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2 DO ICMS ECOLÓGICO NO BRASIL

No documento Ambiental DIREITO (páginas 181-185)

Em 1972, na Conferência das Nações Unidas sobre o Homem e o Meio Ambiente, em Estocolmo, Suécia, surgiram as primeiras discussões a respeito de preservação ambiental, e ecodesenvolvimento, passando-se a chamar posteriormente de desenvolvimento sustentável. Em 1987 a Comissão Mundial Sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CMMAD) da ONU publicou o Relatório Brundtland, chamado “Nosso Futuro Comum”. Logo, em 1992 ocorreu o chamado Rio 92, Conferência das Nações Unidas no Rio de Janeiro, seguida de Conferência em 1997 pela ONU, em Kyoto, no Japão, trazendo o Protocolo de Kyoto, discutindo sobre as mudanças climáticas no mundo. Em 2002, em Johannesburgo, na África do Sul, houve mais uma discussão a respeito de desenvolvimento sustentável.

O crescimento econômico traz disparidades no que se refere à conservação do meio ambiente. “Deve desenvolver-se de acordo com a economia ambiental, que se preocupa com os efeitos externos, analisando os problemas ambientais e os limites que não devem ser ultrapassados causando efeitos irreversíveis ao meio ambiente.”12

Enquanto isso, a preservação ambiental segue sendo alvo de debates pelo mundo, visto que deve ter a importância necessária diante dos prejuízos ao meio ambiente.

Tais discussões fazem-se significativas o suficiente para que houvesse uma busca de solução urgente no que se trata de desenvolvimento sustentável, que é, baseado nos pilares social, econômico, político, e ambiental, o ato de haver um desenvolvimento de forma que haja uma inclusão dos desiguais na condição de igualdade, democratização de acesso nas mais diversas áreas, sempre levando em consideração as dimensões da sustentabilidade, quais sejam, ecológica, econômica, social, cultural e espacial.

Ao contrário do que muitos pensam, não seria mais uma forma de tributação ambiental, e sim, uma nova utilização do tributo já arrecadado. “O ICMS Ecológico não se trata de um novo tributo, apenas introduz um conceito de redistribuição.”13

Desse modo, o tributo evoluiu historicamente, de modo que houvesse certeza dos benefícios de sua aplicação. “Nascido sob a égide da “compensação”, o ICMS Ecológico evoluiu, transformando-se, ao longo do tempo, em instrumento de incentivo, direto e indireto, à conservação ambiental, hoje o que mais o caracteriza.”14 O ICMS Ecológico surgiu para qualificar o Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS), previsto no artigo 155, II, da Constituição Federal, nos municípios com áreas de preservação ambiental, a fim de remunerá-los e estimulá-los a proteger o meio ambiente e evitar prejudicá-lo (Lei Complementar nº 59/1991). Foi interpretado a partir dessa Lei por Loureiro que:

a) devem receber recursos do ICMS Ecológico os municípios que possuem unidades de conservação ambiental ou que sejam diretamente influenciados por elas e Mananciais de Abastecimento público;

b) entende-se que unidades de conservação são áreas de preservação ambiental, estações ecológicas, parques, reservas florestais, florestas, hortos florestais, áreas de relevante interesse de leis ou decretos federais, estaduais ou municipais, de propriedade pública ou privada;

c) devem ser beneficiados pelo critério de Mananciais de Abastecimento os municípios que abrigarem em seus territórios parte ou o todo de Mananciais de Abastecimento para municípios vizinhos;

d) do volume total de recursos a serem repassados aos municípios, estes devem ser divididos em 50% (cinquenta por cento) para o Projeto referente a Unidades de Conservação e os outros 50% (cinquenta por cento) para os Projetos Mananciais de Abastecimento;

e) a objetivação dos parâmetros técnicos será estabelecida pela entidade estadual responsável pelo gerenciamento dos recursos

13 ROCHA, Lilian Rose Lemos. Instrumentos Econômicos Aplicados à Regulação Ambiental: O exemplo de tributação ambiental no Brasil. Brasília: Abecer, 2014. p. 87.

14 LOREIRO, Wilson. O ICMS Ecológico na Biodiversidade: Experiências de Brasil – Caso de Paraná. Disponível em: <http://www.icmsecologico.org.br/site/images/artigos/a019.pdf>. Acesso em: 16 abr. 2018. p. 2.

hídricos e meio ambientes, que deverá fazer o cálculo dos percentuais a que os municípios têm direito anualmente.15

Além disso, “o ICMS é um tributo não cumulativo, ou seja, em cada fase da operação é compensado o valor devido com o montante cobrado anteriormente. De acordo com a Constituição, 75% da arrecadação sejam destinados ao Estado e 25% do total arrecadado com o ICMS pertencem aos municípios.”16 Assim, é introduzida uma parte do ICMS ao que os municípios têm direito a fim de gerar espaços ambientalmente protegidos em seus territórios. “Os municípios que investem em projetos ambientais recebem entre 0,5% e 5% da arrecadação total do ICMS a eles destinada.”17

Sua implementação ocorreu a partir da necessidade dos municípios em manter suas unidades de conservação e mananciais de abastecimento, enquanto o Estado buscava atualizações no que diz respeito a políticas públicas.

