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O
s dados apresentados nessa edição especial do Anuário revelam que, entre 2018 e 2021, as mortes violentas intencionais no Mato Grosso do Sul tiveram variação negativa de 3,4%, com taxas de mortes por 100 mil habitantes de 21,5 em 2018 e 20,7 em 2021. Em termos absolutos, foram 590 mortes em 2018 e 589 em 2021. Esses dados colocam o estado com a 6ª menor taxa de mortes violentas intencionais no país em 2021. A quase totalidade dessas mortes ocorreu por homi-cídio doloso, com taxas de 19,9 em 2018 e 19,8 em 2021, com variação negativa de apenas 0,2%. Em termos absolutos, foram 546 homicídios em 2018 e 563 em 2021.Os indicadores de latrocínios tiveram uma redução mais significativa, com variação negativa de 65%, caindo de 36 em 2018 para 13 em 2021, e as mortes decorrentes de intervenções policiais também reduziram 19,6%, o que se explica por uma redu-ção significativa em 2020, ano marcado por períodos de maior isolamento social em decorrência da pandemia da Covid-19. Apenas as lesões corporais seguidas de morte aumentaram 57,3%, passando de 8 em 2018 para 13 em 2021.
Apesar da redução nesses indicadores, ainda não se pode falar em tendências gerais de redução das mortes violentas intencionais em Mato Grosso do Sul, especialmente em relação aos homicídios. Daí a importância de identificar e qualificar os públicos mais vulneráveis às mortes violentas no estado, de forma especial as mulheres e os indígenas que, em geral, são menos destacados nas análises dos indicadores de segurança pública.
As 537 mortes de mulheres, registradas entre 2018 e 2021, colocam Mato Gros-so do Sul na primeira posição entre os estados com maiores taxas de homicídio feminino, bem como na segunda posição em taxas de feminicídio (BUENO, et al., 2021, p. 95). Do total de mortes de mulheres, 27,9% foram classificadas como feminicídios, e apesar da redução de 15,7% nos registros desse crime no período, os dados permanecem alarmantes, sobretudo se considerarmos, tam-bém, o aumento de registros das chamadas 190 – violência doméstica (161,1%), das medidas protetivas de urgência distribuídas (26,4%) e concedidas (9,7%).
Em contraste com os 27 feminicídios registrados em 2017, os números cresce-ram substancialmente nos anos seguintes, com 42 em 2018, 30 em 2019, 41 em 2020 e 37 em 2021. Os registros de estupro e estupro de vulnerável também
aumentaram, passando de 2.283 em 2018 para 2.455 em 2021, números que ainda podem estar subestimados em função da pandemia da Covid-19, como apontado no Anuário 2021 (BUENO, et al., 2021, p. 93).
No que se refere à violência contra os povos indígenas, enquanto os índices de homicídios no Brasil caíram na última década, a taxa de homicídios de indí-genas aumentou, passando de 15/100 mil em 2009 para 23,9/100 mil em 2018.
E mesmo reduzindo para 18,3/100 mil em 2019, manteve-se acima da taxa de 2011 que era de 14,9/100 mil. Em Mato Grosso do Sul, que conta a segunda maior população indígena do país, não foi diferente, e a taxa de homicídios de indígenas em 2019 foi de 44,8/100 mil, muito superior à taxa de homicídios para o estado que foi de 17,7/100 mil (CERQUEIRA et al., 2021, p. 83-84), o que demonstra a situação de vulnerabilidade dos indígenas em Mato Grosso do Sul.
Corroborando com esses dados, o Relatório Violência contra os Povos Indíge-nas aponta que 113 indígeIndíge-nas foram assassinados no Brasil em 2019, número menor que os 135 registrados em 2018. Contudo, essa redução também não ocorreu no Mato Grosso do Sul, que passou de 38 homicídios em 2018 para 40 em 2019, ano em que o estado liderou o ranking nacional com 35,4% dos homicídios de indígenas no país (CIMI, 2020, p. 7). Analisando os relatórios an-teriores do CIMI, constata-se que, depois de registrar 41 homicídios em 2014, houve queda significativa nos três anos seguintes, até voltar a subir novamente em 2018 e 2019 para o mesmo patamar de 2014.
No que se refere aos crimes patrimoniais, destaca-se a redução de 31,2% nos registros de roubo e furto de veículos entre 2018 e 2021. Contudo, pela rela-ção direta com os homicídios, o aumento do registro de armas de fogo é outro indicador relevante a ser destacado. Ao mesmo tempo em que a apreensão de armas de fogo reduziu 16,4% no estado, os registros ativos dessas armas na Polícia Federal aumentaram 52%, passando de 16.217 em 2019 para 24.645 em 2021. Esse crescimento expressivo certamente tem relação com a flexibi-lização do acesso às armas de fogo que ganhou evidência nos últimos anos.
