1 ENTRADAS E BANDEIRAS
2.8 Do outro lado do rio: Oswald
Já muito se falou da morte de Mário e de sua presença como uma espécie de totem em
Anhembi, como um pai morto porém sempre presente, reivindicado e obedecido. A inscrição
tumular de Oswald de Andrade é feita em Anhembi por duas vias, mas na mesma edição. Estranhamente, é justamente quando se trata de sua morte que aparece não só um texto de caráter biográfico mas o único texto de autoria sua na revista de Paulo Duarte. É como se essa tradição que tenta se conformar na crítica de um Milliet, passando por Mário da Silva Brito e pelo endosso universitário de José Aderaldo Castello334 e Massaud Moisés, que se congrega nas páginas de crítica de Anhembi, precisasse, de alguma forma, incorporar esses espectros, mas o fizesse no mínimo possível. Na cerimônia de morte que possibilita a criação do fóssil, da máscara mortuária, da imago. Processo análogo se dá com Jorge de Lima, no número 38: notícia de morte e leitura por J. Fernando Carneiro. No caso de Oswald, tombeau por Castello e um texto de sua autoria, fazendo revisão de sua atividade como modernista.
O texto de Castello (cuja autoria só se sabe dele por uma mirada à contracapa da
334 Na ausência de Candido, fica o seu juízo. Vale lembrar que ambos se apresentam com bem menos reservas
em relação a Oswald do que o próprio Mário ou a saída que encontra Milliet para poder incluí-lo no Panorama. Para Célia Pedrosa, leitora de Antonio Candido, a abordagem de Oswald por Candido faz com que transpareça no crítico uma corporalidade. “No caso de Oswald, a condição vital da produção literária é desde logo focalizada, na medida em que o crítico estabelece enfaticamente a integração entre a obra e a vida do escritor, entre sua personalidade e seu estilo. Essa integração, além disso, se torna a base do próprio discurso de Candido que, desse modo, encena e nos faz vivenciar junto com ele a experiência oswaldiana.” (PEDROSA, Célia. Antonio Candido: A palavra empenhada. São Paulo; Niterói: Edusp; Eduff, 1994, p. 203.) O próprio Oswald dava conta, segundo José Aderaldo Castello, do fato de que Candido incluíra Memórias sentimentais de João Miramar em sua lista de dez melhores livros da literatura brasileira. (CASTELLO, José Aderaldo. Oswald de Andrade. Anhembi. v. XVII, n. 49. São Paulo: Anhembi, dez. 1954, p. 116.) Oswald, entretanto, não teria poupado o comentário de que o grupo de Candido voava “pesado como Santa Rita Durão, normativo como se descendesse de Bulhão Pato.” (id.)
revista: a assinatura não aparece no corpo do texto) é uma apreciação das memórias de Oswald, reunidas em Um homem sem profissão e publicadas pela José Olympio em 1954. Destaca o resenhista que Oswald teria sido “um homem de luta”, polemista e que se deixava atingir profundamente pelas críticas que lhe eram feitas, mas, curiosamente, é descrito como alguém que “Opondo-se a uma realidade que lhe parecia ultrapassada, foi contudo fiel à tradição que o envolveu no início de sua formação”335, ou seja, como alguém que, por mais que denegasse o passado, dele não conseguia se divorciar. A inscrição de Oswald aí é feita não pelo lado anárquico ou humorístico, mas pelo que pode guardar elo com o passado e com a escritura do nacional, ainda que não seja possível suprimir seu lado polemista e o gosto pela piada e pela mordacidade – lidos como manifestação de melancolia. Castello esforça-se por biografar Oswald, perseguindo não só seus vínculos familiares – o lado católico, mineiro e ligado à terra paulista do pai, o lado “desbravador” da ascendência da mãe no Norte do país, o parentesco com Inglês de Souza – como suas leituras e sua vida intelectual, em que traz à tona a importância de O Pirralho e do contato com o Futurismo e a Europa para a realização da Semana. Depois de rever as realizações de Oswald como romancista, poeta e dramaturgo, em um sentido cronológico-historiográfico, ao passar pelas duas teses apresentadas por Oswald à Universidade de São Paulo, encontra um filão bífido para pensar dois Oswalds:
No primeiro trabalho [A Arcádia e a Inconfidência], manteve-se coerente com o seu sentimento, ou melhor, com o seu ideal nacionalista; no segundo, com o seu pensamento filosófico, ligado ao que sempre defendeu sob a denominação de Antropofagia. Ambos os trabalhos apresentam-se, assim, com significação relevante na carreira do escritor, coroando, em fase avançada, a cristalização de seu ideal nacionalista e de seu pensamento, numa continuidade ininterrupta e equilibrada, fiel como sempre a si mesmo [...] E consegue firmar uma posição de grande importância em nossa história literária da primeira metade deste século, ao lado de outras figuras centrais do modernismo, como Mário de Andrade, Menotti del Picchia.336
A domesticação operada pelo leitor é clara. A crise da filosofia messiânica, texto de matriz francamente absurda e paródia do modelo da tese acadêmica, apresentada justamente para um confronto com Antonio Candido, muito dificilmente pode representar a cristalização de um ideal nacionalista. O primado pela idéia de escritor nacional e pela coerência é típico da necessidade de transformação do cadáver, onde ainda há vida pulsante para que haja eterno retorno, em fóssil, em pedra fundamental da construção do ideário da nação; assim sendo, o postulado filosófico da Antropofagia, menos do que possibilidade de lidar com a diferença da repetição, à moda do que seria a leitura de Silviano Santiago para o problema, através de Derrida, do que como possibilidade de alegoria representativa da nacionalidade, com o que
335 CASTELLO, José Aderaldo. Oswald de Andrade, op. cit., p. 111. 336 Ibid., p. 118.
poderia ser alinhada à leitura hegemônica do Macunaíma.
Por sua vez, no mesmo número em que Castello escreve sua lápide, em que Mário da Silva Brito ainda estava publicando suas Notas sobre o Modernismo, ou em que Lúcia Miguel Pereira falaria sobre as mulheres na literatura brasileira, publica-se O modernismo, dois meses apenas após a morte de Oswald de Andrade; o texto seria parte do ainda inédito segundo volume de Um homem sem profissão. Oswald destaca justamente que o início do Modernismo fora “sem esquema, sem passaporte e sem justa definição”, ainda que reconheça que os “sinais de inquietação” em relação à cena cultural dita estagnada no Brasil já haviam sido dados, no que cita Mário da Silva Brito e seu levantamento de antecedentes. A genealogia oswaldiana sobre os “novos” remonta a Gustavo Barroso (que se tornaria franco adversário do grupo quando passou a estar à frente do Museu Nacional, nos anos 30) e João do Rio, mas julga fundamental a figura de Monteiro Lobato, de visibilidade garantida pelo fato de ter ao seu lado Rui Barbosa e O Estado de S. Paulo, ainda que tímido ou comprometido demais para fazer fila com “gente desconhecida que se aventurava numa empresa temerária e incerta”. Lobato, para Oswald, era uma espécie de grande empresário que gostava de literatura (fadado por isso à falência); um “homem de Taubaté”. E é então que Oswald rende grande tributo a Mário de Andrade, descrevendo-lhe longamente a figura e a presença catalítica, sem a qual o modernismo “teria sido, pelo menos, retardado”, pois ele era “um show”.
Segue Oswald tratando de como lançara o escândalo nas páginas do Jornal do
Comércio sobre ser Mário o poeta futurista, e se diz com isso em consonância com o que
estaria fazendo Fernando Pessoa em Portugal. O elogio recai também sobre Paulo Prado, cuja casa em Higienópolis abrigara o grupo, e menciona o papel de Graça Aranha sem no entanto fazer-lhe elogios: “geralmente confuso e parlapatão, filho duma abominável formação filosofante do século XIX, mas grande homem nacional, pertencente à nossa Academia de Letras, e autor dum livro tabu ‘Canaan’ que ninguém havia lido e todos admiravam.”337 Ou seja, a importância de Graça Aranha teria sido a de um endosso figurativo; um grupo conservador é que teria ensejado a idéia de Portinari de se fazer uma Semana de Arte Moderna; a René Thiollier338 e Samuel Ribeiro devia-se o Teatro Municipal como ambientação. Oswald ainda fala do encontro com Brecheret, que à época da Semana pensava em mudar-se para a Argentina por não ter mercado ou repercussão para suas obras, e faz uma
337 ANDRADE, Oswald de. O modernismo. Anhembi. v. XVI, n. 49. São Paulo: Anhembi, dez. 1954, p. 28. 338 José Aderaldo Castello, assinando apenas as iniciais, assina a apreciação do depoimento de René Thiollier
sobre a Semana de Arte Moderna intitulada Um depoimento sobre a Semana de Arte Moderna no número 52 de Anhembi, datado de março de 1955. O próprio Thiollier ainda publica na revista de Duarte uma peça teatral, O marajá (n. 89) e um conto intitulado A lua em Copacabana (n. 132).
