• Nenhum resultado encontrado

DO NÃO CONHECIMENTO DO RECURSO SUPOSTAMENTE DESERTO.

5.1 Julgados paradigmáticos

5.1.4 DO NÃO CONHECIMENTO DO RECURSO SUPOSTAMENTE DESERTO.

102

PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL. DECISÃO QUE DEU PROVIMENTO AO AGRAVO. POSSIBILIDADE. RECURSO DA AGRAVADA. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. JUÍZO DE ADMISSIBILIDADE DO TRIBUNAL ESTADUAL. CABIMENTO. INTERRUPÇÃO DO PRAZO CARACTERIZADA. AGRAVO DE INSTRUMENTO TEMPESTIVO. REGIMENTAL DESPROVIDO. (AgRg no Ag 644175/RJ, Rel. Min. Aldir Passarinho Júnior, 4ª Turma, julgado em 29/11/2005, DJ 19/12/2005, p. 423)

103

DECISÃO DE PRESIDENTE DE TRIBUNAL QUE INADMITE RECURSO ESPECIAL – EMBARGOS DECLARATORIOS – ADMISSIBILIDADE. A circunstância de ser cabível agravo de instrumento não afasta a possibilidade do pedido de declaração. Se a decisão for omissa, obscura ou contraditória, necessário que as deficiências sejam sanadas, ate para que seja possível exercer com amplitude o direito de pedir-lhe a reforma. (AgRg no Ag 22207/RS, Rel. Min. Cláudio Santos, Rel. p/ Acórdão Min. Eduardo Ribeiro, 3ª Turma, julgado em 20/10/1992, DJ 05/04/1993, p. 5836)

Talvez uma das mais recorrentes casuísticas da Jurisprudência Defensiva diga respeito aos recursos que exigem, para o seu conhecimento, o prévio pagamento do denominado depósito recursal, recolhimento pecuniário que se presta a garantir o Juízo, com o escopo de se certificar que (ao menos) parte dos valores reconhecidos pela decisão guerreada já estará à disposição da serventia.

Ocorre que, por vezes, tal pagamento não segue as rigorosas e injustificadas regras impostas pelos Tribunais – no mais das vezes, editadas a partir de resoluções ou até mesmo de portarias, à revelia, pois, de qualquer respaldo da legislação federal.

Neste subtópico, será tratada a hipótese de o recurso não ser acompanhado da necessária guia de depósito recursal, o que fatalmente enseja o não conhecimento do mesmo, haja vista ser condição sine qua non para sua admissão a correta e prévia comprovação do recolhimento de tal numerário.

Costumeiramente, tal caso remete aos Tribunais Regionais do Trabalho ou ao próprio Tribunal Superior do Trabalho104, porquanto ser característica de tal seara jurisdicional a exigência do recolhimento do indigitado depósito recursal, o qual é feito, in casu, através das chamadas Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social (GFIP).

Assim, quando o recurso é apresentado em Juízo sem a comprovação do necessário pagamento do depósito recursal, o resultado não é outro, senão o seu não conhecimento. A inadmissão é automática, sem discussão. Não se abre, sequer, oportunidade para que a parte faltosa supra tal omissão – ainda que pequena.

Ora, por diversas razões, a parte pode deixar de colacionar ao seu recurso a competente guia de depósito recursal, bem como seu correspondente comprovante de pagamento (se for o caso). Por exemplo (e talvez seja a mais comum das hipóteses), o recorrente pode efetuar o pagamento e, por descuido e falta de zelo, deixar de juntar os correspondentes documentos aos autos. Pode ocorrer, também, de não receber a tempo os comprovantes a fim de juntá-los ao remédio recursal manejado (muito embora se reconheça que tal caso é mais recorrente quando do envio da guia para pagamento em outra localidade, cabendo ao advogado esperar pelo recebimento do correspondente comprovante de