Desde 2019, de acordo com Atlas da Violência 2021, foram editados mais de
trinta decretos, portarias e projetos de lei com o objetivo de ampliar o acesso da população às armas e munições. (CERQUEIRA et al., 2021, p. 59)
Finalmente, e não menos importante, os índices de encarceramento no estado in-dicam que, embora o número de presos sob custódia da polícia e de adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de meio fechado tenha reduzido, o número de presos no sistema penitenciário aumentou 30,8% no período, passando de 15.011 em 2018 para 20.787 em 2021. E se o número de vagas cresceu 26,6%, o déficit de vagas também cresceu 57%. No total de pessoas privadas de liberdade, a taxa por 100 mil habitantes passou de 566,9 em 2018 para 741,7 em 2021, dados que colocaram Mato Grosso do Sul, em 2019 e 2020, no terceiro lugar entre os es-tados com maior taxa de encarceramento no país, taxas superiores às do Brasil, que foram de 359,4 em 2019 e 358,7 em 2020. (ANUÁRIO 2021, p. 192)
Considerando as várias dimensões envolvidas nesses indicadores, é preciso reconhecer que, apesar da ampliação das despesas per capita com a segu-rança pública no estado, que passou de R$ 521,55 em 2018 para R$ 548,84 em 2021, os desafios para melhorar os indicadores pressupõem mudanças na formulação e aplicação de políticas públicas de segurança, no sentido de ar-ticular cada vez mais a segurança pública com a garantia dos direitos huma-nos, considerando especialmente as desigualdades étnico-raciais e de gênero existentes no estado, bem como o alto índice de encarceramento que atinge principalmente os mais jovens.
Em síntese, caracterizado pela forte vinculação ao agronegócio e pelos proble-mas sociais e ambientais daí advindos, bem como por estar situado em uma região de fronteira que impacta diretamente nos números de apreensão de drogas e de prisões, Mato Grosso do Sul também está fortemente marcado pela violência contra grupos vulneráveis. Assim, a questão da fronteira no es-tado precisa ser pensada para além dos limites geográficos que separam o Brasil de países vizinhos, mas também a partir das fronteiras internas - físicas e simbólicas - que confinam e submetem indígenas e mulheres às mais variadas formas de violência. Um problema, também, de segurança pública.
REFERÊNCIAS
BUENO, S., BOHNENBERGER, M. e SOBRAL, I. Anuário Brasileiro de Seguran-ça Pública 2021. Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2021.
CERQUEIRA, D. et al. Atlas da Violência 2021. São Paulo: FBSP, 2021.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segu-rança Pública 2021. São Paulo: FBSP, 2021.
HOMICÍDIOS DOLOSOS 563 pessoas
foram assassinadas
em 2021 Variação de - 0,2%
em relação a 2018
MORTES VIOLENTAS INTENCIONAIS (MVI) 589pessoas foram vítimas de MVI em 2021, taxa de 20,7
por 100 mil habitantes
MVI 2018-2021
2018 590
482
607 589
2020
2019 2021
6ª menor
taxa de MVI do país em 2021
Queda de
3,4% em
relação a 2018
VITIMIZAÇÃO POLICIAL Nenhum policial
assassinado em 2021
LETALIDADE DAS POLÍCIAS 44 mortes decorrentes de intervenções policiais
em 2021 Queda de 19,6%
em relação a 2018
LESÃO CORPORAL SEGUIDA DE MORTE 13 vítimas
em 2021 57,3%
a mais que em 2018
PESSOAS DESAPARECIDAS 1.221
registros em
2021 Taxa 24,6%
menor que em 2018
LATROCÍNIO 13 vítimas
em 2021 Queda de 65%
no período 2018-2021
VIOLÊNCIA CONTRA PÚBLICOS VULNERÁVEIS
466 registros de Lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica contra crianças e adolescentes
Queda de
13,4% em
relação a 2020
84 mulheres vítimas de homicídios em 2021
Queda de
14,8%
na taxa de feminicídios em relação a 2018
37 desses
foram feminicídios
888 registros de maus tratos contra crianças e adolescentes em 2021
Alta de 9,5%
entre 2020 e 2021
2.455 registros de estupro e estupro de vulnerável em 2021
Alta de 4,1% no
período 2018-2021
12.824 medidas
protetivas distribuídas e 10.896 medidas
protetivas concedidas em 2021
13.595 chamadas
190 com a natureza Violência doméstica em 2021
4.535 registros de Lesão corporal dolosa - violência doméstica em 2021
Queda de 13,9%
em relação a 2018
ARMAS DE FOGO
Queda de 16,4%em
relação a 2018
585 armas
apreendidas em 2021
24.645 armas com registros ativos no SINARM em 2021
Aumento de 52%
em relação a 2019
24.469 armas de fogo com registros expirados no SINARM em 2021
CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO 3.387 veículos furtados ou roubados em 2021
Queda de 31,2%
em relação a 2018
SISTEMA PRISIONAL E SOCIOEDUCATIVO 20.787 pessoas
privadas de liberdade em 2021
Alta de
30,8% em
relação a 2018
271 sob custódia das polícias
23,7% dos
presos são provisórios
145 adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa em meio fechado
Déficit de 9.147
vagas no sistema penitenciário em 2021
43,4% a menos
que em 2018
7.614 pessoas
privadas de liberdade estavam envolvidas em atividades laborais em 2021
Alta de 48,1%
em relação a 2020 DESPESAS COM A FUNÇÃO
SEGURANÇA PÚBLICA EM 2022 R$ 1.558.254.282,69
gastos pelo Estado em 2021
R$ 548,84 gasto
per capita em 2021 Alta de 5,2%
em relação a 2018
EFETIVOS E REMUNERAÇÕES DAS POLÍCIAS EM 2022
Polícia Penal:
1.912 Remuneração bruta média:
R$ 7.090,86
Polícia Militar:
5.335
Remuneração bruta média Soldado:...
Coronel:...
Polícia Civil:
1.923
Remuneração bruta média Investigador:R$ 9.199,14
Delegado:R$ 27.577,30
Perícia Técnica:
309
Remuneração bruta média Perito criminal: R$ 16.733,62
Médico legista:R$ 7.640,44
ESPECIAL 2022
de Segurança PúblicaAnuário Brasileiro
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