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2011 PELOI - A DECLARACAO DE INDIGNIDADE DO HERDEIRO ABSOLVIDO NO TRIBUNAL DO JURI

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CAMPUS DE CACOAL

DEPARTAMENTO ACADÊMICO DO CURSO DE DIREITO

PRISCYLA DA PAZ NORONHA PELOI

A DECLARAÇÃO DE INDIGNIDADE DO HERDEIRO ABSOLVIDO NO

TRIBUNAL DO JÚRI

Trabalho de Conclusão de Curso Monografia

Cacoal - RO 2011

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A DECLARAÇÃO DE INDIGNIDADE DO HERDEIRO ABSOLVIDO NO

TRIBUNAL DO JÚRI

Por:

PRISCYLA DA PAZ NORONHA PELOI

Monografia apresentada à Universidade Federal de Rondônia - UNIR - campus de Cacoal, como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Direito, desenvolvido sob a orientação da Professora Mestre Simone Maria Gonçalves de Oliveira.

Cacoal - RO 2011

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A DECLARAÇÃO DE INDIGNIDADE DO HERDEIRO ABSOLVIDO NO

TRIBUNAL DO JÚRI

PRISCYLA DA PAZ NORONHA PELOI

Esta monografia foi julgada aprovada para obtenção do grau de Bacharel em

Direito pela Universidade Federal de Rondônia – UNIR – Campus de Cacoal,

mediante apresentação à Banca Examinadora, formada por:

__________________________________________________________ Professora Mestre Simone Maria Gonçalves de Oliveira – Orientadora

__________________________________________________________ Prof. Ms. Bruno Milenkovichi Caixeiro

Membro

_________________________________________________________ Profa. Esp. Ana Clara Cabral de Souza Cunha

Membro

Cacoal – RO 2011

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Este trabalho é dedicado a Deus, fonte de toda a vida e conhecimento; ao meu amado esposo e colega Vitor Marcelo, principal e eterno encorajador; à minha mãe Edinalva, pelos joelhos sempre dobrados, e minha irmã Anna, pelo ombro sempre amigo.

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Agradeço à minha orientadora, a querida

Professora Mestre Simone Maria

Gonçalves de Oliveira, pela admirável dedicação na realização dessa tarefa. À Professora Doutora Eleonice Dal Magro, pelas orientações metodológicas aqui empregadas.

Aos colegas e amigos, companheiros de jornada, sem os quais certamente o tempo aqui passado não seria tão agradável.

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“Pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus”.

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RESUMO

PELOI, Priscyla da Paz Noronha. A Declaração de Indignidade do Herdeiro

Absolvido no Tribunal do Júri. 2011. [s.n.] 60 f. Monografia (Bacharelado em

Direito). Universidade Federal de Rondônia – UNIR, Cacoal - RO.

No presente trabalho tratou-se do caso de exclusão da herança do herdeiro no caso de homicídio doloso do autor da herança, acaso absolvido no julgamento pelo crime no Tribunal do Júri. Utilizando-se do método dedutivo e por meio de pesquisa bibliográfica exploratória com enfoque dogmático, partiu-se da análise dos fundamentos do direito sucessório, direito constitucionalmente garantido, abordando-se a previsão legal de exclusão da sucessão do herdeiro que pratica atos incompatíveis com os princípios que envolvem tal direito fundamental, a saber, atentar contra a honra, a vida e a liberdade de testar do autor da herança. Das hipóteses, destaca-se o atentado contra a vida, bem jurídico de valor absoluto. Tratou-se, então, dos pilares que regem o Tribunal do Júri, órgão constitucionalmente vestido de competência para julgamento de crimes dolosos contra a vida, destacando-se sobretudo quanto à dispensa de motivação dos veredictos que, diante do modelo de votação adotado pelo legislador, traz a possibilidade de absolvição mesmo que reconhecida a autoria e a materialidade. Assim, questiona-se, tendo em vista as regras legais e lições doutrinárias sobre os efeitos das sentenças penais na esfera cível, quanto aos efeitos da sentença absolutória do Tribunal do Júri na declaração de indignidade desse herdeiro.

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ABSTRACT

PELOI, Priscyla da Paz Noronha. The unworthiness’ Declaration of the Heir

Acquitted in Trial by Jury. 2011. [s.n.] 60 pp. Monograph (Law Degree). Federal

University of Rondônia - UNIR, Cacoal/RO.

This paper has dealt with the question of exclusion from inheritance of the inheritor who has killed the deceased, in case of a not guilty verdict at trial for the crime in the grand jury. Using the deductive method and through exploratory bibliographic research with dogmatic emphasis, we have started from the analysis of the grounds of succession law, a right that is constitutionally guaranteed, dealing the legal provision for exclusion from the succession of the heir who practices acts that are incompatible with the principles involved in this fundamental right, namely, attacking the honor, life and freedom to test of the legacy’s author. From the hypotheses stands out the acts against the life, the supreme and absolute legal value. It also covers the basics of the grand jury, an institute that, in Brazil, is constitutionally competent to judge crimes against life, dealing especially with the exemption of motivation to the verdicts in front of the voting model adopted by the Brazilian legislation, which brings the possibility of acquittal even when the grand jury recognizes the authorship and materiality. Thus is questioned, given the rules of law and doctrinal lessons on the effects of criminal sentences in the civil sphere, the effects of the acquittal of the grand jury in the declaration of unworthiness of heir.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 09

1 DO DIREITO SUCESSÓRIO ... 11

1.1 EVOLUÇÃO HISTÓRICA ... 11

1.2 FUNDAMENTO E IMPORTÂNCIA ... 13

1.3 DOS EXCLUÍDOS DA HERANÇA... 15

1.4 ASPECTOS PROCESSUAIS ... 18

1.5 DA EXCLUSÃO POR HOMICÍDIO ... 22

1.5.1 Da dupla ilicitude e necessidade de prévia condenação criminal ... 23

2 DO TRIBUNAL DO JÚRI POPULAR ... 27

2.1 ORIGENS DO INSTITUTO. ... 30

2.2 DO SISTEMA DA CERTEZA MORAL DO JUIZ OU ÍNTIMA CONVICÇÃO ... 32

2.3 DA SOBERANIA DOS VEREDICTOS... 33

2.4 DO PROCEDIMENTO DO JULGAMENTO POPULAR. ... 34

2.4.1 Da quesitação ... 35

2.4.2 Do quesito único ... 36

2.4.3 Do veredicto ... 40

3 EFEITOS CIVIS DA SENTENÇA PENAL ... 42

3.1 EFEITOS DA SENTENÇA PENAL CONDENATÓRIA ... 45

3.2 EFEITOS DA SENTENÇA PENAL ABSOLUTÓRIA... 45

3.3 EFEITOS DA SENTENÇA PENAL NA DECLARAÇÃO DE INDIGNIDADE ... 48

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 55

REFERÊNCIAS ... 57

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INTRODUÇÃO

A Constituição Federal assegura, no rol dos direitos e garantias fundamentais, o direito de herança, ou seja, de ter transmitidos aos que lhe são caros os bens resultantes do labor de toda uma vida. Em complemento, baseada na razão de ordem ética de afeição do de cujus ao herdeiro, regula a lei civil os casos em que este é considerado indigno e consequentemente é excluído da sucessão, dos quais o mais grave é aquele em que ceifa dolosamente a vida do autor da herança.

Assevera também a Constituição o reconhecimento da instituição do Tribunal do Júri Popular e sua competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida.

Tal instituição, no entanto, desde os primórdios de sua existência, surge como tema suscitador de grandes controvérsias e acalorados debates. Seus fundamentos, dentre eles a desnecessidade de fundamentação de suas decisões, promovem comoção da opinião pública, ecoam nos veículos de comunicação e despertam vívido interesse direcionado ao assunto.

Não obstante, não se pode negar o peso dos veredictos que, cingidos da garantia constitucional da soberania, abarcam o julgamento dos fatos e não podem ser modificados sequer pelo juiz togado ou pelo tribunal de apelação.

Nesse ínterim, havendo possibilidade de absolvição pelos jurados de réu cuja autoria ou participação no crime foi reconhecida, sem necessidade de motivação expressa, e considerando que o herdeiro acusado do homicídio doloso do autor da herança será por eles julgado, devido ao reflexo das decisões criminais no âmbito cível, é revelada a possibilidade de encontrar-se o julgador num impasse quanto à declaração de indignidade, bem como de que dessa situação decorram

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injustos prejuízos a uma das partes.

