• Nenhum resultado encontrado

Hipóteses de trabalho (Working hypothesis)

Capítulo 3 Padrões de ativações cerebrais em músicos, envolvendo técnica ou

3.4 Discussão

4.1.3 Hipóteses de trabalho (Working hypothesis)

Não foram obtidas informações de que haja algum estudo utilizando neuroimagem que investigasse a modulação recíproca entre técnica e expressividade na execução pianística. Há,

Capítulo 4 – Padrões de ativações cerebrais em músicos, envolvendo técnica ou expressividade na execução pianística | 113

porém, estudo qualitativo na área do ensino musical que descreve de que forma tal modulação influencia no aprendizado pianístico (Higuchi 2003). De acordo com este estudo, estudantes que praticam piano basicamente focalizando a atenção em aspectos cognitivos, geralmente apresentam as seguintes características:

- são pessoas consideradas inteligentes, uma vez que têm ou tiveram um desempenho escolar acima da média.

- são pessoas perfeccionistas - não conseguem tocar rápido - seus toques são controlados

- não conseguem se expressar musicalmente.

- têm um alto grau de consciência das execuções das notas

Por outro lado, estudantes que praticam piano basicamente focalizando a atenção em aspectos emocionais, geralmente apresentam as seguintes características:

- são expressivos

- as execuções são realizadas de forma implícita - falta de controle motor e rítmico

- aversão aos estudos de detalhes (tais como estudar dividindo a música em pequenas partes).

Portanto é esperado que as execuções com a atenção voltada aos aspectos técnicos sejam mais controladas, mais lentas, menos expressivas e com carga emocional menor do que as execuções com a atenção voltada aos aspectos expressivos.

A formulação de hipóteses nas ativações corticais é bem mais complexa. Porém, a integração - de resultados obtidos em outros estudos utilizando imageamentos em performances pianísticas e outras abordando a questão da interação recíproca entre emoção/cognição - pode nos proporcionar algumas suposições de ativações nas seguintes regiões cerebrais:

Córtices temporais médio e superior – Áreas de associações auditivas, são onde ocorrem os processos responsáveis pelas percepções musicais em vários aspectos. Porém, são esperadas diferenças de ativações nessas áreas dependendo da tarefa. Esperamos encontrar ativações bilaterais das áreas auditivas secundárias e da área superior do córtex temporal esquerdo em ambas as tarefas tanto afetiva como cognitiva. Esses dados são baseados no fato de estudo (Sergent et al 1992) ter encontrado essas ativações na tarefa de audição de escalas. Levantamos a hipótese de que a ativação do da área superior do córtex temporal esquerdo seja maior nas tarefas técnicas, uma vez que evidências indicam que essa ativação é resultado não

Capítulo 4 – Padrões de ativações cerebrais em músicos, envolvendo técnica ou expressividade na execução pianística | 114

da tarefa auditiva em si, mas pelo fato da audição da escala ser facilmente associada ao solfejo (nomeação de notas). A idéia da ativação do hemisfério esquerdo com o solfejo é baseada na dominância do plano temporal esquerdo na função da detecção de palavras enquanto o seu homólogo direito é especializado na discriminação da altura e intensidade sonoras, e da melodia (Zatorre, Belin et al., 2002; Hasegawa, Matsuki et al., 2004). Para corroborar essa hipótese, estudos indicam que o plano temporal esquerdo de músicos que possuem o ouvido absoluto (pessoas que são capazes de identificar a nota de qualquer altura sonora) são relativamente maiores do que o plano temporal esquerdo de músicos sem ouvido absoluto ou não-músicos (Schlaug, Jancke et al., 1995). E nas tarefas de discriminação de alturas das notas, os músicos ativam a área temporal superior esquerda (eles pensam no nome da nota) enquanto os não músicos que não pensam em notas ativam o lado direito na mesma tarefa (Parsons, 2001). Portanto se essa hipótese for verdadeira, é possível que na tarefa envolvendo execução técnica na qual o participante terá que solfejar notas, haverá uma dominância do lado esquerdo dessas áreas ao invés do direito. Por outro lado esperamos encontrar maior ativação na área superior do córtex temporal direito em tarefas expressivas, pelo fato de estudo (Parsons, Sergent et al., 2005) sugerir que esta área estaria envolvida no ciclo percepção-ação. Higuchi (2003) observou que um grande envolvimento emocional do instrumentista no decorrer da performance tornava a execução mais automática e espontânea. Nesses casos, as execuções provavelmente eram guiadas por conjunto de estímulos tátil ou auditivo de forma simultânea, uma vez que uma mudança na seqüência de qualquer destes estímulos, ou seja, um erro comprometia facilmente a execução. Em contrapartida, estudo na área de educação musical (Higuchi 2007) colheu alguns depoimentos de alunos de piano, de que no momento de uma execução com a atenção focalizada em aspetos técnicos, muitas vezes eles não conseguiam escutar o resultado sonoro da performance, indicando uma provável inibição do ciclo percepção-ação. Assim, embora em ambas as interpretações haja um ciclo percepção-ação, esse ciclo é muito mais evidente na execução expressiva.

Áreas motoras suplementares (do inglês Supplementary motor área SMA) – essas áreas foram ativadas nas execuções pianísticas bimanuais realizadas de memória, portanto as ativações bilaterais dessas áreas são esperadas em ambas as tarefas bimanuais desta pesquisa. Estudos sugerem que SMA estão envolvidas na produção de ações motoras planejadas, assim como em memória e seqüências de movimentos compostos, internamente guiados (Parsons, Sergent et al., 2005).

