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Princípio da publicidade dos atos processuais

O princípio da publicidade ganhou contornos constitucionais com o advento da Constituição Federal de 1988, haja vista sua expressa disposição no art. 5º, LX, no qual se vê que “a lei só poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da intimidade ou o interesse social o exigirem, sem prejuízo de semelhante previsão no art. 9374, IX e X.

Seguramente, o legislador constitucional ordinário se preocupou com o perigo de os julgamentos acontecerem a portas fechadas, na medida em que a aposição de obstáculos ao acesso ao conteúdo das decisões proferidas pelo Estado (e aqui não se restringe ao Poder Judiciário, haja vista a tomada de decisões pela Administração Pública como um todo) poderia significar a oferta de brechas para a fixação de posicionamentos díspares dos preceitos constitucionais.

Esse resguardo serve não só para as partes, mas, de igual maneira, para a sociedade como um todo, que tem o interesse de observar (ainda que de maneira latente) os julgamentos que são tomados no país. Assim, a publicidade que se confere aos votos, aos pareceres, aos julgamentos e a todos os demais atos que conformam um processo é necessária para se dotar os cidadãos da segurança jurídica que, fatalmente, acaba por auxiliar na condução das decisões rotineiras de cada qual.

Ademais disso, não se deve esquecer-se da necessária abertura processual que deve existir para que os partícipes processuais possam acompanhar de perto a evolução

74 Art. 93. (...) X – todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e

fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse público à informação; X – as decisões administrativas dos tribunais serão motivadas e em sessão pública, sendo as disciplinares tomadas pelo voto da maioria absoluta de seus membros; (...)

procedimental da causa da qual fazem parte, sob pena de mitigação dos princípios do contraditório e da ampla defesa (aqui, imaginando-se que os atos processuais poderiam ser realizados à revelia da notificação das partes para deles tomarem ciência e, quando for o caso, deles se manifestarem).

Sobre o tema, tratando especialmente destas preocupações, lecionou Cássio Scarpinella Bueno75:

Trata-se, inequivocamente, de uma garantia política do exercício da função jurisdicional, forte na concepção de exercício de controle sobre ela, típica, portanto, dos “direitos de primeira geração”. A publicidade viabiliza publicidade não só por aqueles que atuam, de alguma forma, no próprio processo mas também pela sociedade em geral e ppelo Estado considerado como um todo. É clássica a expressão de célebre pensador da Revolução francesa, Mirabeau – em que os ideais do Estado de Direito foram erigidos, pela primeira vez, na história recente, nas cláusulas constitucionais –, de que “Dêem-me o juiz que desejarem: parcial, corrupto, meu inimigo mesmo, se quiserem; pouco me importa desde que ele nada possa fazer senão em público”.

Tal previsão normativa, assim como a qualquer outra principiológica, tem seu alcance limitado por demais normas igualmente constitucionais, podendo, pois, ser restringida à luz do caso concreto, o que seria aferido pelo Estado-Juiz quando da análise das idiossincrasias que permeiam a contenda.

O Código de Processo Civil não deixou de prever a possibilidade da flexibilização de tal princípio, porquanto ter previsto, em seu art. 15576, que os processos poderão transcorrer sob o “segredo de justiça” caso assim o exija o interesse público ou versem sobre casamento, filiação, separação de cônjuges, conversão de separação em divórcio, alimentos e guarda de menores.

Para o escopo do presente trabalho, no entanto, deve se focar na necessidade de se conferir publicidade de todos os atos processuais às partes, a fim de que estas estejam cientes das movimentações procedimentais e, caso queiram, exerçam seu direito ao contraditório, no sentido de apresentar as manifestações processuais que entenderem pertinentes.

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BUENO, Cássio Scarpinella. Curso sistematizado de direito processual civil: teoria geral do direito processual civil. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 130.

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Art. 155. Os atos processuais são públicos. Correm, todavia, em segredo de justiça os processos: I – em que o exigir o interesse público; Il – que dizem respeito a casamento, filiação, separação dos cônjuges, conversão desta em divórcio, alimentos e guarda de menores. Parágrafo único. O direito de consultar os autos e de pedir certidões de seus atos é restrito às partes e a seus procuradores. O terceiro, que demonstrar interesse jurídico, pode requerer ao juiz certidão do dispositivo da sentença,

A preocupação, neste particular, para o Poder Judiciário, portanto, é garantir que as partes processuais tenham inteira e clara ciência dos atos que são praticados na demanda da qual participam, sob pena de ofensa aos primados do contraditório e da ampla defesa, conforme já dissertados neste trabalho.

Assim, a processualística deve se dotar das mais variadas ferramentas hábeis a assegurar a ciência dos partícipes processuais acerca dos atos praticados no âmago do processo, sendo de somenos importância o meio pelo qual houve o inequívoco conhecimento daqueles atos.

Mais do que isso, deve se dizer que, enquanto finalidade última do princípio da publicidade, a manifestação processual das partes poderá ser realizada a qualquer tempo, desde que o ato processual já tenha sido praticado pelo Juízo ou pela parte adversa. Assim, tendo a parte acesso ao conteúdo decisório ou à íntegra da provocação do outro participante processual, desnecessário se aguardar pela efetiva publicação daqueles, sob pena de se atentar contra a lógica da celeridade processual e da máxima efetividade.

Assim, o princípio da publicidade não deve ser levado ao extremo, sendo frágil a tese encampada pelos Tribunais Superiores no sentido de ser exigível a prévia publicação em Diário Oficial do conteúdo da decisão para se conhecer da manifestação apresentada pela parte, mormente quando se trata de recursos dirigidos ao Juízo.

Em outras palavras, se a finalidade almejada pelo princípio da publicidade foi atingida através de outros meios (consulta do conteúdo da decisão por meio da internet, por exemplo), descabe a exigência de se aguardar a concretização procedimental de tal norma principiológica (ex vi, mediante a publicação do decisum no Diário Oficial), a não ser que se queira dar especial relevo formalista a tal princípio, prejudicando a conveniente aplicação de princípios outros, como o da duração razoável do processo e da instrumentalidade das formas.