104 Nada obstante, há legislação no Estado do Pernambuco que autoriza o Tribunal de Justiça a exigir

a prévia comprovação do pagamento do depósito recursal como condição para a admissibilidade do Recurso Inominado a ser manejado pela parte prejudicada (prática, pois, aplicável na seara da Justiça Comum Especial). Trata-se da Lei Estadual n.º 11.404/96, que, em recente julgamento de Ação Direta de Inconstitucionalidade movida pela Ordem dos Advogados do Brasil (n.º 2.699, de relatoria do Ministro Celso de Mello), teve seus arts. 4º e 12 declarados inconstitucionais, haja vista que, nos termos do art. 22, I, da Constituição Federal, apenas a União Federal pode legislar sobre matéria processual.

adimplemento; ademais, a era eletrônica mitigou tal questão, de modo a se evitar a espera pelo documento físico).

Nos autos do Agravo de Instrumento em Recurso de Revista de n.º 92100- 57.2012.5.13.0004105, de relatoria do Desembargador Convocado Breno Medeiros, entendeu- se que a juntada posterior do comprovante de pagamento depósito recursal, ainda que consigne que o respectivo adimplemento se deu no prazo recursal, não supre a falta da parte recorrente alusiva à não apresentação de tal documento no momento oportuno.

Em outras palavras, o Tribunal Superior do Trabalho, por meio de sua 8ª Turma, firmou o entendimento de que, ainda que o pagamento tenha sido efetivamente realizado, basta a sua não comprovação durante o prazo recursal para que o correspondente remédio recursal não seja conhecido.

No voto do relator, pode-se identificar controversa motivação, a qual sustenta que “(...) o recurso de revista da reclamada encontrava-se deserto ao tempo da interposição, irregularidade que não pode ser sanada com a juntada posterior das guias (...)”. Ora, a bem da verdade, quando da interposição do recurso, este estava, sim, assegurado pelo depósito recursal, considerando que, in casu, o seu pagamento se deu dentro do prazo recursal.

Se não houve a comprovação nos termos jurisprudenciais, é outra questão a ser apreciada.

Entende-se, neste particular, que a apresentação posterior do comprovante de pagamento do depósito recursal não vicia o respectivo recurso, mormente quando tal comprovação extemporânea se dá ainda antes da manifestação do Juízo acerca a admissibilidade do recurso.

Isso porque a finalidade precípua da exigência do depósito recursal é, como antes ventilado, a garantia do Juízo, a fim de que o recurso não se preste apenas a protelar o deslinde definitivo da causa, sem dotar a parte vencedora da certeza necessária de que a liquidez de seu direito, já reconhecido, será oportunamente contraprestada de forma financeira106.

105 AGRAVO DE INSTRUMENTO EM RECURSO DE REVISTA. RECURSO DESERTO.

AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO DEPÓSITO RECURSAL E CUSTAS QUANDO DA INTERPOSIÇÃO DO RECURSO. Nos termos da Súmula nº 245 do TST, incumbe à parte fazer o recolhimento e a comprovação do depósito recursal e custas no prazo alusivo ao recurso. A juntada posterior das guias demonstrando que os recolhimentos foram feitos no prazo do recurso não supre essa incumbência. Agravo de instrumento não provido.

(TST – AIRR: 92100-57.2012.5.13.0004, Rel.: Breno Medeiros, Julgamento: 18/06/14, 8ª Turma, Publicação: DEJT 24/06/14)

106

Na seara trabalhista, a previsão legal de comprovação do recolhimento das custas processuais está prevista no art. 789, § 1º, CLT, que apresenta a seguinte redação: Art. 789. (...) § 1o As custas serão

Assim, pouco importa se a comprovação do pagamento do depósito recursal será realizada um dia após a interposição recursal. O que importa, sob a ótica deste estudo, é que tal adimplemento se dê dentro do prazo anotado para o recurso – sob pena de se alargar, inclusive, o próprio prazo para tanto (já que nele se inclui a preparação da guia recursal, seu pagamento etc.).

