4 MANIFESTAÇÕES DO PROCESSO PENAL DO INIMIGO NO BRASIL
3. Inexistindo, na Lei nº 9.296/96, previsão de renovações sucessivas, não
4.5 LAVAGEM DE DINHEIRO
4.5.3 Do julgamento à revelia
Questão que salta aos olhos diz respeito ao quanto disposto no artigo 2º, parágrafo 2º, da Lei 9.6313/98, que trata da inaplicabilidade do artigo 366 do Código de Processo Penal. O artigo 366 do Código de Processo Penal brasileiro trata da suspensão do processo em caso de citação por edital quando o acusado não comparecer, nem constituir advogado. Preconiza o dispositivo que: “se o acusado, citado por edital, não comparecer, nem constituir advogado, ficarão suspensos o processo e o curso do prazo prescricional, podendo o juiz
determinar a produção antecipada das provas consideradas urgentes e, se for o caso, decretar prisão preventiva, nos termos do disposto no art. 312”.
Desse modo, se o acusado, citado por edital, não comparecer e nem constituir advogado, o processo será suspenso, assim como o curso do prazo prescricional. Ou seja, faz- se necessária a observância dos seguintes requisitos: “citação por edital”, “não comparecimento do réu” e “não constituição de advogado”, como condição sine qua non para a aplicação da mencionada norma.
Tal redação fora introduzida no ordenamento pátrio por ocasião da publicação da Lei nº 9.271, de 17 de abril de 1996, que estabeleceu novo tratamento da revelia no processo penal, sob o fundamento constitucional da ampla defesa e do contraditório, corolários do devido processo legal.319
De conseguinte, a alteração legal veio a consagrar a garantia, estatuída em normas internacionais, que tem o acusado de ser informado do inteiro teor da peça acusatória. Efetivamente, a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, de 1969, conhecido como Pacto San José da Costa Rica estabelece em seu artigo 8º, 2, que:
Toda pessoa acusada de um delito tem direito a que se presuma sua inocência, enquanto não for legalmente comprovada sua culpa. Durante o processo, toda pessoa tem direito, em plena igualdade, às seguintes garantias mínimas:
a) direito do acusado de ser assistido gratuitamente por um tradutor ou intérprete, caso não compreenda ou não fale a língua do juízo ou tribunal;
b) comunicação prévia e pormenorizada ao acusado da acusação formulada;
c) concessão ao acusado do tempo e dos meios necessários à preparação de sua defesa;
d) direito do acusado de defender-se pessoalmente ou de ser assistido por um defensor de sua escolha e de comunicar-se, livremente e em particular, com seu defensor; […].
Considerando que o então Vice-Presidente da República Federativa do Brasil, Itamar Franco, mediante o Decreto nº. 678 de 06 de novembro de 1992, promulgou a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, tal norma ingressou no ordenamento pátrio ostentando status constitucional, consoante assevera o texto constitucional disposto no artigo 5º, § 2º, da Carta Magna.
Outrossim, o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, no seu artigo 14, dispõe sobre o tema. Registre-se que o então Presidente da República, Fernando Collor,
mediante o Decreto nº. 532, de julho de 1992, incorporou norma internacional ao ordenamento jurídico pátrio, in verbis:
Art. 14 - 1. Todas as pessoas são iguais perante os Tribunais e as Cortes de Justiça. Toda pessoa terá o direito de ser ouvida publicamente e com as
devidas garantias por um Tribunal competente, independente e imparcial,
estabelecido por lei, na apuração de qualquer acusação de caráter penal formulada contra ela ou na determinação de seus direitos e obrigações de caráter civil. A imprensa e o público poderão ser excluídos de parte ou da totalidade de um julgamento, quer por motivo de moral pública, ordem pública ou de segurança nacional em uma sociedade democrática, quer quando o interesse da vida privada das partes o exija, quer na medida em que isto seja estritamente necessário na opinião da justiça, em circunstâncias específicas, nas quais a publicidade venha a prejudicar os interesses da justiça; entretanto, qualquer sentença proferida em matéria penal ou civil deverá tomar-se pública, a menos que o interesse de menores exija procedimento oposto ou o processo diga respeito a controvérsias matrimoniais ou à tutela de menores.
