Na lição de Tourinho Filho( 2010, p. 966, vol. 1), “Sentença absolutória é aquela em que o Juiz rechaça a pretensão punitiva deduzida na peça acusatória”.
Há casos em que tal sentença também tem força vinculativa sobre a instância cível, vale dizer, eficácia de coisa julgada, conforme o fundamento da absolvição. Daí se extrai a importância de tal fundamentação:
A indicação do motivo na sentença é importantíssima, pois ela demarca os efeitos que dela decorrerem. […] Em outras palavras, as hipóteses de reconhecimento de inexistência do fato e de negativa de autoria fazem coisa julgada na esfera cível, impedindo que o suposto ofendido ou o Estado tome providências contra o réu através de ação indenizatória ou de providência disciplinar respectivamente. (ALENCAR; TÁVORA, 2010, p. 672-673)
É cabível, inclusive, apelação do réu absolvido para fins de alteração do fundamento da sentença. Nesse sentido, Jesus (2010, p. 331) e Capez (2011, p. 523)
Pois bem. Reza o art. 386 do respectivo Código de Processo (BRASIL, 1941), verbo ad verbum:
Art. 386. O juiz absolverá o réu, mencionando a causa na parte dispositiva, desde que reconheça:
I – estar provada a inexistência do fato; II – não haver prova da existência do fato; III – não constituir o fato infração penal;
IV – estar provado que o réu não concorreu para a infração penal; V – não existir prova de ter o réu concorrido para a infração penal;
VI – existirem circunstâncias que excluam o crime ou isentem o réu de pena (arts. 20, 21, 22, 23, 26 e § 1o do art. 28, todos do Código Penal), ou mesmo se houver fundada dúvida sobre sua existência;
VII – não existir prova suficiente para a condenação.
Tourinho Filho (2010, p. 966, vol. 1) defende ser numerus clausus esse rol causas que autorizam a declaração de improcedência da acusação. Em sentido contrário, Capez (2011, p. 522), que menciona a costumeira absolvição por estar provada a inexistência do fato, antes mesmo do advento da Lei n. 11.690/2008, que incluiu essa nova hipótese ao rol legal do artigo acima reproduzido.
Na dicção do art. 66 do Código de Processo Penal: “Art. 66. Não obstante a sentença absolutória no juízo criminal, a ação civil poderá ser proposta quando não tiver sido, categoricamente, reconhecida a inexistência material do fato”. É dizer, apesar da separação da jurisdição, o reconhecimento categórico da inexistência material do fato impede a propositura da ação civil.
Assim, na lição de Alencar e Távora (2010, p. 212 a 214), em consonância com o magistério de Nucci (2009, p. 185), não produzem coisa julgada no cível,
possibilitando ação de conhecimento para apurar culpa:
a) não haver prova da existência do fato, não existir prova de ter o réu concorrido para a infração penal ou não existir prova suficiente para a condenação: se a debilidade probatória levou à absolvição, em respeito ao princípio do in dubio pro reo, nada impede que se renove a discussão na esfera cível;
b) não constituir o fato infração penal: o fato praticado pode não estar enquadrado na tipificação penal, mas constituir ilícito civil, não trancando- se assim as portas da ação indenizatória;
c) por excludente de culpabilidade e algumas de ilicitude, como se verá adiante;
d) decisão de arquivamento de inquérito policial ou peças de informação; e) decisão de extinção de punibilidade, previstas no art. 107 do Código
Penal.
Em todas essas questões o juiz penal não fechou questão em torno de o fato existir ou não, nem afastou, por completo, a autoria em relação a determinada pessoa, assim como não considerou lícita a conduta, razão pela qual nada impede que na esfera cível reste provada a ocorrência do delito e a obrigação indenizatória dele decorrente.
De outro norte, faz coisa julgada no cível a absolvição por estar provada a inexistência do fato ou estar provado que o réu não concorreu para a infração penal. Reabrir-se o debate dessas questões na esfera civil, possibilitando decisões contraditórias, é justamente o que quis a lei evitar. É o que se conclui da conjugação dos arts. 935 do Código Civil e 65 do Código de Processo Penal. Nesse sentido, Cavalieri Filho (2010, p. 545):
O fato não pode existir no cível e inexistir no crime; o réu não pode ser considerado o seu autor no Cível se a Justiça Criminal já declarou que ele não foi o autor. Se assim não fosse, haveria colidência de decisões, incompatível com a lógica e a justiça. Se o fato é o mesmo, repita-se, a boa realização da justiça impõe que a verdade sobre ele também seja una.
Reza ainda o Código de Processo Penal, ad litteram:
Art. 65. Faz coisa julgada no cível a sentença penal que reconhecer ter sido o ato praticado em estado de necessidade, em legítima defesa, em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de direito (BRASIL, 1941).
As quatro excludentes de ilicitude mencionadas são excludentes genéricas, previstas na Parte Geral do Código Penal, e servem pra afastar, quando reconhecidas, a antijuridicidade do fato típico, não cabendo mais ao juiz cível, a princípio, debater a respeito.
Para Tourinho Filho (2010, p. 248, vol. 1), porém, houve excesso de linguagem na redação do dispositivo, dizendo o legislador mais do que queria. Entende o autor que tal não significa que a sentença penal que reconheça uma dessas excludentes de ilicitude impeça a propositura da ação civil, e sim que essas afirmações não mais podem ser contraditadas no cível, ficando subordinadas ao que dispuser a legislação de Direito Privado.
É que, como complementa Capez (2011, p. 212):
Há duas exceções a essa regra: no estado de necessidade agressivo, onde o agente sacrifica bem de terceiro inocente, este pode acioná-lo civilmente, restando ao causador do dano a ação regressiva contra quem provocou a situação de perigo (f. arts. 929 e 930, caput do CC); na hipótese de legítima defesa, onde, por erro na execução, vem a ser atingido terceiro inocente, este terá direito à indenização contra quem o atingiu, ainda que este último estivesse em situação de legitima defesa, restando-lhe apenas a ação regressiva contra seu agressor (cf. parágrafo único do art. 930 do CC).
Para Diniz (2010, p. 52 e 53, vol. 7), por fim, a absolvição do acusado pelo reconhecimento de uma excludente de criminalidade impede o questionamento do fato no âmbito cível, visto produzir tal sentença criminal coisa julgada em relação aos efeitos lá produzidos.