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Segurança Pública no Amazonas

No documento ESPECIAL ELEIÇÕES 2022 (páginas 55-59)

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os últimos anos, o Amazonas ganhou visibilidade nacional no tema da se-gurança pública. Dois massacres prisionais (2017 e 2019) chamaram aten-ção para a presença de facções criminosas e do tráfico internacional de drogas.

Recentemente, essa presença foi conectada a violências associadas a outros mercados ilegais, como madeira, pesca, terra e minério.

Essa visibilidade oculta uma história mais antiga. Há décadas a região amazô-nica é rota do tráfico internacional de drogas. Um mercado atravessado por violências menos espetaculares e menos presente no varejo. Já as violências do garimpo e da extração de madeira são denunciadas há mais tempo, por povos e organizações indígenas. Ao mesmo tempo, a demarcação de terras indígenas, de territórios tradicionais e de proteção ambiental tornou as frontei-ras do legal-ilegal mais tensas em atividades de garimpo, pesca e extração de madeira. Todos esses mercados se articulam, de modos mais ou menos letais, através da exploração de uma “baixa criminalidade” (composta por pessoas pobres, negras, indígenas, ribeirinhas e das periferias urbanas) por uma “alta criminalidade” protagonizada por elites econômicas, políticas e criminais.

A emergência de facções foi uma novidade importante nesses mercados. A famosa Família do Norte (FDN) surgiu nos anos 2000 como uma coligação de traficantes atuantes no tráfico internacional na tríplice fronteira Brasil-Peru-Co-lômbia e num pequeno varejo local em Manaus. Sua criação adveio do rear-ranjo de alianças não apenas no universo criminal, como dentro das polícias e das elites políticas, justamente quando o encarceramento ganhou força na gestão cotidiana dos ilegalismos. Trata-se da criação de um meio propício à organização criminal e também de uma tática produtora de novas violências no mercado de drogas e outros mercados ilegais.

O que ocorreu no Amazonas é fruto de mais uma variação dessas tensões. Sal-tamos de uma taxa de mortes violentas intencionais (MVI) de 30,2 por 100 mil habitantes em 2018 para 39,1 em 2021, um crescimento de 29,3%, apesar de quedas no biênio 2019-2020. Também chama atenção a distribuição territorial:

em 2018, as mortes violentas no interior eram 18% do total e chegaram a 30%

em 2020. Muitos estudos têm mostrado a relação dessas oscilações com con-flitos entre facções (SIQUEIRA et al, 2022; FELTRAN et al, 2022). Porém, esse crescimento de mortes violentas ocorre no momento mesmo da “união” de coletivos criminais em torno do Comando Vermelho (CV), em fevereiro de 2020.

A criação de uma nova facção rival, a Revolucionários do Amazonas (RDA), em 2021, explica uma parcela desse aumento. Na tríplice fronteira Brasil-Peru-Co-lômbia, o conflito com a facção Os Crias também pode ter participação no cres-cimento. Mas, juntos, esses conflitos, ainda muito localizados e pontuais, não parecem ter força para explicar todo o crescimento.

Por isso, é importante notar que a curva decrescente de mortes violentas em 2019 e 2020 é acompanhada por um salto de mais de 200% de registros de pessoas desaparecidas em 2019 (o maior do país naquele ano), mantendo um crescimento acumulado de quase 50% em 4 anos. Em outros lugares que vi-venciaram esse fenômeno, uma hipótese forte refere-se a mudanças nas for-mas de ação criminal e policial (ARAÚJO, 2014)1.

Ao lado disso, temos o aumento de quase 100% de mortes decorrentes de intervenção policial, que ocorre justo no momento em que o universo criminal se unifica, ampliando seu armamento e as tensões com as polícias. O que se expressa, também, no salto da quantidade de policiais mortos em confronto de 1 para 7 entre 2019 e 2020. Sabe-se bem o que pode significar a morte de poli-ciais no Brasil. No Amazonas, há duas chacinas em investigação ocorridas após a morte de policiais em Nova Olinda do Norte (2020) e em Tabatinga (2021), além da “chacina do Crespo”, em Manaus, a maior do Brasil em 20192.

