1 ENTRADAS E BANDEIRAS
1.2 O rio, a ave e a cobra
Meu caro Paulo Duarte, boa noite! Êste bilhete é para levar-lhe um abraço. Motivo: o aniversário de ANHEMBI, que vem resistindo, galhardamente, ao processo de burrificação nacional, e, dentro de suas possibilidades, impedindo-lhe o progresso. Andei correndo os olhos pela revista, ontem à noite, festejando-lhe, assim, a data natalícia. Depois de manusear vários números de diversos anos, parando, aqui e ali, para a releitura de trechos de artigos – os de colaboração e os da própria ANHEMBI – cheguei, ao final, com o a impressão de ter tocado o corpo da História do meu país. Acho que o que melhor elogia a sua revista é dizer que ela constitui um impressionante retrato do Brasil. Um álbum de fotografias onde, em pôses ou instantâneos, está todo o Brasil dos últimos tempos: dramático, heróico, grotesco, ridículo, alegre, triste, culto, estúpido, e, sobretudo, sofrido. ANHEMBI é documento. É indispensável ao historiador que, no porvir, queira estudar a nossa época. Nossa época nacional e internacional. Pois toque-a prá frente, Paulo. Que ANHEMBI possa, no futuro, guardar outra imagem do
Brasil – a imagem sem retoques do Brasil feliz. Êsse o desejo de seu amigo e admirador, Mário da Silva Brito. São Paulo, 8-1-1957.69
Duarte posta-se diante do rio. De gravata borboleta, brilhantina nos cabelos, dedo em riste como quem sempre muito enfurecido e convicto discursava, insufla-lhe um ar carbônico que em nada se parece com o cheiro das primeiras árvores de Mata Atlântica que viu o vicentista em priscas eras. O bandeirante Duarte não tem longas barbas nem usa sandália de couro, não caça índios e nem sabe dos tesouros das minas. Talvez acredite em El Dorado. À beira do rio, a ave de chifre era também avião, e o fluxo que um dia levou Heráclito a pensar que tudo flui fez ver que não passa, mas retorna o passado no passado e o passado no presente, por vezes como cristal, por vezes como poeira, por vezes como força. E o rio se fez serpente e mordeu o próprio rabo.
Anota mentalmente, e ao abrir Anhembi, publica:
encontrar matérias específicas nas encadernações. “O livro assim configurado ganha estatus de ‘permanência’, de ‘durabilidade’, certamente com ecos do ideal iluminista de esclarecimento. Representa, finalmente, o endeusamento da OBRA, quando o autor detinha a autoridade, e notoriedade, sobre sua produção, e cuja prática de leitura constituía todo um ritual, consagrando o hábito e seus praticantes.” (ALENCAR, João Nilson Pereira de. Políticas culturais – antologias: A constituição de cânones literários no modernismo tardio. Tese de Doutorado. Florianópolis: UFSC, 2007, p. 223.)
69 BRITO, Mário da Silva, apud ANHEMBI. A imagem de um Brasil feliz. Anhembi. v. XXV, n. 75. São Paulo:
ANHEMBI
Anhembi (‘quiere dezir Rio de unas aves añumas’, explica o mais antigo roteiro de penetração do Brasil) é o nome que os antigos selvagens e as velhas crônicas dão ao Tietê, num tempo em que não havia regionalismos no Brasil.
Muito antes dos portugueses, os índios faziam dele a sua estrada para o interior e numerosas eram as aldeias semeadas em ambas as margens, de Mogi das Cruzes à sua foz, no Paraná.
Esse famoso paulista foi não só a primeira grande estrada bandeirante sinão tambem o primeiro caminho internacional sul-americano. Por ele, D. Luis de Céspedes Xeria, capitão-general do Paraguai, foi de Porto Feliz à ‘ciudad real do Guaira’, em 1618. Viu-o tambem Ulrich Schmidel, no seculo anterior, por ocasião de sua atrevida viagem do Paraguai a S. Vicente. As bandeiras, as monções tiveram nele, apesar dos tropeços das corredeiras e das carneiradas, a mais esplendida estrada que anda, para usar a expressão de Pascal.
