Como se pode perceber por toda a obra de MC, há um destacado valor atribuído à imagem (à criatura como imagem e
4.2.6 A diversidade na unidade do Poder
Uma das noções mais importantes de MC é a de unidade na diversidade. Ela enfatiza essa possibilidade aberta pela trindade de diversas formas e diferentes lugares como nesse, em que DLS focaliza a função social do Espírito:
O Poder criativo – o Espírito - é assim, um poder social, que trabalha para levar todas as mentes para a sua própria unidade, às vezes por similaridade e outras vezes por contraste. Os dons são diversos, mas o espírito é o mesmo. Às vezes, temos a sensação de que um crítico ou estudioso da obra de alguém tenha interpretado mais do que o primeiro escritor “quis dizer”. Talvez isso seja um indício de uma percepção bastante limitada da unidade e diversidade do Poder.122 (p. 245 dessa
tese)
O espírito tem essa característica de criar um campo comum entre as pessoas, a fim de fazê-las se comunicarem. A própria palavra “comunicação” tem a outra, “comum” em sua raiz. Conforme o relato bíblico, quando o Pentecoste ocorreu, as pessoas passaram não apenas a se internacionalizar, falando línguas de outras nações, que lhe eram estranhas e estrangeiras, mas também passaram a conviver em comunidade (que não por acaso também tem “comum” em sua raíz) e partilhar os seus bens, aos quais davam um uso comum. Então, a socialização é uma das consequências da atuação do Poder, mas ela não existe sem a individuação, proporcionada pela Energia e sem a ideia de criação, do ser criatura, de ter um sentido mais amplo na vida, proporcionado pelo Pai. De modo que, quanto mais as pessoas são elas mesmas, são indivíduos, ou melhor, personas distintas e únicas e quanto mais elas se identificarem com o seu grupo próprio, mais unidas elas se tornam. É possível entender a Igreja, no sentido místico de Corpo de
122 The Power-the Spirit-is thus a social power, working to bring all minds into
its own unity, sometimes by similarity and at other times by contrast. There is a diversity of gifts, but the same spirit. Sometimes we feel that a critic or student of a man's work has "read into it" a good deal more than the first writer "meant". This is, perhaps, to have a rather confined apprehension of the unity and diversity of the Power.(SAYERS, 1987, p. 121)
Cristo, como portadora dessa unidade na diversidade. Embora houvessem várias igrejas, de acordo com o contexto histórico, cultural e social de cada grupo, há uma só e universal Igreja. A unidade, nós a temos na unicidade de Deus, a multiplicidade, na estrutura tríplice do nosso ser encarnado, que imita a estrutura tríplice da divindade e o canal de comunicação entre essas duas dimensões, que permite que tenhamos acesso direto a Deus, é o Poder ou Espírito. Eis o resumo de todo o livro, como DLS bem formula no início de praticamente todos os capítulos, como nesse caso:
Esse caráter tríplice na mente do leitor corresponde ao caráter tríplice da obra (do Livro como foi pensado; do Livro como foi escrito; e do Livro como foi lido), e isso por sua vez em relação ao caráter tríplice original na mente do escritor (Ideia, Energia, Poder). Isto nem poderia ser diferente, porque essa é a estrutura da mente criativa. Quando, portanto, consideramos a doutrina Trinitária sobre o Criador do Universo, é a isso que estamos aludindo. Nossa argumentação se baseia numa analogia perfeitamente familiar à nossa experiência. Suas implicações são: que essa estrutura tripartite se encontre igualmente dentro de nós (o Livro como foi lido); que essa seja a estrutura real do universo (o Livro como foi escrito); e que ela esteja no universo, porque se trata da Ideia de Deus sobre o universo (o Livro como foi pensado). Além disso, infere-se que tal estrutura também se encontre na Ideia de Deus, porque é a estrutura da mente de Deus. É isso que essa doutrina quer dizer; seja ela verdadeira ou equivocada, o fato é que se trata da Ideia para a qual se esteja esperando uma resposta. Não há nada de mitológico em torno da nossa doutrina cristã trinitária: ela é analógica123 (p. 246 dessa
tese)
123 This three-fold-ness in the reader's mind corresponds to the three-fold-ness
of the work (Book-as-Thought, Book-as Written, Book-as-Read), and that again to the original three-fold-ness in the mind of the writer (Idea, Energy, Power). It is bound to be so, because that is the structure of the creative mind. When, therefore, we consider Trinitarian doctrine about the universal Creator, this is
Em grego, a palavra mûthos significa conto, relato, história e “lore”, é sinônimo, sendo sufixo de folk-lore. Mythlore é, portanto, uma palavra tautológica, que significa algo dependente da linguagem, que muitas vezes não coincide com a realidade. Em outras palavras, trata-se de fantasia e ilusão. Os mitos, além do mais, têm alto poder simbólico, podendo remeter a uma cultura, uma religião ou uma sociedade em geral.
Quando DLS diz que a trindade não é mitológica, mas analógica, ela está dizendo que não é apenas simbólica, expressando a diversidade cultural e religiosa, mas que é pontual, estabelecendo uma relação de proporcionalidade com uma realidade fatual. A trindade, nesse sentido é uma metáfora que segue a lógica analógica para veicular seu sentido.
Um resumo parecido ao citado nos é dado no início do décimo primeiro capítulo de MC, em que lemos: “Até aqui, investigamos a correspondência entre os Dogmas Cristãos e a experiência do artista com relação à temática da mente criativa e vimos que há aí de fato uma concordância notável entre eles”.124
Mais adiante, a partir do exemplo da física astronômica e do paralelismo que Newton traçou entre a queda da maçã e o que acontece no universo, ela conclui:
De forma similar, se traçarmos uma linha transversal pelo Mundo espiritual,que passe pelo ponto “Teologia Cristã”, e outra, pelo ponto “arte”, encontraríamos entre ambas um paralelo precisamente idêntico em relação à mente criativa; what we are driving at. We are arguing on the analogy of something perfectly familiar to our experience. The implication is that we find the threefold structure in ourselves (the-Book-as-Read) because that is the actual structure of the universe (the-Book-as-Written), and that it is in the universe because it is in God's Idea about the universe (the-Book-as-Thought); further, that this structure is in God's Idea because it is the structure of God's mind. This is what the doctrine means; whether it is true or mistaken is another matter, but this is the Idea that is put forward for our response. There is nothing mythological about Christian Trinitarian doctrine: it is analogical. (SAYERS, 1987, p. 122-123)
124 So far, we have been inquiring into the correspondence between the Christian
Creeds and the experience of the artist on the subject of the creative mind and we have seen that there is, in fact, a striking agreement between them (SAYERS, 1987, p. 181).
e estaremos livres para tirar nossas próprias conclusões.125 (p. 292 dessa tese)
No campo da tradução é muito benvinda a concepção de unidade na diversidade, pois, como já mencionamos, há um dualismo, uma polarização, como por exemplo, entre domesticação e estrangeirização, traição e fidelidade, dominando o discurso teórico.
A introdução de um terceiro elemento entre esses polos, seja através de um mediador, seja através do Poder de manifestação, será benéfico para as discussões em torno dos fenômenos tradutórios.