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O documento de arquivo digital

No documento WANDERSON MONTEIRO DA SILVA (páginas 31-35)

3 DOCUMENTO DE ARQUIVO EM AMBIENTE DIGITAL: ESPECIFI-

3.1 O documento de arquivo digital

Antes de abordamos o conceito de documento de arquivo digital faz-se necessário, primeiramente, compreender o que é um objeto digital.

Um objeto digital pode ser uma “Unidade de informação em formato digital composta de uma ou mais cadeia de bits e de metadados que a identificam e descrevem suas propriedades” (CONARQ, 2020, p. 37). Ou ainda, “Uma unidade de informação que inclui propriedades (atributos ou características do objeto) e pode incluir métodos (meio de executar operações no objeto) (PEARCE-MOSES, 2005, p. 117, tradução nossa). É interessante complementar que o conceito de objeto digital é oriundo da programação orientada a objetos, podendo ser de natureza simples ou complexa e que, de uma forma geral, trata-se de uma abstração que se refere a qualquer tipo de informação.

Ferreira (2006), ao argumentar sobre os objetos digitais, contextualiza as camadas de abstração envolvidas em sua constituição, as quais fazem parte do processo de compreensão que envolve sua preservação digital. Estas camadas são também entendidas como níveis, conforme representação da Figura 1.

Figura 1: Camadas de Abstração de um Objeto Digital

Fonte: Ferreira (2006)

O autor divide o objeto digital em níveis, os quais são: físico, lógico e conceitual. No nível físico temos os hardwares, que transportam consigo os dados que serão reproduzidos e manifestados, o nível lógico trata-se do software que irá fazer a leitura de determinado formato e a imagem formada e visualizada pelo receptor se constitui como o nível conceitual, que deve ser preservado (FERREIRA, 2006). Com isso, sigamos para a interpretação de documento.

A noção de documento no campo da Arquivologia e da Ciência da Informação possui inúmeras discussões. Autores como Buckland (1997), Ortega (2010) e Briet (2016) são destaques no campo da Ciência da Informação ao conceituarem o que seria um documento.

Briet (2016) considera que qualquer objeto pode ser considerado um documento. O exemplo mais famoso é o de um antílope em um museu, o qual segundo a autora pode transmitir inúmeras informações.

Desta forma, pode-se inferir em uma compreensão genérica, que documento é toda informação registrada em um suporte. Esta afirmativa pode se referir a qualquer tipo de documento, seja este o de arquivo, o de biblioteca ou o de museu, por exemplo. No entanto, não nos revela a peculiaridade e especificidade que cada tipo de documento carrega.

Na Arquivologia o documento é tratado como de arquivo, ou arquivístico, por registrar as ações de seu produtor e por possuir relação com os demais documentos, daí o seu tratamento como um conjunto, ou um fundo. Estes e os demais atributos serão apresentados posteriormente.

A literatura anglo-saxã comumente aborda em sua terminologia o conceito de registro (record), que conforme Duranti, Eastwood e MacNeil (2002b) é sinônimo de documento de arquivo, ou documento arquivístico (archival document), oriundo da língua latina.

Para a Diplomática o documento de arquivo é tratado no singular, ou seja, no nível do item. E para a Arquivologia os documentos de arquivo são tratados como agregações e não individualmente (DURANTI; EASTWOOD; MACNEIL, 2002b, p.10).

Assim, em uma tradicional definição, o documento de arquivo é um “[...] documento produzido (ou seja, elaborado ou recebido e retido – ou seja, mantido, salvo – para ação ou referência) por uma pessoa física ou jurídica no curso de uma atividade prática, como um instrumento ou subproduto de tal atividade” (DURANTI; THIBODEAU, 2006, p. 15, tradução nossa). Quanto à variação do suporte, esta é válida tanto para o documento em papel quanto para o documento digital, ou eletrônico. Estes últimos, conforme a literatura, se diferenciam em seus conceitos.

Antes de trazermos o conceito de documento de arquivo em ambiente digital, façamos uma breve distinção do que é documento eletrônico e documento digital.

O documento eletrônico é entendido como uma informação analógica. Podendo, ou não, conter dígitos binários, acessível e interpretável por equipamento eletrônico (CONARQ, 2020). Já o documento digital é aquele cuja a “Informação [é] registrada, codificada em dígitos binários, acessível e interpretável por meio de sistema computacional” (CONARQ, 2020, p. 25).