Para o Tribunal Superior do Trabalho, neste ponto em específico, falta bom senso – permissa venia. No referido julgamento (AIRR n.º 92100-57.2012.5.13.0004), o relator realizou a seguinte ponderação:

(...) Relevante consignar que as garantias constitucionais do processo não isentam as partes da necessidade de observar os pressupostos extrínsecos exigidos para o cabimento de cada recurso, os quais devem ser cumpridos sem que isso implique em afronta aos princípios do contraditório, da ampla defesa e do duplo grau de jurisdição, visto que se trata de exigência decorrente da legislação infraconstitucional vigente, constituindo, a sua observância, verdadeira imposição do devido processo legal. (...)

Contrariamente ao aduzido no excerto acima aduzido, podem-se vislumbrar uma séria de afrontas às disposições constitucionais, mormente às garantias constitucionais do processo e aos princípios processuais, todos eles aplicáveis ao processo trabalhista (como é o caso em análise).

Entender que a rigorosa exigência em se apresentar o comprovante de pagamento das custas recursais (custas processuais e depósito recursal) dentro do prazo legalmento anotado não afronta os Princípios do Contraditório, da Ampla Defesa e do Duplo Grau de Jurisdição é, com todo o respeito, relegar à indiferença tais nótulas constitucionais propedêuticas.

É que, como visto no capítulo anterior, os Princípios constitucionais do Contraditório e da Ampla Defesa se voltam à proteção do jurisdicionado quando da sua submissão às normas impostas pelo legislador e pelo próprio Poder Judiciário.

O Poder Legislativo deve prever os meios hábeis à defesa dos direitos vindicados em Juízo. O Poder Judiciário, a seu turno, tem a missão de fazer cumprir as previsões legais, de modo a assegurar que as garantias previstas na Constituição Federal e na legislação infraconstitucional serão observadas.

Vai além, aliás: tem a função-dever de negar aplicabilidade às disposições legais que afrontem os direitos e as garantias constitucionais (do processo), de modo a conferir guarida

pagas pelo vencido, após o trânsito em julgado da decisão. No caso de recurso, as custas serão pagas e comprovado o recolhimento dentro do prazo recursal.

às interpretações jurídicas que mais se aproximarem da justiça e da correição que devem permear o ordenamento jurídico pátrio.

Nessa linha de defesa, faz-se permitida a afirmação de que a proibição de se apresentar o comprovante de pagamento das custas recursais (desde que realizado dentro do prazo recursal) após a interposição do recurso é medida que vai de encontro a básicos princípios constitucionais do processo.

O exacerbado formalismo capitaneado pela Justiça do Trabalho se apresenta ainda mais visível quando se volta à reflexão do Princípio do Pas de Nullité Sans Grief. Importado da doutrina francesa, apresenta intrínseca relação com o Princípio da Instrumentalidade das Formas.

Como ventilado em capítulo pretérito, o Princípio do Pas de Nullité Sans Grief privilegia a finalidade em detrimento do meio pelo qual se chegou a ela. Voltado especificamente para a análise das virtuais nulidades e anulabilidades processuais (ou procedimentais), advoga-se pela inexistência de nulidade processual se inocorrente o prejuízo para qualquer uma das partes processuais.

Em outras palavras, defende-se que, se a aparente falha procedimental cometida pela parte (ou pelo Juízo) não trouxe qualquer resultado negativo ao processo – rectius, se não ensejou a verificação de qualquer prejuízo –, qual o sentido de se argui-la e, o que é pior, acolhê-la?

Essa reflexão remete à conclusão de que as meras incorreções processuais e procedimentais verificadas na demanda, desde que não causadoras de prejuízos materiais, não devem ser acolhidas pelo Juízo, sob pena de se prestigiar indevidamente a perfeição processual (formalismo procedimental), ao tempo em que se deixa em segundo plano vários outros Princípios, como o da Celeridade Processual e o da Máxima Efetividade.

De maneira reflexa, a firmação do entendimento ora em debate apenas acarreta prejuízos à Garantia do Duplo Grau de Jurisdição, porquanto mitigá-lo com a específica e única finalidade de se garantir a adoção de um processo sem qualquer incorreção procedimental – quando, na verdade, tais equívocos não trouxeram quaisquer prejuízos à demanda ou às próprias partes jurisdicionadas.

