Alguns elementos definidores da proposta foram enunciados no tópico anterior. Em primeiro lugar, o objeto de interesse pertence ao rol de um movimento já consolidado no cenário global e que o expressa: o movimento ambientalista. Viola e Leis(1996) explicita duas correntes
centrais deste movimento: uma majoritária, que assume a dimensão política plenamente e que se subdivide em radical e reformista; e uma minoritária “que não assume nem as características nem as regras da dimensão política, enfatizando atitudes éticas e espirituais de tendência biocêntrica”. (LEIS; VIOLA, 1996, p.91). O Budismo engajado, mas principalmente Figueira podem ser classificados nesta tendência minoritária. Utilizaremos estes dois grupos como elementos empíricos da discussão a ser aqui travada.
Em segundo lugar, chamou-se a atenção para a importância do aspecto cultural na constituição dos movimentos que emergiram pós-70, em que o político, tal como convencionalmente conhecido até então, deixa de ser estruturante central da existência de uma ação que se pauta pela identidade cultural, pela afirmação de um estilo de vida ou de um ideário que o distingue. Em terceiro, este suposto movimento também reincorpora o político em outras bases: referindo-se aqui a formas alternativas de contestação, ou mesmo a de uma atitude de rejeição expressa aos padrões políticos convencionais, o que, de certa forma, representa uma atitude política. Essa atitude parece ser herdeira e representante contemporânea do que se convencionou chamar de “maio de 68”, e que envolve uma forte contestação de valores, além da intervenção da vida privada no rol da discussão pública.
Se é dado pouco peso a esse movimento de caráter religioso, lembremo-nos de uma das críticas de Tarrow aos estudos sobre movimentos transnacionais: além de nem todos se referirem como antiglobalização (neste caso, corresponderia a uma alterglobalização), alguns movimentos transnacionais tem um forte caráter religioso, como foi o caso da intervenção da Christian AID – organização cristã- e o Al-Quaeda no episódio da guerra contra o Afeganistão, o que além disso, demonstraram ser fortemente vinculados aos Estados-Nação respectivamente, dos Estados Unidos e do próprio Afeganistão.
Taibo pode ser aqui convocado para elucidar os motivos pelos quais um movimento de contestação transnacional tem sua razão de existir.Veremos como cada um dos motivos elencados por Taibo podem ser suscitados para explicar a emergência do movimento místico- ecológico. O primeiro motivo: dar réplica a uma globalização capitalista marcada pela sobrevivência da exploração e das exclusões. O movimento místico-ecológico, nas vertentes a serem enfatizadas, se pauta por uma crítica sistemática ao modus vivendi produzido pela sociedade de consumo. Atribuem as causas da exclusão e da exploração a esse modus vivendi.
Na palavra de um de seus líderes: “o aparente conforto dessa civilização não permite enxergar o caos no qual ela se encontra.”. (TRIGUEIRINHO, 1999).
Sobretudo, como Taibo afirma: “las redes antiglobalización se han opuesto decididamente a lo que há dado em llamarse pensamiento único, esto es, a la idea de que no existe outro horizonte que el que dictan las reglas propias del capitalismo global”. (TAIBO, 2007, p.56) A luta contra o pensamento único diz mesmo respeito à ação discursiva dos grupos aqui referidos. Tanto em Figueira, como no Budismo Engajado, há uma constante discussão de fundo cognitivo acerca da visão de mundo que predomina no cenário capitalista: resistência ao “consumismo” se conjuga por “uma vida mais simples, em contato com a natureza”. A idéia de que se deve evitar absorver os noticiários televisivos como versão definitiva da realidade, a precaução quanto a não aderir ao “desespero coletivo” incitado pela mídia, podem aqui se tomados como fatores de rejeição ao pensamento único, visto que este “pensamento único” tem sido em grande parte formado pelas agências de notícias internacionais que ofertam uma certa visão de mundo unidimensional (para usar uma expressão de Marcuse, teórico crítico frankfurtiano).
Do segundo motivo elencado por Taibo, oriundo da crítica ao endurecimento das condições de trabalho assalariado que se registra tanto no norte quanto no sul do planeta, não há muito o que este movimento possa explicitar. Ainda assim, na vida comunitária de Figueira, há um forte aroma “comunista” na noção de que nada é efetivamente possuído por ninguém mas apenas cuidado para que todos possam usufruir dos recursos ali produzidos. Há também uma quase ausência de trabalho especializado, uma vez que todos os moradores e visitantes procuram obter experiência nos diversos setores de trabalho, do plantio de alimentos à limpeza das áreas, num quase ocultamento da distinção de classes, embora essa afirmativa deva ser feita com muita cautela e não se tenha dados suficientes para sustentá-la (o habitus de classe permanece evidenciado em traços do comportamento e da linguagem, por mais que o indivíduo, uma vez aderindo à comunidade, pareça romper todos os vínculos com a vida pregressa.)
A terceira explicação de Taibo diz respeito à referência que o surgimento da contestação possui face aos problemas da democracia liberal. Esta “no solo sirve para esconder un escenario lastrado por profundas injusticias: se materializa en instituiciones vacías de poder,
permanentemente subordinadas a formidables instancias empresariales de cariz transnacional”. (TAIBO, 2007, p.56).
Os movimentos do Budismo engajado e de Figueira parecem compartilhar plenamente com outros movimentos transnacionais do sentimento de que a opressão assume formas muito diversas e nem sempre tem um cariz estritamente econômico. Conforme se verá adiante, também estas expressões do místico-ecológico enaltecem “a riqueza das civilizações, a diversidades dos povos do mundo e de suas culturas, a complexidades das situações, das geografias e das histórias” (apud TAIBO, 2007 - traduzido livremente). Aqui, de um modo um mais propriamente místico que ecológico, vale referir a uma das crenças gnósticas de Figueira: a de que cada povo possui um arquétipo, uma missão cumprir em relação ao mundo (o Brasil, por exemplo, teria a tarefa oculta de “expressar a bondade”). Certamente, tais discursos extrapolam o racionalismo que inspira os estudos sobre a contestação, mas abre uma possibilidade de incorporar a criatividade social nestas abordagens, considerando que as crenças, os mitos, os símbolos produzem efeito na vida cotidiana da comunidade.
O quinto motivo diz respeito à contestação quanto ao espasmo belicista. Aqui há pouca ressonância no movimento, por sua própria natureza, visto que o seu discurso é pacifista até mesmo na maneira de contestar. Claro que no que diz respeito ao Budismo Engajado, a crítica contundente ao modo que a China vem tratando a questão do Tibete desde sua invasão está presente, sob forma de protestos, que clamam por paz e autonomia cultural ao Tibete, diretamente contra a versão totalitária do imperialismo chinês.
Do último motivo apontado por Taibo, a critica a esquerda tradicional é assumida pelos agentes do movimento. Em geral, conforme observado em pesquisa de campo em Figueira, muitos dos atuais participantes tiveram uma trajetória política marcada por filiação ou simpatia aos partidos políticos como o PT, o PV e o PSOL, mas em geral se dizem descrentes dessa forma de atuar. “Mudar o mundo sem tomar o poder” quer dizer tudo para eles.