Como as aldeias neoliticas das eras precolombianas, erguem-se hoje às suas margens as mais tradicionais cidades paulistas. O velho Anhembi, que nasce perto do mar, onde começa S. Paulo, afasta-se, distancia-se pelo sertão, para morrer muito longe do mar, onde S. Paulo acaba. Rio, sob o ponto de vista geografico, lidimamente provinciano, reveste-se entretanto de um amplo espirito universal, mercê do característico de penetração funda pela selva a dentro, caminho de Cuiabá, caminho do Prata, caminho do Paraguai, caminho para o Potosi e para o Peru, ligando o Atlantico e o Pacifico, na teimosa caminhada de Raposo Tavares. Tornou-se simbolo de dilatação territorial, de penetração geografica já naqueles tempos em que não havia regionalismos no Brasil.
Aqui mesmo, em Piratininga, resurge hoje Anhembi, que quer continuar a ser um simbolo de penetração – penetração cultural – despido tambem, da maneira, a mais absoluta, de quaesquer regionalismos.
Revestida de um inconformismo total com o que aí está, tem a pretensão de vir ao dia para colaborar na obra aparentemente impossível da elevação do nivel da cultura do Brasil, apesar de tudo, a nossa esplendida provincia na Patria terrestre comum, em busca dolorosa de sua unidade.
E nada mais é preciso acrescentar ao destino de ANHEMBI.70
“Rio de unas aves añumas” (também conhecidas como emas-pretas, unicórnios ou itaús), Anhembi é o nome ancestral do Tietê, roteiro de penetração já utilizado pelos indígenas, primeiros habitantes da terra, e importante para o movimento das monções que fizeram o alargamento das fronteiras do que viria a ser entendido como Brasil. O rio associa-se a um imaginário de expansão das fronteiras, se possível, ao tamanho do próprio mundo, tendo, utopicamente, São Paulo como centro irradiador, como centro em busca de afirmação, como busca de ser centro. O que se pode observar é que Duarte reafirma o paradigma bandeirante que, com maiores ou menores nuances, acaba por compor uma imagem de Estado a qual perpassa as tendências já assinaladas aqui. Tanto acadêmicos, quanto afirmadores do orgulho paulista, quanto intérpretes (ou inventores) da idéia de Brasil em tendências mais à direita ou
70 DUARTE, Paulo. Anhembi. Anhembi. v. I, n. 1. São Paulo: Anhembi, dez. 1950, p.1-2. Ninguém assinava os
editoriais das revistas. Duarte dizia que as colaborações de Anhembi eram selecionadas a convite e que cada autor responderia por suas opiniões, ficando as da revista reservadas aos editoriais e às matérias não-assinadas. Notadamente, Afrânio Mendes Catani, cuja tese de doutoramento versou sobre a crítica de cinema de autoria de Benedito J. Duarte, irmão do diretor de Anhembi, na revista, afirma ter ouvido de Paulo Mendonça, que a partir de 1953 assume as funções de redator-chefe desta, que os editoriais sobre assuntos internacionais geralmente eram de autoria não do editor, mas do redator. Duarte teria cuidado mais dos editoriais sobre política nacional e dos efemeridais.
mais à esquerda acabam se aproximando da imagem do bandeirante como uma espécie de ideal guerreiro, expansionista, que não vela (justamente com isso) seu vínculo com o Estado, ou ainda, não questiona a idéia de Estado ou a idéia de poder, ou ainda, a idéia de nação (esse imaginário), mas simplesmente pretende revertê-la ao seu olhar normatizador, idealista. O caminho, o roteiro de penetração que a revista se propõe a ser, se for lido como espelho do rio cujo nome toma para si, é voltado para dentro do país, mas nasce “de fora”, ainda que esse fora, por mais exterior que pareça, ainda pertença ao território para dentro do qual flui. Podemos pensar aqui não só o fato de que a revista, através do crivo de um brasileiro, deu vazão a muita voz estrangeira para circular no Brasil, despindo-se do nacionalismo mais exaltado, como também, se para ela olharmos em suas