Posto isso, é de todo oportuno um estudo mais aprofundado do tema, buscando uma análise sistematizada da doutrina e legislação, justificando-se pela obtenção da solução mais acertada para a hipótese.

Utiliza-se, para tanto, do método dedutivo, partindo-se da situação geral e genérica de declaração de indignidade para o caso específico do herdeiro absolvido no Tribunal do Júri, por meio de pesquisa bibliográfica exploratória com enfoque dogmático, em estudo sistemático das leis e doutrinas e comparando-se as linhas de pensamento de diversos autores e julgadores.

Sistematicamente, a pesquisa versa sobre os aspectos gerais do Direito Sucessório, sua evolução histórica, conceito, fundamentos e importância na atual ordem jurídica constitucional. Trata-se ainda da exclusão da herança, das hipóteses em que ocorre e os procedimentos judiciais adotados na obtenção da medida. Ademais, especifica-se a hipótese de exclusão por homicídio, destacando-se a característica de dupla ilicitude desse ato, bem assim da necessidade ou não de prévia condenação criminal para a declaração de indignidade.

Adentra-se ainda no estudo do Tribunal do Júri, desde suas origens, passando pelas características do instituto, tais como a soberania e o sistema de certeza moral do juiz ou íntima convicção, até o procedimento do julgamento popular e do veredicto, com atenção especial à votação pelos jurados e à presença do quesito único reunidor das teses de absolvição.

Por fim, aborda-se os efeitos civis das sentenças proferidas em âmbito penal, condenatórias e absolutórias, correlacionando às decisões decorrentes de julgamentos populares, com especial relevo à situação peculiar do herdeiro absolvido no Tribunal do Júri e os efeitos dessa improcedência na declaração de indignidade.

Cuida-se, assim, da compilação de informações sobre o tema, com o intuito de verificar a existência de lacuna jurídica quanto aos casos de declaração de indignidade dos herdeiros absolvidos no julgamento popular do crime de homicídio do autor da herança, bem como os efeitos possíveis dela decorrerem, identificando-se soluções possíveis para a hipóteidentificando-se.

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1 DO DIREITO SUCESSÓRIO

A Constituição da República Federativa do Brasil, em seu art. 5º, inc. XXX (BRASIL, 1988), acrescenta ao rol dos direitos e garantias fundamentais o direito de herança, como corolário do direito de propriedade ou, nas palavras de Alexandrino e Paulo (2009, p. 136), um reforço a este, “[...] pelo qual o proprietário tem a garantia de que o patrimônio que acumulou durante a vida poderá ser transmitido conforme a sua vontade (desde que respeitadas as disposições legais pertinentes”. É dizer, a morte não pode representar oportunidade para que o Estado aproprie-se de seus bens.

Malgrado garantir a Constituição o direito de herança, a forma como ele se exerce é regulada por normas de direito privado. Assim, incumbiu-se o Livro V do Código Civil de regulamentar o direito sucessório em todos os seus aspectos (BRASIL, 2002).

Nos dizeres de Diniz (2010, p. 3, vol. 6), “O direito das sucessões vem a ser o conjunto de normas que disciplinam a transferência do patrimônio de alguém, depois de sua morte, em virtude de lei ou de testamento”, consistindo assim num complexo de disposições jurídicas a regerem a transmissão do ativo e do passivo do falecido ao herdeiro. Em sentido amplo, aduz a autora, aplica-se o vocábulo sucessão a todos os modos derivados de aquisição de domínio, e em sentido estrito, à sucessão mortis causa (p. 11).

Dias (2008, p. 29) traz a lume o duplo aspecto da definição do direito das sucessões: “No sentido objetivo, é o conjunto de normas que regula a transmissão de bens em consequência da morte. No sentido subjetivo, o direito de suceder, isto é, o direito de receber o acervo hereditário”.

1.1 EVOLUÇÃO HISTÓRICA

O direito sucessório, sempre ligado à ideia de continuidade da religião e da família, remonta aos primórdios da humanidade e de sua organização, desde que o homem deixou de ser nômade e começou a amealhar patrimônio (DIAS, 2008, p. 25). No direito oriental antigo, apesar de se ter notícia do testamento entre os hebreus, acredita-se que prevalecia a forma de sucessão sem a presença do

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instrumento. Empós as lições de Venosa (2010, p. 3, vol. VII), segundo o qual “[...] era peculiar ao velho direito oriental a faculdade de o pai distribuir seu patrimônio, em vida, entre os herdeiros”.

Uma das fundamentais características do direito clássico era de que o herdeiro substituía o morto em todas as relações jurídicas, inclusive naquelas que nada tinham a ver com patrimônio, mas com a religião, sendo que o sucessor era o continuador do culto familiar, como preconiza o renomado catedrático (2010, p. 2). “O lar não poderia ficar abandonado e, mantida a religião, persistiria o direito de propriedade”, pontua o jurista.

A aquisição da propriedade fora do culto era exceção, razão pela qual, explica Venosa (2010, p. 2, vol. VII), o testamento sempre foi muito importante em Roma e nos demais povos antigos. Ensina ainda que a morte sem sucessor traria a infelicidade aos mortos e extinguiria o lar, sendo que a sucessão só se operava na linha masculina, “[...] porque a filha não continuaria o culto, já que com seu casamento renunciaria à religião de sua família para assumir a do marido” (p. 3). O testamento, ao que tudo indica, era desconhecido nos primórdios da história romana, passando a lá ser conhecido tão somente na época clássica.

É justamente a partir do direito romano que torna-se mais nítido o conhecimento da evolução da sucessão, como narra Gonçalves (2011, p. 21). Segundo o autor, “A Lei das XII Tábuas concedia absoluta liberdade ao pater

familias de dispor dos seus bens para depois da morte”. Falecendo, porém, sem

testamento, a sucessão se devolvia na ordem que segue.

Primeiramente aos heredi sui et necessarii, filhos sob o poder do pater, a saber, filhos, netos e esposa. Na sequência vinham os agnati, que eram os parentes mais próximos do falecido, assim compreendidos os colaterais de origem exclusivamente paterna. Na ausência de membros nas classes acima mencionadas, seriam chamados à sucessão os gentiles, ou membros da gens, que é o grupo familiar em sentido lato (GONÇALVES, op. cit., p. 22).

Segue explicando Gonçalves (op. cit., p. 22) que “[...] somente no Código de Justiniano, todavia, a sucessão legítima passa a fundar-se unicamente no parentesco natural”. Estabelece-se, assim, a seguinte ordem de vocação hereditária: os descendentes; os ascendentes, em concurso com os irmãos e irmãs bilaterais; os irmãos e irmãs, consanguíneos ou uterinos; e outros parentes colaterais.

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fixou-se o droid de saisine, segundo o qual “[...] a propriedade e a posse da herança passam aos herdeiros, com a morte do hereditando”.

Com a Revolução Francesa, aboliu-se o direito de primogenitura e o privilégio da masculinidade, de origem feudal. [...] Com a promulgação do Código de Napoleão, mantém-se a unidade sucessória e a igualdade de herdeiros do mesmo grau, estabelecendo-se, entretanto, uma distinção entre herdeiros (parentes do morto) e sucessíveis (GONÇALVES, 2011, p. 23).

A legislação francesa foi influente no direito português, introduzindo-se o princípio da saisine, e também em nossa legislação, ainda antes do Código Civil de 1916. O códex caracterizava-se por vedar quaisquer direitos aos integrantes de relações extramatrimoniais, negando inclusive direitos sucessórios aos filhos “ilegítimos”, havidos fora do casamento (DIAS, 2008, p. 260). Foi a Constituição Federal de 1988 que aboliu todo e qualquer tratamento discriminatório relativo à filiação, reconhecendo ainda a união estável como entidade familiar.

1.2. FUNDAMENTO E IMPORTÂNCIA

O primeiro fundamento da sucessão foi de ordem religiosa, e consistia na assunção da chefia da família e do culto doméstico pelo varão mais velho. Passando a propriedade a ser individual, “[...] o fundamento desloca-se para a necessidade de conservar o patrimônio dentro de um mesmo grupo, como forma de manter poderosa a família” (GONÇALVES, 2011, p. 25).

