim, a exploração sobre o território e seus habitantes nativos.
estabelecidas, criando-se uma rede burocrática operacional, na qual os jardins botânicos, do mesmo modo que os museus de história natural, ocuparam lugar de destaque (D.Warren, 2007). Os jardins botânicos luso-brasileiros formaram, a partir de então, uma rede que facilitava as trocas de espécies comerciais (N.Sanjad, 2001). Dentre eles, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), de que me ocupo a seguir.
1.2 Desenvolvimento de um espaço botânico
Ao longo de sua existência, o JBRJ possuiu diversos objetivos, descritos, em parte, pela historiografia que se dedicou a sua trajetória institucional (B.Bediaga, 2007; A.Peixoto & R.Guedes-Bruni, 2010; A.Heizer, 2007; entre outros). É importante mencionar que a escassa documentação é apontada pelos historiadores: B.Bediaga (2007) acusou perda, ou não localização de arquivos institucionais, no período anterior a 1930. Assim sendo, um dos poucos documentos existentes é o histórico escrito por um antigo diretor, João Barbosa Rodrigues, sobre o Jardim. A historiografia localiza o Hortus Fluminensis (1894) de Barbosa Rodrigues, como a certidão de nascimento do JBRJ (A.Peixoto & R.Guedes-Bruni, 2010:33). Nele se baseiam as minhas considerações.
O Jardim Botânico do Rio de Janeiro foi inaugurado em 1808, logo após a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro. Surgiu como anexo de uma fábrica de pólvora, previamente estabelecida pela família real. Por meio de viagens de marinheiros até outros jardins de aclimatação, o pequeno horto começou a receber mudas. A aquisição de espécies, ainda que através de pirataria, era estimulada e recompensada pela família real portuguesa (B.Bediaga, 2007)5.
D. João VI pretendia, com isso, criar um jardim de aclimatação de modo a introduzir as especiarias orientais no Brasil, assim como era realizado em outros jardins botânicos, para fomentar o desenvolvimento da economia agrícola. O Jardim surgiu, então, como Real Horto particular e privado do monarca, tendo por função tanto a aclimatação de espécies exóticas quanto servir como restrito jardim de passeio (Barbosa Rodrigues, 1894).
Além da aclimatação de especiarias, em 1811, o então denominado Real Jardim Botânico teve seus terrenos ocupados por extenso plantio de chá, com o objetivo de vulgarizar a cultura por todo o país. Tamanho o sucesso conquistado, o Jardim obteve um aumento de
5 São comumente ressaltadas as histórias de roubo de mudas advindas do Jardim Gabrielle, na Guiana Francesa, e do Jardim Pamplemousse, em território francês (B.Bediaga, 2007, entre outros).
sua área física. O espaço começou a abarcar também o estudo de plantas úteis no país, em específico, o estudo de plantas exóticas, trazidas de outros locais. Mas foi somente no reinado de D. Pedro I que o Jardim deixou de ser um parque privado e tornou-se público, adquirindo o nome de Imperial Jardim Botânico (Barbosa Rodrigues, 1894).
No período de reorganização administrativa que se seguiu à independência, o Jardim obteve grandes estímulos científicos graças a nomeação do carmelita Frei Leandro do Sacramento como seu primeiro diretor, em 1824. Segundo o histórico de Barbosa Rodrigues (1894:IX), o Jardim teria passado, assim, de jardim de aclimatação à jardim botânico, ao trocar a “simples introducção da cultura empirica para passar a trabalhos mais serios de experimentação e de estudo.” O carmelita foi considerado um dos diretores mais competentes que o Jardim já possuiu, graças ao seu amplo conhecimento botânico e à sistematização de tais estudos no Jardim. Organizou, assim, o local de acordo com critérios científicos, além de embelezar o arboreto, expandir o cultivo de chá, estimular as trocas de mudas com outros jardins botânicos, reformular sua organização interna, distribuir plantas e sementes para os estados, e cercar o Jardim com espécies de cercas-vivas6.