Em suma, tem-se que a negativa em se conhecer do recurso quando a apresentação de suas correspondentes custas recursais se mostrar extemporânea (desde que tal adimplemento tenha sido realizado dentro do prazo recursal) é afrontosa aos Princípios Constitucionais do Contraditório, da Ampla Defesa e do Duplo Grau de Jurisdição, além de

atentar contra as normas advindas do Princípio do Pas de Nullité Sans Grief e da Instrumentalidade das Formas.

5.1.5 DO NÃO CONHECIMENTO DO RECURSO ACOMPANHADO DA GUIA DE CUSTAS PREENCHIDA DE FORMA INCORRETA

Em que pese o Tribunal Superior do Trabalho107 – talvez a Corte Superior mais rígida quando se trata de requisitos de admissibilidade recursal – já ter sedimentado o entendimento acerca da inocorrência de deserção quando do preenchimento incorreto da guia de custas ou da própria GFIP, o Superior Tribunal de Justiça parece ainda não ter revisto o seu posicionamento.

A Corte Cidadã se mantém firme na posição de que a indicação incorreta do número do processo na guia de custas ou na guia de porte de remessa e de retorno dos autos configura a deserção, haja vista restar impossibilitada a aferição do pagamento dos valores necessários ao conhecimento do recurso.

Assim, por mais que essas espécies de documentos sejam quase que inteiramente preenchidos da maneira correta, a exemplo do indicativo da unidade gestora, do código de recolhimento, do nome das partes e do valor a ser recolhido. Contudo, basta a incorreção quanto ao número do processo para se entender pela deserção recursal.

Ao que parece, essa Corte Superior não consegue identificar a irregularidade do pagamento quando a correspondente guia não se apresenta com o número correto do processo. Ouso não acreditar nesta pretensa explicação.

Vários são os dados insertos nas guias recursais (GRU, porte de remessa e de retorno, GFIP entre outras), não sendo crível que a mera indicação errônea do número do processo possa macular a identificação do pagamento das quantias suficientes ao conhecimento do recurso – afastando-se, pois, a penalidade da deserção.

Causa perplexidade este comportamento da mencionada Corte, isto porque a Lei de Ritos é taxativa ao permitir a complementação do pagamento quando realizado a menor do valor devido, dilatando-se, assim, o prazo para regularização do adimplemento das custas recursais – rectius, para comprovação do recolhimento das verbas inerentes à interposição recursal.

107 Vide RR n.º 0000454-30.2012.5.515.0094, Rel. Min. Lélio Bentes Corrêa, Julgamento em

É o que estabelece o art. 511, § 2º, que disciplina a prerrogativa de a parte recorrente complementar o pagamento das custas recursais no prazo de 05 (cinco) dias – o que, por óbvio, indica haver uma dilação legal do prazo instituído no caput deste mesmo dispositivo legal para a comprovação do preparo recursal.

Fixados tais imperiosas considerações, há de se ponderar os motivos pelos quais o Superior Tribunal de Justiça simplesmente não concede prazo suplementar (analogamente ao disposto no retro citado artigo processual) para a regularização da indicação do número do processo (por exemplo), optando por sumariamente aplicar a deserção.

Nada obstante, fartos e relativamente recentes são os precedentes que declaram a deserção recursal em hipóteses desta natureza. Tenha-se, ex vi, o Agravo Regimental no Agravo em Recurso Especial n.º 314.611/MS108, cujo relatório coube ao Min. Paulo de Tarso Sanseverino.

No caso em questão, o recorrente indicou, na guia recursal, o número referente aos autos da fase de cumprimento de sentença, e não aquele alusivo aos autos recursais, nos quais se discutia matéria diversa, ainda que inerentes à mesma causa.