Córtex pré-motor – No estudo de (Parsons, Sergent et al., 2005), a performance do concerto de Bach apresenta ativações em dois focos do córtex pré-motor dorsal no hemisfério

Capítulo 4 – Padrões de ativações cerebrais em músicos, envolvendo técnica ou expressividade na execução pianística | 115

esquerdo, esta região é geralmente relacionada ao planejamento, programação, iniciação, guia e execução de movimentos (Parsons, Sergent et al., 2005). Outros estudos como os de Krams et al., (Coull e Nobre, 1998), indicam que a preparação de movimentos dos dedos tanto da mão direita como os da esquerda ativa córtex pré-motor inferior (área de Broca), ou seja, a mesma área requisitada para a preparação da fala, portanto espera-se uma maior ativação destas regiões na execução técnica, uma vez que essa performance será guiada pelo solfejo de notas.

Esperamos encontrar uma dominância do hemisfério esquerdo na execução técnica. Pesquisas de Coull et al (1998), utilizando os métodos de mapeamento das funções cerebrais (PET e fMRI) mostraram que na orientação da atenção no tempo, além dos circuitos das regiões fronto-parietais bilaterais, são ativadas preferencialmente: o córtex parietal inferior, o córtex pré-frontal inferior e o córtex pré-motor lateral inferior, todos do hemisfério esquerdo. Se considerarmos a observação de Higuchi (2003) de que a utilização do rubato (execução das notas fora tempo estipulado pela métrica rígida, decorrente de uma interpretação expressiva) é freqüente na execução expressiva, é possível concluirmos que a atenção temporal nessa tarefa seja reduzida.

Córtex cingulado posterior – Estudos sugerem que essa região está relacionada à memória episódica (Parsons, Sergent et al., 2005), a mediação da interação entre os processos emocionais e memórias, (Parsons, Sergent et al., 2005) e a monitoração de estímulos no ambiente (Parsons, Sergent et al., 2005). A utilização de uma estória para aumentar o grau de envolvimento emocional de uma música é uma prática muito comum no meio pianístico. O estudo (Ochsner e Gross, 2008) mostrou que a re-interpretação de um estímulo para induzir um aumento da emoção é eficiente. Portanto, esperamos encontrar uma maior ativação no córtex cingulado posterior em tarefas expressivas, uma vez no decorrer do treinamento, as performances afetivas foram associadas com estória baseada no estímulo emocional.

Amígdala – É a parte do sistema límbico que está mais especificamente envolvida com as experiências emocionais. (Posse, Fitzgerald et al., 2003) encontraram ativação da amígdala nas tarefas de indução de tristeza. Da mesma forma, (Blood e Zatorre, 2001) encontraram ativação da amígdala na tarefa de audição comovente de músicas conhecidas. Portanto a maior ativação da amígdala nas tarefas expressivas é esperada. (Parsons, Sergent et al., 2005) comenta que as regiões relacionadas à emoção e recompensa – encontradas nas pesquisas investigando respostas emocionais - não foram ativadas em sua pesquisa. É possível que essas regiões não tenham sido ativadas por falta de envolvimento emocional, pois no artigo não há descrição do grau de envolvimento emocional dos pianistas no momento

Capítulo 4 – Padrões de ativações cerebrais em músicos, envolvendo técnica ou expressividade na execução pianística | 116

da performance do concerto de Bach. Pelo fato da execução ter ocorrido em condições bastante desfavoráveis para sua performance (ter que tocar deitado e com olhos fechados, sem poder movimentar a cabeça) é bem possível que a interpretação não tenha tido um envolvimento emocional, principalmente pelo fato da música ser rápida e alegre. Se essa hipótese se confirmar, é possível que nas interpretações com alto grau de envolvimento emocional ativem muito mais as amígdalas, assim como uma maior ativação do hemisfério direito, pois há inúmeros estudos que indicam o hemisfério direito como dominante no comportamento emocional, e a prevalência seria tanto nas reações como nas percepções das emoções (Hellige, 1993; Springer e Deutsch, 1993), inclusive na percepção da prosódia (Ralph et al 2002), a qual estaria diretamente relacionada à expressividade interpretativa musical (Patel, Peretz et al., 1998; Juslin, 2005; Peretz e Zatorre, 2005).

Áreas pré-frontais – Como foi descrito neste projeto anteriormente, estudos (Ochsner, Ray et al., 2004; Blair, Smith et al., 2007) sugerem que supressão de emoções negativas pela cognição ocorreria através da via córtex pré-frontal pelo córtex orbital frontal. A análise de conectividade de Blair, Smith et al., (2007) acrescentaram a hipótese da supressão de emoções pela cognição via córtex pré-frontal, a possibilidade dos córtices temporais, occiptal, e frontal lateral inibirem as amígdalas por meio de ativação do córtex frontal medial.

De acordo com as hipóteses levantadas, as ativações dos córtices temporal e frontal lateral será grande em todas as tarefas tanto nas expressivas como nas técnicas. Porém estudos sugerem que a consciência é obtida através da amplificação da atividade sensório- motora, intensa ativação durável espalhada pela rede fronto-parietal, circuitos de longa distância e sincronia global (Dehaene, Changeux et al., 2006). Assim, as inibições das tarefas técnicas provavelmente seriam bem maiores do que nas tarefas expressivas, uma vez que as suas execuções seriam guiadas por resgate de informações explícitas das notas que compõe a música.

4.2 MÉTODO

Documentos relacionados