Um acontecimento determinante na amplificação das tensões entre facções e polícias foi a consolidação da Polícia Militar na administração penitenciária do estado – talvez a consequência mais perversa do massacre do Compaj em 2017. No relatório da inspeção realizada em outubro de 2019 em Manaus, o Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura afirmou que todas as

1 Ver também boletim de 2021 do IDMJR, sobre o tema. Disponível em: https://dmjracial.com/wp-content/uploads/2021/08/Boletim-Desaparecimentos-Forca-dos-2021-3-2.pdf

2 Para mais informações: http://www.portal.abant.org.br/2021/07/13/nota-sobre-a-chacina-em-tabatinga-no-amazonas/

unidades prisionais visitadas estavam “orientadas sob uma mesma perspectiva de humilhação, violação de direitos e violência, travestido de ‘disciplinamen-to e segurança’”3. A mudança no regime de tortura foi acompanhada por um aumento de 35% da população carcerária em 4 anos. Com um detalhe impor-tante: a queda do número de pessoas presas dentro das unidades prisionais de Manaus (que concentram cerca de 75% do total estadual) e o acréscimo do número de pessoas em regime semiaberto ou em prisão provisória sob monito-ramento eletrônico (tornozeleiras), cerca de 40% da população carcerária atu-al4. A união ao redor do CV foi, em grande medida, uma resposta a uma política penitenciária de tortura intensificada e a mudanças na atuação policial nas ruas com relação a egressos do sistema carcerário (CANDOTTI, 2022).

Sobre essa tensão ainda, em junho de 2021, Manaus e outras cidades do Ama-zonas vivenciaram pela primeira vez “ataques” de uma facção a delegacias, ban-cos, comércios, ônibus e monumentos. Segundo um “salve” lançado pelo CV, os ataques foram uma resposta ao assassinato de um traficante, que estaria sendo extorquido por uma “milícia” policial montada para roubar drogas e ouro de tra-ficantes. Um mês depois, o secretário executivo de Inteligência do Amazonas foi detido em operação da Polícia Federal em parceria com o MP do estado, acusado de utilizar a máquina estatal para roubar ouro de garimpos ilegais5.

Sendo verídicas ou não as acusações, é necessário compreender os tensio-namentos recentes entre o universo faccional e as forças de segurança do Es-tado se queremos entender as variações nas informações quantitativas sobre crimes e violências. As facções não nascem e crescem antes dessas relações de força, mas através delas e de um mercado de venda de “proteção”, onde representantes do Estado são personagens centrais. A entrada das facções em mercados ilegais de garimpo, madeira e pesca, não surpreende, ainda mais no momento em que a fiscalização sobre essas atividades foi institucionalmente enfraquecida. Mas essa novidade pode decorrer tanto de um acúmulo de

capi-3 Disponível em: https://mnpctbrasil.files.wordpress.com/2020/05/relatorio-amazonas-pos-massacres-2019-2.pdf 4 Disponível em: https://www.gov.br/depen/pt-br/servicos/sisdepen

5 Conforme reportagem disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/07/chefe-da-inteligencia-do-governo-do-am-e-preso-em-operacao-con-tra-roubo-de-ouro-ilegal.shtml

tal gerado com o tráfico de drogas, quanto em função de maiores dificuldades encontradas com essa mesma atividade.

A participação de homens armados (fardados ou não) em mercados ilegais e em violências contra grupos subalternos remete a uma história antiga. A demanda por maior presença policial e militar na Amazônia reproduz um ima-ginário colonial que nega a história de violências produzidas pelo próprio Estado, inclusive contra mulheres indígenas. O aumento da presença de ins-tituições de Segurança Pública e Defesa Nacional não tem conduzido à dimi-nuição de homicídios – como bem estudado no caso exemplar de Tabatinga (HIRATA, 2019; PAIVA, 2019). É preciso assumir que não há solução mágica e que o tema merece investimentos em pesquisa à altura do problema e da diversidade social da região. A descriminalização do comércio de drogas e políticas rigorosas de desencarceramento e de desarmamento são passos mínimos; articulações com organizações políticas de base, da floresta e da cidade, uma condição necessária.

No documento ESPECIAL ELEIÇÕES 2022 (páginas 55-59)