À luz do vigente Código Civil, lembra Diniz (2010, p. 5, vol. 6):

Há autores, como D’Aguano, que procuram justificar o fundamento científico do direito sucessório nas conclusões da biologia e da antropologia atinentes ao problema da hereditariedade biopsicológica, segundo a qual os pais transmitem à prole não só os caracteres orgânicos, mas também as qualidades psíquicas, resultando daí que a lei, ao garantir a propriedade pessoal, reconhece que a transmissão hereditária dos bens seja uma continuação biológica e psicológica dos progenitores.

Em sentido contrário, apresenta a autora a opinião de Washinton de Barros Monteiro, que critica tais concepções sob fundamento que a sequência da vida humana não depende da sucessão porque se subordina ao instinto sexual, e que “Essas doutrinas explicariam tão somente a transmissão da herança entre

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ascendentes e descendentes e jamais a sucessão entre cônjuges, entre colaterais e entre o de cujus e o Estado” (apud DINIZ, 2010, p. 5, vol. 6).

Dias (2008, p. 24) afirma a existência de um fundamento jurídico, de não permitir que a morte converta o patrimônio de alguém em coisa sem dono, bem como de um fundamento social da sucessão, consistente na abrangência temporal da solidariedade humana, fazendo menção ainda ao princípio da solidariedade e assistência no âmbito das relações familiares, segundo o qual ninguém pode deixar desassistidas as pessoas para quem tinha obrigações de sustento e assistência.

Assim, pode-se dizer que atualmente o fundamento do direito sucessório é a propriedade, conjugada ou não com o direito de família, pois que assentado em uma hipotética harmonia preestabelecida entre o interesse individual e o social. É o que preconiza Diniz (2010, p. 6, vol. 6), para quem “[...] a sociedade permite a transmissão de bens aos herdeiros, estimulando a produção de riquezas e conservando unidades econômicas a serviço do bem comum”.

A importância desse ramo da Lei Civil é trazida à baila por Leite (2003, p. XIV-XV) como inquestionável, sobrevivendo os bens aos homens e transmitindo-se as relações humanas entre esses, em infinita manutenção da imagem e da atuação do morto em vida, para depois da morte. Nas palavras do autor:

Na medida em que entre a vida e a morte se decide todo o complexo destino da condição humana. O aludido direito se esgota exatamente na ideia singela, mas imantada de significações, de continuidade para além da morte, que se mantém e se projeta na pessoa dos herdeiros. A sucessão, do latim sucedere (ou seja, vir ao lugar de alguém), se insere no mundo jurídico como que a afirmar o escoamento inexorável do tempo conduzindo-nos ao desfecho da morte que marca, contraditoriamente, o início da vida do direito das sucessões.

A etimologia da palavra “sucessão”, a saber, “sub cedere”, lembra Venosa (2010, p. 1, vol. VII), tem exatamente esse sentido, ou seja, de alguém tomar o lugar de outrem. “A ideia de sucessão gira em torno da permanência de uma relação jurídica, que subsiste apesar da mudança dos respectivos titulares” (DINIZ, 2010, p. 11, vol. 6).

Inconcebível a possibilidade de a morte criar obstáculos à continuidade da atividade econômica, deixando sem solução a titularidade do patrimônio de pessoa falecida. “A tranquilidade social, a paz pública exigem que se destine um sucessor para esses bens, e a ordem jurídica não pode demitir-se do encargo de dar satisfação a esta aspiração fundamental dos homens” (TELLES, apud BARBOSA

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FILHO, 1996, p. 11).

Ademais, indubitável ainda o interesse do próprio Estado na conservação dos direitos hereditários. Aduz Gonçalves (2011, p. 29) que, assegurando o Poder Público a possibilidade de transmissão de bens aos sucessores, estimula o individuo a produzir cada vez mais, o que coincide com o interesse da sociedade. De outro norte, Venosa (2010. p. 4, vol. VII) pontua que restar o patrimônio sem titular traria um ônus a mais para o Estado, pois que resguardando o direito à sucessão, está também protegendo a família e ordenando sua própria economia.

A corroborar o exposto, Dias (2008, p. 24): “O próprio Estado tem interesse na mantença da família, pois com isso se desonera do compromisso de garantir aos seus cidadãos o leque de direitos que lhes são assegurados na Constituição”.

1.3 DOS EXCLUÍDOS DA HERANÇA

A vocação hereditária, preleciona Souza (2009, p. 1462), “[...] resulta do parentesco (legítima) ou da vontade do autor da herança (testamentária). Ambas, contudo, pressupõem uma relação afetiva entre o autor da herança e seus sucessores”. Venosa (2010, p. 57, vol. VII) acrescenta que tal vocação supõe uma relação de “[...] afeto, consideração e solidariedade entre o autor da herança e o sucessor”. Não é outro o fundamento do direito sucessório, senão a transmissão de bens àqueles com os quais se mantém laços sanguíneos e afetivos.

Obtempera Dias (2008, p. 281), “A transmissão da herança aos herdeiros ocorre quando da abertura da sucessão. A transferência é automática, e não depende de qualquer manifestação dos sucessores”. Tal decorre do princípio da saisine, que não admite hiato na cadeia sucessória.

Recebida a herança, pode o herdeiro renunciá-la, ato unilateral e voluntário, puro e simples do sucessor que abre mão da herança de maneira irrevogável, expressa e definitiva (DIAS, 2008, p. 281). No entanto, não apenas por desejo do herdeiro ocorre o afastamento do direito sucessório, sendo possível que seja imposto judicialmente, por razões de ordem ética, com natureza punitiva. Isso porque o sucessor chamado pela ordem de vocação hereditária pode vir a praticar atos indignos dessa condição de afeto e solidariedade humana.

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Do mesmo modo, os institutos da indignidade e da deserdação prestigiam a dignidade da pessoa humana, princípio maior da Constituição Federal, entre os direitos fundamentais. Assim, quem age contra a dignidade do outro merece ser punido. E, quando a afronta à dignidade ocorre entre pessoas que têm vínculo familiar e afetivo tão estreito, a ponto de ser um herdeiro do outro, a forma encontrada pela lei para inibir tais ações é de natureza patrimonial. Simplesmente autoriza a subtração do direito à herança.

É de Diniz (2010, p. 50, vol. 6) a conceituação do instituto da indignidade, segundo quem:

A indignidade vem a ser uma pena civil que priva do direito à herança não só o herdeiro, bem como o legatário que cometeu atos criminosos, ofensivos ou reprováveis, taxativamente enumerados em lei, contra a vida, honra e a liberdade do de cujus ou de seus familiares. [...] Deveras, a sucessão hereditária baseia-se na afeição real ou presumida do falecido para com o herdeiro ou legatário; se este último, por atos inequívocos, demonstrar ingratidão, desapreço ou ausência de sentimento afetivo para com o de cujus, nada mais justo do que privá-lo do que lhe caberia em razão do óbito do autor da herança.

Etimologicamente, Barbosa Filho (1996, p. 16) explica que o vocábulo “indignidade” provém do latim (indignitate), significando “a ausência de honra e respeitabilidade, bem como um ultraje, uma afronta ou uma injúria”. Relembra o autor que entre os romanos e em nosso direito antigo já possuía a indignidade um caráter de pena, confiscando-se os bens do “desamoroso” (p. 16 e 17).

Quanto ao fundamento do instituto, Gonçalves (2011, p. 112) vai além, defendendo que:

Inspira-se o instituto da indignidade num princípio de ordem pública, uma vez que repugna à consciência social que uma pessoa suceda a outra, extraindo vantagem de seu patrimônio, depois de haver cometido contra esta atos lesivos de certa gravidade.

O Código Civil, no artigo 1.814, prevê tais hipóteses, em que o herdeiro, ainda que portador dos referidos laços, é excluído da sucessão de bens, como forma de penalizá-lo por ter se conduzido de “[...] forma injusta com o autor da herança, de modo a merecer reprimenda, tanto do ponto de vista moral como legal” (DIAS, 2008, p. 281).

De modo esclarecedor, Souza (2009, p. 1462) destaca:

Se o sucessor praticar qualquer dos atos enumerados nos incs. I a III do art. 1.814, desaparece o fundamento ético do direito sucessório, que é justamente a relação de afeto, consideração e solidariedade entre o autor da herança e seu sucessor.