Para Rondinelli (2013, p. 234) os termos são utilizados como sinônimos na literatura arquivística internacional, mas que, no entanto, apresentam diferenças técnicas, refletindo que “[...] todo documento digital é eletrônico, mas nem todo documento eletrônico é digital”, um exemplo disso seria a fita cassete, que embora necessite de uma máquina para ser interpretada, não possui dígitos binários.

Tendo isso em mente, um documento de arquivo digital é, portanto, “[...] um componente digital ou um grupo de componentes digitais que é salvo, tratado e gerenciado como um documento de arquivo”. Ou seja, é um “[...] registro cujo conteúdo e forma são codificados usando valores numéricos discretos (como os valores binários 0 e 1)”

(DURANTI, 2009, p. 44, tradução nossa).

Por sua vez, um componente digital é entendido como “[...] entidades digitais que contêm um ou mais documentos ou estão contidos no documento e requerem uma ou mais medidas de preservação específica” (DURANTI, 2009, p. 46, tradução nossa). Este foi um conceito elaborado tendo em vista que não é possível preservar um documento digital da mesma forma que é feita com um documento em papel (DURANTI; THIBODEAU, 2006).

Retornaremos sobre o assunto, mais adiante.

Quanto ao fator complexidade e especificidade do documento digital isto é impulsionado principalmente pelo avanço das tecnologias.

Duranti argumenta, por exemplo, que “Enquanto no ambiente tradicional era fácil entender rapidamente quando a entidade que se estava observando era um documento de arquivo ou não, no ambiente digital tal empreendimento pode ser bastante complexo e requer etapas adicionais no procedimento de análise” (DURANTI, 2009, p. 61, tradução nossa). Por isso, foi definido um modelo de análise no InterPARES que identificava os metadados e componentes digitais os quais estão aliados aos conceitos e princípios da Diplomática Digital.

Complexidade quer dizer que os documentos digitais possuem muitos componentes digitais, logo é algo vinculado a sua forma fixa, que deve ser mantida sem alteração ao longo do tempo. Especificidade porque se trata de documentos de arquivo digital e não simplesmente de dados, informações ou até mesmo apenas um objeto digital.

Rocha e Rondinelli (2016, p. 63) recorrem à Diplomática e argumentam que esta “[...]

reconhece a especificidade do documento gerado em ambiente computacional e muda a condição de elemento intrínseco do documento, própria do suporte papel, passando a inseri-lo no contexto tecnológico dos documentos digitais, mais especificamente como hardware”.

Isso se dá porque nesse contexto o suporte antes era elemento norteador da análise diplomática e que mesmo com essa mudança imposta pela tecnologia a Diplomática se mantém firme em identificar, através da sua metodologia, a entidade arquivística em um objeto digital.

A seguir podemos observar os conceitos utilizados para se chegar ao entendimento do documento de arquivo em ambiente digital.

Quadro 2: Conceitos em torno do documento de arquivo digital

Termo Autores Conceito

Objeto digital CONARQ (2020) Unidade de informação em formato digital composta de uma ou mais cadeia de bits e de metadados que a identificam e descrevem suas propriedades.

Pearce-Moses (2005) Uma unidade de informação que inclui propriedades (atributos ou características do objeto) e pode incluir métodos (meio de executar operações no objeto).

Documento de arquivo

Duranti & Thibodeau (2006)

Documento produzido (ou seja, elaborado ou recebido e retido – ou seja, mantido, salvo – para ação ou referência) por uma pessoa física ou jurídica no curso de uma atividade prática, como um instrumento ou subproduto de tal atividade.

Documento

eletrônico CONARQ (2020) Uma informação analógica podendo, ou não, conter dígitos binários, acessível e interpretável por equipamento eletrônico.

Documento digital CONARQ (2020) Informação registrada, codificada em dígitos binários, acessível e interpretável por meio de sistema computacional.

Documento de

arquivo digital Duranti (2009) Registro cujo conteúdo e forma são codificados usando valores numéricos discretos (como os valores binários 0 e 1).

Fonte: Elaborado pelo autor, 2021

Recorremos, deste modo, aos elementos que compõem o documento de arquivo em ambiente digital, através da ontologia proposta pelo projeto InterPARES.

No documento WANDERSON MONTEIRO DA SILVA (páginas 31-35)