Durante as primeiras décadas do século XIX, o local mantinha-se tanto para a experimentação de plantas, quanto para passeio e lazer. Na segunda metade do século XIX, segundo Barbosa Rodrigues (1894), uma crise se instalou no JBRJ pelo fato de ter sido anexado ao Imperial Instituto Fluminense de Agricultura (IIFA). Criado em resposta ao início da crise da economia cafeeira na província do Rio de Janeiro (B.Bediaga, 2011; J. Benchimol, 1992), o IIFA, instituto privado, tinha por objetivo civilizar o campo, aplicando a ciência para o melhoramento da agricultura do país (B.Bediaga, 2011). Assim sendo, as pesquisas realizadas no JBRJ naquele período tenderam para o desenvolvimento da química, agronomia, indústria, e outras áreas relacionadas às tecnologias agrícolas, e não para os estudos botânicos. Momento administrativo amplamente criticado por muitas das direções posteriores, além das novas metas em renovação da agricultura brasileira, o JBRJ assumiu cada vez mais os caracteres de um parque de passeio, em um sentido negativo. As plantas deixaram de ser classificadas, espalhando-se pelo terreno sem indicação; os laboratórios foram abandonados, enquanto mesas para refeições ao ar livre foram construídas; seu horário de abertura foi ampliado; mudanças que causaram, em parte, perda de sua credibilidade enquanto jardim
6 “A elle se devem as cercas de murtas, de crotons e de hybiscus (mimos de Venus), cortados cuidadosamente e que ainda hoje fazem o encanto dos visitantes, pela regularidade no córte e vivacidade de côres, embora os
botânico, no decorrer do longo período de trinta anos em que esteve submetido ao IIFA (1860 – 1890). Em uma tentativa de conciliar o parque de passeio público com o instituto de pesquisa botânica, e ao mesmo tempo com o instituto de pesquisa agrícola, o JBRJ, segundo Barbosa Rodrigues, não teria cumprido nenhuma de suas proposições com eficiência no período. Ainda segundo Barbosa Rodrigues, do ponto de vista das ciências botânicas, esse longo período de falta de investimentos em suas atividades teria resultado em descrédito da instituição pela comunidade científica internacional.
Para o desgosto de muitos, o investimento no JBRJ, no sentido de transformá-lo em local de passeio, foi bem sucedido. Na época da administração do IIFA, tentou-se, assim, “conciliar o útil ao agradável” (B.Bediaga, 2007), mas, já nas primeiras décadas de seu surgimento, o Jardim era utilizado como passeio. A princípio, apenas as classes mais abastadas o frequentavam, após a abertura do Jardim para o público. Mas com o barateamento dos transportes, consequente do plano de obras urbanas para a cidade (J.Benchimol, 1992), a frequência da população aumentou, o que exigiu maior manutenção. Em 1871, era possível chegar ao JBRJ por bondes da companhia Botanical Garden Railroad, o que gerou inclusive um aumento populacional nos bairros do entorno.
Diversas administrações do Jardim empenharam-se para aumentar o público e atendê-lo pois, mesmo sendo afastado do centro, seu uso social era crescente. No entanto, principalmente para os botânicos e naturalistas, ciência e lazer opunham-se. Apesar das discordâncias quanto ao uso devido do espaço, “A condição simultânea de recinto científico e de passeio foi um traço marcante nos jardins botânicos ao longo do século XIX” (H.Segawa, 2010:52). De acordo, portanto, com esse entendimento das autoridades locais, e com os novos modelos institucionais que se firmavam na Europa, o JBRJ foi progressivamente perdendo seu caráter experimental e tornando-se o que Dean Warren (1989) chamou de “meros passeios públicos”.
Pesquisadores estrangeiros apontavam a falência do JBRJ, transformado em um parque público no qual não se desenvolvia mais trabalho botânico algum. Nelson Sanjad (2001:198) apontou esse descaso como sintoma de uma falência das ciências naturais no período imperial, em comparação à indústria agrária que se estabelecia. Tratando de museus e outras instituições, M.Lopes (1997:331) expressa opinião semelhante, apontando ainda sua história marcada por rupturas e descontinuidades ao longo do século XIX.
Já os objetivos daqueles atores ligados à história natural era tornar o JBRJ um estabelecimento de ciência, ou seja, estabelecer nele certas atividades, tais como a formação
de coleções botânicas para estudo, dispor de uma biblioteca, de um herbário, e constituir relações de troca com outros jardins botânicos. Esses objetivos só vieram a ser plenamente realizados no período republicano. Em 1890, o JBRJ foi definitivamente desvinculado do IIFA, e passou para a administração de Barbosa Rodrigues, naturalista conhecido e respeitado no cenário científico nacional.
