• Nenhum resultado encontrado

Diversidade linguística e diversidade sociocultural

No documento Ar te e saúde: (páginas 37-40)

Atualmente, o conceito antropológico de cultura, além da noção de com-portamento aprendido e ensinado, refere-se à capacidade humana para gerar comportamentos e, em particular, à capacidade da mente humana de gerar uma quase infinita flexibilidade de reações, por meio de seu potencial simbólico e linguístico. Nesse sentido, não é à toa que recentes interpretações de cultura enfatizam a fonte cognitiva do comportamento humano (Santos, 2005). Cultu-ra e língua devem, portanto, ser entendidos como conceitos inter-relacionados:

A linguagem é um dos ingredientes fundamentais para a vida em sociedade. Desta forma, ela está relacionada à maneira como interagimos com nossos semelhantes, refletindo ten-dências de comportamento delimitadas socialmente. [...] É também importante registrar que nossas vidas, em função da evolução cultural, mudam com o tempo. Assim, as línguas acabam sofrendo mudanças decorrentes de modificações nas estruturas sociais e políticas. [...] Desse modo, podemos dizer que as línguas variam e mudam ao sabor dos fenômenos de natureza sociocultural que caracterizam a vida na sociedade. (Costa, Cunha e Martelotta, 2008, p. 19)

A criança adquire uma língua ao mesmo tempo em que passa por diferentes etapas de socialização. Portanto, tanto a variedade adquirida quanto os valores sociais atribuídos às formas linguísticas usadas por uma comunidade de fala farão parte desse processo aquisitivo (Roberts, 2002). E é no processo de socialização que a criança absorve também valores da comunidade onde vive e passa a adquirir o estilo de vida que servirá de base para �a sua identidade, sistema de regras e normas de condutas, seus modos de conhecer e sua visão de mundo� (Gouvea, 1993, p. 48-49).

Ao adquirir uma língua, a criança adquire não apenas um sistema abs-trato que permite a ela se comunicar, mas também uma determinada forma de falar, uma determinada identidade linguística que a identifica regional e

socialmente. Isto é, ela adquire ao mesmo tempo uma variedade linguística que é definida em termos regionais e sociais (Docherty et al., 2000).

Diversas instituições sociais são responsáveis por moldar os valores lin-guísticos que circulam em uma determinada sociedade, em uma determinada variedade linguística, tais como a família, a escola, os meios de comunicação etc. A escola assume um importante papel na reprodução e na transmissão de padrões socioculturais e sociolinguísticos. Decerto que a adoção de um referencial para tais padrões é baseada no comportamento de uma classe social dominante, que se autoproclama detentora de cultura e passa a ditar as regras de comportamento social aceitáveis, incluindo aí os padrões lin-guísticos que devem servir de modelo para a sociedade (Chambers, 2002). Essa estrutura social termina por alijar as crianças oriundas das camadas ditas menos favorecidas do ambiente escolar e, por conseguinte, do exercício de uma vida sociopolítica e cultural plena.

Nesse sentido, se língua e sociedade estão intrinsecamente vincula-das, aquela passa a ser um dos fatores de aceitação – ou exclusão – social; e se a escola apenas reproduz os padrões socioculturais de uma classe domi-nante, desprestigiando características linguísticas que não aquelas da classe média, essa mesma escola nega às crianças de camadas menos favorecidas do ponto de vista socioeconômico o direito a uma especificidade linguística e sociocultural. Ao negar esse direito, a escola – e a sociedade – deslegitima as camadas mais populares do seu direito de reivindicarem para si uma cultura própria, acabando por lhes atribuir um status de insuficiência cultural ou de desenvolvimento cultural precário.

Na esteira desse pensamento, o que se observa no grupo de falantes da amostra em análise (adolescentes em conflito com a lei) é uma situação absolutamente inversa daquela que se espera para a formação de um jovem inserido em um contexto social dentro dos padrões estabelecidos como mé-dios (ou ideais): se a família, a escola e as instituições políticas falharam na transmissão dos padrões socioculturais moldados pelas classes dominantes, que padrões esses jovens adotam e quais são as consequências da adoção desses padrões para a dinâmica do sistema linguístico?