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Diverge a doutrina sobre a natureza jurídica da indignidade. “É considerada como uma deserdação tácita operada pela justiça, uma sanção civil que priva o indigno do direito à sucessão”, no entendimento de Dias (2008, p. 289). Segundo a autora, as opiniões doutrinárias se dividem entre a teoria da incapacidade, pela qual falta ao indigno capacidade sucessória, e a teoria da exclusão, em que se reconhece tão somente a perda do direito à herança, não subtraindo o ato ofensivo a capacidade sucessória.

As causas para o herdeiro ser alijado da herança compreendem tão somente aquelas expressamente previstas no art. 1.814 do Código Civil. Segundo Diniz (2010, p. 51, vol. 6), “[...] como se trata de uma pena civil, a exclusão por indignidade só pode ocorrer nos casos expressamente mencionados em lei, não comportando interpretação extensiva ou aplicação analógica ante o princípio da nulla poena sine lege”. Assim, entende o legislador que são considerados indignos aqueles que cometem atos contra a vida, honra ou liberdade de disposição do autor da herança ou, no segundo caso, de seu cônjuge ou companheiro. Veja-se:

Art. 1.814. São excluídos da sucessão os herdeiros ou legatários:

I – que houverem sido autores, coautores ou partícipes de homicídio doloso, ou tentativa deste, contra a pessoa de cuja sucessão se tratar, seu cônjuge, companheiro, ascendente ou descendente;

II – que houverem acusado caluniosamente em juízo o autor da herança ou incorrerem em crime contra a sua honra, ou de seu cônjuge ou companheiro;

III – que, por violência ou meios fraudulentos, inibirem ou obstarem o autor da herança de dispor livremente de seus bens por ato de última vontade. (BRASIL, 2002)

Reconhece a doutrina como taxativa a enumeração legal das causas autorizadoras do reconhecimento da indignidade, sob fundamento de que tais condutas são tipificadas no âmbito penal, em que vigora o princípio da proibição da analogia in malam partem, ou seja, contra o autor do delito, como explica Dias (2008, p. 27) que de sua parte critica a taxatividade do rol:

É – para dizer o mínimo – desastroso limitar as causas que autorizam excluir o herdeiro, o que não permite penalizar ações outras com a exclusão da herança. Um exemplo basta para flagrar essa incongruência. A injúria grave autoriza a deserdação, mas o estupro não. Ora, se cabe ao juiz declarar a indignidade e a deserdação, mister fosse assegurado a ele o encargo de identificar os motivos que justificam penalizar o herdeiro indigno. Acrescenta Dias (2008, p. 292 e 293) que a própria doutrina que sustenta a

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impossibilidade do reconhecimento de outras causas admitem o induzimento ao suicídio, a eutanásia e o infanticídio como justificativa para a exclusão, além de não se estar aqui em sede penal, sendo que a escolha feita pelo legislador seria absolutamente desarrazoada por deixar de fora crimes outros de repercussão muito mais danosa à pessoa da vítima.

Além do caso previsto no inciso I acima transcrito, reservado para posterior aprofundamento, o legislador compreendeu existir instransponível obstáculo à percepção da sucessão quando houver acusação caluniosa em juízo ou quando perpetrado crime contra a honra do autor da herança, ou de seu cônjuge ou companheiro, protegendo aqui “[...] um dos mais caros direitos da personalidade do de cujus, a honra, como conjunto de predicados que conferem a uma pessoa sua estima própria e consideração social” (BARBOSA FILHO, 1996, p. 38).

De outro norte, tratou o legislador de proteger a última vontade do autor da herança, tida como sagrada entre os povos antigos, excluindo da sucessão os que, por violência ou meios fraudulentos, inibirem-no ou obstarem-no de dispor livremente de seus bens.

1.4 ASPECTOS PROCESSUAIS

A indignidade alcança todos os herdeiros, legítimos, necessários, facultativos, testamentários e legatários, enfim, todos os que podem ser beneficiados com a herança e agirem contra seu titular, podem também ser excluídos da sucessão, consignando-se que a exclusão, no entanto, não afeta o direito à meação (DIAS, 2008, p. 291). Qualquer pessoa que atenta contra a vida de outrem não pode ser beneficiado com seu patrimônio, afastando-se as possibilidades de locupletamento indevido, ainda que indireto, a exemplo do genro.

Não somente atos de indignidade cometidos contra o autor da herança levam à exclusão do direito sucessório. Nas explanações de Dias (2008, p. 291), “[...] quanto mais grave o ato praticado, há um número maior de sujeitos passivos contra os quais a postura do herdeiro pode afastá-lo da herança”, a exemplo do atentado contra a vida, que protege também o antecessor ou o cônjuge, ascendentes ou descendentes do autor da herança.

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prática dos atos previstos na lei como aptos a ensejar a exclusão do herdeiro, a partir da qual perde este essa condição, com efeito retroativo à data da abertura da sucessão (ex tunc), como se jamais tivesse herdado (DIAS, 2008, p. 282-283). Nos dizeres de Venosa (2010, p. 58, vol. VII), “Interessante notar que existe forte resquício da morte civil na pena de indignidade”, pois é da redação do art. 1.816 do Código Civil que os seus descendentes sucedem como se o indigno morto fosse antes da abertura da sucessão.

A ação declaratória de indignidade, que só pode ser proposta após a abertura da sucessão, segue o rito ordinário que, nos dizeres expressivos de Rodrigues (2003, p. 70), “[...] representa uma garantia, porque é por meio de suas formalidades que se assegura o direito de defesa”. Não se admite tal declaração no processo de inventário, que sequer deve ser suspenso em face do ajuizamento daquela, no entender de Dias (2008, p. 300), para quem no máximo é possível não proceder-se à entrega do quinhão em sede de medida cautelar. Assim diz o caput do art. 1.815 do Código Civil: “Art. 1.815. A exclusão do herdeiro ou legatário, em qualquer desses casos de indignidade, será declarada por sentença” (BRASIL, 2002).

Nem mesmo no caso de indignidade por crime doloso contra a vida, que será também objeto de análise na justiça criminal, dispensa-se a ação declaratória específica no cível, segundo Gonçalves (2011, p. 122):

Malgrado alguma opinião contrária, no sentido de que, se o homicídio contra o hereditando for reconhecido em sentença criminal transitada em julgado, não se justifica novo procedimento, podendo a sentença ser dada pelo próprio juiz do inventário, predomina na doutrina o entendimento que, embora tal condenação tenha valor probatório inegável, é indispensável a provocação da exclusão em processo próprio no juízo cível.

Em sentido contrário, traz-se à colação o entendimento de Dias (2008, p. 302), que considera desnecessária a propositura da ação de conhecimento por constituir a sentença penal condenatória transitada em julgado título executivo judicial.

Devido ao seu caráter punitivo, a indignidade não pode ir além da pessoa do indigno, em face da vedação constitucional de a pena passar da pessoa do condenado (art. 5º, XLV, da Constituição Federal), sendo que, no caso da sucessão legítima, seus descendentes são convocados a receber o quinhão em nome do

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antecessor, herdando por representação, proibindo a lei de o indigno exercer o usufruto ou administração desses bens (Código Civil, art. 1.689), tampouco de herdá-los de seus descendentes (art. 1.816). Na sucessão testamentária, ocorre o direito de acrescer em favor dos herdeiros legítimos (DIAS, 2008, p. 282).

A lei não declina quem dispõe de legitimidade para a propositura da ação de indignidade, reconhecendo-se assim tal direito a qualquer interessado na sucessão: coerdeiros, legatários, donatários, credor, fisco, entre outros, questionando a doutrina a legitimidade do Ministério Público.

Nesse ponto, afirma Dias (2008, p. 289): “A posição amplamente majoritária da doutrina só reconhece a legitimidade do agente ministerial quando houver interesse público ou se o herdeiro com legitimidade para a ação for incapaz”. A jurista enxerga que a concessão de legitimidade ao Ministério Público, quando o agir do herdeiro constituir crime de ação pública incondicionada, é uma forma de harmonizar as duas correntes contrapostas. Pelo enunciado n. 116 do STJ, trazido à baila por Diniz (2010, p. 55, vol. 6), “[...] o Ministério Público, por força do art. 1.815 do novo Código Civil, desde que presente o interesse público, tem legitimidade para promover ação visando à declaração da indignidade de herdeiro ou legatário”.