Capítulo II – O celeiro exótico e o exótico indígena
Antes de tomar posse como diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, em 1890, João Barbosa Rodrigues já havia construído uma carreira na segunda metade do século XIX, havendo produzido conhecimento botânico, entomológico, arqueológico e etnolinguístico norte-amazônico. Nos anos oitenta do século XIX, em comissão governamental, percorrera, em expedição de três anos e meio de duração, os estados do Pará e Amazonas, quando coletou vocabulários de diferentes línguas indígenas (depois publicados em Poranduba Maranhense, 1890) e artefatos de sua cultura material. Seu primeiro grande trabalho de classificação botânica teve por objeto as orquídeas amazônicas e, mais tarde, as palmeiras da Amazônia e do Brasil central. Ocupou, a partir de 1883, também o cargo de diretor do Museu Botânico do Amazonas em Manaus, jardim botânico pertencente à rede estabelecida por D. João VI, fechado ao final do Império (Von Ihering, 1911).
Autodidata, João Barbosa Rodrigues enfrentou muitos obstáculos em sua carreira, mas o “Ideal nacionalista da época, o mecenato de Capanema e uma grande ambição acabaram por tornar Barbosa Rodrigues o dirigente de maior prestígio da história da instituição (...)” (M.Sá, 2001:921) e, ao mesmo tempo, “um dos cientistas de maior expressão no país e no exterior” (M.Sá, 2001:900).
Ao assumir a direção do Jardim, Barbosa Rodrigues estava no auge de seu reconhecimento enquanto naturalista. Mas, ainda que o JBRJ fosse, no período, uma das instituições mais importantes para o Estado, Barbosa Rodrigues disse ter recebido ao seu encargo um estabelecimento sem arquivo no qual fosse possível estudar sua história, sem um herbário que possibilitasse a produção do conhecimento botânico, e sem classificação de qualquer ordem científica. Culpou as administrações anteriores por essas falhas e, para supri-las, escreveu um guia histórico do Jardim, seu regulamento e a relação das plantas existentes no local no momento de sua posse. Tais trabalhos foram compilados em Hortus Fluminensis (1894), guia escrito pelo novo diretor para remediar a falta de sistema, o “labyrintho” em que ele encontrou o Jardim.
Para garantir a retomada do Jardim aos seus princípios científicos, Barbosa Rodrigues escreveu e enviou ao Ministro da Agricultura um novo projeto de organização, publicado no decreto nº 518 de 23 de junho de 1890: “Art. 1º - O Jardim Botanico é destinado não só a diversões do publico, em geral, mas especialmente ao estudo da botanica (...)” (Legislação do Senado Federal, 1890). As plantas deixaram, então, de ser vistas primariamente por sua beleza
estética, adquirindo, cada uma delas, uma etiqueta de identificação – apresentando-se devidamente ordenadas, separadas e classificadas. Pode-se dizer que esse foi o tom da direção de Barbosa Rodrigues: ordenar o Jardim de modo a torná-lo um local de ciência. Para tratar da administração de Barbosa Rodrigues (1890 – 1909), este capítulo irá se deter na coleção botânica organizada pelo cientista para a Exposição Nacional de 1908, em busca de uma perspectiva de leitura diversa da história institucional.
Apesar das modificações que sofreram as ideias e objetivos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro ao longo de sua história, seu propósito manteve-se guiado por motivos considerados científicos, devido ao viés educacional, metódico e investigativo que constantemente acompanhou as atividades realizadas em tais dependências.
Se uma das principais características que distingue os jardins botânicos de parques e jardins diversos é sua pesquisa científica, é necessário, então, analisar seus elementos diferenciais: o fazer científico reivindicado e as coleções botânicas que o precedem. Instrumentos vitais para a produção nessa área de conhecimento, as coleções botânicas foram constituídas por meio de diversos modos de se organizar a coleta, classificação e armazenamento de espécimes da flora, tais como herbários, arboretos e coleções vivas. Na falta de tais estruturas, as pesquisas botânicas não são possíveis, “o taxonomista sem herbário é como um herbário sem taxonomista. Um depende do outro. O crescimento de um está vinculado ao crescimento do outro” (G.Barroso, 2003:141). Entende-se, assim, a importância dada por Barbosa Rodrigues, enquanto diretor do Jardim, à organização da estrutura científica.
Estudos contemporâneos dedicados à história das ciências têm nas coleções um importante objeto de estudo, uma vez que podem falar não apenas da história das instituições, mas também da rede de saberes a que pertencem. Seguindo Donna Haraway (1989), contemplaremos a coleção de plantas vivas e o catálogo produzido por João Barbosa Rodrigues, em nome do acervo do JBRJ, para a Exposição Nacional de 1908, realizada no Rio de Janeiro. Como propõe Donna Haraway (1989), reunirei alguns indícios encontrados para elaborar uma hipótese sobre os sentidos da coleção botânica de Barbosa Rodrigues, e de modo correlato, da flora brasileira.