relações com o Modernismo marioandradino, de conformação institucional, como um caminho ideado por brasileiros com idéias de um nacionalismo universalista71. Há um desejo velado de restauração de uma unidade primeva, que surge como missão, mas que se frustra ao mirar as aldeias pré- colombianas cujo espaço então já fora tomado por centros urbanos ascendentes, delas sucessores, a elas sobrepostos, muito mais do que sucessores, frutos da barbárie da destruição da cultura local72. Se aqueles “regionais” “silvícolas” já haviam sido superados pelos modelos modernizadores europeus, pela “civilização”, a hora agora, nos planos que se delineiam nesse primeiro número, era de superar outras tantas particularidades, na busca da unidade dolorosa de uma grande pátria terrestre comum, muito mais do que puramente brasileira, mas certamente, de aspirações culturais baseadas no modelo de civilização europeu. Mas há uma contraface dessa busca dolorosa, melancólica e saudosa de um tempo utópico, que busca um caminho de superação, por um lado, de aspirações universalistas, mas, por outro, anacrônico, justamente em sua afirmação idealizada do passado. O que se assemelha é que estamos diante de um plano de retorno para um tempo perfeito, sem nações, sem conflitos causados pelas
71 E nesse sentido, o imaginário de nação de Paulo Duarte acaba contradizendo uma das premissas de Benedict
Anderson a respeito do nacionalismo. Para Anderson, a nação é uma comunidade imaginada sempre como limitada e soberana. “Imagina-se a nação como limitada porque mesmo a maior delas, que agregue, digamos, um bilhão de habitantes, possui fronteiras finitas, ainda que elásticas, para além das quais existem outras nações. Nenhuma delas imagina ter a mesma extensão da humanidade. Nem os nacionalistas mais messiânicos sonham com o dia em que todos os membros da espécie humana se unirão à sua nação, como por exemplo na época em que os cristãos podiam sonhar com um planeta totalmente cristão.” (ANDERSON, Benedict, Comunidades imaginadas, op. cit., p. 33-34.) Apesar de falar na elevação do nível da cultura “do Brasil”, Duarte trata da idéia de uma Pátria universal, na qual haveria o quinhão de cada um, o que está mais próximo deste; nisso, se diz concordando com Antonio Sérgio, colaborador da revista. O diretor de Anhembi afirma em diferentes pontos da revista que o mundo caminha para a configuração de uma pátria única, seja sob a tutela americana, seja sob a soviética. A torcida de Duarte direciona-se claramente pelo lado americano, mais especificamente pelo Partido Democrata, ou seja, contra Eisenhower e contra Stalin.
72 E daí a cena nostálgica que ilustra todas as capas da revista, em que se vê o rio (certamente o Tietê) e alguns
poucos desbravadores conduzindo suas canoas para dentro dele, numa unidade natural primeva e idealizada entre homem e mata virgem, como se o homem pudesse se despir da cultura ao entrar em contato com um ambiente imaculado como o Brasil do tempo dos descobrimentos e do início do povoamento.
ficções de nacionalidade e sem a demagogia dos nacionalismos tão detratados pelo periódico, mas que é elaborado pelas vias da cultura européia, pela iluminação de base racional, por uma via pedagógica de instrução que busca implantar o que “de melhor” há “na alta cultura”. É um projeto solar, iluminado, que vem “ao dia”; apolíneo, para usar um termo caro ao Nietzsche de O nascimento da tragédia; mas, ao mesmo tempo, é quixotesco, planeja uma supressão da singularidade que não alça fazer-se efetiva sequer em termos de “província” (demos a ela o nome de São Paulo ou de Brasil); entretanto, não estaríamos diante da criação, ao revés dos planos da revista, de uma outra forma de criação de unidade, muito mais perigosa e sutil do que a dos Estados, justamente por superar sua ação, qual seja, a da massificação?
