Como se pode perceber por toda a obra de MC, há um destacado valor atribuído à imagem (à criatura como imagem e
4.2.12 Tradução como fruto da dedicação amorosa
Um dos ápices de MC é o capítulo nove, em que DLS aborda a temática do amor. O amor como arquétipo externo da imagem divina, que é a nossa metáfora em construção nesse trabalho, com ressonância e repercussão internas, que orienta a vida das pessoas e lhe dá acabamento.
“O amor é a Energia da criação em sua forma concentrada e livre de contrapontos [...]”136 (p. 258 dessa tese).
No caso do tradutor, o amor pela obra original se divide com o amor pela obra traduzida, o que muitas vezes entra em conflito. Mas se aplicarmos a ideia de Ricoeur sobre a “hospitalidade linguística”, o amor pela obra original deve ser predominante, mas sem amor pela obra traduzida, a mesma se torna insossa e árida, demasiadamente literal. O amor pela obra original torna-se, assim, o lado sacrificial do trabalho tradutório, como DLS diz em MC:
Uma paixão assim não apenas se resigna ao sacrifício, mas o abraça, e arrasta o mundo todo consigo no mesmo abraço. Não é sem razão que ficamos apreensivos e suspeitamos dessa expressão precária: “resignação Cristã”. Uma voz interior nos faz lembrar que o Deus Cristão é amor, e que amor e resignação não podem ocupar terreno comum. São coisas assim que o criador humano tem a nos dizer, é só darmos ouvidos a ele. A razão para a nossa confusão nessa matéria é a diversidade e assistematicidade das associações que fazemos com a palavra “amor”. Pois nós a ligamos quase exclusivamente às paixões sexuais e materiais, cujo contraponto é a possessão; e à
136 Concentrated, and freed from its anti-passions, love is the Energy of creation
afeição indulgente, cujo contraponto é o sentimentalismo [...] Nem resistência, nem resignação adiantarão muito aqui. A única resposta efetiva para a Energia do Amor é o Poder do Amor, que abraça o seu próprio sacrifício com satisfação. Em outras palavras, o trabalho amoroso demanda a cooperação da criatura, respondendo de acordo com a lei de sua natureza.137 (p. 258-259 dessa tese)
A obra, é aqui o ser humano. Em MC, a obra deve cooperar com o processo criativo e para isso requer um convite amoroso. Isso, como estamos defendendo aqui, se aplica também ao tradutor, que visa uma ampliação, um algo mais que é, ao mesmo tempo, realizável e impossível de abarcar, por transcender a mente do criador, em direção à obra e ao leitor, que é convidado a apreciá-la. Toda obra assume, portanto, um elemento imprevisível, que é a resposta do leitor.
Assim, o ato criativo se torna um ato amoroso, que envolve uma dedicação, e a apreciação, um ato responsivo a esse amor manifesto de forma criativa. O mesmo se dá no caso do processo tradutório e da leitura responsiva, que resulta na tradução.138
Como vimos em Ricoeur, para tudo o que está fora do alcance da linguagem humana, existe a metáfora para fazer a ponte, a mediação, que não deixa de ser em si já uma tradução, para que se alcance uma
137 A passion of this temper does not resign itself to sacrifice, but embraces it,
and sweeps the world up in the same embrace. It is not without reason that we feel a certain uneasy suspicion of that inert phrase, "Christian resignation"; an inner voice reminds us that the Christian God is Love, and that love and resignation can find no common ground to stand on. So much the human creator can tell us, if we like to listen to him. Our confusion on the subject is caused by a dissipation and eclecticism in our associations with the word "love". We connect it too exclusively with the sexual and material passions, whose anti-passion is possessiveness, and with indulgent affection, whose anti- passion is sentimentality. […] Neither resistance nor resignation will do anything here. To Love-in-Energy, the only effective response is Love-in- Power, eagerly embracing its own sacrifice. In other words, the perfect work of love demands the co-operation of the creature, responding according to the law of its nature. (SAYERS, 1987, p. 136, 137)
138 Infelizmente essa resposta ao tradutor ainda é tímida nos dias de hoje, sendo
aproximação do objeto e do objetivo almejado tanto pelo tradutor, quanto pelo autor da obra original.
Em MC discute-se a ideia de imaginação como imagem originária de Deus na criatura, a também chamada Imago Dei, e como ela revela o poder formador divino no homem e em sua criação. Discute-se ainda a liberdade e libertação envolvida nisso, uma vez que toda obra de criação, inclusive a criação do homem e de seu universo, é fruto de uma dedicação amorosa a ela, que portanto, deseja que particularmente a criatura humana seja participante desse processo, o que inclui a obra de redenção.Conforme a Bíblia, toda obra de criação do mundo é convidada a participar de sua redenção. Assim, a obra criacional humana reflete a busca por uma reconciliação simbólica do homem em relação ao seu Criador, o que se reflete na linguagem que está em busca de sua legitimação e autenticidade através da narrativa, do discurso e não menos no processo tradutório.
Se considerarmos que o processo tradutório é limitado, ele também busca uma reconciliação não apenas com o Criador Divino, mas mais diretamente com o autor da obra original, o que quer dizer que ele está em busca daquilo que torna justo o seu trabalho. Ele também está, nesse sentido, citando novamente as palavras de Ricoeur, “em busca de uma teoria” (RICOEUR, 2006, p. 14).
E essa busca é amorosa porque é a teoria que, no final das contas, in-forma a prática. É ela que lhe dá forma, acabamento, justificativa, sentido e uma valoração ética. Em outras palavras, a teoria “ilumina” a prática.
É isso precisamente que esse trabalho busca, a partir de vários autores, mas particularmente, da hermenêutica de Ricoeur, com todas as suas implicações teológicas e o seu conceito de círculo hermenêutico e de amor. Isso pelo menos é o que se pode inferir da palestra proferida por Paul Ricoeur em 1989, intitulada “Amor e Justiça”, publicada com o mesmo nome, por ocasião da entrega a ele do prêmio Leopold Lucas, conferido a “trabalhos eminentes publicados no domínio da teologia, das ciências humanas, da história ou da filosofia” (RICOEUR, 2012, orelha).
Nela, ele frisa que o amor é ao mesmo tempo sujeito e objeto do mandamento de “amar ao próximo como a si mesmo” e que o conceito de amor está intimamente relacionado ao de criação e dependência humana do Criador, como “fonte de possibilidades desconhecidas” (RICOEUR, 2012, p. 25). Ele frisa ainda que o mandamento do amor
envolve uma “economia da doação” (RICOEUR, 2012, p. 25), que se situa entre o sentido e a esperança, entre a “criação e a escatologia” (RICOEUR, 2012, p. 25) e que ela envolve uma ética, que tem como meio do amor a ideia da justiça. Nessa obra, Ricoeur também fala em “estrutura triádica da consciência” (2012, p. 98), pelo que concorda novamente com a tese de DLS em MC.