2.1 Um discurso sobre o sensível
A segunda metade do século XIX, e início do XX, foi, reconhecidamente, o tempo das exposições (F.Hardman, 1991; S.Pesavento, 1997; H.Barbuy, 1999). Elas representaram eventos que uniram, em apenas um local, museus, feiras de novidades tecnológicas, exibições de itens exóticos e acúmulo de excentricidades. De ambição universal, eram realizadas periodicamente em diversos países. Vultuosas somas de dinheiro e grandes esforços foram empenhados pelos Estados para estruturá-las: teatros requintados, restaurantes elegantes, portões decorados, imensos palácios ornamentados e jardins suntuosos. Uma cidade erguia-se em um lapso de tempo assombrosamente curto, desvanecendo-se na mesma proporção ao final delas.
As exposições universais duravam poucos meses, dentro dos quais se exaltavam e se exibiam objetos que ilustrassem o desenvolvimento tecnológico, as matérias-primas disponíveis, a modernização da vida urbana e o inventário dos componentes existentes em cada região. Apresentavam-se sinteticamente as descobertas realizadas pela ciência, fossem elas no campo do mundo natural, das artes ou da indústria. Assim, não apenas maquinários eram exibidos no estande destinado a cada país, mas também estava presente uma infinidade de maravilhas diversas: espécimes empalhados da fauna, plantas secas e mudas distintas, minérios de diferentes cores e formatos, vestimentas, artigos de decoração, amostras de terra, folhas de formatos diversos, penachos, artesanato, e longos catálogos dos elementos contidos no mundo natural pertencente a cada território.
A partir desse vislumbre sistemático, proporcionado pela concentração e ordenação dos elementos dispostos, exibia-se ao público uma perspectiva da realidade criteriosamente selecionada e moldada por seus organizadores. Desse modo, a participação de uma indústria, ou de uma nação, em uma exposição universal era algo estimado. Participar de uma exposição era garantir, até certo ponto, a capacidade de apresentar ao mundo uma narrativa, assim como divulgar amplamente seus produtos, atraindo consumidores e investidores (S.Pesavento, 1997).
Para cada nação, ao menos para aquelas de relevância comercial e cultural aos organizadores, era reservado um espaço para apresentação de seus produtos, ficando a cargo do país construir seu chalé, ou geralmente seu palácio, para alocar o material que seria por ele enviado. A exibição de materiais, objetos e técnicas relevantes para cada país estabelecia a possibilidade de trocas e investimentos econômicos. Assim sendo, a escolha do material a ser
apresentado era uma decisão essencialmente política.
Um dos objetivos mais propagados pelas exibições era o contato cultural entre os povos, mas o local ocupado por cada nação era pré-determinado pelas concepções acerca de sua aptidão natural e comercial. As necessidades da indústria em escala mundial determinavam qual seria o produto, ou a matéria-prima, relevante de cada país e assim, “a divisão social do trabalho mostra-se precisamente como divisão entre nações. Os estandes classificam não só produtos, mas, ao mesmo tempo, países” (F.Hardman, 1991:60). Desse modo, por mais que o Brasil enviasse produtos processados e alguns tipos de maquinários, ele era reconhecido, seguidamente, por matérias-primas agrícolas, tais como o café, e pelo exotismo e abundância de sua flora, como veremos adiante.
Ainda que a recepção não fosse previsível, a imagem que as nações desejavam para si era propagada por meio das coleções exibidas nas exposições. As coleções não eram, portanto, uma mera coleta de objetos, antes, requeriam seleção, classificação, ordenação e exibição, metodologia usada na formação de outras diversas coleções. Assim sendo, em cada exibição subjazia um conjunto de ideias inerentes ao que era visto, sistematizadas por seu organizador (S.Pearce, 2005).
Segundo S.Pearce (2005), a metodologia das coleções, derivada da formação de museus, mantinha, como estes últimos, o princípio de transmitir ideias por meio de uma estética do espetáculo. Provenientes dos gabinetes de curiosidades, mas criados com o principal objetivo de instruir o público, os museus foram, em seu princípio, a instituição de produção da memória dos jovens Estados. Por estes financiadas, a configuração das coleções pretendia, pela montagem cronológica e evolutiva de seus elementos, ser o atestado de validade, a certidão de linhagem comprobatória, dos Estados-nação (L.F.D.Duarte, 2005).
