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4. HELENA

4.4 Do PSDB à Marcha Mundial das Mulheres: trajetória de participação

tópicos anteriores, neste último tópico buscaremos abordar mais especificamente sua trajetória de participação política em grupos organizados.

O PSDB: A política como expulsiva

Helena conta que, no início de sua vida em São Paulo, foi em busca de uma participação política. O primeiro espaço que encontrou foi no grupo que originaria o PSDB58 (Partido da Social Democracia Brasileira). Reproduzo abaixo um trecho do depoimento em que ela compartilha integralmente essa primeira experiência de partido político:

Eu era do interior, e interior é muito relaxado em relação à esquerda, isso no interior de São Paulo. Aí eu cheguei em São Paulo e eu tinha tino político e queria militar num partido político. E eu não sabia que… Naquele tempo tinha Arena e MDB, eu acho que era, e depois fundou- se aqui em São Paulo, eu acho que era o PMDB, não sei como que era lá… Aí depois fundou o partido do PSDB. Eu frequentei umas vezes o PSDB. O Mário Covas era vivo… Aí eu enchia a boca do Lula, porque as pessoas falava mal do Lula, era 1979, tava na faculdade em Ribeirão Preto, o Lula era o demônio, então falava muito mal do Lula. Mas eu também falava “Lula e não sei o quê”, eu morava na época em Ribeirão, eu via quando o Lula fazia as movimentações no ABC, eu tinha bronca do Lula também. Cheguei em São Paulo, comecei a observar, aí eu fui pro PSDB, aí comecei a ver meus amigos, o Oswaldo, ele era petista, ele dizia “puxa, o Lula não sei o quê, vamos conhecer”, aí eu comecei a ver… Quem era o Lula, quem era o P… Aí eu pensei “o PSDB não é pra mim”, aí nunca me esqueço um dia, um evento que estava acontecendo... numa sexta, lá, eu estava lá. Nisso eu comecei a observar que tinha um mínimo de negro, eu era uma das únicas negras. Todas aqueles mulheres ricas, chegando, madame e não sei

58 Embora o PSDB, enquanto partido, tenha sido oficialmente fundado em 1988, neste tópico, Helena faz

referência a espaços organizados pelo grupo que originaria o partido. Desde o início da década de 1980 – e mais explicitamente em 1982, em função das divergências sobre a candidatura a vice-governador de São Paulo -, haveria tensões e movimentações deste agrupamento no interior do MDB (ASSUMPÇÃO, 2008; JESUS, 2013).

o quê, tudo na minha cara, não olhava. Eu falei “nunca mais eu venho aqui”, aí eu saí do PSDB e nunca mais… Cara, você não tem noção. Aí eu falei “gente, o PSDB é esse partido de gente rica, por que que eu vim aqui?”, aí eu fui pro PT. Aí eu fui no PT, bem com o pé atrás, eu fui observando e eu já vi que lá era o meu lugar, que o PT era o meu lugar. Aí até hoje eu tô no PT.

Talvez aqui possamos refletir acerca das percepções de Helena sobre o Lula e sobre ela própria. Lula, naquele contexto59, representava mais do que um indivíduo

isoladamente: ele simbolizava os grevistas, os trabalhadores metalúrgicos, os migrantes, os pobres, uma classe e um projeto político. Helena olhava para ele e não se enxergava ali. Ou se enxergava, mas não gostava do que via e então negava. Naquele momento, Helena era a jovem do interior, que ansiava encaixar-se nos parâmetros dos dominantes. Que, em sua primeira eleição, votou na Arena com os patrões – para só mais tarde perceber que havia votado contra ela própria.

Um pouco depois, o acúmulo de experiências vividas permitiu uma abertura a conhecer outras perspectivas sobre o Lula, o PT e tudo mais que ele representava. Acredito que essa abertura só foi possível porque este acúmulo de experiências foi fazendo também com que Helena criasse novas percepções sobre ela própria.

Em São Paulo, o encontro com o grupo que originaria o PSDB aparece como um espaço de transição: por um lado representava a ruptura com a posição anterior de voto sem reflexão na Arena, carregando um primeiro indício de um posicionamento contra hegemônico. Da mesma forma, buscar um partido político representava também um movimento pela busca de uma participação política ativa na realidade em que vivia.

