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Diversidade entre técnica e expressividade

Capítulo 3 Padrões de ativações cerebrais em músicos, envolvendo técnica ou

3.4 Discussão

4.1.2 Diversidade entre técnica e expressividade

A diversidade entre a razão e emoção na música é tão remota quanto a própria história da música ocidental. Na Grécia antiga, a música já era vista de duas formas distintas. A primeira doutrina, estabelecida por Platão, acreditava que a música tinha influencia na formação do caráter das pessoas, e de que seu poder emanava da relação estreita entre ela e o sentimento. A outra tendência teve origem do pensamento de Pitágoras, o qual concebia a música como um sistema de sons e ritmos regido pelas mesmas leis matemáticas universais (Fonterrada 2008).

As duas tendências estiveram sempre presentes com maior ou menor ênfase no decorrer da história da música ocidental e a coexistência destas duas doutrinas nem sempre foi integrativa, muitas vezes a relação entre elas foi dualística. Por exemplo, o período clássico valorizava o rigor formal e o racionalismo, porém influenciada por Beethoven, esta tendência cedeu lugar para o romantismo que valorizava a intuição e a emoção subjetiva. A frase musical bem definida com o ritmo matematicamente construído (característica do período clássico) abriu o espaço para a idéia musical mais dinâmica, melodia contínua e flutuação

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rítmica. Nesta nova concepção a música seria etérea enquanto a técnica seria considerada secundária (Fonterrada, 2008). Porém, influenciada pelo sucesso de Toscanini, surgiu uma nova tendência, que valorizava a ciência, a técnica e a rigidez métrica. A coexistência destas duas tendências no período romântico foi conflitante. No primeiro grupo, estavam os regentes conhecidos como “Alemães Românticos” (Wagner, Furtwängler, entre outros), que eram criticados por seu excesso de indulgência, permissividade e excesso de sentimentalismo. O segundo grupo incluía os regentes que defendiam a manutenção rígida de andamentos (Berlioz, Toscanini, entre outros) que eram acusados pelos Alemães de serem simples “batedores de compassos“ intelectuais, frios e sem sentimentos (Schuller, 1997).

Essa diversidade entre a técnica e expressividade que esteve sempre presente na história da música ocidental pode ser reflexo da natureza fisiológica humana. Como já citamos em capítulos anteriores, a inibição recíproca entre técnica e expressividade, ou seja a modulação recíproca entre a cognição e a emoção é freqüentemente discutida. Neste contexto, são comuns as descrições de alunos “expressivos”, que em geral tocam de modo descuidado, e alunos que tinham boa técnica, mas são frios e inexpressivos (Higuchi, 2003; Gainza 1988). Outras evidências reforçam a idéia da existência de inibição da emoção sobre as atividades cognitivas, uma vez que a grande maioria dos alunos pertencentes ao grupo expressivo apresentava bloqueio mental durante o aprendizado musical, afetando a atenção, a concentração e a memória explícita. No entanto, muitos destes alunos eram extremamente sensíveis e em geral tinham um extraordinário amor pela música (Higuchi, 2003). Estas observações reforçam a hipótese da inibição das atividades cognitivas sobre a emoção, sendo que os mesmos estudantes do grupo expressivo comumente inibiam a expressividade quando trabalhavam a técnica. Essa inibição estaria relacionada ao grau de dificuldade e da focalização da atenção necessária para a realização da tarefa, ou seja, quanto maior a dificuldade e a necessidade de focalização atencional, maior a inibição da expressividade (Higuchi, 2003).

As observações a respeito do dualismo descrito no campo do ensino musical são corroboradas por estudos por fMRI em tarefas de Stroop afetivo, nos quais foram encontradas evidências de que a emoção tem a capacidade de influenciar a atividade cognitiva, assim como a cognição tem a capacidade influir no processamento da emoção (Blair, Smith et al., 2007). Foi demonstrado que as distrações emocionais aumentaram os tempos de reações, assim como foi encontrando uma menor ativação do córtex frontal direito e amígdala bilateral nas realizações de tarefas cognitivas mais difíceis, indicando que a capacidade da cognição em suprimir a emoção estaria relacionada ao grau de dificuldade da tarefa. Em outro estudo por fMRI, utilizando tarefas de julgamento envolvendo fotos com cargas emocionais distintas,

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(Northoff, Heinzel et al., 2004) obtiveram evidências da capacidade de influência recíproca entre emoção e cognição. (Pessoa, Padmala et al., 2005) demonstraram que essas modulações da emoção estariam relacionadas à carga atencional direcionada à atenção. Outros estudos também demonstraram a capacidade modulatória da emoção pela cognição em tarefas distintas tais como supressão voluntária da emoção (Levesque, Eugene et al., 2003; Ohira, Nomura et al., 2006). Neste contexto, (Ochsner, Ray et al., 2004), utilizando tarefas de reavaliação (re-interpretação dos estímulos para que os mesmos aumentem ou diminuam uma resposta emocional negativa), demonstraram que a modulação da emoção pela cognição pode ser tanto inibitória como excitatória.

Esses estudos indicam que várias áreas do córtex frontal estão envolvidas com a regulação emocional tais como áreas laterais, orbitais e dorsolaterais. As ativações destas áreas estariam de acordo com as tarefas executadas, porém, os mecanismos e a circuitaria envolvida no processo da regulação emocional ainda não estão esclarecidos. Uma possibilidade, defendida por (Ochsner, Ray et al., 2004), seria a de que a supressão de emoções negativas ocorreria via córtex pré-frontal através do córtex orbital frontal, para amígdala. A análise de conectividade de (Blair, Smith et al., 2007) acrescentaram a essa hipótese, a possibilidade dos córtices temporal, occiptal, e frontal lateral inibirem as amígdala por meio de ativação do córtex frontal medial.

Portanto, é possível que as influências recíprocas entre cognição e emoção possam ser muito mais extensas e complexas. No entanto, a maioria dos estudos a respeito da modulação recíproca se restringe a tarefas cognitivas e emocionais simples que não envolvem atividades cognitivas/motoras complexas. Dessa forma não é possível compreender qual seria a dimensão dessas influências, uma vez que estudos indicam que o grau da complexidade das tarefas está diretamente relacionado ao grau de inibição recíproca (Higuchi, 2003; Blair, Smith et al., 2007).

As descrições a respeito do dualismo entre técnica e expressividade no ensino musical têm indicado que a relação cognição/emoção tem uma interação antagônica extensa (Higuchi 2003). Portanto este quinto experimento tem como objetivo investigar as bases neurais que estão envolvidas nesta performance.

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