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Para Foucault, assim podemos definir espiritualidade: “o conjunto de buscas, práticas e experiências tais como as purificações, as asceses, as renúncias, as conversões do olhar, as modificações de existência, etc. que constituem, não para o conhecimento, mas para o sujeito, para o ser mesmo do sujeito, o preço a pagar para ter acesso à verdade.” (FOUCAULT, 1997, p.19)

Este conjunto de transformações autoimpostas para o “despertar da alma”, implica em constante voltar-se para si mesmo. Interessante observar o modo como Foucault desenvolve a trajetória deste cuidar de si. Ele remonta aos gregos antigos, particularmente ao diálogo entre Sócrates e Alcebíades, e aos conselhos acerca do cuidar de si, numa fase em que este último ingressa na maioridade e se prepara para exercer sua vida política. Não há coisa melhor a fazer do que ocupar-se consigo mesmo para melhor governar a cidade.

Também em Epicuro: todo homem, noite e dia, e ao longo de sua vida, deve ocupar-se com a própria alma. Foucault está então, interessado em saber “de que maneira este princípio de precisar ocupar-se consigo mesmo tornou-se, de modo geral, o princípio de toda conduta racional, em toda forma de vida ativa que pretendesse efetivamente, obedecer ao principio da racionalidade moral.”(FOUCAULT, 1997, p.13)

Essa incitação ao auto-cuidado alcançou, vai dizer Foucault, “uma extensão tão grande que se tornou, creio, um verdadeiro fenômeno cultural de conjunto.” (FOUCAULT, 1997, p.13) Tal cultura, no pensamento do autor, possui uma série de contraposições perturbadoras: “soam aos nossos ouvidos como a expressão um pouco melancólica e triste de uma volta do indivíduo sobre si, incapaz de sustentar, perante seus olhos, entre suas mãos, por ele próprio, uma moral coletiva (a da cidade, por exemplo), e que, em face do deslocamento da moral coletiva, nada mais então teria senão ocupar-se consigo.”(FOUCAULT, 1997, p.17).

Essa dicotomia indivíduo x coletividade se apresenta em muitas searas da Nova Era. Vale lembrar que, se tomarmos os estudos sobre a nova religiosidade engendrada por esse movimento, veremos, em boa medida, o apontar para um certo individualismo, de tipo expressivo, que se manifesta, por exemplo, na rejeição do agente a padrões religiosos instituídos; e, na tentativa de compor uma síntese particular, o adepto típico da nova era tende a recusar autoridades absolutas. (CAMPBELL, 1997; ANDREAS, 1997; CAROZZI, 1999)

Assim nos demonstra Contepomi (1999): “Para os seguidores locais da Nova Era, a liberdade é a chave da transformação. E a autêntica liberdade se encontra no interior do indivíduo. A liberação pessoal se consegue separando os véus que escurecem “ao verdadeiro Eu”, praticando o desapego e provocando fraturas. Somente rompendo as ataduras – culturais, ideológicas, emocionais – que permeiam as histórias de vida, cada qual aprenderá a “ser si próprio”.(...) Postulam que a Nova Era é anti-dogmática e anti-autoritária; luta contra a ortodoxia, os sufocamentos e hierarquias sem consenso: ‘apenas devo obedecer ao mestre interior, fonte de verdade e sabedoria’ é a idéia-força que governa as experiências.”(CONTEMPOMI, 1999, p.137)

Mas nem tudo é ruptura e liberdade no mundo da Nova Era. E mesmo a liberdade é conquistada através de uma ampla disciplina: no yoga, essa disciplina se encontra formulada no atributo da tapasya (esforço sobre si mesmo) que se converte em swadhyaya (auto-estudo),

como uma importante figuração dessa necessidade que o adepto tem de esmerar-se para obter essa soberania. Tal processo encontra ressonâncias no estudo de Foucault sobre essa gênese do cuidar de si como valor: “Que a verdade não possa ser atingida sem certa prática ou certo conjunto de práticas totalmente específicas que transformam o modo de ser do sujeito, modificam-no como tal está posto, qualificam-no transfigurando-o, é um tema pré-filosófico que deu lugar a numerosos procedimentos mais ou menos ritualizados (...) A necessidade de pôr em exercício uma tecnologia de si para ter acesso à verdade é uma idéia manifestada na Grécia Arcaica e, de resto, em uma série de civilizações – senão em todas, por certo número de práticas (...).” (FOUCAULT, 1997, p.59)