Voltando ao depoimento, em seguida, perguntei a Helena como ela se sentiu naquela ocasião em que “só tinha gente rica e ninguém olhou para ela”. A depoente me respondeu:

Ah, eu fiquei… Eu fiquei… Eu fiquei com vergonha! Com vergonha, uma vergonha de estar ali, naquele lugar, era uma casa chique… Não sei que prédio era aquele. O Mario Covas chegou, quando ele chegou era não sei o quê, aquelas mulheres chegando, aquelas bolsas chique, aquele tempo tinha loucura por uma bolsa, era uma bolsa chamado Victor Hugo, que era uma bolsa chique da época, só o que tinha era aquela bolsa. Elas chegavam com aquela bolsa Victor Hugo, aqueles saltos, e eu me arrumei pra ir também, mas tava abaixo delas, uma bolsa simples, eu falei “gente”, aí eu comecei [a perceber] “ninguém olha na minha cara, eu estou fazendo o que aqui nessa festa?”

59 De luta pelo fim da Ditadura, de emergência e fortalecimento de organizações como a CUT, o PT e o

(...) Eu sentia que eu não tava sendo aceita, ninguém me olhava, eu fiquei em uma cadeira em uma mesa sozinha. Aí eu peguei, eu dei um jeitinho e fui embora. Eu fui embora e falei: “eu nunca mais vou aqui nesse partido”. [grifos meus]

Aí eu percebi (...) Eu tinha vinte e poucos anos, vinte e seis anos. Já era velhinha, também, mas era boba, né? Era boba por que? Porque chegava do interior, eu queria um partido político... aí eu fui ver aquele monte de mulher chegando, e xingando o Lula também, eu fiquei olhando… Na minha cara não olhavam. Até tinha alguns negros lá, alguns deles de terno… Tinha umas mulheres negras também, mas muito metidas… Pensei “Perdão, aqui não é meu lugar”. Aí eu tirei meu time de campo e não fui mais. Aí eu comecei a observar, quem era Mario Covas, quem era Fernando Henrique… Ah, então, o Fernando Henrique, naquela época, ele era candidato… Na faculdade, eu tava… Para não sei o quê, ele era candidato. E um amigo meu, o Geraldo, que também era do PSDB, era muito pobre também, negro, passava uma fome também, era da “turma da fome”. Ele era amigo do Serra e do Fernando Henrique. Fernando Henrique pegava o trem ali no Brás, eu já cheguei a ver Fernando Henrique fazendo campanha, o Serra, aí meu amigo falou “Helena, eu fui no Serra pra falar um negócio com ele, ele me virou a cara” (...) Fernando Henrique era candidato, não sei o quê, deixaram ele pra lá, não queriam falar com ele, mais. Aí ele saiu, aí ele foi pro PCdoB.

Não se trata, aqui, de especular a motivação pela qual um importante dirigente do PSDB em uma determinada situação não teria olhado ou visto um colega de partido negro e pobre. Não há como afirmar se, da parte do dirigente, se tratou de distração ou de desprezo. Acredito que o relevante neste momento é refletir sobre como alguns atos que, isoladamente, poderiam parecer quase insignificantes, reverberam de maneira muito intensa quando simbolizam, em uma dimensão subjetiva, toda uma história pessoal de impedimentos, rebaixamentos e exclusões de classe, raça e gênero.

Para Helena, assim como para seu amigo da “turma da fome”, a experiência no PSDB foi um símbolo de toda uma experiência de vida tentando se adequar ao mundo dos patrões. Helena se preparou, vestiu suas melhores roupas, estava arrumada, mas ainda estava “abaixo”. Mesmo despida do uniforme de babá, a invisibilidade social ainda permanecia. Não era enxergada, ficou isolada em uma mesa sozinha, sentiu profunda vergonha e foi embora assim que pôde.

Ter ido embora – e decidido não voltar mais -, assim como a transferência de seu título de eleitor para o lugar onde “os pobres, negros e migrantes votam”, simbolizou momentos de transição e rupturas. O acúmulo de experiências de rebaixamento e expulsão dos ambientes das classes dominantes, em contraposição à somatória de vivências de acolhimento e solidariedade nos espaços das classes dominadas, vão acompanhando a

transição do que Iasi (2011) chama de primeira forma de consciência para uma segunda forma, ou a consciência em si.

O PT: identificação e participação tímida

A partir da percepção de si mesma como diferente das elites, da vivência de contradições frente a valores internalizados e da percepção de relações sociais como injustas, estariam colocadas as condições para transições no processo de consciência. O fator central para que a transição se instaure seria o grupo60. No ambiente da faculdade, Helena teve grupo, para amparar e compartilhar as situações vividas como injustas e para refletir sobre elas. Este grupo era formado, em grande medida, por pessoas em situações como a dela: jovens, pobres, trabalhadores, alguns negros e negras. Todos lutando por se inserirem e permanecerem naquele ambiente de conhecimento que lhes fora historicamente negado. Goldmann (1972) aponta também, como um elemento importante para o processo de amadurecimento de consciência crítica, algum acúmulo de conhecimento e informações prévias. Para Helena, o espaço universitário também parece ter sido importante nesse sentido.

A depoente conta, então, que depois do episódio que culminou na saída do grupo que originaria o PSDB, passou a repensar a forma como enxergava o PT até então:

Aí eu fiquei meio sem partido e depois eu comecei a ver o PT, o PT era a possibilidade que eu tinha. Como eu vim do interior, o PT era muito criticado, eu morava em 79, eu me lembro (...) eu via na televisão. Na TV Globo o Lula fazendo eventos e o Lula foi preso, o quando o Lula tava fazendo as coisas das greves, eu tinha muita bronca, achava que o Lula era uma coisa horrorosa, que o Lula era tudo de ruim (...), eu tinha bronca do PT, cheguei em São Paulo com essa mesma bronca. Aí depois eu comecei a, depois que o PSDB me deu esse olé, eu comecei a conhecer as pessoas da faculdade... aí eu comecei a ver que as pessoas falavam do Lula, tinha uns amigos meus que falavam bem do Lula, eu fiquei e tal. Aí comecei a achar bonito, gostei e comecei a participar, não efetivamente, assim, de forma forte, mas passei a participar do PT e até hoje eu gosto, eu sou petista.

Helena lembra-se que o primeiro evento que participou com a presença do PT aconteceu na faculdade em que estudava. Neste evento, ela viu a participação de pessoas “como ela”, e sentiu que “se encaixava”:

60 “Quando uma pessoa vive uma injustiça solitariamente, tende à revolta, mas em certas circunstâncias

pode ver em outras pessoas sua própria contradição. Esse também é um mecanismo de identificação da primeira forma, mas aqui a identidade com o outro produz um salto de qualidade” (IASI, 2011, p. 29).

Eu me lembro da faculdade (...) algum evento lá na faculdade (...) eram poucas bandeiras, eram umas pessoas, até o movimento negro também estava lá, aí eu falei, “aqui que eu vou me encaixar, aqui que tá o povo do movimento negro”, estava lá também o Batista que era um amigo meu (...) foi meu primeiro evento do PT grande foi lá na faculdade de Mogi das Cruzes.

Encontrou ali amigos e pessoas do movimento negro, sentiu-se “entre os seus”: “fui reencontrar esses, algumas dessas pessoas no PT e fiquei muito contente de ter reencontrado no PT. Aí eu falei, ‘então, o PT dá apoio pra gente também, pra negrada’ ”. As formas como Helena se refere à participação em ações do Partido dos Trabalhadores me lembraram muito a depoente Natil, em pesquisa de Gonçalves Filho (1998) relatando como se sentia em comício do PT, espaço partilhado por “gente como ela”:

Eu tava no meio de gente como a gente (...). Eu tava – como se diz- no meio de gente como a gente mesmo! Não é que eu tô discriminando, eu sei que você entendeu: tava no meio do pessoal! Porque a coisa mais bonita que eu acho é a massa, organizada, expressando o que sente. Então quando isso, quando ia num comício do PT, aquilo... não sei o quê, aquilo me dava uma satisfação (...) Então eu ficava assim... extasiada de ver aquilo lá, ver aquelas pessoas. E isso me dá prazer, estar ali (GONÇALVES FILHO, 1998, p. 13).

Em ambos os relatos fala-se, com alegria, de como é “bonito” estar naqueles espaços. Essa beleza e sentimento de acolhimento contrapõem-se diretamente a outros ambientes vistos como excludentes e expulsivos. Como nos casos de Natil e Helena, certos espaços públicos são considerados impeditivos e elitizados na cidade de São Paulo. Sensação que Helena reviveu em espaços do PSDB.

A participação no PT se dá pouco depois que Helena começa a acompanhar o movimento negro61. Nesses espaços, Helena estabelece relações de identificação e acolhimento pelos grupos. Começa a participar de ações coletivas, que dão às relações vividas em âmbito pessoal novos contornos e significados. Vai sendo vislumbrada então a possibilidade não somente de se revoltar contra as relações sociais pré-estabelecidas, mas de modificá-las. É justamente essa perspectiva que, para Iasi (2011) caracteriza a consciência em si: a percepção dos seus próprios interesses - e dos vínculos e da

61 Tratava-se, nesse momento, da inserção em grupos e ações relativamente autônomas, ligadas ao ambiente

identidade do grupo de que participa - como diferentes e conflitantes com os interesses e identidade dos grupos dominantes.

Até hoje, Helena participa das atividades do PT, priorizando a participação em atos e manifestações. Não se filiou a nenhuma corrente interna do partido.

O Movimento Negro: escuta e aprendizados

Foi através de uma amiga de trabalho, também negra, que Helena começou a participar de espaços de militância mais institucionalizados, ligados ao movimento negro organizado. Essa amiga lhe apresentou um coletivo ligado ao Movimento Negro:

Uma amiga minha, da emissora também, negra, ela fazia o programa também de edição lá, falou “Ah, que tem o Movimento, não sei o que” e eu comecei a ir. Mas eu ia, participei algumas vezes, e comecei a ver, falei “Gente, mas eles ficam discutindo”, anos 80, isso, “eles ficam conversando sobre problema de negro, assim, mas em sala fechada… O negócio é feio lá fora”. Eu morava em periferia, na época eu morava na Cachoeirinha.

Embora vivenciasse naquele espaço uma identificação racial, Helena passou a sentir um distanciamento de classe em relação a esse movimento social.

E eu vi que não era só ficar discutindo negros intelectuais… Tinha professor, negro intelectualizado, tinha o amigo meu que hoje é reitor de universidade no Tocantins (...) Mas aí eu começava a pensar “Nossa, eu fico aqui, conversando”, as reuniões eram no centro, conversa, conversa, conversa, fala não sei o quê, mas tem molecada morrendo na periferia (...) era muita favela, era muita pobreza, achei que era bobagem ficar perdendo tempo... Aí eu parei de frequentar (...) tenho amigos até hoje, mas eu deixei de participar de movimento.

Helena sempre viveu e sentiu sua condição de raça diretamente atrelada à sua condição de classe (ela nunca passou por transição de classe social, nunca foi uma mulher negra de classe média ou de elite, mas sempre trabalhadora, negra e pobre). Nesse momento do seu processo de consciência, assumia e identificava-se com sua condição de mulher negra da classe trabalhadora. Assim, para ela, embora valorize muito os aprendizados ali construídos, deixou de fazer sentido participar de um movimento que, em sua concepção, naquele momento priorizava “reuniões em salas fechadas” à realidade das ruas.

Era bacana o que eles conversavam sobre esses assuntos, mas não saía pra rua, não ia nas periferias, não ia nos lugares que deveria ir, né? É bobagem ficar só conversando em sala fechada e não sair pra militar pra rua.

Hoje, Helena avalia que aquele foi um espaço importante de estudos e aprendizados. Configurou-se, para ela, como um ambiente de muita escuta, mas de pouca fala: “eu participava, mas eu não tinha... eu não falava nada, eu só ficava ouvindo”. Mais adiante, ao falar sobre sua participação na Marcha, Helena traz esse contraste, que parece ser de grande importância para definir um espaço de enraizamento e enfrentamento da humilhação social e dos impedimentos que lhe foram impostos.