Cabe ainda notar que, mesmo dizendo que pretende fugir dos regionalismos73, já a partir do nome, Anhembi afirma uma territorialidade clara: São Paulo. O bandeirante precisa, ao ver de Paulo Duarte, recolonizar o Brasil, levar a cultura julgada alta pelo grupo das elites paulistanas a que se vincula o projeto Anhembi (que englobou não só a revista, como a criação de uma editora – cujas publicações foram fartamente anunciadas pelo periódico, assim como as da Melhoramentos, da Saraiva e da José Olympio, essa última denunciando uma polaridade magnética de aproximação e afastamento com autores que estiveram nas graças do Estado Novo74 – e de serões televisivos75) ao restante do Brasil e dar notícia ao restante do mundo, mas sempre tendo como referência central a cidade de São Paulo e um núcleo francês trazido para perto dela pelos contatos de Duarte durante o exílio e pela própria missão francesa que formou as primeiras turmas da Universidade de São Paulo (presentes na revista, Roger
73 Sobre regionalismo, em recente entrevista, Antelo afirma que “o regionalismo é uma política para estipular
fronteiras, que surge, já na cultura medieval européia, para coibir a presença do estrangeiro. O objetivo era regere fines, administrar fronteiras, e eram precisamente os marqueses, os habitantes da marca, os nobres que habitavam a linha demarcatória, os indicados dessa tarefa. Mário de Andrade elaborou uma das respostas mais contundentes ao problema. À época de lançamento de Macunaíma, resenhando a exposição de Tarsila do Amaral, Andrade definia o regionalismo como um valor emergente na cultura brasileira. Dizia que regionalismo ‘em arte como em política, jamais não significou nacionalismo no único conceito moral desta palavra, isto é, realidade nacional. Significa, mas é uma pobreza mais ou menos consciente de expressão, se observando e se organizando numa determinada e mesquinha maneira de agir e criar. Regionalismo é pobreza sem humildade. É a pobreza que vem da escassez de meios expressivos, da curteza das concepções, curteza de visão social, caipirismo e saudosismo. Comadrismo que não sai de beco e, o que é o pior: se contenta com o beco’. Mário, pelo contrário, não hesita em associar regionalismo e inconsciente, porque, para ele, a manifestação mais legítima do nacionalismo artístico se dava, justamente, quando esse nacionalismo é inconsciente de si mesmo. Se assim for, diríamos que o nacionalismo não tem objeto. Que Mário o tenha conseguido materializar, é outra história. Mas Macunaíma nasce desse desejo.” (ANTELO, Raúl; DICK, André; JUNGES, Márcia. A apatia do povo brasileiro como sátira. IHU online: Revista do Instituto Humanitas Unisinos. n. 268. São Leopoldo: Unisinos, 11 ago. 2008, p. 6. Disponível em: < http://www.unisinos.br/ihuonline/uploads/edicoes/1218488533.1 576pdf.pdf>) Talvez nesse sentido se possa dizer que Anhembi não tenha sido regionalista: nunca foi xenofóbica e sempre acolheu colaborações estrangeiras. Entretanto, onde podemos demarcar a fronteira entre o regional e o nacional em um projeto que parece querer conformar uma imagem e uma idéia de nação a partir de um local tão claro quanto a fonte dos bandeirantes, São Paulo?
74 ANTELO, Raúl, Literatura em revista, op. cit.
75 Transmitidos pelo canal 7, às 22h30min, todas as quartas-feiras, iniciados em 1954. Cf. ANHEMBI. Serões
Bastide, Paul Arbousse-Bastide, Herbert Baldus, por exemplo). Além disso, se remetermos a outros pontos já citados da obra de Paulo Duarte, mormente o que trata do “paulistismo” e do “bairrismo tietense”, vemos que a reabilitação da imagem do Tietê não é gratuita nem desterritorializada, para usar um termo caro a Gilles Deleuze.
Os diversos editoriais de aniversário de Anhembi, escritos, segundo Afrânio Catani, por Paulo Duarte, acabam reafirmando a diretriz deste inicial, apenas acrescentando alguns novos dados para a discussão. Na revista de número 13, que comemora o primeiro aniversário da publicação, Duarte afirma que a publicação conseguira, a duras penas, manter seu nível moral e intelectual, num meio que acusava sempre estar se voltando cada vez mais para o sensacionalismo, o futebol, as mulheres seminuas e a vida dos artistas. Disso seria emblema, aos olhos do editor de Anhembi, uma revista como O Cruzeiro76. Por outro lado, Duarte afirma, sobre Anhembi, que pouquíssimas revistas no Brasil conseguiram sustentar o nível que o corpo de sua própria publicação estava sustentando, fazendo a exceção para a Revista do
Brasil77. Depois de protestar contra a crise do papel (que seria, supostamente, a causa da morte da revista, em 1962, quando esta não mais se pôde sustentar no cotejo entre as vendas e os custos – ainda que tivesse passado de uma tiragem inicial de 5 mil exemplares para cerca de 15 mil à época de sua extinção), Paulo Duarte faz o que se tornaria recorrência ao longo dos vários editoriais de aniversário: agradece e exalta seus anunciantes.
A estes principalmente – aos nossos anunciantes – queremos sublinhar o nosso agradecimento especial, pois, num momento em que ANHEMBI era apenas uma
76 O Cruzeiro é considerada por muitos a maior revista ilustrada do Brasil no século XX. Alguns textos e edições
estão disponíveis em <http://www.memoriaviva.com.br/ocruzeiro/>. Percebem-se, nessas edições digitalizadas, justamente as predileções e destaques de assuntos que Duarte tanto detrataria, somados, ainda, a um caloroso destaque, ainda em 1930, à ascensão de Getúlio Vargas ao poder.