espécie de cobrança ao escultor que, depois de rico, tornara-se “o mais sórdido avarento da História do Brasil”. Nesse “acerto de contas”, ainda contrapõe-se às novidades do escultor: não passariam de “arrojos copiados do balcânico Mastrovia”.
A ira ainda se volta mais uma vez contra Monteiro Lobato e a conhecida polêmica em torno das pinturas de Anita Malfatti: ao fim da vida, Oswald ainda considerava o contendor um “inculto rebelde” que teria sido “pintor fracassado”, que “confundia óleo com aquarela”. Entretanto, reconhece a autoridade que Lobato detinha e a impotência própria para defender a “menina” Anita, submetida a “grande choque”. Por fim, fala da performance de palco que se dera abaixo de “grande alarido”, buscando ressaltar o tanto de polêmica que em torno do evento se dera. Entretanto, sua busca na memória não é por um sistema: é por uma apresentação dos fatos “confusos, heteróclitos, desiguais. O que importa é o impulso e a meta. Essas foram atingidas pelo movimento de 22.”339 Diferentemente da busca de um sistema ou de uma consolidação, como se dá nas fartas memórias de Milliet, o breve relato de Oswald em
Anhembi parece buscar o resgate justamente do disperso e do caótico, de um instantâneo do
momento em sua força como acontecimento, e não em um sentido único e revelador. Dessa forma, ainda que tenha perfeito o caminho entre o insurreto contra o passado e o memorialista do leito de morte, seu testamento (ainda que o seja, e que esteja no baile de máscaras que é cortejo fúnebre do Modernismo) é menos o da fé de uma linha de futuro do que o da continuidade das forças em choque, das vontades de potência que, em vocabulário caro a Nietzsche, caracterizam a própria vida.
3 O QUE RESTA
É certo que a iniciativa de escrever sobre um objeto vasto como uma biblioteca, uma enciclopédia ou uma coleção de 144 revistas com 200 páginas cada pode derivar sempre inglória. Se a exegese é impossível para qualquer que seja a obra, já que de onde falamos não há mais obra, apenas texto; se não é possível dizer o que quer que seja sem margem de erro para o mais curto dos poemas, o que se passou ao longo dessa travessia foi a abordagem de um entre tantos problemas que uma revista multifacetada e estendida por sobre mais de uma década, imbricada à vida de um homem que se confunde com mais de um pólo da cultura de um século, e certamente pequei antes por falta do que por excesso. A premência da deliberação também não me poupou. O passeio pelo museu moderno demandou, ainda, a evocação de outras tantas ruínas, e, se acumulei, também simulei, no sentido de que criei uma ficção possível com rastros dos percursos empreendidos no sonho da institucionalização modernista e procurei averiguar como repercutem no monumento de Paulo Duarte, em seu império cindido da letra, a revista Anhembi.
Se é o momento de analisar o que resta, cabe fazer apontamentos para outros percursos possíveis. Um exame mais detalhado da colaboração de Drummond seria uma das possibilidades, dada a monta da presença do poeta. Minha opção, todavia, nem sempre foi pela vertente majoritária, mas antes pelo enigma: basta lembrar que boa parte do trabalho se deteve sobre um poema de Murilo Mendes que consistia em caso único na revista. Além disso, alguns comentários marginais se lançaram sobre a presença da ficção regionalista em
Anhembi, mas textos como O romance brasileiro de província, de Temístocles Linhares (n. 7)
ou Os devaneios do general (n. 1), conto de Érico Veríssimo, o qual trata da caducidade da velha ordem das comunidades gaúchas, mereceriam melhor exame. Na contraface, em termos de ficção de temática urbana, notório é o lugar ocupado por Sérgio Milliet, Rui Ribeiro Couto e René Thiollier (ligados ao Modernismo de 22), Lygia Fagundes Telles, Antonio Callado e Alfredo Mesquita (homem de teatro e padrinho da revista Clima). Note-se, entretanto, que várias mulheres passam pelas páginas do conto sem fazer fortuna crítica na literatura brasileira, como Gilda Cesário Alvim, a Sra. Leandro Dupré, Hilda Figueiredo ou Alba de Céspedes, outra potencial figuração de Paulo Duarte e seus pseudônimos. E não se pense aqui apenas o critério de gênero: há homens também de pouca ou nenhuma fortuna crítica contemporânea ou posterior nas páginas da revista, à moda de Reynaldo Bairão ou José Cesário Alvim.
