4. DO ASSÉDIO MORAL – ESPECIALIZAÇÃO TEMÁTICA
4.3. Dos Danos à Vítima
4.3.4 Do “macrossistema de danos”
ali, principalmente se falando em multinacionais, ele teve de se especializar e capacitar por anos, para se tornar qualificado naquilo que faz.
Neste diapasão, este funcionário torna-se fundamental dentro da estrutura da própria empresa, se tornando indispensável por conta de seus conhecimentos adquiridos e capacidade profissional (o que acaba sendo um dos propulsores dessa modalidade de assédio: a inveja e ambição de quem vêm abaixo para aniquilá-lo e tomar seu lugar).
Assim, a perda deste empregado, em aspectos técnicos torna-se crucial para a empresa, pois dificilmente achará alguém mais capacitado para tomar seu lugar (é claro que em outras modalidades de assédio também há prejuízo técnico para a empresa, contudo, nesta em específico, a perda se torna salutar).
Em aspectos financeiros, não resta duvida que a empresa é afetada diretamente. Conforme será visto, o assédio pode proporcionar duas indenizações diferentes (danos morais e patrimoniais, sendo este ultimo vislumbrado na figura dos artigos 948, 949 e 950 do Código Civil) e, quando somadas chegam a valores exorbitantes, rompendo a casa dos milhares e chegando até os milhões em muitos casos. Isso porque se aborda apenas um caso. Agora imagine dezenas deste dentro de uma mesma empresa: o prejuízo seria sem precedentes.
Ainda, no que tange ao que a empresa deve desembolsar diretamente por conta do assédio moral, também não se pode olvidar de eventuais multas que são pagas, principalmente quando se fala do já mencionado “assédio moral coletivo”, muito comum em ações propostas por sindicatos ou pelo próprio Ministério Publico do Trabalho17, na sua função de fiscalizador das relações laborais.
17Neste sentido: “Justiça condena BB em cinco milhões por assédio moral”
“A Justiça do Trabalho no Piauí condenou o Banco do Brasil a pagar indenização por dano moral coletivo no valor de R$ 5 milhões por assédio moral. A sentença é do juiz Adriano Craveiro Neves referente à ação civil pública proposta pelo Ministério Público do Trabalho.
Na condenação, o juiz deferiu os pedidos com tutela antecipada por considerar as alegações do MPT substanciais. “A prova nos autos é robusta, restando provado inequivocamente o assédio moral organizacional. Os relatos orais e o procedimento de investigação me convenceram da verossimilhança das alegações”, afirmou o magistrado.
Além da multa, o banco terá que contratar, em 30 dias, profissionais especializados em saúde mental no trabalho para elaboração de diagnóstico sobre condições organizacionais, não poderá efetuar cobranças recorrentes das metas por envio de mensagens ameaçadoras e irônicas aos trabalhadores, dentre outras obrigações.
A própria ausência de um funcionário importante compõe outro dano financeiro catastrófico a empresa, principalmente na perda de mão de obra qualificada como dito a pouco, tendo em vista que a sua ausência refletirá diretamente no desempenho produtivo da sociedade, já que esta depende de seus conhecimentos técnicos. Isto porque ainda haverá gastos na busca por outros profissionais do mesmo teor de capacidade e, consequentemente, em sua própria especialização, para que chegue ao mesmo estágio do trabalhador anterior (o que sequer poderá ser alcançado dependendo do funcionário perdido).
No que tange ao Estado, que compõe o ultimo estagio do macrossistema, as perdas são também significativas.
As incapacidades laborais, decorrentes do assédio, geram em grande parte das vezes a total inaptidão do trabalhador para qualquer trabalho. Este trabalhador, que não mais possui nenhuma fonte de renda, deverá aposenta-se perante a Previdência Social, pois seu estado de saúde clinica é lastimável.