Nos termos do Código Civil, art. 1.815, parágrafo único, o prazo prescricional da ação declaratória da indignidade é 4 anos, sendo que o termo inicial para a propositura da ação é a abertura da sucessão. Assim, prevê a lei que a inércia na propositura da ação simplesmente faz desaparecer as causas de exclusão e o herdeiro é contemplado com o seu quinhão hereditário, como se o ato fosse inexistente.

Ainda que o herdeiro tenha recebido a posse dos bens da herança, é necessário que os devolva juntamente com os frutos e rendimentos, tão logo transite em julgado a sentença que o declarar indigno. Nesse ponto, importa ressaltar que, não obstante o efeito retroativo da sentença, não pode ela prejudicar terceiro de boa fé, o que impõe respeito às alienações onerosas e aos atos de administração praticados em momento anterior à declaração da indignidade, não se aplicando tal regra quanto a doações e transferências gratuitas de bens (DIAS, 2008, p. 295).

Faculta a lei ao autor da herança reabilitar o indigno, desde que expressamente, ou contemplá-lo em testamento, quando, ao testar, já conhecia a causa da indignidade. Segundo Diniz (2010, p. 60, vol 6), “O direito de perdoar é privativo e formal; tem o condão de revogar os efeitos da indignidade e admitir o

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ofensor à herança, reabilitando-o”. Fazendo isso, demonstra o hereditando não ter tido abalada a confiança e afeição pelo herdeiro, ainda que culpado do fato ventilado no artigo supracitado.

Tal perdão é ato personalíssimo, devendo ser expresso e levado a efeito por testamento ou ato autêntico, assim considerada a escritura pública ou outro escrito particular firmado pelo de cujus e subscrito por testemunhas, a exemplo do codicilo (DIAS, 2008, p. 299).

À guisa de corroboração, Barbosa Filho, (1996, p. 84-85) aduz:

A expressão usada pela lei (“ato autêntico”) peca por uma certa imprecisão entre nós, originando-se do texto do art. 1.317 do “Code Napoleón”, onde significa o ato lavrado por oficial público, cuja veracidade é sempre presumida e não pode ser tomada em sentido diferente do ali adotado.[...] Inexiste, porém, a necessidade de que o ato notarial tenha a específica e exclusiva destinação de conter a declaração reabilitatória; esta pode ser inserida junto de qualquer outro negócio jurídico.

O perdão não livra o herdeiro de responder penalmente se o ato praticado é de ação pública incondicionada (DIAS, op cit, p. 290). Mas para fins de herança, é irretratável, não se invalidando se reconhecida a ineficácia do testamento em que declarado, mas apenas se este for anulado (p. 299).

Não se reconhece a forma tácita, mas a inclusão do indigno em testamento opera a reabilitação, com efeito parcial, em relação ao legado. É possível a ação de exclusão se o testamento foi elaborado antes da prática ou do conhecimento pelo testador do ato desabonador.

Venosa (2010, p. 63, vol. VII) prevê a hipótese de que o ato de remissão seja encontrado tão somente após a propositura da ação de exclusão:

No curso da ação, no caso, esta está fadada à carência. Já havendo sentença de exclusão, só uma outra ação poderá devolver ao excluído sua capacidade sucessória, com o cancelamento da pena de indignidade. O excluído, então, tem direito à herança originária e, se esta não mais existir, receberá seu valor atualizado.

É do beneficiário do perdão o ônus da prova da existência deste. Uma vez comprovado, porém, nada podem fazer os demais sucessores diante da reabilitação operada, não podendo contrariar o mérito da vontade do hereditando, cabendo discussão tão somente quanto à validade do perdão, não se permitindo, inclusive, a proposição de ação específica para declaração da indignidade (BARBOSA FILHO, 1996, p. 86).

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1.5 DA EXCLUSÃO POR HOMICÍDIO

A inteligência do inc. I do art. 1.814 da Lei Civil exclui da sucessão aquele que tiver sido autor, coautor ou partícipe de homicídio doloso, ou tentativa deste, contra a pessoa de cuja sucessão de tratar, seu cônjuge, companheiro, ascendente ou descendente. É uníssona a doutrina em reconhecer a causa aqui prevista como a mais grave de todas. Segundo Souza (2009, p. 1462), não haveria maior “[...] falta de afeição, solidariedade e gratidão para com o defunto do que o ato daquele que lhe provocou a morte”. Nas palavras de Gonçalves (2011, p. 113), é de tal manifestação de ingratidão que se origina o provérbio alemão: blutige hand nimmt

kein erbe, ou “mão ensanguentada não apanha herança”.

Também por esse prisma, Barbosa Filho, (1996, p. 28):

Nenhuma outra causa apresenta tanta gravidade e causa tanto clamor, demonstrado o total desrespeito e desprezo do indigno pela vida e pela própria pessoa do de cujus, e fazendo cessar, em princípio, qualquer laço moral justificador da sucessão.

Tamanha é a gravidade da hipótese que, preleciona Gonçalves (2011, p. 113), não se exige que o herdeiro seja autor do homicídio ou tentativa deste, sendo suficiente para comprometê-lo sua participação ou coautoria no crime. Para o autor, a instigação ao suicídio deve equiparar-se ao homicídio, para efeito de indignidade, ainda que não prevista especificamente a hipótese.

Em total corroboração com acima expendido, Dias (2008, p. 293), para quem, ainda que a lei fale em homicídio, fica excluído da herança quem comete delito contra a vida.

É requisito para que o ato homicida configure a indignidade a presença do dolo, ou seja, a prática com animus necandi, vontade de matar, independentemente do motivo que impulsione o homicida, ainda que tenha agido com intuito de apressar o recebimento da herança (SOUZA, 2009, p. 1463). Pouco importa ainda, segundo Barbosa Filho (1996, p. 29), o reconhecimento de eventual privilégio ou da incidência de qualificadoras ou circunstâncias atenuantes e agravantes.

Diniz (2010, p. 51, vol. 6) explica ainda que, justamente por ausência do referido animus,

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ou negligência, como ainda não tem cabimento no error in persona, na

aberratio ictus (CP, art. 20, § 3º); nos casos de: legítima defesa, estado de

necessidade, exercício regular de um direito, loucura ou embriaguez.

Não é outro o entendimento de Venosa (2010, p. 65, vol. VII), para quem, todavia, “Talvez pelo fato de serem parcos os casos da jurisprudência, há questões que ficam em aberto sob a rubrica ora estudada”.

1.5.1 Da dupla ilicitude e necessidade de prévia condenação criminal

Prevê o art. 186 do Código Civil, verbis: “Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”. Reputa-se ilícito, assim, o ato que, estando em desacordo com a ordem jurídica, viola direito subjetivo e causa dano, material ou moral, a alguém.

Conceito estritamente relacionado a este é o da responsabilidade jurídica, que por sua vez, apresenta-se quando houver infração de norma jurídica penal ou civil, causadora de danos que perturbem a paz social que essa norma visa a manter. Tal abrange a responsabilidade civil e a criminal, como dispõe Diniz (2010, p. 23, vol. 7), sendo que esta pressupõe uma turbação social, uma violação da norma penal, acarretando investigação tendendo à punição, enquanto a primeira requer prejuízo a terceiro, particular ou ao Estado.

Nos dizeres de Cavalieri Filho (2010, p. 14), “A separação entre uma e outra ilicitude atende apenas a critérios de conveniência ou de oportunidade, afeiçoados à medida do interesse da sociedade e do Estado, variável no tempo e no espaço”. É dizer, não obstante calcados num mesmo fundamento ético, tal divisão entre os ilícitos permite que o processo penal e o processo civil tenham objetivos bastante precisos, delimitados conforme o objeto de cada um.

Um ilícito penal pode também gerar consequências civis, a exemplo de um homicídio ou um roubo. Como pondera Venosa (2010, p. 21, vol. IV), “O mesmo ato ou a mesma conduta pode caracterizar concomitantemente um crime e um ilícito civil”, situação em que “[...] haverá duas persecuções, uma em favor da sociedade e outra em favor dos direitos da vítima”.

Esse fenômeno, abordado por Cavalieri Filho (2010, p. 14) como “dupla ilicitude”, reclama também a dupla apreciação do fato, nas órbitas correspondentes,

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e poderá culminar ainda em sanção igualmente duplicada.

