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CAPÍTULO I: SETOR PETROQUÍMICO: DETERMINANTES DA COMPETITIVIDADE

1.3. Fatores de competitividade na indústria petroquímica: escala, verticalização diversificação e

1.3.3. Diversificação horizontal e necessidade de capital

A diversificação produtiva das empresas químicas e petroquímicas também ocorre no sentido horizontal, em direção a segmentos de mercado que demandam bens de mais alto valor adicionado e complexidade tecnológica, definindo requisitos competitivos a essas empresas que vão além da expansão da capacidade produtiva (e da conseguinte obtenção de economias de escala) e da integração produtiva na cadeia.

A obtenção de capacidades tecnológicas, em geral, constitui um privilégio do grande capital, em função dos volumosos recursos financeiros requeridos para as atividades de pesquisa e desenvolvimento. Hiratuka, Garcia e Sabbatini (2003) ressaltam que as grandes empresas do setor petroquímico combinam elevadas escalas de produção para commodities e semicommodities (e aí a integração com o setor produtor de matéria-prima é realizada) e a posse de uma carteira de produtos diversificada, em que as especialidades químicas (mercados mais dinâmicos) ganham um peso, ao lado dos produtos básicos, igualmente significativo.

De acordo com esses autores, a ampliação da fatia das especialidades químicas na carteira de produtos das empresas petroquímicas responde também ao desafio competitivo das empresas tornarem-se menos vulneráveis às oscilações de preços e aos momentos de baixos preços do ciclo de investimentos. Afinal, as especialidades, relativamente às

commodities, estão menos propensas às alterações de preço e geram uma margem mais

elevada às empresas produtoras.

Durante a década de 1980, na reestruração empreendida pelas grandes empresas petroquímicas após os dois choques do petróleo e a diminuição da atividade econômica mundial, uma das ações adotadas foi o desinvestimento (com venda de ativos ou com licenciamento de tecnologia) dos segmentos produtivos de commodities e aumento da participação da produção das especialidades químicas (SUAREZ, 1986).

A diversificação horizontal constitui também um bom mecanismo de criação de barreiras à entrada (assim como a verticalização, a sobrecapacidade e a internacionalização), mas, ao mesmo tempo, reflete uma necessidade de origem técnica. Como realça Schutte (2004), o setor petroquímico “é marcado pela rigidez dos coeficientes de insumo-produto e pela obtenção simultânea de vários produtos.” (p. 51). Isso determina uma relação de alta inflexibilidade com o setor fornecedor de matéria-prima (setor petrolífero) e uma necessidade

de ampliar mercados a partir da base técnico-produtiva já existente. A geração inevitável de co-produtos determina as linhas de pesquisa e desenvolvimento de novos produtos, de transformação de commodities em semi-commodities e dessas para especialidades.

O vínculo umbilical do segmento petroquímico com o setor químico lhe rende a característica de ser intensivo em ciência, pesquisa e desenvolvimento. Nesse setor evidenciam-se patentes, comercialização de licenças de tecnologia e uma elevada porcentagem de gastos de P&D no faturamento. Para a produção dos petroquímicos básicos, a inovação em processo ganha um destaque evidente, mas a diferenciação de produtos também se apresenta, tanto nos esforços permanentes para a padronização das commodities (gerando aumentos de eficiência produtiva para seus consumidores), quanto naqueles para a geração de semi-commodities (com a produção de petroquímicos básicos com grades personalizados aos objetivos do cliente). Para isso, as pesquisas em conjunto com as empresas da 3ª. geração (sobretudo as fabricantes de plásticos de engenharia) são fontes importantes de aprendizado e de inovação.

Utilizando como comparação o setor siderúrgico, que também é intensivo em capital, tem processo com um fluxo contínuo e também tem uma de suas fontes de vantagem competitiva na obtenção de economias de escala, observa-se que o setor petroquímico, embora compartilhe dessas características, se distingue pelo elevado dinamismo tecnológico, refletido principalmente na sua capacidade de criar novos espaços de acumulação, não só pela substituição de materiais tradicionais (vidro, metal, papel, madeira), mas pela abertura de mercados completamente novos (FURTADO, 2003).