Ao propor narrativas sobre uma família real, ou sobre o potencial natural de um território, o museu tornou-se um dos locais no qual a história de nascença do Estado se urdia. O surgimento dos Estados era, assim, justificado pelo arranjo de elementos internos ao seu território, ou ao seu passado histórico (L.F.D.Duarte, 2005). Nessa linha, espécies da flora e da fauna eram também apresentadas ordenadamente em uma estrutura coesa, de modo a produzir uma equivalência entre sentimento estético e realidade objetiva.
Esse motivo era determinante para que os Estados patrocinassem o conhecimento de seu próprio território. Para utilizar elementos com os quais seria possível estabelecer arranjos, para contemplar sua história, era necessário que eles estivessem inventariados. Devido a isso,
preponderante no período de formação da nação, ao menos no que concerniu ao Brasil, como já apontado pela historiografia. Assim, o investimento no potencial simbólico dos signos naturais caracterizou a construção dos museus de história natural, estabelecendo um papel preponderante no processo de construção da pátria brasileira (L.F.D.Duarte, 2005).
Nesta mesma linha, de revelação dos elementos simbólicos nacionais, organizaram-se coleções para as exposições universais, realizadas entre 1851 e 1939. O período corresponde a alto desenvolvimento industrial, trocas comerciais e reestruturação dos grandes centros urbanos. Assim como as coleções dos museus, as coleções das exposições não deixaram de ter o intuito enciclopédico. Um de seus objetivos era, portanto, configurar em sua ordenação do mundo, representação das maravilhas naturais e tecno-científicas pertencentes a cada Estado (F.Hardman, 1991).
2.2 Solo aberto à semente apátrida
It meant that the old traditions of Europe regarding Latin-American 'lands of tomorrow' would have to be discarded, as no longer applicable; and that at least one of these countries, by the evidence shown in this Exposition, deserves to be classed among the most progressive 'lands of today'.
(M.Wright, 1908:37)
Assim enuncia o livro oficial comemorativo da Exposição Nacional de 1908, oferecido como souvenir para seus ilustres visitantes. Escrito pela jornalista e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Marie Robinson Wright, mais do que relatar os acontecimentos e instalações presentes na Exposição, o livro é uma propaganda do evento. Assim sendo, o conteúdo revela as aspirações dos organizadores, como bem expressas na epígrafe acima.
Para tornar o Brasil um país reconhecido como uma terra do agora, era necessário desfazer-se da imagem a ele vinculada até o momento, e partir para a criação de outra, nova e positiva. Se os países da América Latina eram vistos enquanto terras do amanhã, eufemismo do estigma do atraso disfarçado de promessa, ao Brasil caberia evidenciar o potencial imediato de que dispunha. No período, a oportunidade oferecida para tanto era, justamente, uma exposição, momento no qual se poderia desconstruir e reconstruir a composição dos elementos, símbolos e projeções que formavam a nação.
Para esse fim, era necessário decidir quais objetos seriam expostos na próxima exposição universal. Realizavam-se, assim, no período anterior, exposições regionais e nacionais eliminatórias. Os expositores aprovados em nível regional eram aptos a enviar seus objetos para concorrer em nível nacional. Nas exposições nacionais, os objetos eram selecionados através de premiações e, assim, formava-se o conjunto de itens que seriam enviados para a exposição universal, sediada em outro país.
O Brasil participou, consecutivamente, das exposições universais que foram realizadas do final do século XIX ao início do XX. A Exposição Nacional de 1908 era, justamente, o evento preparatório para a Exposição Universal de Bruxelas, em 1910. Para sua realização, foi necessária ampla preparação prévia, que incluía a escolha do local; o aviso aos presidentes de província; a construção dos palácios e estandes; a divulgação nacional e internacional; e o recebimento e organização dos materiais enviados.
Uma exposição era um grande momento para se formular a imagem desejada do país. Não apenas os cidadãos brasileiros, mas diversos visitantes estrangeiros desembarcariam nos portos para conhecer o que o Brasil teria a oferecer. Por isso, o governo compreendia como necessário adequar o espaço para recebê-los. Isso significava modernizar e civilizar a cidade, a fim de que a imagem brasileira a ser veiculada na Exposição fosse a de um país seguro para investimentos.