O desenvolvimento descrito por Foucault, ao comentar Alcebíades de Sócrates por Platão, vai nos ajudar a compreender os mecanismos desse trajeto. De acordo com Foucault, o cuidar de si possuirá três ocorrências: na primeira, o conselho de Sócrates a Alcebíades era de prudência: ocupa-te de ti mesmo e aprende suas próprias insuficiências. Na segunda ocorrência, há um questionamento acerca deste eu com o qual deve ocupar-se – e aqui se apresenta a alma, como a agência que faz uso deste corpo. E, desde já, faz-se referência ao governo de si para melhor governar a cidade. Na terceira ocorrência, o cuidado de si passa a consistir no conhecimento de si. Então, encontramos, para Foucault, os momentos constitutivos do platonismo “e, justamente, um daqueles episódios essenciais na história das tecnologias de si, na longa história do cuidado de si, e que terá um forte peso ou, pelo menos, efeitos consideráveis durante a civilização grega, helenística e romana: práticas de concentração do pensamento, de retraimento da alma em torno de seu eixo, de retiro em si, de resistência etc.”( FOUCAULT, 1997, p.85).

Curioso como as técnicas de purificação e de concentração da alma no mundo grego, descritas por Michel Foucault, encerra as mesmas características do ascetismo yoguico. Em boa medida, e a tempo, enquanto o primeiro conjunto envolve um cuidar de si para governar a cidade, o yogi asceta busca, senão a inação, ao menos “a ação perfeita”, desde que desvinculada dos frutos da ação. Em termos ideais, o yogi consumado não vê o poder mundano como objetivo, mas sim o poder de transcender o mundo como uma meta parcialmente almejada por sua busca pela iluminação. Todavia, “o ponta-pé na escada da existência” não é um fim consensualmente almejado pelo yoga. Muito menos por Figueira e pelo Budismo, e de modo ainda mais distante desse ideal, está a Fundação Terra Mirim, comunidade que se contrapõe de modo quase absoluto a qualquer visão extramundana de rejeição do mundo. Em sua página

na Internet, encontramos de modo explícito, inclusive, a sua posição política especificada, sobretudo em termos de inclinações político-partidárias.

O que há de comum entre estes quatro grupos e mesmo entre os que podem ser englobados sob o rótulo Nova Era? Ou, de maneira mais condizente com o interesse desse estudo, com o chamado movimento místico-ecológico? O cuidar de si aparece como esse elemento central e se manifesta de modo diverso em cada um deles. O convite da Nova Era, em geral, implica em assumir esse cuidar de si, de modo quase obsessivo. Abundam formulações terapêuticas, sínteses de tradições espirituais e fragmentos de tradições, todas voltadas para o auto-cuidado, em uma infinita possibilidade de combinações. Em termos elementares, podemos aplicar aquilo que Foucault chamou de contraposições perturbadoras: “soam aos nossos ouvidos como a expressão um pouco melancólica e triste de uma volta do indivíduo sobre si, incapaz de sustentar, perante seus olhos, entre suas mãos, por ele próprio, uma moral coletiva (a da cidade, por exemplo), e que, em face do deslocamento da moral coletiva, nada mais teria senão ocupar-se consigo” (FOUCAULT, 1997, p.17).

Mas a ambivalência deste cuidado também é ressaltada por Foucault: “temos pois o paradoxo de um preceito do cuidado de si que, para nós, mais significa egoísmo ou volta sobre si e que, durante tantos séculos, foi, ao contrário, um princípio positivo, princípio positivo matricial relativamente a morais extremamente rigorosas.” (ibidem). Mas ainda há muito a explorar acerca do fundamento dessas tecnologias de si, observando-as no contexto de prática dos grupos aqui estudados. Para tanto, os capítulos a seguir deverão cumprir esse intento. O que nos importa agora é exibir, de modo panorâmico e reticular, a importância deste elemento na formulação do argumento central: o cuidar de si é um ingrediente essencial deste movimento. Dos desdobramentos que assume o auto-cuidado depende a existência social de rede do movimento e eficácia de seu discurso geral.

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