O ICMS Ecológico surgiu no Brasil, pioneiramente no Paraná em 1991, a partir da aliança do Poder Público Estadual e de municípios, mediatizado pela Assembleia Legislativa do Estado. Os municípios sentiam suas economias combalidas pela restrição de uso causada pela necessidade de cuidar dos mananciais de abastecimento para municípios vizinhos e pela existência de unidades de conservação, enquanto o Poder Público Estadual sentia a necessidade de modernizar seus instrumentos de política pública.18

Assim, os municípios buscaram apoio técnico, jurídico e político.

O ICMS Ecológico a princípio surgira como um instrumento de compensação aos municípios que enfrentavam dificuldades em incentivar o crescimento econômico devido à existência de unidades de conservação, áreas de proteção ambiental, entre outras, pois havia o trade-off entre a manutenção destas áreas verdes em detrimento do desenvolvimento industrial dessas

15 LOREIRO, Wilson. O ICMS Ecológico na Biodiversidade: Experiências de Brasil – Caso de Paraná. Disponível em: <http://www.icmsecologico.org.br/site/images/artigos/a019.pdf>. Acesso em: 16 abr. 2018. p. 3.

16 BITTENCOURT, Mayra Batista et al. Preservação Ambiental como fator de desenvolvimento econômico: O ICMS Ecológico em São Paulo. Disponível em: <http://www.sober.org.br/palestra/6/128.pdf>. Acesso em: 16 abr. 2018. p. 6

17 NADIR JÚNIOR, Amery Moisés; SALM, José Francisco; MENEGASSO, Maria Ester. Estratégias e ações para a implementação do ICMS Ecológico por meio da co-produção do bem público. Disponível em: <http://www.icmsecologico.org.br/site/images/artigos/a048.pdf>. Acesso em: 16 abr. 2018. 18 LOREIRO, Wilson. O ICMS Ecológico na Biodiversidade: Experiências de Brasil – Caso de Paraná.

Disponível em: <http://www.icmsecologico.org.br/site/images/artigos/a019.pdf>. Acesso em: 16 abr. 2018. p. 1.

regiões. Com isso, a repartição do ICMS veio atender a uma demanda da população destes municípios que desejavam conservar seus recursos naturais, mas ao mesmo tempo precisavam de formas alternativas de geração de renda19

Trata-se de um novo modelo que comprovaria o uso sustentável dos recursos naturais, e recompensaria os agentes que fizessem efetivas ações para a sua conservação.

Trata-se de um novo modelo de “política pública ambiental” que visa repassar maior percentual dos recursos adquiridos por meio do ICMS aos municípios que comprovarem o comprometimento com o uso sustentável e a preservação do meio ambiente sobre sua respectiva competência20

Caso bem aplicado, é possível que o ICMS Ecológico possa ser utilizado de forma a regular a ordem econômica e incentivar a preservação do Meio Ambiente. Então, é benéfico o empenho político pela complementação da Constituição Estadual, concedendo maior retribuição tributária ao município que comprovar efetivo exercício de políticas ambientais21.

Com o passar do tempo descobriu-se que o ICMS Ecológico poderia ser utilizado não só para a gestão ambiental, como também, para gerir os demais recursos que possuem necessidades, como educação ambiental, reciclagem, saneamento básico, entre outros.

Além da conservação e preservação da natureza, o ICMS Ecológico também fomenta o desenvolvimento de programas de educação ambiental e ações de saneamento básico, incluindo a coleta e o tratamento de resíduos economicamente viáveis. Ademais, esse mecanismo tributário pretende, além de se tornar uma compensação financeira para aqueles municípios que têm em seus territórios unidades de conservação, servir de estímulo à melhoria da qualidade de conservação das áreas de

19 BITTENCOURT, Mayra Batista et al. Preservação Ambiental como fator de desenvolvimento econômico: O ICMS Ecológico em São Paulo. Disponível em: <http://www.sober.org.br/palestra/6/128.pdf>. Acesso em: 16 abr. 2018.

20 MATHEUS, Ana Carolina Couto. A aplicação concreta do ICMS Ecológico como opção das Políticas Públicas Ambientais. In: PAULA, Jônatas Luiz Moreira de (Org.). Direito Ambiental e Cidadania. Leme: Jh Mizuno, 2007. Cap. 1. p. 1-36.

21 CARRAZZA, Roque Antônio. Curso de direito constitucional tributário. 25 ed. São Paulo: Malheiros, 2008. p. 84.

preservação já existentes e, ainda, à criação de novos espaços protegidos.22

Desse modo, sabendo que não existiria um sequer aumento nos inúmeros tributos pagos pelo brasileiro periodicamente, e diante de tamanha discussão ambiental e dificuldade de conservação e preservação dos recursos naturais, por que não utilizar o ICMS Ecológico como um auxílio para seu desenvolvimento sustentável?

3 DO ICMS ECOLÓGICO NO ESTADO DE MINAS GERAIS

No documento Ambiental DIREITO (páginas 181-185)