O processo de reestruturação urbana já ocorria desde o início das reformas urbanas, realizadas na gestão do prefeito Pereira Passos (1902 - 1906). Desde 1902, a cidade sofria modificações drásticas em seu planejamento, especialmente no que concernia às habitações, ao uso do espaço público e à higienização da cidade (N.Sevcenko, 1984; S.Chalhoub, 1996). Nesse contexto, a construção do local destinado à Exposição seria escolhido, sendo a salubridade do espaço a grande preocupação das autoridades (A.Heizer, 2007). Após ter sido escolhido o local, às margens da Urca, mais de trinta suntuosas construções foram erguidas para atender à Exposição (M.Pereira, 2010).
A temática da Exposição era a comemoração do centenário de abertura dos portos (1808), compreendido como momento fundamental, a partir do qual o país pôde estabelecer relações comerciais com outros países e, assim, desenvolver a indústria nacional. A celebração da possibilidade do livre-comércio foi representada pelas diversas instituições do Estado, distribuídas entre quatro principais seções: agricultura, indústria pastoril, outras indústrias e
artes liberais, cada uma delas subdividindo-se em outras seções correspondentes (IHGB, 1908).
A estufa do JBRJ é o elemento que nos interessa. O botânico e diretor do JBRJ neste período, Barbosa Rodrigues, organizou uma seleção de plantas para representar a instituição, dentre as já existentes no Jardim. Elas foram exibidas dentro e ao redor do espaço a ele pré-determinado na Exposição, classificadas e enumeradas. Além disso, criou três materiais, científicos e didáticos. Um deles era um esboço histórico, com fotos e com a cronologia do Jardim resumida (Barbosa Rodrigues, 1908a), que seria entregue aos participantes do evento oficial de inauguração do busto de D. João VI – evento paralelo à exposição nacional, a ser realizado em comemoração do centenário do Jardim (1808 - 1908). Outro material organizado foi a apresentação de uma compilação de um periódico de estudos botânicos, o qual continha pesquisas realizadas pelo Jardim Botânico (Barbosa Rodrigues, 1901-1909). E por fim, o último trabalho era um catálogo das plantas escolhidas para constar na estufa do Jardim na Exposição, o livro Exposição Nacional de 1908: Relação das Plantas Expostas pelo Jardim
Botânico do Rio de Janeiro (Barbosa Rodrigues, 1908b).
Além dos trabalhos já citados, figurou ampla coleção botânica no espaço físico destinado ao Jardim, sendo por isso plenamente reconhecido:
Figurou o Jardim Botanico, e de modo brilhante, na Exposição Nacional de 1908, apresentando, em 8.000 vasos, 1.337 espécies de plantas, devidamente catalogadas e com placas de classificação, comprehendendo, na estufa e ao ar livre, estas 19 secções industriaes: 342 especies ornamentaes, 245 palmeiras, 144 fetos, 112 fructiferas, 44 madeiras de lei, 20 de especiaria, 147 medicinaes, 81 economicas, 24 feculentas, 51 fibras, 15 cotonisas, 13 toxicas, 11 de tinturaria, 10 aromaticas, 14 uteis, 10 lactiferas, 13 de arborisação, 18 oleosas e 23 aquaticas (Relatório do Ministério da Industria, Viação e Obras Públicas, 1909:24).
Apesar disso, o diretor expressou, em sua relação de plantas para a Exposição, uma advertência: o Jardim Botânico não estava preparado para o evento. O tempo útil entre a convocação das instituições e a abertura da Exposição não havia sido suficiente para preparar tantos vegetais para apreciação. As plantas exigiam um tempo muito maior para entrarem na sua fase reprodutiva e apresentarem florescências. Em tom contrariado, Barbosa Rodrigues apresentava sua coleção: “tendo o Jardim Botanico do Rio de Janeiro de se fazer representar na Exposição Nacional, para o que não estava, para esse fim, preparado, e devido ao curto tempo que teve, não figura elle com a riqueza vegetal que possue” (Barbosa Rodrigues, 1908b:V).
plantas encontram-se divididas, por ordem, em:
Tabela 1- Plantas selecionadas para a Exposição (fonte: Barbosa Rodrigues, 1908b).