77 A Revista do Brasil começa a ser publicada em janeiro de 1916 (na comemoração do aniversário de São
Paulo) como uma empreitada cultural de Júlio de Mesquita, o criador do jornal Estado de São Paulo (o que talvez explique a afinidade de Duarte com a publicação), juntamente com Plínio Barreto e José Pinheiro Machado Júnior; inicialmente, a revista chamar-se-ia Cultura (nome adotado, a posteriori, pelo governo militar para sua revista oficial). Em fins de 1917, cogitava-se que Monteiro Lobato dirigisse a revista no lugar de Plínio Barreto; entretanto, este acaba por comprar o periódico por 10 contos de réis em maio de 1918. O ciclo de Lobato durou até maio de 1925. Os 113 números publicados entre 1916 e 1925 são considerados por Tânia de Luca a primeira “fase” da revista. A segunda fase teria durado apenas nove números em quatro meses, dirigida oficialmente por Plínio Barreto, Afrânio Peixoto, Alfredo Pujol (cujo curso sobre Machado de Assis foi seguido por Mário de Andrade – M. A. x M. A.) e Pandiá Calógera, mas tendo por redatores-chefes (que deram seu tom) Rodrigo de Mello Franco de Andrade e Prudente de Moraes Neto. Durante o Estado Novo, em seu terceiro ciclo, é dirigida por Octavio Tarquinio de Sousa, passando à órbita do império de comunicação de Assis Chateaubriand, que a comprou em 1938. Foram 56 números até 1943. Se no ciclo Mello Franco a revista acabou alinhada a Terra roxa e A revista, Octavio Tarquínio tenta retomar suas características originais, e o ciclo pós- 1944, com Frederico Chateaubriand e Millôr Fernandes, a faz aproximar-se de Seleções, por apenas três números, sem sucesso. Nos anos 80, é reabilitada por Darcy Ribeiro, na época vice-governador do Rio de Janeiro, que conduz a publicação visando à reedição de textos antigos, à exposição da criatividade atual e a um resenhismo mais sério do que o dos jornais, rendendo doze números entre 1984 e 1990, alguns monográficos, sem periodicidade regular. (Ver LUCA, Tânia Regina de. Revista do Brasil: um diagnóstico para a (n)ação. São Paulo: Unesp, 1999, p. 31-32.) Atualmente, o mesmo nome está sendo usado por uma revista mensal ligada à CUT.
promessa, compreenderam o esforço a que nos iamos atirar e ofereceram ajuda, conscientes de que, ao autorizar a propaganda da sua indústria ou do seu comércio em nossas páginas, estavam, de início, dando muito mais proteção a uma iniciativa de alta cultura do que fazendo um negócio de publicidade. Assim mesmo, houve em São Paulo quase quarenta grandes firmas que não hesitaram em vir ao nosso encontro orientadas apenas pelo espírito esportivo de uma aventura espiritual.78
Caberia justamente mostrar quem são esses anunciantes, que subscrevem a iniciativa de Duarte.
O capital proprietário das empresas que anunciavam em Anhembi é, em parte, ligado a descendentes de italianos, instalados na cidade de São Paulo e prosperando em seus negócios. A imigração italiana para o Brasil teve esta característica: diferentemente da fixação à gleba observável entre os alemães, os italianos, que vieram para trabalhar na cafeicultura paulista, tão logo tinham uma oportunidade de sair do campo e ir para a cidade, o faziam. Tomemos como exemplo o anunciante Rodolfo Crespi79, dono de um cotonifício localizado na Mooca, bairro que se desmembrou do Brás e se tornou reduto italiano em São Paulo. Do mesmo bairro, temos, ainda, a Refinadora União, de açúcar, e a Companhia Antarctica Paulista. As publicidades desta última, nas comparações que fazem entre a qualidade dos refrigerantes anunciados e as esculturas de Michelangelo, são um índice claro do tipo de público a que a revista visava. Vale lembrar que a Companhia Antarctica foi também anunciante da revista
Klaxon, a qual se destacou justamente por dar à identidade visual de seus assinantes um
caractere arrojado demais para a época. Entretanto, tanto no caso da revista de vanguarda dos anos 20, quanto no de Anhembi, a presença do anunciante não se deu sem polêmica. No editorial do quinto aniversário da revista, o editor explica o porquê de ter perdido a cota de