2.4 DO PROCEDIMENTO DO JULGAMENTO POPULAR
2.4.2 Do quesito único
Prediz o Código de Processo Penal, em seu art. 483, § 2º, ipsis litteris: “Respondidos afirmativamente por mais de 3 (três) jurados os quesitos relativos aos incisos I e II do caput deste artigo será formulado quesito com a seguinte redação: O jurado absolve o acusado?” (BRASIL, 1941). É o chamado quesito único das teses defensivas.
Diz respeito à concentração em uma única indagação quanto às teses de defesa, não sendo mais necessário que o juiz presidente colha das alegações expostas em plenário pelo defensor as várias teses levantadas a fim de transformá- las em quesitos. Impõe-se, assim, que, reconhecendo-se a materialidade e a autoria do fato, nos dois primeiros quesitos, deve ser formulado quesito específico com a seguinte redação: “o jurado absolve o acusado?”.
É considerado por Nucci (2009, p. 828) como a principal inovação introduzida pela Lei 11.689/2008, no contexto do questionário. Em obra específica, aduz o autor que a implantação desse quesito aproximou, relativamente, o modelo de votação do sistema norte americano, consubstanciado no veredicto único em relação à culpa ou inocência (2008, p. 217), acima mencionado como de origem inglesa.
Anteriormente, como lecionam Alencar e Távora (2010, p. 785):
A depender da tese de defesa, após a definição do fato fundamental, eram formulados quesitos correspondentes a ela. [...] Se fosse o caso de alegação de legítima defesa, os quesitos deveriam ser desmembrados em tantos quantos componham suas elementares, ou seja, haveria uma pergunta a respeito de suposta agressão prévia por parte da vitima, outra se essa agressão teria sido injusta, outra se teria sido atual, outra, caso negada a anterior, se teria sido iminente. Sendo respondidas afirmativamente todas as questões, restava acolhida a tese de legítima defesa.
Jesus (2010, p. 432) admite merecer “[...] encômios a iniciativa do legislador, visto que a quesitação constituía a maior fonte de nulidades em julgamento pelo Júri”. Nessa única pergunta, ficaram concentradas as teses sobre excludentes de ilicitude e de exclusão de culpabilidade, como obtempera Tourinho Filho (2010, p. 168, vol. 2):
Legítima defesa própria, de terceiro, legítima defesa putativa, estado de necessidade, estrito cumprimento do dever, exercício regular de um direito, coação irresistível e obediência hierárquica, inexigibilidade de conduta diversa, todas essas questões serão objeto de uma única indagação: “O réu deve ser absolvido?”
A resposta afirmativa leva à absolvição; a negativa, por óbvio, conduz à condenação. O atual sistema, como preconiza Jesus (2010, p. 434), é mais benéfico ao acusado, pois caso a defesa sustente mais de uma tese que permita a absolvição do réu, todas elas incorporadas à mesma pergunta, pode resultar em veredicto absolutório, ainda que os jurados dividam-se quanto ao acolhimento. Segundo o
doutrinador: “Dois jurados poderiam considerar provada a legítima defesa real e outros dois, a putativa. Ao se desdobrarem as perguntas, o réu seria condenado. Englobando-se ambas no mesmo quesito (sistema atual), ele será absolvido”.
Desde sua vigência, porém, referido quesito dá margem a divergências doutrinárias e jurisprudenciais quanto à sua aplicação, como se vê em julgados da 2ª Turma Criminal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios:
PENAL E PROCESSO PENAL. TRIBUNAL DO JÚRI. HOMICÍDIO. ABSOLVIÇÃO. APELAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO. LEI 11.689/2008. DECISÃO MANIFESTAMENTE CONTRÁRIA ÀS PROVAS DOS AUTOS (ART. 593, III, “d”, CPP). CASSAR VEREDICTO PROFERIDO PELO CONSELHO DE SENTENÇA. NOVO JULGAMENTO PELO TRIBUNAL DO JURI. PROVIMENTO. 1. A resposta afirmativa ao novo quesito da absolvição, acrescentado pela Lei 11.689/2008, não demonstrou qualquer compatibilidade com o quesito anteriormente votado (que reconheceu a existência de dolo eventual na conduta do apelado), assim como não se respaldou nas provas colacionadas nos autos e não se pautou em qualquer das teses apresentadas pela defesa e Ministério Público. 2. Quando a decisão do Conselho de Sentença do Tribunal do Júri é manifestamente contrária às provas dos autos, a sua cassação não viola a soberania dos veredictos, de forma a haver harmonia entre este princípio constitucional e o duplo grau de jurisdição. 3. É pacífico que a soberania do Júri não pode ser entendida como absoluta, pois o que se busca em processo penal é a verdade e a Justiça. Caso contrário, o novo quesito da absolvição se revelaria como uma “liberalidade irracional à defesa”, em situação de indiscutível desproporção e disparidade com relação ao Ministério Público, o que fere o princípio constitucional do contraditório. 4. Recurso provido. (TJDF, Apelação Criminal 20010910057043APR, Relator: Desembargador SILVÂNIO BARBOSA DOS SANTOS. Julgamento em 21 de janeiro de 2010).