A listagem do catálogo de Barbosa Rodrigues difere daquela do relatório do ministro
Classificação Exóticas Indígenas
Sem referência / Origem desconhecida Plantas Uteis 10 0 4 Plantas Aromaticas 3 2 1 Plantas Tanniferas e de Tinturaria 3 7 0
Plantas para Arborisação 6 4 3
Plantas Toxicas 2 3 1
Plantas Cotonosas 0 3 3
Plantas Fibrosas 36 16 2
Plantas Oleosas Resiferas 1 10 2
Plantas de Especiaria 10 2 8 Plantas Lacticiferas 4 3 0 Plantas Feculentas 5 7 4 Plantas Economicas 5 2 7 Plantas Fructiferas 37 32 25 Plantas Medicinaes 17 37 40
Madeiras de Lei e Brancas 2 7 42
Plantas Ornamentaes 104 54 25
Familia das Palmeiras 135 90 26
Filices (samambaias) 0 0 3
da Indústria, Viação e Obras Públicas (1909). Além de quantidades diferentes, o relatório ministerial incluía as categorias aquaticas e fetos, e excluía a filices. Na contagem do ministro, figuraram 1.337 espécies, enquanto na de Barbosa Rodrigues, cerca de 8557. A listagem das plantas, registrada pelo relatório ministerial, foi certamente efetuada por Barbosa Rodrigues, e assim sendo, a diferença quantitativa e classificatória entre as duas listas faz supor que o catálogo da Exposição Nacional de 1908 constituiu uma seleção bastante exigente das plantas presentes na estufa do Jardim.
Isto quer dizer que o próprio JBRJ era constituído por um acervo de plantas criteriosamente selecionadas para seu espaço, dentre as quais Barbosa Rodrigues escolheu algumas espécies para representarem o Jardim na Exposição Nacional, e dentre essas últimas, selecionou mais algumas apenas para estarem em evidência no catálogo, que deveria servir de guia ao visitante (Barbosa Rodrigues, 1908b). É a partir dessa constatação que podemos considerar a Relação de Plantas Expostas pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro como um catálogo de grande investimento simbólico. Um espectador da Exposição, estrangeiro ou local, ao visitar a estufa do Jardim Botânico e receber esse catálogo (Livro de Ofícios, 1908), teria acesso rápido às espécies que seriam as representantes finais da flora brasileira.
Após a escolha das espécies, a descrição no catálogo constava de seus nomes, seguidos de breves notas explicativas, como:
PITANGA – Stenocalyx Michilii Fam. das Myrtaceas. Indigena. Planta das restingas, de fructos angulosos, agri-doces e vermelhos. As folhas são antifebris (Barbosa Rodrigues, 1908b:37).
Nas características destacadas nas espécies encontravam-se seu potencial de uso na indústria, o ritmo de seu crescimento, sua habilidade em sobreviver em condições adversas, entre outras. Dentre elas, o único elemento que se repete, com frequência, é a informação sobre a origem das espécies vegetais, se exótica ou indígena.
A oposição exótica/indígena é, de fato, central na classificação de Barbosa Rodrigues e para a botânica do período. Apesar de, aparentemente, trivial, tal oposição merece exame. A medida entre as espécies não estava, portanto, em sua comestibilidade (venenosa/comestível), em sua adaptabilidade (resistente/frágil), em sua capacidade frente ao mercado (rentável/onerosa), ou mesmo o clima de seu cultivo, categoria além das fronteiras nacionais (temperado/tropical). Uma vez que o eixo de referência entre elas é a oposição
exótica/indígena, o que é valorizado como aspecto da espécie é seu lugar de origem, em termos biogeográficos. Barbosa Rodrigues fala, assim, em plantas brasileiras, europeias, asiáticas, japonesas ou chinesas. Situa-se a espécie em um território - “é indigena na India”, afirma Barbosa Rodrigues, sobre o Cajá de Sikim (Barbosa Rodrigues, 1908b).
A preocupação com a biogeografia das plantas não era recente para o botânico. Em
Hortus Fluminenses (1894), Barbosa Rodrigues afirmou que ao tomar posse da diretoria do
Jardim não existiam mais do que 500 exemplares de espécies vegetais, sendo estas em sua maioria exóticas, plantadas devido a um projeto anterior de Jardim. Para realizar um projeto de jardim botânico, nos moldes considerados adequados por ele, o ideal seria eliminar todas as espécies e recomeçar o plantio. Mas, sabendo do choque que isso causaria e da má imagem que traria à sua direção, Barbosa Rodrigues decidiu por apenas organizar, etiquetar as já existentes, e plantar novas espécies.
