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DO PROJETO À TESE FINAL

No documento Pesquisando acervos. (páginas 41-44)

Em 2014 nosso projeto de pesquisa tinha como título “A cultura a serviço do progresso social: Zahar Editores e a Biblioteca de Ciências Sociais (1950-1970)”42, e seu objetivo era a análise da construção

historiográfica da trajetória e da produção da coleção Biblioteca de Ciências Sociais (BCS). Nossas questões seriam: pensar o papel social de Jorge Zahar a partir de sua inserção no cenário político e cultural brasileiro dentro do recorte cronológico proposto; identificar se os autores publicados têm alguma relação ideológica com o momento político pelo qual passava o país; caracterizar a lógica editorial da série Biblioteca de Ciências Sociais; avaliar o panorama das Ciências Sociais no Brasil nos anos atinentes ao recorte da pesquisa e sua relação com o que foi publicado pela Editora; deslindar as possíveis relações entre os intelectuais que trabalharam para Zahar; comparar a relação editores/universidades durante o regime militar com a de outros países, através dos autores e assuntos publicados.

No início das pesquisas constatamos que as fontes no arquivo da editora que julgávamos existir não correspondiam ao período delimitado. Configurava-se então um erro grave de metodologia da pesquisa, ou seja, apesar do acesso concedido, em razão do tempo, não houve nenhuma prospecção prévia na documentação existente.

Ao mudar de objeto no doutorado, sobretudo quando não se tem noção sequer de quais fontes utilizar, a experiência nos mostrou que levar um ano numa investigação preliminar, localizando, identificando, analisando possíveis fontes, não é perder tempo, mas poupar aborrecimentos futuros. Além disto, constrói-se um projeto mais factível.

Essas reflexões foram importantes para repensar o planejamento inicial, da mesma forma que as leituras da bibliografia e das fontes também foram fundamentais. Aos poucos, notamos que a Biblioteca de Ciências Sociais (BCS) era, na verdade, a ponta de um iceberg muito maior, pois percebemos que a Zahar Editores havia publicado mais de vinte coleções com igual e, em alguns casos, com maior impacto que esta. Verificamos ainda que havia títulos lançados fora de coleções que foram até mesmo listados no rol de livros proibidos pelo DOPS – Departamento de Ordem Política e Social – e que tiveram uma recepção digna de nota entre os jovens intelectuais.

A experiência com uso de periódicos como fonte advinha de pesquisas com o século XIX, ou seja, a documentação e seu uso não eram desconhecidos. Por isso, já havíamos sinalizado sua utilização no projeto de pesquisa, mas teriam uma atuação secundária. Na mudança, como será exposto a seguir, assumiriam o protagonismo.

Assim, utilizando-nos da Hemeroteca Digital Brasileira empreendemos a verticalização da pesquisa. Sem dúvida que o nome “Zahar” – pois não é tão comum – facilitou muito nos resultados das buscas feitas no banco de dados. Foram mais de dez mil ocorrências que tivemos que seguir refinando

42 Projeto a ser realizado no âmbito do Programa de Pós-Graduação em História Política da Universidade do Estado do Rio

41 até chegar a informações que seriam fundamentais para uma mudança que definiria o rumo do nosso doutoramento.

Os periódicos desvelaram mais dados sobre facetas desconhecidas, uma delas foi sobre a biografia da Livraria LER (Livrarias Editoras Reunidas), empreendimento da família Zahar que operou entre 1946 e 1973, e fora a mola propulsora para a criação da Editora.

A localização de notícias em jornais – pouco exploradas na imprensa periódica – permitiu a constatação da importância de LER, e levou-nos assim a outra alteração: a inclusão da história da livraria no nossa pesquisa. Por meio desta ação, deslocamos todo o peso da Editora para também analisar seu papel.

Foi necessário um alargamento da temporalidade, recuando de 1950 a 1940, mas mantendo o limite no ano (e não na década) de 1970. A alteração aqui se justifica pela necessidade de compreender a configuração da Livraria LER e o cenário que propiciou seu sucesso, assim como foi preciso entender de que maneira foram construindo sua rede de sociabilidade e se inserindo cada vez mais no universo das “gentes do livro”43.

Por fim, a redação de um artigo, no primeiro semestre de 201644, confirmou que o projeto inicial

não se sustentaria mais e que uma nova abordagem seria necessária. Assim, além de mudar do foco que estava apenas na Editora, passamos também a considerar todas as coleções que a Zahar havia público entre o final da década de 1950 até o ano de 1970, sem, porém, priorizar análise sobre os conteúdos dos livros. Essa mudança aproximou-nos de terrenos em que estamos mais legitimados pra falar: a história do livro e a bibliografia material. No projeto inicial, seria sine qua non uma exegese dos livros e autores publicados em Ciências Sociais, o que constatamos não seria viável naquele momento.

Desse modo, a proposta da tese mudou para compreender os contextos e as trajetórias da Livrarias Editoras Reunidas (LER) e da Zahar Editores, dois negócios no campo do livro para público dos cursos superiores no Brasil. Para tal, o objetivo principal foi entender a composição de um mercado editorial especializado em livros universitários nas áreas de ciências humanas e sociais. A formação desse mercado encontra uma expressão exemplar na trajetória da LER e da Zahar Editores, e essa trajetória, por sua vez, só é compreensível historicamente se colocada em relação com os momentos políticos do País.