justamente nos anos 50 e se estende pelos anos 60, não faz ecos na revista a não ser nas condenações ao “cerebralismo” das artes plásticas (e veja-se bem: artes plásticas, e não poesia, por mais que os campos se toquem no trabalho de um crítico como Milliet). Curioso é que haja uma aparição de Mário Chamie, o mentor da poesia práxis e desafeto dos irmãos Campos: trata-se do texto Ficção portuguesa e poesia brasileira de vanguarda, de Antônio d’Elia, no número 95. Entretanto, tanto Chamie quando as defesas do concretismo figuravam, ao mesmo tempo, em outro veículo de imprensa bastante próximo a Anhembi: o Suplemento
literário d’O Estado de S. Paulo. Luís Martins, crítico da geração anterior, já em 4 de janeiro
de 1957, ali se pronunciava sobre o Concretismo, em A poesia concretista, texto em que, segundo Marilene Weinhardt, analisa as soluções presentes na exposição no Museu de Arte Moderna e classifica o artista concreto como “introvertido”, com base em Jung. Um ano depois, em 15 de março de 1958, em Palavras, palavras..., dirá que a “valorização total” da palavra pregada pelos concretos só faz empobrecê-la. Se Haroldo de Campos aparece justamente fazendo o exame de Drummond em 27 de outubro de 1962 (ano da morte de
Anhembi) com Drummond, mestre de coisas, Chamie lança, nas mesmas páginas, não só seu
próprio exame do poeta mineiro (Ptyx, o poeta e o mundo, no mesmo número), mas também
Manifesto, práxis e ideologia (16 de junho do mesmo ano), explicando os pressupostos do
movimento que comandava. Temístocles Linhares apontaria, ali, um indício da “fase difícil da poesia brasileira” (13 de outubro de 1962, Poesia nova). Dois anos depois (2 de julho de 1966), Sebastião Uchoa Leite estaria reclamando do silêncio da crítica em torno da Teoria da
poesia concreta. Por outro lado, em termos das revistas concretistas, Noigandres é apreciada
por Lívio Xavier em 16 de fevereiro de 1957, assim como a aparição dessa vertente na Revista
do Livro, noticiada pelo mesmo crítico em 5 de julho de 1958.340
É mister notar o lugar de Guimarães Rosa dentro do cânone coletivo construído pelas figuras preponderantes na escrita sobre literatura na revista: Antônio d’Elia, Eunice Breves Duarte, José Aderaldo Castello, Massaud Moisés. Apenas Eunice, cunhada de Paulo Duarte, escreve sobre o romance, no número 75 de Anhembi, quando de seu lançamento; também é ela quem assina a resenha de Corpo de baile, no número 67; por sua vez, o irmão de Paulo, Benedito, ocupa-se do problema da adaptação de Guimarães Rosa ao cinema no número 105; a resenha de Sagarana, no número 15, não contém assinatura. Eunice destaca o papel inovador do escritor em “uma cena sem perspectivas” (mas na qual assomam mais fortemente nomes como os de Osman Lins e Gilberto Amado, que figuram em várias resenhas, ou ainda,
340 WEINHARDT, Marilene. O Suplemento Literário d’O Estado de S. Paulo – 1956-67: Subsídios para a
os poetas herdeiros do Modernismo) e considera o processo narrativo do romance como “perigoso” (ainda que uma “evolução” quando posta em linha com as outras duas obras de Guimarães). Todavia, pondera que “o autor, senhor que é de um conhecimento profundo dessa arte, não permite, com a vivacidade de sua prosa, rica de conceitos e de imagens, de uma força de expressão impressionante – afigura-se-nos, às vezes, ‘ver’ as suas palavras, que assumem, assim, um ‘estado físico’ de transmissão veemente – não permite, dizíamos, a menor oscilação no interesse pela leitura”341. O elogio se volta, primeiramente, à dimensão estilística do romance, bem como aos limites entre regional