É certo que todos os membros de uma comunidade partilham de uma cultura própria, dotada de lógica e valores particulares. Por mais que não sejam conhecidos – ou reconhecidos – pelos membros de outras clas-ses sociais, as �comunidades carentes� possuem, produzem e reproduzem padrões culturais próprios, padrões que podem não ser aceitos por outros

setores da sociedade. É, portanto, um erro insistir em desconsiderar ou desprestigiar o comportamento das comunidades que não integram aquilo que é socialmente estabelecido como bom.

Ocorre que, quanto mais excluídas do processo de formação admitido como legítimo em termos sociais e linguísticos, maior será a tendência de essas comunidades de falantes desenvolverem padrões culturais próprios. Do ponto de vista linguístico, como é negado a esses falantes, desde a mais tenra idade, o acesso aos modelos linguísticos transmitidos pela escola, a relação que tais falantes estabelecem com esses padrões não será do mesmo tipo daquela de quem recebe uma formação estável. Assim, novas formas linguísticas podem surgir – ou se espraiar com maior velocidade –em direção oposta ao que é con-siderado de maior prestígio e que, por isso mesmo, sofrem um controle social muito maior.

Necessário se faz dizer que há inúmeras evidências em diversas lín-guas que apontam para o fato de que a mudança linguística pode se dar em direção a padrões linguísticos de formas desprestigiadas socialmente, as quais são gradativamente transmitidas e implantadas ao longo do tem-po.3 Assim, longe do controle social institucionalizado, pode haver maior tendência ao aparecimento ou à consolidação de novos padrões linguísticos que, mais tarde, serão – ou não – implantados em outras classes sociais, promovendo uma mudança linguística no que é considerado atualmente como padrão. Na verdade, o que normalmente diferencia, do ponto de vista linguístico, os diversos setores sociais não é o fato de um setor usar uma forma e o outro não. A diferença pode estar na frequência em que um setor usa determinada forma, passando essa a ser percebida como uma maneira de identidade sociolinguística daquele segmento social.

Dessa forma, o uso de formas linguísticas diferentes daquelas conside-radas de maior prestígio em comunidades de falantes que não se encaixam nos padrões sociais normalmente aceitos não implica, necessariamente, que essas formas não sejam usadas por falantes de comunidades que têm acesso aos instrumentos de promoção social. A questão é, portanto, mais complexa e bem menos categórica: essas formas linguísticas fazem parte da experi-ência dos falantes que compõem uma determinada comunidade e podem revelar uma tendência inovadora da língua.

3 Conforme Gomes e Mollica (1994), especificamente para as línguas românicas, as formas corrigi-das no Appendix Probi – documento do século III a.C. que apresenta uma lista de formas corretas e formas corrigidas do latim – correspondem a formas que deram origem a outras nas diversas línguas românicas.

Na pesquisa em que se fundamenta este artigo, os jovens que com-põem a amostra apresentam um percentual bem mais elevado da realiza-ção da sibilante em coda como (h) do que em pesquisas anteriores com falantes que tinham grau de escolaridade mais elevado. Conforme já apre-sentado, os percentuais observados nas pesquisas anteriores sobre a sibi-lante em coda permitem afirmar que houve a realização da mesma como (h), porém em percentual muito inferior àquele observado na pesquisa em tela. Essa variante foi encontrada em itens lexicais como poste/pohte,

mastiga/mahtiga, além daqueles em que comumente costumam ocorrer

na comunidade de fala do Rio de Janeiro, como em mesmo/mehmo, mas/ mah. A diferença não é só quantitativa (mais ocorrências dessa variante), mas também qualitativa, na medida em que o uso da variante avança em termos de itens lexicais e contextos linguísticos. Essa tendência pode cons-tituir algo específico desse grupo – uma forma de identidade sociolinguística – ou mesmo ser indicativa da direcionalidade de um processo de mudança dentro da comunidade de fala do Rio de Janeiro.

No documento Ar te e saúde: (páginas 37-40)