Todavia, firmou-se a posição no sentido de que a indicação errada do número de processo de origem significa o seu não pagamento, afastando-se a tese de pagamento parcial, ventilada no art. 511, § 2º, do Código de Processo Civil.

O Agravo Regimental no Agravo em Recurso Especial n.º 134.340/SC109, relatado pelo Ministro Castro Meira, seguiu a mesma linha de pensamento firmada no julgado antes

108 AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. RECURSO ESPECIAL.

GUIA DE RECOLHIMENTO ESTADUAL. INDICAÇÃO DE NÚMERO DE PROCESSO DIVERSO DO RECURSO E DO PROCESSO ORIGINAL. PREENCHIMENTO INCORRETO. DESERÇÃO CONFIGURADA. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. "Se não houve o preenchimento correto da guia, máxime sobre o número que identifica o processo na origem, não há falar em pagamento parcial do preparo, mas em ausência deste, afastando de vez a incidência do art. 511, § 2º, do CPC" (AgRg nos EREsp 1129680/RJ, Rel. Ministro CASTRO MEIRA, CORTE ESPECIAL, DJe 10/10/2012) 2. Agravo regimental desprovido.

(STJ – AgRg no AREsp: 314611 MS 2013/0074330-7, Relator: Ministro PAULO DE TARSO SANSEVERINO, Data de Julgamento: 10/06/2014, T3 - TERCEIRA TURMA, Data de Publicação: DJe 24/06/2014)

109

PROCESSUAL CIVIL. DECISÃO MONOCRÁTICA EM RECURSO

ESPECIAL.POSSIBILIDADE. ARTIGO 557 DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. DESERÇÃO. PREENCHIMENTO INCORRETO DA GUIA DE RECOLHIMENTO DO AGRAVO DEINSTRUMENTO. PROCESSO DISTINTO. ERRO INSANÁVEL. 1. É possível o relator decidir monocraticamente o mérito do recurso especial, desde que amparado em súmula ou jurisprudência dominante desta Corte Superior ou do Supremo Tribunal Federal, a teor do disposto no art. 557, caput, do CPC. 2. O preenchimento incorreto da guia de recolhimento do agravo de instrumento interposto na instância ordinária – vinculação das despesas a processo distinto – caracteriza a deserção, sendo considerado tal vício erro insanável. Precedentes. 3. Agravo regimental não provido.

relacionado. Entendeu-se que a indicação do número de outro recurso desvirtua o pagamento, porquanto se vincula a despesa a demanda distinta daquela que se pretende levar a julgamento.

Não se importa, pois, com o efetivo pagamento dos valores, os quais, aliás, são direcionados para a mesma conta da União Federal. Não fosse isto suficiente, é de se ver que o outro processo – erroneamente indicado em tal documento – pode jamais ter chegado à instância recursal semelhante, o que apenas confirmaria que o pagamento se referiu, de fato, ao caso em julgamento, sendo o indicativo do número de outro processo mero erro material.

Mais uma vez, tem-se manifestação da Jurisprudência Defensiva que poderia ser afastada com a simples concessão de prazo para a parte faltosa, in casu, a fim de corrigir a informação erroneamente prestada por meio da guia de custas, muito embora outros dados constantes no mesmo documento possam indicar o escorreito recolhimento do preparo recursal.

5.1.6 DO NÃO CONHECIMENTO DO RECURSO SUPOSTAMENTE DESERTO. PAGAMENTO A MENOR DO VALOR DAS CUSTAS PROCESSUAIS E/OU DO PREPARO RECURSAL

Pode acontecer de as custas processuais serem recolhidas em valor menor do que aquele determinado em sede decisória, seja porque a correspondente guia foi preenchida de maneira incorreta, seja porque a instituição bancária procedeu (por erro próprio ou por erro do jurisdicionado) à compensação monetária em valor menor do que aquele constante no documento.

Frente a casos dessa natureza, a jurisprudência pátria firmou o entendimento de que se deve se proceder à declaração da deserção, porquanto a lei apregoar a necessidade de recolhimento integral das custas processuais com o escopo de se viabilizar o conhecimento do respectivo remédio recursal manejado.