Catalogadas extensamente para essa obra, mais de 3000 novas espécies indígenas seriam plantadas. Por isso, o autor afirma que “a flora brazileira retomou seus direitos, senão exclusivos, ao menos preponderantes” (Barbosa Rodrigues, 1894). A relevância da flora brasileira para o botânico é marcada em diversos de seus estudos; até mesmo nas citações mais singelas, por exemplo, ao selecionar árvores para arborização da cidade, considera “OITY – Moquilea tomentosa Benth. Fam. Rosaceas. Não só por ser indigena, como por todos os predicados, é a melhor arvore para ornamentação de avenidas no nosso clima” (Barbosa Rodrigues, 1908b:7).
O conhecimento da flora brasileira constituiu, afinal, a carreira do botânico. Em 1872, após encontrar dificuldades em ser reconhecido no campo acadêmico, Barbosa Rodrigues teve a oportunidade de ser financiado pelo governo brasileiro para percorrer o vale do rio Amazonas, com o intuito de completar a Flora Brasiliensis de Martius. Percorreu, então, grande parte do Amazonas e do Pará, recolhendo artefatos arqueológicos, desenhando a flora local, anotando diversas informações etnográficas, e principalmente, coletando orquídeas e palmeiras (M.Sá, 2001). Após vários anos de experiência pelo território brasileiro, Barbosa Rodrigues conseguiu reunir material suficiente para se estabelecer enquanto conhecedor da botânica indígena e, portanto, naturalista.
Além do conhecimento relativo à flora, Barbosa Rodrigues tornou-se reconhecido também pelo conhecimento local da região do Amazonas. Em suas excursões, buscou sempre anotar o saber local sobre a flora, a fauna, as ‘lendas e os costumes’: “Nas suas viagens, B.Rodrigues colligiu informações minuciosas sobre as tribus de indigenas que visitou e
publicou depois na sua Poranduba numerosos vocabularios. Um grande serviço prestou ao Estado do Amazonas com a catechese e aldeação dos <chrichanãs>” (H.Ihering, 1911:31). Publicou diversos trabalhos de etnografia, realizou estudos arqueológicos, e foi reconhecido por ter contribuído amplamente para o conhecimento das línguas indígenas. Na publicação citada, Poranduba Amazonense (1890), realizou registro de “contos do tempo antigo que se referem á natureza do imenso valle do Amazonas” (Barbosa Rodrigues, 1890:I) e de análises das alterações nas línguas indígenas do Pará e Amazonas.
Barbosa Rodrigues era defensor não apenas de que as plantas dos jardins e ruas da cidade fossem indígenas, mas de que o conhecimento produzido pela ciência brasileira fosse também embasado pela ciência indígena. Em Mbaé Kaá Tapyiyetá Enoyndaua (1905), um dos artigos escrito pelo botânico para o 3º Congresso Scientifico Latino-Americano, defendeu a nomenclatura indígena como o melhor modelo a ser seguido pela botânica. Para convencer o leitor de tal afirmativa, Barbosa Rodrigues entendia como necessário justificar, primeiramente, o modo de vida indígena. Sobre isso, a imprensa comentou “(...) o dr. Barbosa Rodrigues presta um relevante serviço á sciencia brasileira e faz, ao mesmo tempo, uma brilhante defesa do nosso indigena, tão injustamente desprestigiado aos olhos da civilisação” (Correio da Manhã, 09.10.1905). Para defender o caráter indígena, utilizou-se do argumento de autoridade por ter estado durante vários anos em campo, e assim, criticou o conhecimento produzido por cientistas de gabinete, os quais pouco entendiam do modo de vida e inteligência indígena, acusando-os, sem causa, de atrocidades.
Do mesmo modo, o autor dizia ser insuficiente tomar como exemplo da tribo um indivíduo doutrinado entre os civilizados. Para conhecer, de fato, o caráter indígena, seria necessário conhecê-lo nas selvas: “Quereis conhecer os caracteres scientificos de uma flor, ide buscal-a nas selvas ou nos campos, mas nunca nos jardins. Ide vel-a no meio proprio e não transformada pela mão do floricultor” (Barbosa Rodrigues, 1905:II), dizia o diretor do Jardim Botânico da capital. Assim como a flora apenas poderia ser verdadeiramente conhecida em seu meio natural, a inteligência indígena também apenas poderia ser ali compreendida. Sendo assim, a fuga dos selvagens da civilização dar-se-ia pela sabedoria de que esta apenas os conduziria ao vício, à escravidão e à morte.
Seria para ele, pois, na selva que o indígena produziria conhecimento, e na selva que tal conhecimento, o verdadeiro conhecimento botânico, verificar-se-ia, e não entre paredes de gabinetes. Forçados pela necessidade, os indígenas teriam tornado-se herbanários. Segundo o