É a hipótese que se apresenta, em que o homicídio do autor da herança é hábil a afastar o herdeiro que o cometeu da sucessão, após sentença declaratória de indignidade proferida por juízo cível, por força do já transcrito art. 1.814 do Código Civil, bem como a submetê-lo à sanção penal cabível pela prática do delito tipificado no art. 121 do Código Penal, após julgamento pelo órgão constitucionalmente competente: o Tribunal do Júri Popular, do qual se tratará adiante.

Inquestionável, assim, a necessidade de apreciação do ato ilícito em ambas as esferas: cível e criminal. Há, porém, certa divergência doutrinária no que tange à suspensão da ação declaratória de indignidade com fito de aguardar-se a decisão criminal.

Barbosa Filho (1996, p. 52) admite necessária a suspensão, diante da prejudicialidade da questão:

Vigente, no Direito brasileiro, o princípio da separação dos Juízos civil e criminal, vedado o exercício da ação civil no curso e em meio ao processo penal, a solução desta ação declaratória específica, quando discutida a persistência de causa de indignidade capitulada, simultaneamente, como ilícito penal, sofre as consequências de questão prejudicial externa heterogênea. A propositura da ação civil se mostra independente do ajuizamento da ação penal, mas restará afigurado caso de suspensão do processo [...] no aguardo da formação de coisa julgada penal.

Lapidar nesse sentido, com espeque no princípio constitucional da presunção de inocência, bem como no poder de interferência do resultado da ação criminal na declaração de indignidade, o entendimento expendido pelo E. Tribunal de Justiça de Minas Gerais:

EMENTA: AGRAVO DE INSTRUMENTO - AÇÃO

DECLARATÓRIA DE EXCLUSÃO DE HERDEIRO POR INDIGNIDADE - PROCESSO CRIMINAL EM CURSO - SUSPENSÃO DO PROCESSO NA ESFERA CÍVEL - POSSIBILIDADE - ARTIGO 265, INCISO IV, ALÍNEA A,DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL - QUESTÃO PREJUDICIAL - DECISÃO MANTIDA. 1 - À inteligência do artigo 265, inciso IV, alínea a, do Código de Processo Civil, suspende-se o processo quando a sentença de mérito depender do julgamento de outra causa, ou da declaração da existência ou inexistência da relação jurídica, que constitui o objeto principal de outro processo pendente. 2 - Recurso a que se nega provimento. (Processo nº 1.0024.05.700806-2/001. Relator: BATISTA FRANCO. Julgamento em 07/02/2006)

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aspectos fáticos não estiverem definidos na esfera criminal, as ações cível e penal correrão independente e autonomamente, sendo apuradas ambas as responsabilidades”. Nesse sentido, Dias (2008, p. 302), para quem a desnecessidade de condenação criminal prévia à declaração de indignidade torna descabido o pedido de suspensão do processo até a ultimação da ação penal. É o entendimento majoritário, como se vê adiante.

Souza (2009, p. 1463) afirma que a lei não exige que o indigno tenha sido condenado no juízo criminal para a declaração da indignidade pelo crime contra a vida, pois que autônomas as instâncias civil e penal, devendo a prova da indignidade ser produzida no cível, entendimento este corroborado por Dias (2008, p. 293). Contudo, explica o autor:

Há que se observar o disposto no art. 935, não se podendo questionar sobre a existência do fato, ou sobre quem seja seu autor, quando essas questões se acharem decididas no juízo criminal. Havendo condenação criminal, torna-se desnecessário novo pronunciamento judicial. Se a sentença criminal reconhecer a inexistência do fato ou que o acusado não foi seu autor, não se poderá mais questionar tais matérias no juízo civil.

Estabelecendo uma comparação entre o Direito pátrio e o Direito francês, Barbosa Filho (1996, p. 30) aduz que, diferentemente do que se verifica neste, entre nós não há a necessidade da condenação criminal, de modo que, mesmo que se tenha tornado impossível a concretização da persecução penal e a imposição de uma pena, nada impede o reconhecimento da hipótese ensejadora da sucessão, não obstante possa advir influência do julgamento de ação penal sobre ação declaratória específica.

Gonçalves (2011, p. 114) também alude ao Direito francês (art. 727, al. I), e também ao português (art. 2.034) como exemplos de exigência da condenação criminal para declaração de indignidade, ressaltando ainda que prevalece no Direito pátrio o princípio da independência da responsabilidade civil em relação à penal, que vinha representado no Código de 1.916 e segue adotado no art. 935 do vigente códex.

Diniz (2010, p. 52, vol. 6) acrescenta a esses exemplos a legislação belga, e afirma ser improcedente, no Brasil, a defesa de não ter sido ainda o apelante julgado criminalmente, visto que a prova de indignidade pode ser produzida no cível.

Rodrigues (2003, p. 68) tem por intencional a atitude do legislador brasileiro de dispensar a condenação criminal para a declaração de indignidade, “[...] pois não

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ignorava ele o problema e, deliberadamente, seguiu a orientação referida”. Lembra o autor que, quando entende necessário, o Código reclama a condenação, a exemplo dos arts. 1.521, VII e 1.637, parágrafo único. A seu ver, tal tomada de posição visava a impedir que “[...] a mão ensanguentada pela prática de um homicídio voluntário se beneficiasse com a herança da vítima”.

De todo modo, caberá ao Tribunal do Júri Popular o julgamento do crime de homicídio doloso ou tentativa deste. Necessário, nesse ponto, trazer a lume alguns aspectos da vetusta instituição e das especificidades desse julgamento, o que se faz adiante.

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2 DO TRIBUNAL DO JÚRI POPULAR

O Tribunal do Júri é de um órgão especial do Poder Judiciário, que assegura a participação popular direta nas suas decisões de caráter jurisdicional, cuidando-se de uma instituição de apelo cívico, demonstrativa da importância da cidadania e da democracia na vida em sociedade (NUCCI, 2008, p. 45). A ideia do instituto é a de que os casos importantes sejam julgados por pessoas que formam a comunidade a qual pertence o acusado, a saber, os pares do réu (ALENCAR; TÁVORA, 2010, p. 745).

O Tribunal do Júri é órgão heterogêneo, pois que formado por um juiz presidente togado e vinte e cinco jurados leigos, de que emanam decisões subjetivamente complexas. É horizontal, não havendo falar em hierarquia entre o juiz presidente e os jurados. É temporário, funcionando apenas durante alguns períodos do ano. Suas decisões são tomadas por maioria de votos, não sendo necessário, ao contrário do que ocorre no júri norte-americano, que haja unanimidade. Essas são, segundo Alencar e Távora (2010, p. 748-749), as principais características do instituto.

Os autores apresentam ainda como princípios reitores do Tribunal do Júri aqueles assentados constitucionalmente, a saber: a plenitude de defesa, o sigilo das votações, a soberania dos veredictos e a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida (p. 746).

A razão de ser do Tribunal do Júri, conforme Oliveira (2010, p. 30), decorre do princípio democrático da soberania do povo:

A existência de um Estado Democrático de Direito, se não acarreta uma revolução imediata das estruturas sociais, importa, antes de tudo, na consagração do princípio da soberania popular, segundo o qual todo o poder encontra sua fonte no povo. A vontade popular, por essa razão, corresponde a um fator determinante e princípio basilar da atuação estatal. Tem-se aí a incorporação de características novas a um modelo tradicional de Estado. No dizer de Canotilho, a teoria da soberania popular concebe a titularidade da soberania como sendo algo pertencente a todos os componentes do povo, atribuindo-se a cada cidadão em particular uma parcela dessa soberania.

A participação da sociedade justifica-se no propósito desta em reprimir as condutas criminosas, e também por já colaborar no governo elegendo seus dirigentes, na confecção das leis elegendo os parlamentares e, agora, na distribuição da justiça julgando seus semelhantes (OLIVEIRA, 2010, p. 31-37)

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A Constituição Federal (BRASIL, 1988) reconhece expressamente a instituição do júri popular, em seu art. 5º, nos seguintes termos:

XXXVIII – é reconhecida a instituição do júri, com a organização que lhe der a lei, assegurados:

a) a plenitude de defesa; b) o sigilo das votações; c) a soberania dos veredictos;

d) a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida.