Agora, se levar em consideração que essa aposentadoria pode ser antecipada (como em trabalhadores que tiveram de se afastar com 30 ou 40 anos), a Previdência Social (órgão pertencente a administração indireta do Estado) terá de
A investigação foi iniciada em janeiro de 2013 pela procuradora do Trabalho, Maria Elena Rego, que recebeu denúncia do Sindicato dos Bancários, alegando que funcionários do banco estavam adoecendo por causa de pressões sofridas no ambiente de trabalho. ‘Os gerentes eram submetidos a pressões psicológicas muito além do limite do suportável. O banco adotou um sistema baseado no medo e no terror, que os levou a adquirir doenças físicas e psíquicas’, argumentou a procuradora.
A partir dos depoimentos dos gerentes, o Ministério Público apurou que o então superintendente estadual do Banco do Brasil se utilizava de um sistema de cobrança de metas, através de mensagens pelo celular ou e-mails, de forma exagerada e obsessiva. ‘As mensagens tinham um tom sarcástico e continham ameaças veladas, o que configura claramente o assédio organizacional’.
Maria Elena Rego buscou entender o que levou ao adoecimento dos gerentes do banco. Porque pelo menos quatro foram afastados do trabalho com diagnóstico de ‘síndrome de burnout’, uma espécie de exaustão emocional ou estresse, que pode levar a incapacidade temporária ou até definitiva para a prestação de serviços. A procuradora entendeu que o problema era de assédio moral organizacional, que estava prejudicando vários empregados do Banco do Brasil e que aquele processo precisava parar.
Em dezembro de 2013, a procuradora ajuizou a ação no Tribunal Regional da 22ª Região e, agora, os pedidos foram julgados procedentes. ‘O judiciário piauiense, com essa sentença demonstra seu compromisso com os princípios trabalhistas e os direitos fundamentais do trabalhador, enquanto ser humano’, destacou.
‘A sensação do Ministério Público do Trabalho é de dever cumprido na certeza de que estaremos trabalhando diuturnamente para evitar que os modelos atuais de organização do trabalho continuem adoecendo os trabalhadores’, disse a procuradora.
A ação cabe recurso ao Tribunal Regional do Trabalho”.
Disponível em < http://www.prt22.mpt.gov.br/informe-se/noticias-do-mpt-go/112-justica-condena-bb-assedio-moral>. Acessado em 10 de agosto de 2014.
arcar com anos e anos de benefício, a quem poderia muito bem estar produzindo, em seu pleno auge profissional.
Não se pode esquecer, ainda, dos afastamentos temporários decorrentes de doenças do assédio moral, que a partir do 16º dia de ausência são também bancados pelo Instituto Nacional de Seguridade Social.
Além dos gastos que o Estado tem com os trabalhadores adoentados, deve ser levado em conta que enfrenta-se um mal social, e como tal deve ser combatido e erradicado pelo governo. Neste sentido, o Estado deverá elaborar ações afirmativas, como campanhas publicitárias e programas de conscientização, que visem à diminuição gradativa do assédio moral, o que pode levar anos e ser um gasto constante e recorrente.
Isto porque sequer foram mencionadas aquelas vitimas do assédio moral que não tem condições financeiras, pois mesmo não ficando incapacitadas para o trabalho, trarão gastos como medicamentos e consultas ambulatoriais, arcados pelo Sistema Único de Saúde.
Na mesma ideia do mal social, o assédio moral degrada o Estado, não só com prejuízos financeiros, mas também como um vício da sociedade, que rompe a paz social e demanda um esforço conjunto de todo aparato estatal (poderes Executivos, Legislativo, Judiciário e Sociedade Civil) para seu combate.
Por fim, o que restou demonstrado é que o assédio moral compõe-se em verdadeiro dano institucional, que de maneira gradual e avassaladora se alastra para todas as direções e sentidos, afetando as instituições mais importantes que compõe o corpo social do Estado, como a família.
Desta maneira, antes mesmo de ser erradicado, o assédio moral de ser prevenido. Talvez, ainda mais importante de que o combate seja o Estado achar mecanismos de prevenção efetiva, que visem a coibir o assédio moral antes mesmo de seu nascedouro.