3.3. TORNAR-SE PROFESSOR DE YOGA.
3.3.8 Do ideal comunitário
O presente objetivo convém reforçá-lo, consiste em examinar as disposições de um grupo para a comunidade imaginada. Uma comunidade ideal pode ser encontrada nos relatos sobre os ashrams dos mestres hindus: Babaji, Shivananda, Aurobindo. Em tais comunidades, afirmam os viajantes, há um conjunto de exercícios bem estabelecidos, uma rotina de trabalho e uma hierarquia construída e mantida com coesão. Seria, pois, a comunidade ideal de um yogi clássico. Todavia, estamos em uma situação relativamente contrária: fragmentação, no sentido de diferenciação contínua – alunos se torna professores, fazem seu próprio caminho (como é o caso de Marcos), liberdade – na medida em que nada obriga o aluno a permanecer
com o mesmo professor; ausência de referenciais sólidos e absolutos – que permitiriam uma maior fixidez do aluno junto ao professor.
A aspiração de cada professor parece ser a de fortalecer os vínculos com os alunos, acompanhar a evolução na senda que cada um deles se permite fazer. Através de lista de emails, de contínuos convites a eventos, cursos, workshops, a comunidade de cada professor é tecida e reforçada. Esses emails circulam também entre os outros professores, de modo que se forma uma comunidade imaginada de conhecimento, como círculos concêntricos que possuem intersecções entre si. Os alunos trafegam entre esses círculos até encontrarem – provisoriamente – uma comunidade que lhes acolhe e que está afinada às suas necessidades de momento. Liana, irmã de Camila, já freqüentou aulas de Ana Maria, depois de um aluno desta, em seguida do colega desse aluno de Ana Maria, até encontrar um professor que foi da linha Swásthya e que acabava de montar sua própria linha. Entre a tradição inventada e o invento de novas tradições, o yoga se metamorfoseia e assume novas faces.
Nota-se nesses discursos o quanto de apelo ao indivíduo há nessas comunidades. Dos professores de yoga, pode-se dizer que a individuação é o que confere sentido à prática. Ao buscar o yoga, busca-se esse alto grau de diferenciação – da qual as mônadas, de Tarde – confere uma imagem apropriada. Viagens ao exterior do país, cultivo de hábitos de consumo ecologicamente corretos, hábitos de leitura e compartilhar de livros entre si, relacionados à filosofia yogi, mas também à literatura universal, freqüentar restaurantes vegetarianos, cinemas e salas de arte na cidade – eis alguns dos componentes do conjunto de práticas intercambiáveis que os professores de yoga mantêm entre si.
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Ao questionar sobre o sentido de comunidade que os professores têm uns com os outros, o sentimento de pertença que nutrem, a despeito das diferenças de estilo, Márcio defendeu a idéia de uma “união subjacente”, uma união que existe e pode não ser vista, mas que mantém a todos unidos “a um mesmo propósito”. Esse propósito pode inferir, não é tematizado conscientemente. Interessa-nos, todavia, saber a dimensão política do mesmo. A segunda fase da pesquisa com os yogis consistirá na formação de um grupo focal para debater o sentido de política que compartilham, enquanto comunidade urbana, marcada por um estilo de vida em comum, pela concorrência entre seus pares, pelo individualismo expressivo que parece se destacar como um marco interpretativo de relevância se quiser compreender esse grupo. Mas o que parece ser o fundamento mais elementar da comunidade é a crença na pratica do yoga
como algo transformador. Israel, Carlos, Virgínia, Laura, todos de alguma forma buscaram algum tipo de transformação e encontraram. Laura: “eu queria me curar da bulimia e me curei no yoga”; “eu deixei de ver Salvador como”. (Israel) etc.
3.3.8 Migrações
No livro “Le pèlerin et Le converti: La religion em mouvement, Léger fornece uma importante pista para essa tarefa quando aborda as comunidades sob o reino do individualismo religioso. Ela vai dizer que “a paisagem religiosa da modernidade é caracterizada por um movimento irresistível de individualização e subjetivização das crenças e das práticas.”(LÉGER, 1999, p.157). Ela alega, entretanto, que este movimento de individualização não é novo, e, acrescentaríamos, está longe de ser exclusivo do grupo que aqui estamos a estudar. Tal individualização perpassa toda a história do misticismo no Ocidente: história eminentemente paradoxal, porque a busca da união com Deus, passa, na perspectiva mística, por um trabalho de despojamento de si mesmo, por uma simplificação das paixões, interesses, pensamentos, sentimentos e representações, entre os quais se inscreve a singularidade do indivíduo. Esse despojamento, como vimos, apresenta um tom “fraco” no grupo de professores de yoga que estudamos. Sobretudo se compararmos com a comunidade que veremos a seguir.
Esse despojamento, todavia, pode ser gradual, enfrentando um paradoxo expresso em dois tipos gerais enunciados pela autora. “De um lado, a via mística, desenvolvida através de séculos da história cristã, constitui um caminho de individualização da experiência religiosa, reservado – de fato – a um pequeno número de virtuosos, portadores, como diria Max Weber, de um carisma místico. Do outro lado, a via ética, desenvolvida em sua forma racional e metódica, sobretudo pelo calvinismo”. (LÉGER, 1999, p.158).