As oportunidades de inovação em produto são imensuráveis e, portanto, se as escalas de produção são condição necessária, não são suficientes em função desse imperativo ao setor de criar a todo momento novos produtos. Nesse sentido, para cumprir com sua necessidade de diversificação como um importante fator de competitividade, a detenção de competências tecnológicas e o acesso a um amplo orçamento para pesquisa e inovação são indispensáveis às empresas petroquímicas (FURTADO, 2003).

A existência de empresas transnacionais com suas filiais em vários países potencializa a capacidade de inovação dessas empresas. Schutte (2004) afirma que a principal forma de transferência de tecnologia nesse setor se dá entre subsidiárias e suas matrizes. Hiratuka, Garcia e Sabbatini (2003) também registram que uma vez realizados volumosos

investimentos em desenvolvimento tecnológico, em geral, na matriz das empresas multinacionais, a busca pelo máximo retorno desses investimentos se reflete na adoção dessas tecnologias nas subsidiárias e através de licenciamentos a outros países. A internacionalização da tecnologia passa a ser, então, uma forma de diminuir o custo unitário das atividades de P&D (HIRATUKA; GARCIA; SABBATINI, 2003).

Mello et al. (2003) registram que os licenciamentos de tecnologia têm sido expediente comum nas empresas na liderança do desenvolvimento tecnológico de processos e produtos (citam, por exemplo, Dow, BP, ExxonMobil e LyondellBasell). Os autores assinalam que, ao invés de difundir a tecnologia para o mundo, o licenciamento deve ser avaliado como mais um elemento concentrador de recursos tecnológicos e, portanto, gerador de assimetrias entre empresas:

“Não se pode omitir que tal estratégia reforça a dependência tecnológica dos produtores new comers, quase todos localizados na periferia: ainda que esteja disponível a tecnologia, os usuários têm cada vez menos o domínio do processo inovador, abrindo mão de externalidades em benefício da obtenção de tecnologia “barata”.

Além disso, a receita que os licenciadores obtêm na cessão da tecnologia permite financiar o desenvolvimento de processos mais sofisticados, cujos resultados favoráveis poderiam permitir, por sua vez, a apropriação de rendas extraordinárias62 pelas próprias empresas tecnologicamente mais

avançadas, distanciando-as competitivamente ainda mais das firmas apenas usuárias de tecnologia” (MELLO et al., 2003, p. 40)

A capacidade da empresa em realizar alianças tecnológicas com outras empresas e contratos cooperativos em pesquisa com universidades constitui um fator de competitividade no nível empresarial. Mas, igualmente importante, no nível sistêmico de competitividade, um grande trunfo é pertencer a um país com um estruturado e complexo sistema nacional de inovação.

Além disso, o acesso e o custo do capital também são importantes para o financiamento das atividades de pesquisa e desenvolvimento, realizadas muitas vezes a partir de inversões de risco, quanto mais próximas da fronteira tecnológica as pesquisas estiverem. O custo de capital dos países em desenvolvimento é mais alto que os países centrais, residindo aí uma boa parte da explicação para a dificuldade de algumas empresas alcançarem o mesmo

62 Furtado (2003) designa essas rendas derivadas dos licenciamentos de tecnologia de “rendas acíclicas”. Assim,

empresas licenciadoras possuem esse trunfo com relação às demais uma vez que são usadas para manter a rentabilidade constante nos momentos baixistas de preços dos produtos petroquímicos, que são cíclicos e estruturais ao setor.

volume de investimentos em pesquisa do que o realizado pelas empresas líderes. Sendo assim, o gap tecnológico entre umas e outras só tende a se ampliar (HIRATUKA; GARCIA; SABBATINI, 2003).

À medida que se amplia a diversificação horizontal, as empresas obtêm economias de escopo e podem usufruir de vantagens competitivas relacionadas à intensa diversificação. Citando exemplos das economias de escopo, Schutte (2004) elenca os ganhos derivados da redução do custo unitário do transporte entre gerações da cadeia petroquímica, a racionalização dos serviços básicos de infraestrutura e o aperfeiçoamento do sistema de controle ambiental das empresas.