e universal, retomando a tópica de que se faz o “universal” servindo-se do regional. Um segundo movimento, entretanto, volta para a Sociologia, dimensão que daria a sustentação maior ao romance: “a verdade sociológica, o espírito de uma comunidade, os incentivos de um viver, cheio de fruições íntimas, tão próximas de todos são os seus verdadeiros suportes”342. É curioso, entretanto, que nessa pendulação possamos ler que o que se dá em Grande sertão é uma espécie de estetização do caudilhismo, contra o qual Paulo Duarte tantas vezes voltou suas imprecações. Sob o Bildungsroman de Riobaldo, sob a inventividade lingüística de Guimarães Rosa, podemos nos defrontar justamente com a arcaica ordem patriarcal e coronelista dos sertões brasileiras, lida sob uma clave que comove. A clave da leitura que o inscreve, entretanto, se preza por esses caracteres, prima justamente pelo que se pode encontrar de documento, à moda do que falou Gilberto Freyre, em Lanterna verde, sobre o ciclo do romance de 1930.
Ao mesmo tempo que Guimarães recebe algum lugar como “autor novo” dentro da antologia, ou que João Cabral de Melo Neto seria o “poeta da crise” para Sérgio Milliet, uma terceira personagem preclara da cena literária dos anos 40 assoma em apenas uma frase. “A Virgínia Uf! do romance brasileiro” (e certamente o “uf!” aponta muito mais para sufoco do que para respiro), na visão de Gracián Júnior, autor (pseudônimo potencialmente montado a partir da figura do retórico barroco Baltasar Gracián) de uma seção de Desaforismos, Clarice Lispector é um silêncio significativo. Ainda que a escritora estivesse ausente do Brasil durante a maior parte do tempo em que a revista circulou343, isso não a impediria de colaborar
341 DUARTE, Eunice Breves. Grande Sertão: Veredas. Anhembi. v. XXV, n. 75. São Paulo: Anhembi, fev. 1957,
p. 566.
342 Ibid., p. 566-567.
343 E também permaneceu sem publicar em livro entre 1952 e 1960, ano de Laços de família. Em 1959, retorna
ao Brasil e começa a reaparecer na imprensa periodística; pensemos não só em Senhor, em cuja primeira edição publica A menor mulher do mundo. Podemos tomar, a propósito, o caso do suplemento literário d’O Estado de S. Paulo, cujos colaboradores acabam repetindo boa parte dos nomes que passam por Anhembi, dada a já reiterada afinidade entre os veículos, fruto de, antes de tudo, Paulo Duarte se considerar um herdeiro espiritual (e não financeiro, para sua infelicidade) de Júlio de Mesquita. Na edição de 19 de setembro de 1959 se dá a aparição do primeiro texto sobre Lispector, de autoria do então jovem Roberto Schwarz: Entre ser e parecer. Em 19 de novembro 1960, Temístocles Linhares falaria de Clarice em Uma Cura de alma. No mesmo ano (26 nov.),
ou ser analisada, haja vista o espectro amplo de colaboradores estrangeiros que teve a revista, ou ainda, o fato de que nem só sobre os lançamentos editoriais se publicava matéria em
Anhembi. É interessante, ainda, notar como a morte da figura biográfica do autor acaba
representando uma recorrência ou fixação ao longo dos anos da revista: evidência de que, muito menos do que criação dos novos, a exemplo dos anos 20, Anhembi é um projeto cultural habitado justamente pelos veteranos. Trata-se, em suma, de um museu de senhores que eventualmente acolhem os “novos”, e que pouco a pouco vai sendo assaltado pela morte. Há muitas “homenagens funerárias” ou “textos-lápide” nas páginas do periódico.
O que se torna nítido é que, ainda que estejamos na contramão de Getúlio, das ditaduras de Hitler ou Stalin ou até mesmo do império americano, a ordem se mantém como