Que ligação este individualismo religioso, pergunta a autora, possui com a modernidade? Vimos no primeiro capítulo, aspectos potenciais dessa ligação. Para Léger, a nebulosa místico-ecológica é típica representante da mutação moderna do individualismo religioso. Ela alega que o que faz esse conjunto é uma religiosidade inteiramente centrada no indivíduo e na sua realização pessoal. Não se trata, diz ela, de descobrir e aderir a uma verdade existente fora de si, mas de experimentar, cada um por si – sua própria verdade. Ela afirma que, nesse
sentido, nenhuma autoridade pode em matéria espiritual, definir uma ortodoxia se impondo, do exterior, ao indivíduo. O objetivo perseguido é o aperfeiçoamento de si, não no aspecto moral, mas como acesso a um estado superior de Ser.
Eis a dificuldade dos professores aspirantes a mestre: a pouca probabilidade de garantir a fidelidade exclusiva do aluno-discípulo. Muitos optam, portanto, a se eximir de qualquer intervenção na vida particular do aluno, no tocante à alimentação, sono, sexo. O que enfraquece, de algum modo, a ligação com a comunidade ideal: onde tudo é produto de uma disciplina e uma interiorização das normas do ashram. Outros, como De Rose, justificam uma maior autoridade remontando á rigorosa disciplina dos ashrams da Índia, alegando que quanto mais avançado, maior a obediência ao mestre, criando um contra-senso na era da mutação moderna, como se fosse possível implantar um aspecto fundamentalista naquilo que é por natureza sociológica, refratário aos dogmatismos.
Léger argumenta que “esse auto-aperfeiçoamento é acessível por uma gama de práticas psico- corporais”, de uma gama de técnicas das tradições espirituais e místicas. Mas o recurso a essas técnicas, diz a autora, se inscreve numa visão definitivamente otimista das capacidades do homem de chegar, segundo a via por ele escolhida, à plena realização de si mesmo.
Essa busca em geral resume a proposta do yoga, bem como das demais alternativas místico- ecológicas. No entanto, algumas particularidades precisam ser aqui destacadas. No caso do yoga, o que para os estudos sobre New Age – e confirmados por Léger – costuma ser tomado como recusa a toda autoridade religiosa que possa dar a última palavra no processo de busca interior, ganha outros contornos. Tal recusa costuma ser substituída pelo culto pessoal a um guru, ao mestre, que representa um profeta exemplar de tipo novo – como vimos. A experiência de si, não imposta de fora, também precisa ser relativizada. Esse “si mesmo”, como poderemos identificar nos relatos em Figueira e nas aulas de yoga, é colonizado, pré- formado pelas próprias fontes discursivas que convidam a penetrá-lo. Sim, “busque o seu mundo interno” é conjugado com “eis os sinais deste mundo”, “eis o que encontrará aí dentro”. Os mapas a caminho do Ser em geral já são fornecidos pelos gurus. EXEMPLOS.
Léger prossegue: “A salvação visada por esse trabalho de auto-aperfeiçoamento concerne exclusivamente à vida aqui embaixo”. (LÉGER, 1999, p.163). Trata-se de atingir os objetivos que a sociedade moderna oferece como horizonte a todos: a saúde, o bem-estar, a vitalidade, a
beleza. Isso é perfeitamente observável no campo dos professores de yoga. Mas mesmo neste campo e principalmente no Budismo, e ainda mais em Figueira, essa realização é criticável como um fim em si mesmo. No Yoga Integral, Sri Aurobindo diz que esse é apenas o primeiro passo para trazer essa realização também ao mundo, ao si ambiental. No budismo, há uma crítica ao chamado materialismo espiritual, em que o indivíduo, ao invés de transcender seu ego, fortalece-o ainda mais. Em Figueira, como veremos, essa busca é radicalmente superada, pois o conhecimento esotérico passa a ser todo ele voltado para a realização da missão do indivíduo, que deve “esquecer-se de si” na tarefa que só a ele cabe desempenhar, na consecução do Plano evolutivo.
Nota-se nesses discursos o quanto de apelo ao indivíduo há nessas comunidades. Dos professores de yoga, pode-se dizer que a individuação é o que confere sentido à prática. Ao buscar o yoga, busca-se esse alto grau de diferenciação – da qual as mônadas, de Tarde – confere uma imagem apropriada. Viagens ao exterior do país, cultivo de hábitos de consumo ecologicamente corretos, hábitos de leitura e compartilhar de livros entre si, relacionados à filosofia yogi mas também à literatura universal, freqüentar restaurantes vegetarianos, cinemas e salas de arte na cidade – eis alguns dos componentes do conjunto de práticas intercambiáveis que os professores de yoga mantêm entre si.
Ao refletir sobre o individualismo e as condições de vida moderna, Danièle Hervieu Lèger nos indaga: “Como encontrar em si mesmo as forças que permitem encarar o desmantelamento pessoal induzido pelo modo de vida ocidental, com sua insistência sobre a separação funcional das diferentes atividades humanas e o primado exclusivo que ele atribui à eficácia técnica?”. (LÉGER, 1999, p.124) A autora aponta a resposta possível construída nas comunidades religiosas como as do budismo: “ao lado de um trabalho consigo mesmo, mantido simultaneamente pela relação privilegiada que se estabelece com um mestre espiritual e pela integração flexível em uma comunidade espiritual”. (LÉGER, 1999, p.124).
Estando ele mesmo em busca, o professor de yoga almeja tornar-se esse pólo concentrador de respostas para as inquietações da vida contemporânea. Parece querer consolidar uma “comunidade” em torno de si: os laços afetivos repercutem no grau de fidelização do aluno, e uma pequena comunidade urbana de discípulos do bom viver pode ser enfim aspirada.