3. Toda pessoa acusada de um delito terá direito, em plena igualdade, às seguintes garantias mínimas:
a) a ser informada, sem demora, em uma língua que compreenda e de
forma minuciosa, da natureza e dos motivos da acusação contra ela formulada;
b) a dispor do tempo e dos meios necessários à preparação de sua defesa e a comunicar-se com defensor de sua escolha;
c) a ser julgada sem dilações indevidas;
d) a estar presente no julgamento e a defender-se pessoalmente ou por intermédio de defensor de sua escolha; a ser informada, caso não tenha defensor, do direito que lhe assiste de tê-lo, e sempre que o interesse da justiça assim exija, a ter um defensor designado ex officio gratuitamente, se não tiver meios para remunerá-lo;
e) a interrogar ou fazer interrogar as testemunhas de acusação e a obter comparecimento e o interrogatório das testemunhas de defesa nas mesmas condições de que dispõem as de acusação;
f) a ser assistida gratuitamente por um intérprete, caso não compreenda ou não fale a língua empregada durante o julgamento;
g) a não ser obrigada a depor contra si mesma, nem a confessar-se culpada.
Como já pontuado anteriormente, o ordenamento jurídico brasileiro, em absoluta conformidade com as evidenciadas normas internacionais e, obviamente, com os postulados constitucionais, estabeleceu novo tratamento da revelia no processo penal, quando o réu é citado por edital.
Neste contexto, apenas a título de ilustração, cabe evidenciar, a partir de uma análise de Direito Comparado, que países como a Alemanha, Aústria, Reino Unido, Canadá, Holanda, Suécia, Suíça, Noruega, Finlândia, Portugal e quase todos os países da América Latina, não permitem a condenação a revelia.320
Contudo, a par da sistemática adotada no Código de Processo Penal brasileiro, o artigo 2º, parágrafo 2º, da Lei 9.6313/98 dispôs que “no processo por crime previsto nesta Lei, não se aplica o disposto no art. 366 do Código de Processo Penal”, numa previsão flagrantemente violadora de preceitos constitucionais inegociáveis em um Estado Democrático e de Direito.
O mencionado dispositivo inserto na Lei 9.613/98 se encontra em absoluta desconformidade com a ordem constitucional vigente, pois representa grave violação aos princípios da ampla defesa e do contraditório, na contramão de um Direito Processual Penal Constitucional, evidenciando nítidos traços do processo penal do inimigo.
Com efeito, um processo a revelia do acusado não pode ser, assim, um “processo de partes”. A ausência de réu macula a construção da verdade processual, pondo em risco a estrutura acusatória constitucionalmente construída.321
Além disso, o dispositivo, em epígrafe, viola o princípio da proporcionalidade, pois de aplicação prevista, tão-somente, para o processamento de delitos de lavagem. Assim, o que justificaria a incidência de tamanha restrição para os delitos em questão?
Se para delitos de maior gravidade não se adotou tal medida, inconcebível, mais uma vez, a previsão de julgamento à revelia para os delitos previstos na lei em estudo, restando, senão outra, a conclusão de que se trata de norma de exceção, utilizada para o combate a inimigos, verdadeira manifestação, pois, do Processo Penal do Inimigo.
Segundo Luiz Flávio Gomes, o art. 2º, § 2º, da Lei nº 9.613/98 é mais um exemplo de lei que é um “não-direito”, de desconhecimento total do legislador dos seus limites. Efetivamente, o legislador ordinário com tal previsão extrapolou os limites constitucionais, ferindo o devido processo penal.
Assevera o autor que o princípio do devido processo legal acha-se hoje amplamente constitucionalizado, constituindo sua parte rígida, isto é, não pode ser afetada pelo legislador ordinário, cujo poder de alteração ou de inovação diz respeito somente à parte flexível do devido processo. Ao ignorar essa regra elementar, acaba o Poder Legislativo indo muito além dos limites legiferantes inerentes ao Estado de Direito.322