O problema central do trabalho se estruturou da seguinte forma: como se construiu a inserção dos Zahar na história do livro no Brasil?

Já existe um público, embora ainda vacilante, para o “livro universitário”, o que cria perspectivas novas para as editoras, para os autores e também para os leitores, que poderão libertar-se, progressivamente, da dependência do livro estrangeiro (FERNANDES, 1962, p. 6).

Essa afirmativa, escrita por Florestan Fernandes em 1962, pode ser vista como chave para compreensão do pressuposto da pesquisa que foi a percepção de que a primeira fase do trabalho dos irmãos Zahar, ou seja, a atividade como livreiros, serviu fundamentalmente para a fase seguinte, com a Editora. Isso aconteceu, sobretudo pelo contato dos Zahar com o mercado, com intelectuais e

43 Uso dentro da perspectiva de que consideram os atores envolvidos na produção do impresso. Cf. CURTO, Diogo Ramada

et alii. As gentes do livro: Lisboa, século XVIII. Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal, 2007.

44 AZEVEDO, Fabiano Cataldo de. A Zahar Editores e seu Projeto Editorial (1957-1970). Livro – Revista do Núcleo de

42 universitários, mas também pelo envolvimento político no campo do livro, pois acompanhavam seus movimentos.

Assim, a partir disto, chegamos à hipótese de que Jorge Zahar se constrói como editor que produziu livros para as universidades a partir da experiência da Livraria LER. Os indícios indicavam que eles acompanharam o movimento cultural e educacional do país e buscaram oferecer livros para um mercado cuja demanda só crescia.

Nesse sentido, a investigação assentou-se sobre três objetivos específicos: analisar a trajetória dos irmãos Zahar dentro do mercado livreiro do Rio de Janeiro; compreender o cenário de circulação de livros para público universitário dentro do contexto da criação da Livraria LER e da Zahar Editores; e problematizar as estruturas e projeto editorial da Zahar ao longo de 1957 a 1970, estabelecendo, assim, sua trajetória como editora.

O recorte temporal eleito foi escolhido em razão das histórias da Livraria Editoras Reunidas e da Zahar Editores. Todavia, cabe dizer que não seguimos uma contextualização linearmente cronológica. Recorremos ao cenário político e social quando necessário para compreender nossos objetos. Para isto, seguimos a metodologia utilizada por Robert Darnton em Censores em ação (2016).

Desse modo, para analisar a Livraria LER elegemos o recorte de 1930 a 1956. Justificamos o período inicial por ser necessário compreender os antecedentes da criação da livraria dos Zahar, desde a fase dos irmãos como distribuidores até a fase em que se tornaram livreiros. O período final, por sua vez, é importante para refletir sobre o contexto de surgimento da Zahar Editores.

Quanto ao segundo pilar da tese, a Zahar Editores, a periodização vai de 1957 a 1970. O primeiro momento corresponde aos anos da primeira publicação e a apresentação da base do seu perfil editorial. Já, o segundo momento abrange o Golpe Militar, em 1964, com suas idiossincrasias associadas à expansão do mercado de produção de livros, mas também sua repressão que veio, sobretudo, a partir do Ato Institucional n. 5, em 1968. Temos igualmente o início das atividades da Comissão do Livro Técnico e do Livro Didático (COLTED), pois acreditamos que essa política do governo pode ter significado maiores tiragens e capitalização das publicações da editora, motivada pelo sistema de compra e distribuição de livros. E, por fim, a Reforma Universitária, em 1967.

Até mesmo o título da tese veio da consulta aos periódicos a partir de uma reportagem publicada no periódico O Semanário, em janeiro de 1959 (Figura 1). O texto é um balanço das atividades da editora até aquele momento e traz um valioso direcionamento do que Jorge Zahar tinha em mente para a editora, além de vincular as capas dos quatro primeiros livros publicados. Jorge informava que pretendia intensificar a produção a partir de 1959, para isso, várias traduções já estavam planejadas ou nas mãos dos tradutores. Sobre este quesito, Jorge contou ao periódico que, a princípio, pensavam em entregar as traduções aos escritores, o que chegaram até a experimentar isso, mas não deu certo em razão da demora. Então, ele explica a metodologia que passariam a usar dali em diante: entregavam os textos a tradutores profissionais, cujo trabalho, em alguns casos era revisto por algum especialista na área.

A seguir discutiremos a metodologia que permitiu a consecução da pesquisa e sobre quais alicerces estive fundamentada.

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Fig. 1- Editar Livros: sonho de livreiro

Fonte: O SEMANÁRIO, Rio de Janeiro, n. 144, 21 a 27 de janeiro de 1959. p. 13.

Acervo: Hemeroteca Digital Brasileira. FBN.

A METODOLOGIA DA PESQUISA: A BASE TEÓRICA PARA A

No documento Pesquisando acervos. (páginas 41-44)