Gizando as palavras de Tourinho Filho (2010, p. 54, vol. 2),

O Júri, entre nós, é um Tribunal formado de um Juiz togado, que o preside, e de vinte e cinco jurados, que se sortearão dentre os alistados, dos quais sete constituirão o Conselho de Sentença em cada sessão de julgamento. É um órgão especial de primeiro grau da Justiça Comum Estadual e Federal, colegiado, heterogêneo e temporário. Heterogêneo, porque constituído de pessoas das diversas camadas da sociedade, sem distinção de raça, etnia, credo, sexo, profissão, classe social ou econômica, origem ou grau de instrução, sendo presidido por um Juiz togado; temporário, porque pode não se reunir todos os dias ou todos os meses.

A instituição assenta-se, assim, no princípio democrático, pois confere ao indivíduo o direito de ser julgado por um de seus semelhantes, escolhidos aleatoriamente entre os cidadãos da localidade (ALEXANDRINO; PAULO, 2009, p. 151). Não compartilham desse entendimento, porém, Rangel (2007, p. 484) e Oliveira (2010, p. 39), para quem a composição do Conselho de Sentença está longe de lograr seu intento de representar integralmente o povo, por restringir-se a uma fatia da sociedade civil.

No Tribunal do Júri, as decisões são tomadas pela íntima convicção dos jurados, pessoas leigas, sem qualquer fundamentação, prevalecendo a oralidade dos atos e a concentração da produção de provas, lembra Nucci (2009, p. 740). Esse poder e responsabilidade conferidos ao jurado no exercício da função provocam o sentimento de civismo, extremamente interessante às nações que se pretendam democráticas, arremata o autor (2008, p. 41).

Sua finalidade, na lição de Capez (2011, p. 632), é a de:

Ampliar o direito de defesa dos réus, funcionando como uma garantia individual dos acusados pela prática dos crimes dolosos contra a vida e permitir que, em lugar do juiz togado, preso a regras jurídicas, sejam julgados pelos seus pares.

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para quem o traço fundamental do instituto é justamente ser uma garantia de tutela maior do direito de liberdade. Reconhece o autor serem esses pares juridicamente leigos, mas, sabendo o que é certo e o que é errado, são capazes de dizer se teriam a mesma conduta do réu. Aduz ainda que, acaso fosse de sua vontade, teria o constituinte instituído um julgamento técnico, mas não o fez:

Ficando o julgamento nas mãos da sociedade, representada por sete de seus membros, longe das peias da lei, de precedentes, súmulas e doutrina, haverá mais garantia para o direito de liberdade. Conhecendo os costumes do povo, o que ele sente em determinadas situações de valoração cultural, o fato de muitas vezes a lei estar dissociada do pensamento da sociedade, as conversas de rua, que nem sempre ou quase nunca chegam aos autos, o conhecimento que as pessoas têm das circunstâncias que antecederam o fato delituoso, a vida pregressa do cidadão [..], os jurados, mais soltos, mais libertos, sem a obrigação de dizerem como e por que votaram desta ou daquela maneira, estando assim mais à vontade, justificam a conduta do(a) acusado(a), dando asas ao seu coração, ao seu sentimento.

Quanto à natureza do instituto, Nucci (2008, p. 37) explica que direitos humanos fundamentais são materiais ou formais. “Materiais são os essenciais à existência humana, como pessoas individualizadas, cuidadas e respeitadas pelo Estado desse modo, podendo viver em liberdade, sem restrições, que não impliquem em afetação aos direitos de terceiros”. Os formais, por sua vez, consistiriam em “[...] posições subjetivas dos indivíduos previstas como tais na Constituição, ainda que não sejam fundamentais à sua existência”.

Garantias humanas fundamentais, na lição do jurista, também são materiais ou formais, sendo que as primeiras são “[...] salvaguardas instituídas pelo Estado para fazer valer um direito humano fundamental”, e as últimas “[...] são as que constam do texto constitucional, porém, se fossem extraídas, não implicariam em necessário perecimento do direito humano fundamental material”, ou seja, são instituídas por política legislativa (p. 38). Em suma, os direitos representam por si só certos bens, e as garantias asseguram a fruição desses bens.

Nessa esteira, Nucci enquadra o Tribunal do Júri como direito humano individual, consistente na participação do povo nos julgamentos (p. 40), e também como garantia humana fundamental ao devido processo legal (p. 39), sendo o autor contrário ao entendimento de ser o júri garantia à liberdade do acusado, pois que, conforme seus dizeres, “Jamais o constituinte iria criar um tribunal que garantisse a liberdade do autor de um crime contra a vida humana”. Em outra obra, o autor (2009, p. 746) questiona:

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Mas, pergunta-se: garantia a qual direito? Muitos têm sustentado, a nosso ver equivocadamente, ser uma garantia ao direito de liberdade. Fosse assim e teríamos que admitir ser o júri um escudo protetor do criminoso, que atenta contra a vida humana, o que não pode ser admissível. Além disso, é preciso destacar ser o direito à vida igualmente protegido na Constituição – tanto quanto o direito à liberdade -, de forma que o júri não poderia proteger uma pessoa, em prejuízo de outra.

Assim, têm-se o júri como uma garantia individual, precipuamente, mas também um direito individual, constituindo cláusula pétrea na Constituição Federal (art. 5º, XXXVIII e 60, § 4º, IV).

2.1 ORIGENS DO INSTITUTO

Em assonância com a lição de Carlos Maximiliano, Nucci (2009, p. 738) menciona que “As origens do instituto, vagas e indefinidas, perdem-se na noite dos tempos”.

Rangel (2007, p. 483) aduz que as primeiras notícias do instituto podem ser apontadas na Palestina, onde havia o Tribunal dos Vinte e Três nas vilas em que a população ultrapassasse as 120 famílias. Tais tribunais conheciam dos crimes puníveis com pena de morte, e eram constituídos por padres, levitas e os principais chefes das famílias de Israel.

Tourinho Filho (2010, p. 55, vol. 2) faz menção aos judices jurati, dos romanos, aos dikastas gregos e aos centeni comites, dos germanos, bem como ao Código de Alarico do ano 506, como antecedentes distantes do Júri. “Sem embargo desses antecedentes bem remotos, a doutrina dominante, entretanto, entende que sua origem remonta à época em que o Concílio de Latrão aboliu os ordalia ou Juízos de Deus”, acrescenta o autor.

Ensina ainda o doutrinador que, antes da instituição do Júri, na Inglaterra, as infrações penais graves eram reprimidas de duas formas, ambas brutais: a execução sumária, para os flagranteados, e o appeal os fenoly, consistente na submissão do acusado a duelo judiciário com a pessoa que o denunciara (p. 55).

A partir de 1166, no reinado de Henrique II, pela Lei denominada Assize of Claredon, passou a haver em cada localidade o Grand Jury, formado por 24 cidadãos, que informavam os juízes itinerantes da Coroa das pessoas acusadas ou suspeitas de infrações graves, que eram presas e submetidas a julgamento afeto à

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Divindade. Mais tarde, o Papa Inocêncio III aboliu os ordalia e proibiu os clérigos de participarem daquele julgamento, sendo que então os ingleses criaram o Petty Jury (p. 56). Havia, assim, dois Tribunais do Júri: o Grand Jury, a quem cabia dizer se o acusado devia ou não ir a julgamento, e o Petty Jury, a quem era remetido em caso positivo.

Com a Revolução Francesa a instituição foi levada para a França, tendo sido posteriormente substituído o Grande Júri pela figura do Juiz togado. De lá, o Júri espalhou-se por quase toda a Europa (TOURINHO FILHO, 2010, p. 57, vol. 2)

Nucci (2009, p. 738) traz à memória o fato de que, à época, o Poder Judiciário não era independente, “[...] motivo pelo qual o julgamento do júri impunha-se como justo e imparcial, porque produzido pelo povo, impunha-sem a participação de magistrados corruptos e vinculados aos interesses do soberano”. De fato, não havendo independência efetiva dos juízes, melhor seria que a justiça fosse feita pela própria sociedade. Na mesma esteira, Rangel (2007, p. 484-486):

Nesse sentido, não há dúvida do caráter democrático da instituição do tribunal do júri que nasce, exatamente, das decisões emanadas do povo, retirando, das mãos dos magistrados comprometidos com o déspota, o poder de decisão. [...] Percebam que o júri nasce e se desenvolve com o escopo de frear o impulso ditatorial do déspota, ou seja, retirar das mãos do juiz, que materializava a vontade do soberano, o poder de julgar, deixando que o ato de fazer justiça fosse feito pelo próprio povo.