Idêntico acórdão foi proferida pelo mesmo órgão julgador na Apelação Criminal 20050610069246APR, com relatoria do Desembargador Silvânio Barbosa dos Santos, julgado em 8 de outubro de 2009.
Reflete-se, ainda, quanto à possibilidade de a defesa apresentar somente tese de negativa de autoria ou participação, ou mesmo, de ausência de nexo de causalidade, vindo ela a ser rejeitada pelos jurados, com resposta afirmativa aos dois primeiros quesitos. Mendonça (apud OLIVEIRA, 2010, p. 216) entende que, nesse caso, ficaria o quesito em tela prejudicado, pois deve-se levar em conta, na construção do questionário, as alegações das partes, sob pena de irreparável prejuízo ao exercício do contraditório para o órgão acusatório. Quais os argumentos poderia o acusador trazer à discussão para dizer que a decisão dos jurados foi manifestamente contrária à prova dos autos, se não tem sequer ideia de qual foi a fundamentação que levou à absolvição?
A razão pela qual os jurados absolveram o réu, se for positiva a resposta, torna-se imponderável. É possível que tenham acolhido a tese principal da defesa (por exemplo, a legítima defesa), mas também se torna viável que tenham preferido a subsidiária (por exemplo, a legitima defesa putativa). Pode ocorrer ainda, que o Conselho de Sentença tenha
resolvido absolver o réu por pura clemência, sem apego a qualquer das teses defensivas. Em suma, da maneira como o quesito será
encaminhado aos jurados, serão eles, realmente, soberanos para dar o veredicto, sem que os juízes e tribunais togados devam imiscuir-se no mérito da solução de absolvição. (grifo nosso)
A decisão dos jurados, ainda que pareça absurda, não pode ser colocada em dúvida:
PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. TRIBUNAL DO JÚRI. ALEGAÇÃO DE NULIDADE. RENOVAÇÃO DA VOTAÇÃO. QUESITO GENÉRICO DA ABSOLVIÇÃO. PERPLEXIDADE DO JULGAMENTO. INOCORRÊNCIA. NOVA REDAÇÃO DO ARTIGO 483, INCISO III, DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL. LEI 11.689/2008. SISTEMA DA ÍNTIMA CONVICÇÃO. SOBERANIA DOS VEREDICTOS. VOTAÇÃO VICIADA. NECESSIDADE DE NOVO JÚRI. ORDEM PARCIALMENTE CONCEDIDA. 1. A reforma processual implementada pela Lei 11.689/08, que alterou de forma conceitual a formulação de quesitos nos julgamentos pelo Tribunal do Júri, mais do que atender a uma finalidade clara de simplificação, prestigiou o sistema da íntima convicção, vigente na Instituição do Júri, conferindo a cada jurado a liberdade para absolver o réu por razões que transcendem as teses de defesa, sustentadas em plenário. 2. No caso, a renovação da votação do quesito genérico da absolvição, por suposta contradição com o quesito que reconheceu a participação do acusado, desbordou das linhas gerais delineadas pela Lei 11.689/08 e acabou por influenciar a decisão dos jurados, induzindo-os à condenação, atingindo de forma indelével a soberania dos veredictos. 3. Ordem parcialmente concedida, para que o paciente seja submetido a novo júri. (TJDF, 1ª Turma Criminal. Habeas Corpus 20100020207111HBC. Relator: Desembargador JESUÍNO RISSATO. Julgamento em 10 de março de 2011)
Ministra ainda Nucci (2008, p. 226) que a lei exige seja incluído o quesito em todos os questionários, sendo submetido à votação sempre que respondidas afirmativamente as questões concernentes à materialidade do fato e sua autoria. Nesse sentido:
PENAL E PROCESSO PENAL. TRIBUNAL DO JÚRI. ABSOLVIÇÃO DO ACUSADO. RECURSO DO MP. QUESITAÇÃO. CONTRADIÇÃO. NULIDADE ABSOLUTA. NÃO RECONHECIDA. 1. Não existe nulidade absoluta quando o Juiz Presidente formula o quesito de absolvição mesmo quando os jurados reconhecem a materialidade e autoria, mostrando a intenção do legislador de confirmar o Princípio Constitucional da Soberania dos Vereditos, que possibilita que o jurado decida de acordo com sua íntima convicção não estando vinculado as teses apresentadas em Plenário. 2. O Juiz Presidente é obrigado a fazer a pergunta acerca da absolvição mesmo
depois da resposta afirmativa aos quesitos da materialidade e autoria por determinação legal. 3. Apelação conhecida e não provida. (TJDF, 2ª Turma Criminal. Apelação Criminal 20101010069221APR. Relator Desembargador ALFEU MACHADO. Julgamento em 5 de agosto de 2010).
Assim, vê-se que a supressão desse quesito acarreta nulidade do julgamento, vez que de cunho obrigatório.