A Marcha Mundial das Mulheres como um espaço em que a depoente pode falar

Helena conta que foi morar um tempo em Goiânia a trabalho e, quando voltou, começou a participar da Marcha. Sobre seu primeiro contato com o movimento social, ela relata:

Um dia eu tava panfletando lá no Largo da Batata e eu vi umas mulheres de lilás, né? Eu nem sabia o que eram aquelas mulheres e uma amiga minha falou, “então, eu faço parte da Marcha Mundial de Mulheres, vamos lá conhecer”. Daí eu conheci a Marcha Mundial, isso faz uns 13, 14 anos.

É interessante que Helena conhece a Marcha justamente no local da cidade que havia adotado “como seu” depois de rejeitado espaços associados às classes dominantes. O encontro com a Marcha se dá, também, inserido em um contexto prévio de participação política. No depoimento, Helena imediatamente prossegue compartilhando sobre a importância da Marcha para ela:

Conheci a Marcha e gostei muito da Marcha e lá que eu desenvolvi mais essa parte política minha, foi através da Marcha Mundial. Apesar que eu tinha o conhecimento já do movimento negro e eu lia bastante e eu estava no PT. Mas eu fui me fortalecendo mais na Marcha Mundial de Mulheres.

Acompanhando a trajetória de Helena, podemos ver que a inserção na Marcha não se dá de forma mecânica ou repentina. Acontece como o desenrolar de um processo pessoal – de muitos anos – de participação política, reflexão sobre si mesma e as relações sociais de dominação-exploração, e a busca por um “lugar no mundo”. Quando questionada sobre as razões pelas quais a depoente sentiu a Marcha como um espaço de maior fortalecimento pessoal, ela explica:

Porque na Marcha eram mais mulheres, a gente tinha fala na Marcha. A gente podia falar, e eu admirava muito ver aquelas mulheres

intelectuais conversando, achava bonito, gostava, tinha também no movimento negro, mas eu percebi que no movimento negro eram mais os homens que tinham a palavra, que falavam, a gente ficava só ouvindo e na Marcha eram mulheres. Tinha muita menina, tinha todo tipo de mulheres, tinham mulheres brancas, mulheres negras, mulheres pobres, mulheres ricas, todo tipo de mulheres. Não eram mulheres ricas, eram mulheres intelectualizadas. Eu até levei umas amigas minhas (...) tinha muita mulher da USP e acho que ela gostou muito. Eu também gostava e é bom você estar no meio de pessoas intelectuais que você também vai fortalecendo, né? Eu gostei bastante de estar no meio delas, de estar no meio até hoje, eu aprendo bastante e todo tipo de mulher tava lá e eu percebia que não tinha diferença, de discriminação, das mulheres intelectuais que são brancas né? Intelectuais com as mulheres negras, domésticas, varredora de rua. Tratavam todo mundo bem... [grifos meus]

Como já discutimos na análise do depoimento de Lena no capítulo 2, podemos perceber também em Helena, a relevância da pluralidade para o enraizamento e fortalecimento pessoal. Temos aqui uma dimensão de encontro entre as duas Helenas entrevistadas: A primeira – Lena - pertence ao grupo descrito como “intelectual”, é jovem, formada em uma universidade de prestígio, escritora, branca, de classe média. Ela se encanta e se fortalece pelo contato com as mulheres do povo. A segunda – Helena – é da classe trabalhadora, negra, pobre e se sente amparada e fortalecida no contato com as intelectuais: talvez isto indique que na Marcha haja a possibilidade de formação de sínteses através da convivência dessas diferenças.

*

A depoente cita ainda a importância dos aprendizados. Faz bastante sentido ao considerarmos os processos de consciência que vinha vivendo e buscando. No entanto, no depoimento de Helena, o que parece ter assumido papel central ao considerar sua participação na Marcha foi justamente o falar. A depoente já havia mencionado sobre outros espaços de participação nos quais também aprendeu muito, houve identificação e se sentiu acolhida. Contudo, ela diz que é na Marcha que “se fortalece”, que “desenvolve a dimensão política mesmo”. A impressão é de que, além de a Marcha aparecer inserida em uma trajetória e como continuidade dessa trajetória, ela representa, para Helena, um significativo salto qualitativo. E o elemento mais relevante para este salto parece ter sido