O júri nasceu no Brasil na Lei de 18 de julho de 1822, antes, portanto da independência e da primeira Constituição brasileira, e ainda sob o domínio português, mas sob forte influência inglesa. No entanto, como lembra Rangel (2007, p. 488), era apenas para os crimes de imprensa, e os jurados eram eleitos. A Constituição de 1824 estendeu-o às causas cíveis e criminais, muito embora, ao ver de Tourinho Filho (2010, p. 57, vol. 2), nunca houvesse funcionado nesses feitos.

O Código de Processo Criminal do Império, de 1832, porém, atribuiu à instituição o julgamento de quase todas as infrações, criando o Jury de Accusação, “[...] formado de vinte e três jurados, cuja finalidade era pronunciar os investigados, investigação que ficava a cargo dos Juízes de Paz”. O julgamento, porém, era realizado perante o Jury de Sentença, formado de doze jurados, como ensina Rangel (2010, p. 488).

Com a reforma de 1841, transferiu-se a função de investigar aos Chefes de Polícia, Delegados e Subdelegados, e aboliu-se o Jury de Accusação, ficando a

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pronúncia a cargo dos Juízes Municipais.

Há que se notar a correlação apresentada por Rangel (2007, p. 496) quanto à simbologia que envolveu o instituto, sobretudo quanto à sua composição prevista no Decreto 828, de 11 de outubro de 1890. Para o autor, a presença de doze jurados aludia aos apóstolos de Cristo:

No sentido de que nos jurados está representada a máxima de que eu sou

o caminho, a verdade e a vida, acima de mim não existe nenhuma outra verdade. Ninguém chegará ao Pai se não através de mim. Muitos serão chamados e poucos escolhidos. Em outras palavras, a verdade será aquela

decidida pelos jurados, independentemente do que as partes possam alegar. Os jurados simbolizam a paz e a harmonia entre os homens, pois são os iguais decidindo o que os outros iguais querem para a sociedade. Deus é a verdade suprema. Os jurados também simbolizam a verdade suprema e, por isso, suas decisões são soberanas. (grifos do autor)

A Constituição brasileira de 1937 deixou de trazer o Tribunal do Júri em seu corpo, levando a crer que havia sido extinto. Em 5 de janeiro de 1938, porém, foi promulgado o Decreto-lei nº 167, regulando a instituição do júri, que reduziu o número de jurados para sete e extinguiu a soberania dos veredictos.

“A instituição do Júri, no mundo de hoje, vem perdendo a importância que teve em outras épocas”, conclui Tourinho Filho (2010, p. 59, vol. 2), ao verificar que, na Europa continental, apenas a Bélgica, a Espanha e alguns Cantões da Suíça a admitem. Assim também Austrália, África do Sul, Inglaterra, Estados Unidos e Brasil, único país sul-americano a admitir o instituto.

2.2 DO SISTEMA DA CERTEZA MORAL DO JUIZ OU ÍNTIMA CONVICÇÃO

O Júri decide por sua livre e natural convicção, não estando obrigado a decidir pelas provas do processo, contra os impulsos da consciência. Os jurados têm inteira liberdade para julgar, sem ficar adstritos à lei e à prova. Assim é pois nos julgamentos pelo Tribunal do Júri, de certa forma, vigora o sistema da certeza moral do juiz ou íntima convicção; é dizer, em que pese o caráter soberano da decisão dos jurados, encontram-se eles absolutamente livres para decidir, despidos de quaisquer amarras, estando dispensados de motivar as decisões.

Jurados decidem de acordo com a sua consciência e não segundo a lei. Aliás, é esse o juramento que fazem (art. 427, CPP), em que há a promessa de seguir a consciência e a justiça, mas não as normas escritas e

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muito menos os julgados do país. (NUCCI, 2008, p. 32)

Assim, nas palavras de Alencar e Távora (2010, p. 368), o jurado “[...] pode utilizar o que não está nos autos, trazendo ao processo seus pré-conceitos e crenças pessoais. A lei não atribui valor às provas, cabendo ao magistrado total liberdade”.

Oliveira (2010, p. 40) critica a desmotivação das decisões dos jurados, fazendo correspondência com uma irresponsabilidade política: “É como se um deputado não respondesse pelo projeto de lei de sua autoria perante o seu eleitorado ou se um administrador público não suportasse as consequências de uma obra de engenharia mal executada”. Para o autor, as tendências ideológicas dos jurados permanecerão sempre uma incógnita, “[...] tanto para o acusado, como para o defensor, o juiz presidente, o próprio réu e, também, para a sociedade”.

2.3 DA SOBERANIA DOS VEREDICTOS

O soberano, no conceito de Nucci (2009, p. 740), “[...] é aquele que detém a autoridade máxima, sem qualquer contestação ou restrição”. A soberania dos veredictos expressa a ideia, então, “[...] da impossibilidade de uma decisão calcada em veredicto dos jurados ser substituída por outra sentença sem essa base” (TOURINHO FILHO, 2010, p. 69, vol. 2).

É a soberania dos veredictos um preceito constitucional fundamental (art. 5º, XXXVIII, “c”, da Constituição Federal). Para Alencar e Távora (2010, p. 747), ela alcança o julgamento dos fatos, pois que os jurados julgam os fatos, que não poderão ser modificados pelo juiz togado ou pelo tribunal que venha a apreciar um recurso.

Leciona Capez (2011, p. 633) que “[...] a soberania dos veredictos implica a impossibilidade de o tribunal técnico modificar a decisão dos jurados pelo mérito”. O autor explica ainda que tal princípio é relativo, porquanto não pode obstar o princípio informador do processo penal, qual seja, a busca da verdade real (p. 634).

No entender de Nucci (2008, p. 31), a análise da soberania dos veredictos torna-se, ao mesmo tempo, uma questão simples e complexa:

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é a última palavra, não podendo ser contestada, quanto ao mérito, por qualquer tribunal togado. É, entretanto, complexo, na medida em que se vê o desprezo à referida supremacia da vontade do povo em grande segmento da prática forense. Muitos tribunais togados não se têm vergado, facilmente, à decisão tomada pelos Conselhos de Sentença. Alguns magistrados procuram aplicar a jurisprudência da Corte onde exercem suas funções, olvidando que os jurados são leigos e não conhecem – nem devem, nem precisam – conhecer a jurisprudência predominante em tribunal algum. O autor critica, principalmente, a possibilidade de, em sede de revisão criminal, ingressar-se no mérito e desprezar a decisão soberana do povo (p. 32). Pouco interessa, segundo ele, o conhecimento jurídico de qualquer magistrado; a vontade popular precisa ser acatada, sob o risco de se atingir a própria democracia: “Imagine-se o Tribunal Eleitoral julgando se o povo escolheu bem ou mal o candidato eleito a Prefeito, Governador ou Presidente da República? Seria consagrar uma inversão de valores inaceitável” (p. 33).

Ademais, defende ele a ideia de não haver princípios absolutos ou supremos, devendo haver composição entre todos, mormente os que possuem status constitucional, com fito de assegurar a submissão da decisão do Tribunal do Júri ao duplo grau de jurisdição (p. 367).

Tal não se apresenta na Inglaterra, onde as decisões absolutórias continuam soberanas, mas na apelação do réu, para se diminuir a pena, pode a Court of Criminal Appeal até mesmo reformar a sentença in pejus, segundo Rangel (2007, p. 497).

No Brasil, experimentou-se algo semelhante com a promulgação do Decreto-lei nº 167, já mencionado, que, como lembra o autor (p. 499), trazia uma grande inovação: o veredicto dos jurados deixava de ser soberano, “[...] admitindo a apelação da decisão dos jurados desde que houvesse injustiça da decisão por sua completa divergência, com as provas existentes nos autos ou produzidas em plenário”, podendo o Tribunal de Apelação aplicar a “pena justa” ou absolver o réu. O autor considera que Júri sem soberania não é Júri, e que a retirada desta seria um golpe de morte numa instituição popular democrática (p. 502).

2.4 DO PROCEDIMENTO DO JULGAMENTO POPULAR

Malgrado o entendimento de Nucci (2008, p. 46 e ss.), que visualiza no procedimento especial do Tribunal do Júri três fases, pois que considera autônoma a

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