A Consolidação das Leis do Trabalho, em seu art. 789, § 1º, sinaliza ser necessária a comprovação do recolhimento das custas processuais no prazo anotado para a interposição do correlato recurso. Reconheça-se, a interpretação mais lógica acerca da redação de tal dispositivo legal é no sentido de que tais quantias não só devem ser recolhidas em tal interregno temporal, mas, também, devem sê-lo no valor arbitrado judicialmente.

(STJ – AgRg no AREsp: 134340 SC 2012/0041178-4, Relator: Ministro CASTRO MEIRA, Data de Julgamento: 03/05/2012, T2 - SEGUNDA TURMA, Data de Publicação: DJe 10/05/2012)

Ilustrando tal hipótese, analise-se o Agravo de Instrumento em Recurso de Revista n.º 0000371-46.2012.5.20.0006110. O Ministro Relator, Hugo Carlos Scheuermann, assentou a motivação no sentido de que, uma vez não realizado o recolhimento das custas processuais no valor indicado pela decisão vergastada, não haveria possibilidade para o conhecimento do recurso manejado.

Tal decisum, ademais, não ventilou qualquer possibilidade de abertura de prazo para o saneamento de tal vício. Quanto a tal opção jurisdicional para a correção de vícios processuais, interessante mencionar a Lei n.º 13.015/14, que inseriu, ao art. 896 da CLT, o § 11º.

Com nova redação, tal dispositivo processual, que cuida do Recurso de Revista, permitiu, de forma expressa ao Poder Judiciário, a desconsideração de vício que não se repute grave ou, quando necessária, a concessão de prazo para a sua correção. Vê-se, assim, que, em sede extrema, já há nova disposição legal flexibilizando a forma como a qual o Juízo deve encarar os meros vícios sanáveis que exsurjam no processo.

Muito por isso e em respeito ao discurso honesto, colha-se interessante precedente regional que, ao invés de não conhecer de recurso desacompanhado das custas processuais integralmente acolhidas, optou por dele conhecê-lo, já com arrimo legal no dispositivo trabalhista acima anotado.

Trata-se do Recurso Ordinário n.º 0071000-69.2014.5.13.0006, relatado pelo Desembargador Leonardo José Videres Trajano, que, em suas razões, trouxe as seguintes e precisas ponderações:

(...) Pontua-se, ainda, que o C. TST possui entendimento firme (OJ-SDI1- 140) no sentido de que há deserção do recurso pelo recolhimento insuficiente das custas, mesmo que a diferença em relação ao “quantum” devido seja ínfima, referente a centavos. Todavia, recentemente, foi publicada no D.O.U do dia 22.07.2014, a Lei nº 13.015/2014, que entrou em vigor após decorridos 60 (sessenta) dias de sua publicação oficial, inserindo o § 11º, no artigo 896 da CLT, com a seguinte redação: (...) Não se pode olvidar que o novo dispositivo legal confere especial relevo ao Princípio da

110

AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECURSO DE REVISTA. DESERÇÃO. RECOLHIMENTO A MENOR DO VALOR DAS CUSTAS PROCESSUAIS. 1. Na hipótese, a r. sentença (fl. 131) arbitrou o valor da condenação em R$ 30.375,28 (trinta mil, trezentos e setenta e cinco reais e vinte e oito centavos) e custas no importe de R$ 607,51 (seiscentos e sete reais e cinquenta e um centavos). Entretanto, ao interpor o recurso ordinário, a reclamada recolheu custas (fl. 149) no valor de R$ 539,18 (quinhentos e trinta e nove reais e dezoito centavos). 2. Nesse contexto, inviável é o conhecimento do recurso de revista quando não se deposita o valor total das custas processuais, nos termos do artigo 789, § 1º, da CLT. Agravo de Instrumento não conhecido.

(TST – AIRR: 0000371-46.2012.5.20.0006, Relator: Hugo Carlos Scheuermann, Data de Julgamento: