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WANDERSON MONTEIRO DA SILVA

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Academic year: 2022

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PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO MESTRADO EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO

WANDERSON MONTEIRO DA SILVA

A SEGURANÇA JURÍDICA DO DOCUMENTO DE ARQUIVO EM AMBIENTE DIGITAL

Niterói

2021

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PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO MESTRADO EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO

WANDERSON MONTEIRO DA SILVA

A SEGURANÇA JURÍDICA DO DOCUMENTO DE ARQUIVO EM AMBIENTE DIGITAL

Dissertação apresentada ao Programa de Pós- graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal Fluminense – PPGCI, como requisito para a obtenção do grau de Mestre em Ciência da Informação.

Área de concentração: Dimensões contemporâneas da informação e do conhecimento.

Linha de Pesquisa 2: Fluxos e Mediações Sócio-técnicas da Informação

Orientador: Prof. Dr. Daniel Flores

Niterói 2021

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A SEGURANÇA JURÍDICA DO DOCUMENTO DE ARQUIVO EM AMBIENTE DIGITAL

Dissertação apresentada ao Programa de Pós- graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal Fluminense – PPGCI, como requisito para a obtenção do grau de Mestre em Ciência da Informação.

Banca Examinadora

____________________________________________

Prof. Dr. Daniel Flores Orientador

Universidade Federal Fluminense

____________________________________________

Profa. Dra. Natália Bolfarini Tognoli Membro Titular Interno

Universidade Federal Fluminense

____________________________________________

Profa. Dra. Tânia Barbosa Salles Gava Membro Titular Externo

Universidade Federal do Espírito Santo

_____________________________________________

Profa. Dra. Clarissa Moreira dos Santos Schmidt Membro Suplente Interno

Universidade Federal Fluminense

_____________________________________________

Profa. Dra. Cintia Aparecida Chagas Membro Suplente Externo Universidade Federal de Minas Gerais

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Dedico esta pesquisa aos meus pais, Wanderley e Elzilene.

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A realização de uma pesquisa como esta não foi tarefa fácil, principalmente em meio a uma pandemia, e por estar longe de todos que amo em um momento tão difícil para o mundo. Por isso, é mais que necessário registrar minha gratidão.

Agradeço, primeiramente, a Deus, por até aqui ter me acompanhado e nunca me permitir desistir, mesmo nos momentos mais difíceis.

À minha família, meu pai, Wanderley, minha mãe, Elzilene, e meus irmãos, Wanderlene e Ewerson, que mesmo distantes me apoiaram nessa decisão de partir para longe, em busca de um sonho, gratidão!

Agradeço ao meu orientador, professor Dr. Daniel Flores, por ter aceitado embarcar nessa jornada cheia de descobertas e por compartilhar comigo seus ensinamentos sobre os documentos digitais.

Agradeço as professoras que gentilmente aceitaram fazer parte da minha banca e que contribuíram para o fortalecimento desta pesquisa, professora Dra. Natália Tognoli e professora Dra. Tânia Gava.

Aos meus colegas e amigos que conquistei no PPPGCI/UFF, em especial Amanda, Lohayne, Paulo, Louise, Marcela, Roberta, Adriana e Juliana, com quem convivi e tive a oportunidade de me aventurar com as descobertas do mundo arquivístico e da cidade sorriso, muito obrigado!

Às minhas musas inspiradoras, professora Dra. Ana Celia Rodrigues, por gentilmente me apresentar o mundo da Identificação Arquivística. À querida Dr. Rosely Rondinelli, por compartilhar seu conhecimento sobre os documentos digitais comigo, em especial pelo cuidado e atenção dados em nossas trocas de mensagens. E à professora Dra. Luciana Duranti, sempre atenciosa em responder às minhas dúvidas aos domingos, sou eternamente grato.

Aos amigos que acompanharam a minha jornada até aqui, Greceane, Luana, Indira, Bruna, Cibely, Sophia, Rafaela, João de Deus, Jacqueline, Amanda Bessa, Priscila, Tati e Mario Felipe, obrigado!

Por fim, agradeço imensamente à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) que financiou esta pesquisa de mestrado e permitiu a concretização de um sonho.

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“The road is long, we carry on Try to have fun in the meantime”

(Lana Del Rey)

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O cenário atual de segurança jurídica referente aos documentos digitais tem impactado incertezas na produção de documentos de arquivo, sem levar em consideração o que determina a Diplomática e consequentemente fragilizando as provas digitais, utilizadas pela Ciência Forense Digital. Este estudo aborda o documento de arquivo digital enquanto elemento da garantia da segurança jurídica para o cidadão. Tem como objetivo identificar requisitos arquivísticos e fundamentos necessários para a garantia da segurança jurídica sob o viés da Arquivologia, Diplomática, Direito e Ciência Forense Digital com base na confiabilidade, autenticidade e precisão do documento de arquivo em ambiente digital.

Utiliza-se como metodologia as pesquisas qualitativa, exploratória, descritiva e bibliográfica.

Os resultados propõem que os requisitos arquivísticos que garantem a segurança jurídica são:

através da gestão de documentos digitais, os requisitos do e-ARQ Brasil; da preservação de documentos digitais, as diretrizes de implementação de RDC-Arq; e do acesso e difusão dos documentos digitais, as normas de descrição arquivística. Recomendou-se ainda que as plataformas utilizadas por esses ambientes necessitam de certificação e auditoria para que a segurança jurídica seja efetivada de forma confiável.

PALAVRAS-CHAVE: Segurança jurídica; Documento de arquivo digital; Gestão, preservação, acesso/difusão de documentos digitais; Diplomática e Ciência Forense Digital.

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The current scenario of legal security regarding digital documents has impacted uncertainties in the production of records, without taking into account what is determined by Diplomatics and consequently weakening the digital evidence used by Digital Forensics. This study approaches the digital records as an element of guaranteeing legal security for the citizen. Its aim to identify archival requirements and necessary foundations to guarantee legal security through of the Archival Science, Diplomatics, Law and Digital Forensics based on the reliability, authenticity and accuracy of the digital records. Qualitative, exploratory, descriptive and bibliographic is used as a methodology. The results propose that the archival requirement that guarantee legal security are: through the digital records management, the requirements of e-ARQ Brasil; from the digital records preservation, the RDC-Arq implementation guidelines; and access and dissemination of digital records, the archival description standards. It was also recommended that the platforms use by these environments need certification and audit so that legal security will be trust.

KEY-WORDS: Lega Security; Digital Record; Digital Records Access and Dissemination, Preservation, Management; Diplomatics and Digital Forensics.

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Figura 1: Camadas de Abstração do Objeto Digital ... 31

Figura 2: Ontologia do Documento de Arquivo... 42

Figura 3: Modelo de Investigação do DRFWS ... 55

Figura 4: Modelo de Análise Forense do DRFP ... 56

Figura 5: Modelo de Sistemas de Gestão de documentos em Sistemas de Negócio ... 70

Figura 6: Entidades Funcionas do Modelo OAIS ... 79

Figura 7: Modelo de Dados PREMIS ... 84

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Quadro 1: Abordagens da Diplomática ... 25

Quadro 2: Conceitos em torno do documento de arquivo digital ... 33

Quadro 3: Conceitos da ontologia do documento de arquivo ... 43

Quadro 4: Conceitos em torno da prova digital ... 49

Quadro 5: Tipos de provas na Ciência Forense Digital ... 52

Quadro 6: Conceitos em torno da autenticidade da prova digital ... 54

Quadro 7: Conceitos da cadeia de custódia no contexto legal e arquivístico ... 61

Quadro 8: Conceitos em torno da credibilidade do documento de arquivo ... 64

Quadro 9: Conceitos da gestão e preservação de documentos digitais ... 90

Quadro 10: Conceitos da segurança e segurança jurídica ... 96

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Archival Information Package - AIP

Cadeia de Custódia Digital Arquivística - CCDA Conselho Nacional de Arquivos - CONARQ

Designing and Implementing Recordkeeping Systems - DIRKS Dissemination Information Package - DIP

Records Electronic Management - REM

Records Electronic Management Software Applications Design Criteria Standard - DOD 5015.2-STD

International Research on Permanent Authentic Records in Electronic Systems - InterPARES

Modelo de Requisitos para Sistemas Informatizados de Gestão Arquivística de Documentos - SIGAD

Modular Requirements for Records Systems - MOREQ National Archives and Records Administration - NARA Open Archival Information System - OAIS

Preservation Metadata: Implementation Strategies - PREMIS Records Management Applications - RMA

Repositório Arquivístico Digital Confiável - RDC-Arq

Sistema Informatizado de Gestão Arquivística de Documentos - SIGAD Submission Information Package - SIP

Trustworthy Repositories Audit & Certification - TRAC

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1 INTRODUÇÃO ... 14

2 DIPLOMÁTICA E CIÊNCIA FORENSE DIGITAL ... 21

2.1 Breve introdução sobre a Diplomática ... 21

2.2 Breve Introdução sobre a Ciência Forense Digital ... 25

3 DOCUMENTO DE ARQUIVO EM AMBIENTE DIGITAL: ESPECIFI- CIDADE E COMPLEXIDADE ... 30

3.1 O documento de arquivo digital ... 30

3.2 Ontologia do documento de arquivo ... 34

3.2.1 Componentes intelectuais ... 34

3.2.2 Os atributos ... 40

3.2.3 Componentes digitais ... 42

4 O DOCUMENTO DIGITAL ENQUANTO FONTE DE PROVA: ASPEC- TOS ARQUIVÍSTICOS E JURÍDICOS ... 46

4.1 Definição de prova digital ... 46

4.2 Classificação das provas digitais ... 50

4.3 Autenticidade de uma prova digital ... 52

4.4 Processo de análise forense ... 55

4.5 Cadeia de custódia ... 57

5 INICIATIVAS DE GESTÃO E PRESERVAÇÃO DE DOCUMENTOS DIGITAIS ... 63

5.1 Requisitos para a gestão de documentos digitais ... 65

5.1.1 Electronic Records Management Software Application Design Criteria Stan- dard ... 67

5.1.2 Modular Requirements for Records Systems ... 68

5.1.3 Designing and Implementing Recordkeeping Systems... 71

5.1.4 Modelo de Requisitos para Sistemas Informatizados de Gestão Arquivística de Documentos ... 72

5.2 Requisitos de preservação de documentos digitais ... 75

5.2.1 Modelo Open Archival Information System... 77

5.2.2 Repositórios Digitais Confiáveis ... 80

5.2.3 Repositórios Arquivísticos Digitais Confiáveis (RDC-Arq) ... 81

5.2.4 Certificação de Auditoria de Repositório Confiável ... 82

5.2.5 Requisitos técnicos para entidades de auditoria e identificação de organizações candidatas a serem Repositório Digital Confiável ... 83

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5.2.7.1 Modelo de Cadeia de Preservação ... 86 5.2.7.2 Modelo Business-Driven Recordkeeping ... 87 6 REQUISITOS ARQUIVÍSTICOS DE SEGURANÇA JURÍDICA PARA

O DOCUMENTO DE ARQUIVO DIGITAL ... 94 6.1 Segurança e segurança jurídica ... 94 6.2 Digital Records Forensics ... 96 6.3 Identificação e recomendações de requisitos arquivísticos de segurança

jurídica ... 99 6.3.1 Requisitos arquivísticos que garantem a segurança jurídica no que se refere a

gestão de documentos digitais ... 99 6.3.2 Requisitos arquivísticos que garantem a segurança jurídica no que se refere a

preservação de documentos digitais ... 101 6.3.3 Requisitos arquivísticos que garantem a segurança jurídica no que se refere ao

acesso e difusão de documentos digitais ... 104 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 107 REFERÊNCIAS ... 111

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1 INTRODUÇÃO

Os estudos em torno do documento de arquivo em ambiente digital, são uma realidade na Arquivologia desde o fim do século XX, quando a comunidade arquivística se mobilizou para enfrentar os novos desafios do mundo tecnológico nos arquivos. Muitas publicações, eventos e projetos foram desenvolvidos para responder as demandas da gestão, preservação e acesso aos documentos digitais.

O documento de arquivo, conforme abordagem clássica, é um documento produzido e recebido no decorrer das atividades de uma pessoa física ou jurídica, constituindo produto das atividades a qual está vinculado.

Ao ser compreendido no mundo digital, o documento de arquivo apresenta características de complexidade e especificidade. Complexo porque não mais está vinculado em um suporte analógico, o que requer agregações de componentes digitais que estão vinculados de maneira intrínseca e extrínseca. E específico porque a sua autenticidade deve ser garantida ao decorrer do tempo em que precisa ser mantido, sem adulteração e sem corrupção.

Diante deste cenário, a pesquisa científica foi desenvolvida com o objetivo de construir e contribuir para a teoria dos documentos digitais, no intuito de preencher lacunas que possam existir na Arquivologia, trazendo como ponte a descoberta de novos referenciais e discussões.

A temática desta pesquisa começou a ser construída, quando da leitura de um artigo da professora Luciana Duranti, em 2014, intitulado “From Digital Diplomatics to Digital Records Forensics” para elaboração de um projeto de pesquisa na graduação do curso de Arquivologia da Universidade Federal do Amazonas, cujo objetivo era estudar o campo da Ciência Forense Digital na Arquivologia.

O projeto inicial se direcionava para entender o papel da Ciência Forense Digital para os arquivos, através de projetos de pesquisa como o “Digital Records Forensics”, liderado pela professora Luciana Duranti da University of Britsh Columbia; o “BitCurator”, coordenado pelo professor Christopher Lee da University of North Carolina e o “Digital Lives”, dirigido por Jerimy Leighton John da Biblioteca Britânica. Esses projetos representavam uma amostra dos países Canadá, Estados Unidos e Reino Unido e abordaram em seu núcleo o uso teórico e prático da Ciência Forense Digital aliada ao conhecimento arquivístico.

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Ao decorrer dos estudos no mestrado, algumas alterações foram necessárias para que o projeto se adequasse mediante algumas reflexões e diálogos com o orientador, tendo em vista as constantes mudanças no cenário arquivístico local. A exemplo disso, os questionamentos no noticiário brasileiro a respeito da quebra da cadeia de custódia de documentos digitais que eram adquiridos como prova em processos judiciais, algo que reflete nos estudos da Diplomática e da Ciência Forense Digital.

A essa altura já se havia levantado a produção bibliográfica dos três projetos citados e observado que o BitCurator e o Digital Lives possuíam como objeto de estudo os arquivos pessoais digitais, logo, o documento de arquivo produzido por pessoa física. Assim aliava ferramentas da Ciência Forense Digital e o conhecimento teórico da Arquivologia, como por exemplo o uso dos princípios da Proveniência e Ordem Original, para a realização da curadoria de acervos adquiridos por Arquivos, Bibliotecas e Museus.

Percebeu-se que o projeto Digital Records Forensics era calcado por meio do estudo do documento de arquivo produzido em ambiente digital retido como prova de processo judicial, pois os casos estudados contemplavam o que a Polícia de Vancouver mantinha das apreensões para investigação. Este estudo utilizou-se da Diplomática, Arquivologia, Direito e Segurança da Informação para fundamentar uma nova disciplina, capaz de atender as demandas jurídicas aliadas ao contexto tecnológico.

Mediante essa percepção, optou-se em direcionar a pesquisa para “A segurança jurídica do documento de arquivo em ambiente digital” utilizando-se da Arquivologia, Diplomática Digital, Direito e Ciência Forense Digital para dar subsídios a construção deste trabalho. Diante disso os resultados do projeto Digital Records Forensics são os que melhor poderão contribuir para este estudo, tendo em vista a relação com a teoria e os produtos produzidos pelo projeto International Research on Permanent Authentic Records in Electronic Systems (InterPARES).

Desta forma, foi levantada a seguinte questão: como aplicar requisitos de produção, manutenção, preservação, acesso e transparência ativa ao documento de arquivo em ambiente digital de forma que seja garantida a sua segurança jurídica? Partindo do seguinte pressuposto teórico: se um documento de arquivo digital é produzido, mantido e preservado utilizando requisitos que reflitam os princípios da Arquivologia, Diplomática Digital, Direito e Ciência Forense Digital, então ele pode garantir a sua segurança jurídica.

Para alcançar essa resposta e confirmar tal pressuposto nos valemos do seguinte objetivo geral: identificar requisitos arquivísticos e fundamentos necessários para a segurança jurídica garantida pelo documento de arquivo em ambiente digital sob o viés da

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Arquivologia, Diplomática, Direito e Ciência Forense Digital com base nos conceitos de confiabilidade, autenticidade e precisão. E dos seguintes objetivos específicos:

a) Contextualizar os elementos determinados pela Arquivologia e Diplomática a fim de compreender a especificidade e complexidade do documento de arquivo em ambiente digital;

b) Apresentar a Ciência Forense Digital, aliada ao Direito, no intuito de aproximar a sua relação com o documento de arquivo enquanto fonte de prova no ambiente digital;

c) Sistematizar as iniciativas e requisitos de gestão e preservação de documentos de arquivo em ambiente digital que visam determinar parâmetros de confiabilidade, autenticidade e precisão; e

d) Identificar e recomendar requisitos arquivísticos para a garantia da segurança jurídica baseada em documentos de arquivo digital.

A presente pesquisa justifica-se pela incipiência de estudos que abordem a Diplomática Digital e a Ciência Forense Digital na Arquivologia, enquanto fortalecimento teórico e prático direcionado para os requisitos arquivísticos que podem garantir uma segurança jurídica dos documentos digitais.

Ocorre que no senso comum ainda prevalece a ideia de que para manter a autenticidade de documentos digitais, ou representantes digitais1, apenas a assinatura digital é necessária, portanto, podendo assim manter seu caráter legal. Negligenciando desta forma todo o trabalho científico desenvolvido pela Arquivologia que tem se esforçado para apresentar subsídios que ofereçam qualidade na produção de documentos digitais autênticos, confiáveis e precisos tanto para os interesses da administração quanto para os interesses legais e sociais.

Da administração, porque espera-se que o produtor de documentos os produza para registrar que as atividades foram cumpridas, e consequentemente preservar aqueles que sirvam como fonte de prova e informação, conforme imposto na Lei de Arquivos – a Lei 8.159 de 8 de janeiro de 1991.

Sabe-se que o documento de arquivo, independente do suporte, carrega consigo um caráter de prova que é diferente daquele entendido pelo campo da perícia ou investigação legal. Mas o que se propõe aqui é também apontar que mesmo que haja diferença, esta pode ser de interesse para o Direito, campo que necessita de documentos de arquivo que são

1 Entende-se por representantes digitais os documentos em suporte papel que foram digitalizados.

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produzidos em ambientes digitais mantidos por qualquer administração, pública ou privada, quando estes precisam compor parte de um processo ou serem chamados a julgamento.

Assim, não há garantia de autenticidade, preservação e acesso a longo prazo em um documento digital, ou representante digital, que apenas contenha assinatura digital sem levar em consideração os referenciais impostos pela Arquivologia. Pois esta aponta, para que isso ocorra, requisitos arquivísticos que possuem como base o método diplomático, que devem estar contemplados em qualquer sistema que produza documentos de arquivo.

Sem esses requisitos, a cadeia de custódia digital estará comprometida na linha de sucessão do documento de arquivo entre produtor e preservador, prejudicando assim a verificação da autenticidade do documento digital quando este for submetido à trilha de auditoria ou análise forense.

Por isso, a então investigação se faz necessária enquanto pesquisa científica por proporcionar referenciais teóricos e metodológicos para a segurança jurídica sustentada no documento de arquivo digital, no contexto arquivístico e jurídico.

É importante ainda observar qual a relação desta pesquisa com a Ciência da Informação, afinal estamos em um programa de pós-graduação em Ciência da Informação.

Para isso, utilizamos a abordagem de Payne (2018) para a justificativa de nossos estudos. O autor argumenta a aproximação entre as áreas de Arquivologia, Ciência da Informação e Ciência da Computação.

A Arquivologia tem uma preocupação que vai da produção à preservação de documentos de arquivo para uso em um contexto funcional, organizacional, pessoal, social, legal e cultural. Enquanto isso, a Ciência da Informação tem como foco a coleta eficaz, armazenamento, recuperação e uso das informações. Já a Ciência da Computação estaria direcionada para o design, análise, implementação e aplicação de processos que transformam a informação, ou seja, a automatização (PAYNE, 2018).

Essa transdisciplinaridade contribui para o corpus de uma nova área, a Arquivologia Computacional (Computacional Archival Science). Apesar dos estudos dessa nova área ainda se encontrarem em desenvolvimento é possível perceber que a sua intenção está direcionada ao uso das técnicas computacionais para o tratamento de dados, informações e documentos em larga escala. Também é evidenciado que ela pode contribuir com outras áreas, entre elas a jurídica (PAYNE, 2018).

Desta forma, as relações com a Arquivologia e a Ciência da Informação se fazem presentes nesta pesquisa também, assim como já foi estudado e demonstrado por autores como Fonseca (2005), Rondinelli (2013) e Marques (2011), por exemplo.

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Para que se alcancem os resultados esperados necessitamos traçar um percurso que é próprio de uma pesquisa de caráter científico: a sua metodologia.

Quando a presente pesquisa começou a ser idealizada, através da leitura de um artigo que trazia uma abordagem nova de olhar os documentos digitais, percebeu-se que os referenciais para tais estudos eram escassos em língua portuguesa e que não havia indicativos de pesquisa que fizessem referência a essa temática.

Desta forma, podemos assim dizer que esta pesquisa é, de acordo como seus objetivos, de natureza teórica guiada através da revisão de literatura de materiais publicados que representam grande pertinência para a investigação (SILVA; MENEZES, 2001). Seu intuito é gerar novos conhecimentos para a Arquivologia, tendo como ponto de partida a incipiência de estudos da temática e a identificação e proposta de requisitos arquivísticos que permitem a segurança jurídica garantida através do documento de arquivo digital.

Como subsídio para a abordagem do problema a pesquisa qualitativa traduzirá a subjetividade que é própria do estudo que aqui propomos, pois é neste tipo de pesquisa que se “Caracteriza pela empiria e pela sistematização progressiva do conhecimento [...]”

(MINAYO, SANCHES, 1993, p. 57).

A pesquisa é de cunho exploratória, pois tem como objetivo proporcionar uma visão geral e por se tratar, também, de um tema pouco explorado (GIL, 2008). E também descritiva por abordar as características de um fenômeno, bem como suas relações entre variáveis (GIL, 2008).

O levantamento das fontes desta pesquisa começou a ser elaborado em 2015, conforme mencionado anteriormente, por isso se faz pertinente apresentar as principais bases de dados investigadas durante este percurso.

As publicações que se referem a temática que combinava “Diplomatics”, “Archival Science” e “Digital Records” foram pesquisadas na base de dados do projeto InterPARES.

Esta base é alimentada pelos pesquisadores que participaram do projeto e contribuíram em publicações de artigos, livros e apresentações.

As fontes referentes à temática que combinava “Diplomatics” e “Digital Forensics”

foram coletadas na base de dados elaborada a partir do projeto Digital Records Forensics.

Nesta base estão disponíveis as principais publicações e apresentações resultantes do projeto, bem como um rigoroso levantamento bibliográfico de artigos e livros da área “Digital Forensics”, o que torna o nosso trabalho menos árduo, tendo como entendimento de que a busca pela temática, no próprio campo, é dispersa.

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Outras fontes que não estavam contempladas nestas bases também foram consultadas, como artigos e livros de renome na literatura arquivística brasileira. Neste sentido os verbetes de interesse foram: “Arquivologia”, “Diplomática”, “Documento de arquivo digital” e

“Cadeia de custódia”.

Da mesma forma foi feito na área jurídica e da Ciência Forense Digital, onde as temáticas pesquisadas foram: “Perícia Digital”, “Ciência Forense Digital”, “Prova Digital”,

“Cadeia de custódia” e “Segurança Jurídica”.

Após estas buscas, foram realizadas a organização destas fontes no aplicativo Mendeley com vistas à organização por temáticas, bem como a realização de fichamentos e traduções.

Em relação à estrutura da pesquisa, podemos dividi-la em 7 seções, incluindo a Introdução, as quais são apresentadas a seguir:

A segunda seção trata dos principais marcos da Diplomática e da Ciência Forense Digital. Sobre a Diplomática recuperamos a abordagem referente a Diplomática a partir da década de 80, compreendida como uma Diplomática Digital, e sobre a Ciência Forense Digital realiza-se uma breve contextualização sobre a história da disciplina.

Na terceira seção recuperamos os conceitos que permeiam o documento de arquivo em ambiente digital, tais como os seus atributos determinados pela Diplomática e Arquivologia e os estudos em torno dos resultados do projeto InterPARES, a fim de entender a complexidade e a especificidade do documento digital.

Na quarta seção apresenta-se o documento digital como fonte de prova na perspectiva arquivística e jurídica, tais como o ponto de vista da autenticidade e a classificação da prova digital, o processo de análise forense e o conceito de cadeia de custódia.

Já na quinta seção foram sistematizadas as principais iniciativas de requisitos e padrões que dão subsídios à produção, manutenção e preservação de documentos de arquivo em ambiente digital, em apoio à gestão e preservação de documentos digitais autênticos, confiáveis e precisos.

E na sexta seção identificamos os requisitos arquivísticos que dão garantia à segurança jurídica do documento de arquivo em ambiente digital, os quais são estruturados através de três entidades externas.

E por fim, as considerações desta pesquisa que percorre os resultados obtido nas seções teóricas, bem como enfatiza os requisitos arquivísticos apontados como apropriados para a garantia da segurança jurídica e as sugestões de pesquisa.

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Assim, nesta seção introdutória foram abordadas nossa motivação inicial sobre a temática de estudo, os objetivos que nos direcionam para consolidação da pesquisa, nossa justificativa, a metodologia utilizada e a estrutura a ser seguida. Na próxima seção revisitamos os principais marcos teóricos da Diplomática e da Ciência Forense Digital. Sobre a Diplomática recuperaremos a sua abordagem a partir da década de 80 e sobre a Ciência Forense Digital realizaremos uma breve contextualização sobre a disciplina.

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2 DIPLOMÁTICA E CIÊNCIA FORENSE DIGITAL

Com o advento da tecnologia computacional e o aumento da produção de documentos em suporte eletrônico, muitos estudos foram direcionados para a garantia dos princípios arquivísticos, da mesma forma que eram aplicados nos documentos tradicionais, em suporte papel.

Antes mesmo de entendermos a terminologia moderna que caracteriza o documento de arquivo como digital ou eletrônico, na atualidade, tais documentos eram denominados como “registros lidos por máquina” (machine readable records). As duas instituições arquivísticas de custódia que iniciaram o tratamento de tais documentos, antes mesmo da aceitação destes na comunidade arquivística, foram o National Archives Records and Administration (NARA) dos Estados Unidos, em 1969, e o Public Archives of Canada2, em 1973 (ROGERS, 2016).

A grande dificuldade da comunidade arquivística de estabelecer que os registros lidos por máquina eram potenciais documentos de arquivo, impulsionou pesquisas feitas por Dollar (1978) e Naugler (1984) onde propunham avaliação a estes registros tendo em vista a preservação em uma instituição de custódia arquivística, assim como os documentos tradicionais. Duranti (2002a) entendeu que esta tentativa de inserção dos registros lidos por máquina no tratamento arquivístico da forma que vinha sendo realizada, não era suficiente para determinar a sua autenticidade. Isso se deu principalmente porque este tipo de documento não transmitia tanta segurança quanto os documentos em papel. Por isso, a autora pode ser apontada como uma das primeiras estudiosas sobre a autenticidade e confiabilidade de documentos digitais (DURANTI, 1989).

2.1 Breve introdução sobre a Diplomática

O nascimento da Diplomática é identificado em meados do século XVII, na Idade Média, para analisar a existência de falsificação de diplomas de posses de terras entre disputas travadas entre ordens religiosas na Europa.

Este período é conhecido como guerras diplomáticas (bella diplomática), conforme Duranti (1989, p. 13, tradução nossa), “Na Alemanha as guerras diplomáticas foram

2 Atualmente a denominação a esta instituição é de Library and Archives Canada.

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[ocasionadas por] controvérsias judiciais sobre a afirmação de um direito, enquanto na França assumiram um caráter doutrinal com uma séria preocupação científica [...]”.

O principal marco teórico da Diplomática foi a publicação do tratado De re diplomatica, em 1681, pelo monge beneditino Dom Jean Mabillon (TOGNOLI, 2018). Essa obra teve um grande impacto para a crítica documental, por elaborar os primeiros elementos da Diplomática e por ser considerada a certidão de nascimento da disciplina.

Seu objeto de estudo, o diploma, foi apontado por Sickel como o documento diplomático apenas em meados do século XIX sendo entendido mais tarde, por Bautier, no século XX que tal objeto deveria ser estendido aos documentos de arquivo (TOGNOLI, 2018).

Para Duranti (1989, p, 17, tradução nossa) a Diplomática pode ser compreendida então como a “[...] a disciplina que estuda a gênese, a forma e a transmissão dos documentos de arquivo e a sua relação com os fatos representados neles e com seu criador, a fim de avaliar, identificar e comunicar a sua verdadeira natureza”. Esta seria uma definição mais moderna sobre a área, que veio a se consagrar como uma área relacionada à Arquivologia.

Já a formação da Arquivologia enquanto disciplina se deu no fim do século XIX. Mas Duranti (1996) aponta a ligação do campo com a Diplomática desde meados do século XVII.

A autora enfatiza que antes mesmo deste encontro, os arquivos e o fazer arquivístico alcançaram lugar de interesse ainda no século XI quando a legislação romana, no Código Justiniano, fez menção à criação e preservação de arquivos.

A Arquivologia, portanto, é a ciência que estuda os arquivos, ou seja, os conjuntos documentais que são produzidos por uma pessoa física ou jurídica. Pearce-Moses define que esta seja “Um corpo teórico sistemático que apoia a prática de avaliar, adquirir, autenticar, preservar e fornecer acesso aos materiais registrados” (2005, p. 28, tradução nossa). Alguns marcos também podem ser apontados para a consolidação da disciplina no campo científico.

Conforme é demonstrado em sua história, a área ganhou força com a institucionalização do primeiro curso oferecido na École de Chartes, na França, onde se considerou um dos primeiros marcos para a consolidação do pensamento arquivístico (MARQUES, 2011).

Outro ponto importante, foi a aceitação do princípio de respeito aos fundos, enquanto base fundamental para a organização dos arquivos, e consequentemente para manter e preservar seu contexto orgânico com os documentos de um mesmo fundo (DUCHEIN, 1982- 1986).

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E o Manual dos Arquivistas Holandeses, que fundamentou e elaborou regras para a descrição e arranjo dos arquivos, que levando em conta o princípio de respeito aos fundos, lançou a Arquivologia no cenário internacional (MARQUES, 2011).

Estas contribuições que fortaleceram a Arquivologia, destacam-se na discussão quando tem seu ponto de encontro com a renovação da Diplomática para os documentos contemporâneos.

Isto se dá porque anteriormente à metade do século XX, somente os documentos oriundos de atos jurídicos eram merecedores da análise diplomática, ficando de fora aqueles que não possuíam tal natureza. Aliás, o objetivo principal da análise nesse período era identificar elementos na forma documental, intrínsecos e extrínsecos, a fim de determinar o valor de autenticidade dos documentos.

Com o surgimento das ideias de Bautier, para uma “nova” Diplomática, seu objeto se expande para todos os documentos de caráter arquivístico (TOGNOLI, 2018). Sua proposta era baseada na cooperação dos princípios tanto da Diplomática como os da Arquivologia.

É neste mesmo sentido que surge, na Itália, as ideias de Paola Carucci por meio da publicação “Il documento contemporaneo. Diplomatica e criteri di edizione”, em 1987. A mesma lança uma abordagem que privilegia os estudos diplomáticos para entender o contexto de produção dos documentos.

Enquanto isso, na América do Norte, Duranti apresenta a Diplomática para o Canadá e Estados Unidos publicando seis artigos, entre 1989 a 1992, sobre a teoria e prática da disciplina e com a possibilidade de abordagem aos documentos lidos por máquina, posteriormente denominados de documentos eletrônicos.

Diante disso, nasce um projeto intitulado “The Protection of the Integrity of Electronic Records”3 hospedado pela University of British Columbia e liderado por Duranti, também conhecido como Projeto UBC, realizado entre 1994 a 1997. O objetivo do projeto era “[...] identificar e definir os requisitos para criar, manusear e preservar documentos de arquivo eletrônicos fidedignos e autênticos” (UBC PROJECT, s/d, tradução nossa). Este projeto foi realizado em parceria com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos e resultou em um padrão que apresentava requisitos para sistemas que produziam documentos de arquivo4, com metodologia calcada nos princípios e conceitos da Diplomática e Arquivologia.

3 Posteriormente chamado de “The Preservation of Integrity of Electronic Records”.

4 Na seção 5, abordaremos sobre a norma.

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Posteriormente a essa pesquisa, percebeu-se a necessidade de avaliar e preservar esses documentos, a fim de manter sua autenticidade a longo prazo. Surge, então, o projeto InterPARES, que se desdobrou em outras fases.

A primeira fase (1999-2001) buscou “[...] estabelecer os meios para avaliar e manter a autenticidade dos documentos de arquivo eletrônicos, uma vez que estes se tornavam inativos e deveriam ser selecionados para a preservação permanente” (INTERPARES, s/d, tradução nossa). Resultando em modelos para a seleção e preservação dos documentos eletrônicos, essa fase foi centrada principalmente em documentos textuais.

Na segunda fase (2002-2007) o objetivo era

[..] desenvolver e articular os conceitos, princípios, critérios e métodos que pudessem assegurar a criação e manutenção de documentos arquivísticos precisos e confiáveis e a preservação a longo prazo de documentos de arquivo autênticos no contexto das atividades artísticas, científicas e governamentais que são conduzidas usando a tecnologia computacional, experimental, interativa e dinâmica (INTERPARES, s/d, tradução nossa).

Nesta fase foram desenvolvidos os modelos de Cadeia de Preservação e Business- Driven Recordkeeping, estes serão apresentados posteriormente.

Já a terceira fase (2007-2012) se direcionava a

[...] permitir que programas e instituições arquivísticas, públicas ou privadas, de médio e pequeno porte responsáveis por documentos arquivísticos digitais oriundos do governo, negócios, pesquisa, artes e entretenimento, atividades comunitárias e/ou sociais, preservasse a longo prazo, documentos de arquivo autênticos (INTERPARES, s/d, tradução nossa).

Esta fase se encarregou de testar toda a metodologia adquirida e dos modelos desenvolvidos pela pesquisa da fase anterior.

E na quarta fase (2012-2020) o foco foi

[...] explora[r] questões de confiança e confiabilidade de documentos arquivísticos e dados em ambientes online. [...] gerar[ando] arcabouço teórico e metodológico para desenvolver políticas, procedimentos, regulamentações, padrões e legislação local a fim de garantir a confiança” (INTERPARES, s/d, tradução nossa).

Com a preocupação dos arquivos mantidos em nuvens e o uso da tecnologia blockchain.

Mediante esta introdução às áreas da Diplomática e Arquivologia, bem como os principais trabalhos desenvolvidos com o uso destas, é pertinente ainda destacar que a

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terminologia sobre a integração desse conhecimento recebeu algumas variações, tais como Diplomática Especial, Diplomática Arquivística, Diplomática Arquivística Contemporânea e, mais recentemente, Diplomática Digital.

Para entender melhor a contribuição da Diplomática, por exemplo, Tognoli (2013) a dividiu em Diplomática Clássica, Diplomática Moderna e Diplomática Contemporânea para sistematizar seus marcos teóricos. Em outra percepção Silva e Tognoli (2019) consideram a existência de quatro abordagens da Diplomática, as quais são: Diplomática Clássica, Diplomática Moderna, Diplomática Arquivística e Diplomática Digital. E assim apontam seus objetos e objetivos, conforme figura abaixo:

Quadro 1: Abordagens da Diplomática

Fonte: Silva e Tognoli (2019)

Dentre as abordagens sistematizadas pelas autoras, a que mais se aproxima dos estudos desenvolvidos nesta pesquisa está relacionado a Diplomática Digital, que direciona a Diplomática para os estudos dos documentos de arquivo digitais através dos estudos desenvolvidos pelo InterPARES.

Dito isto, passemos ao entendimento do que é a Ciência Forense Digital.

2.2 Breve introdução sobre a Ciência Forense Digital

Diplomática e Direito são disciplinas que já possuíram relações bem próximas no século XVII. Conforme Duranti (1989) a História, Paleografia, Arquivologia e o próprio

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Direito sofreram influências científicas da Diplomática utilizando-se de seus princípios e metodologias para se tornarem autônomas.

É importante esclarecer que o Direito enquanto disciplina, é compreendido como

[...] a ciência que estuda as regras obrigatórias, que presidem as relações dos homens em sociedade, encaradas não somente sob o seu ponto de vista legal, como sob o seu ponto de vista doutrinário, abrangendo, assim, não somente o direito no seu sentido objetivo como subjetivo (SILVA, 2016, p. 470).

Isto se faz necessário porque não nos propomos a estudar e contextualizar o Direito em sua amplitude, mas é de grande valia entendermos o seu papel no contexto arquivístico e para o campo da Ciência Forense, no qual ambas sofrem influências.

Duranti (1989) afirma, por exemplo, que na metade do século XVII a Diplomática era oferecida nos cursos de Direito da Europa, um período que possibilitou a publicação de inúmeras obras e contribuiu para a produção do conhecimento da Diplomática. Esse fato revela que as suas relações eram fortes e que mesmo com o distanciamento do Direito, mais tarde, a Diplomática se manteve fiel estudando os documentos, que em sua perspectiva sempre transmitiram uma relação jurídica com os fatos.

Por outro lado, pouco se sabe sobre a Ciência Forense Digital. Enquanto que observar as relações da Arquivologia e Diplomática com o Direito é muito mais compreensivo na comunidade arquivística, com a Ciência Forense Digital isso se torna um pouco difícil. Os estudos de aproximação com essa área e o campo dos arquivos só surgem no fim da primeira década dos anos 2000, por hora iremos explorar a perspectiva da Ciência Forense Digital com os documentos digitais.

A história da Ciência Forense Digital é muito recente se comparada a da Diplomática, e seu desenvolvimento ganhou grande impulso com as mudanças tecnológicas no fim do século XX. Da mesma forma que os profissionais dos arquivos acompanharam as discussões em torno da mudança de suporte dos documentos em papel para o meio eletrônico nesse mesmo período.

Aparentemente, são trajetórias distintas e que ocorreram de forma paralela que, no entanto, parecem se cruzar à medida que seus passos são apontados. Duranti (1989), por exemplo, mencionou o esquecimento da Diplomática pelos tribunais, observando que seu método fora deixado de lado com o surgimento dos documentos eletrônicos como fonte de prova, pois a alegação era de que os mesmos não serviriam mais para a nova realidade.

Aqui percorremos o campo da Ciência Forense Digital, na tentativa de esclarecermos às suas práticas para os documentos digitais que são fonte de prova no Direito.

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É difícil identificar na literatura uma unanimidade e uma história concisa da Ciência Forense Digital. O que se sabe é que as primeiras práticas surgiram ainda quando os computadores ganharam popularidade no século passado, e que em consequência desse desenvolvimento surgiram criminosos denominados “hackers”.

Pollitt (2010) argumenta que o termo para a área só seria cunhado mais tarde, pois em meados de 1980, quem atuava neste campo não estava interessado, por exemplo, em documentar uma história.

Diante disso o autor identifica que o campo pode ser visto a partir das seguintes etapas: pré-história (pre-history), primeira infância (infancy), infância (childhood) e adolescência (adolescence).

Cada uma marcada por acontecimentos que levaram ao desenvolvimento da área, como é sintetizado a seguir, conforme Pollitt (2010):

Pré-história (Anterior a 1985) – pouca documentação sobre esse período, sendo inexistente um termo para as práticas realizadas na época, os computadores eram de uso industrial, governamental e de pesquisa, as primeiras instituições, como o Federal Bureau of Investigation (FBI), começavam a ter iniciativas sobre o assunto;

Primeira infância (1985 a 1995) – fabricação dos computadores portáteis pela International Business Machines (IBM), criação de uma instituição dedicada à pesquisa em Ciência Forense Digital, período centrado na recuperação de dados, a internet ainda não era popular e os crimes eram cometidos por jovens;

Infância (1995 a 2004) – entendido como a maturidade da área, foi subdividida em três marcos, 1) a explosão tecnológica, 2) os casos de pornografia infantil e o 3) atentado de 11 de setembro de 2001;

Adolescência (2005 a 2010) – o crescimento do campo com mais profissionais atuantes, padronização das atividades e a extensão da atuação.

O autor é um dos poucos que se dedica a explicar os fatos ocorridos na história que justificam o crescimento e desenvolvimento da Ciência Forense Digital ao longo dos últimos anos, tudo isso embasado em sua experiência profissional no FBI e acentuando os marcos em acontecimentos de acordo com um limite cronológico.

Há ainda outros autores como Charters, Smith e McKee que também contribuem para a história da Ciência Forense Digital. Estes a dividem em três fases (CHARTERS; SMITH;

MCKEE, 2009):

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Ad hoc – caracterizada pela falta de estrutura, de objetivos claros e de ferramentas, processos e procedimentos adequados;

Estruturada – esta foi estruturada em três áreas primárias - 1) programas baseados em políticas, 2) processos definidos e coordenados de acordo com as políticas e 3) requisitos para ferramentas forenses;

Corporativa – as coletas feitas em tempo real, as ferramentas de coletas sendo adaptadas às necessidades de quem as coletava e a forense como um serviço.

Os autores realizam esse percurso para demonstrar que desde o seu surgimento, como um campo empírico até alcançar um rigor científico, a área enfrentou inúmeras barreiras de estruturação, chegando a ser nos dias atuais um serviço lucrativo.

No que se refere a uma definição deste campo, em 2001 o primeiro Digital Research Conference Workshop (DFRCW), realizado na cidade de Utica, no estado de Nova York, reuniu pesquisadores e profissionais para discutir questões pertinentes às lacunas existentes na área. No evento foi apresentada uma definição para a Ciência Forense Digital, tendo em vista que a mesma se estabeleceria como uma disciplina científica. A definição proposta foi a seguinte:

O uso de métodos cientificamente derivados e comprovados para a preservação, coleta, validação, identificação, análise, interpretação, documentação e apresentação de provas digitais derivadas de fontes digitais com a finalidade de facilitar ou promover a reconstrução de eventos considerados criminosos; ou ajudando a antecipar ações não autorizadas que demonstram ser prejudiciais às operações planejadas (PALMER, 2001, p. 16, tradução nossa).

Esta definição tratava-se de um aspecto mais amplo da disciplina, na tentativa de ir além da compreensão de uma área que estava ligada apenas aos tribunais, mas também com as operações militares e os ambientes corporativos (PALMER, 2001).

No que se refere ao uso da terminologia “Ciência Forense Digital”, percebe-se que não é de unânime aceitação entre a comunidade de peritos que atuam neste campo, podendo ser encontrados termos como “Forense Digital” (digital forensics), “Computação Forense”,

“Informática Forense” e “Forense Computacional”. No Brasil, por exemplo, Vecchia (2019), em recente atualização de seu livro “Perícia Digital: da investigação à análise forense” ao abordar o ponto terminológico opta pelo uso de “Perícia Digital” e “Computação Forense”, tratando-os como sinônimos.

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Desta maneira, entende-se que a Ciência Forense Digital é uma disciplina científica ligada à grande área da Ciência Forense, a qual outros campos também fazem parte; como a Antropologia Forense, a Arqueologia Forense, a Biologia Forense entre outras. O verbete

“Ciência Forense” sinaliza para “[...] a aplicação da ciência e de técnicas científicas com o objetivo de fornecer provas imparciais sobre questões perante um tribunal” (PHILLIPS;

BOWEN, 1989, p. 7).

Cohen (2015), diante da base da Ciência Forense, esclarece através da análise de traços que um determinado objeto ao entrar em contato com outro, deixa traços de si mesmo.

Explicando desta forma o método de transferência, proposto através dos estudos de Locard, onde tal objeto é visto por meio do contato (causa) que transfere (mecanismo) e produz determinado efeito (os rastros). Isso para explicar o objeto da Ciência Forense Digital: a prova digital.

A Diplomática e a Ciência Forense Digital são áreas preocupadas com a autenticidade do objeto digital, esta perspectiva ficou evidente em suas apresentações. Desta maneira, sua relação pode contribuir para o fortalecimento tanto dos estudos de autenticidade para o documento de arquivo digital como para a prova digital.

A próxima seção irá tratar da complexidade e especificidade do documento de arquivo digital, utilizando-se para isso muito dos resultados do projeto InterPARES.

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3 DOCUMENTO DE ARQUIVO EM AMBIENTE DIGITAL: ESPECIFICIDADE E COMPLEXIDADE

A seção que se segue tratará da complexidade e especificidade do documento de arquivo digital que, por sua vez, subdivide-se no conceito de documento de arquivo em ambiente digital e na ontologia do documento de arquivo, proposta pelo projeto InterPARES.

Não é o nosso objetivo discorrer sobre todos os conceitos encontrados na literatura arquivística a respeito do documento de arquivo em ambiente digital, até porque Rondinelli (2013) já o fez em sua obra intitulada “O documento de arquivo ante a realidade digital: uma revisitação necessária”. No entanto é necessário que essa compreensão seja feita nesta pesquisa, para assim apresentarmos a importância que o documento de arquivo em ambiente digital representa no entendimento de nossa proposta final.

3.1 O documento de arquivo digital

Antes de abordamos o conceito de documento de arquivo digital faz-se necessário, primeiramente, compreender o que é um objeto digital.

Um objeto digital pode ser uma “Unidade de informação em formato digital composta de uma ou mais cadeia de bits e de metadados que a identificam e descrevem suas propriedades” (CONARQ, 2020, p. 37). Ou ainda, “Uma unidade de informação que inclui propriedades (atributos ou características do objeto) e pode incluir métodos (meio de executar operações no objeto) (PEARCE-MOSES, 2005, p. 117, tradução nossa). É interessante complementar que o conceito de objeto digital é oriundo da programação orientada a objetos, podendo ser de natureza simples ou complexa e que, de uma forma geral, trata-se de uma abstração que se refere a qualquer tipo de informação.

Ferreira (2006), ao argumentar sobre os objetos digitais, contextualiza as camadas de abstração envolvidas em sua constituição, as quais fazem parte do processo de compreensão que envolve sua preservação digital. Estas camadas são também entendidas como níveis, conforme representação da Figura 1.

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Figura 1: Camadas de Abstração de um Objeto Digital

Fonte: Ferreira (2006)

O autor divide o objeto digital em níveis, os quais são: físico, lógico e conceitual. No nível físico temos os hardwares, que transportam consigo os dados que serão reproduzidos e manifestados, o nível lógico trata-se do software que irá fazer a leitura de determinado formato e a imagem formada e visualizada pelo receptor se constitui como o nível conceitual, que deve ser preservado (FERREIRA, 2006). Com isso, sigamos para a interpretação de documento.

A noção de documento no campo da Arquivologia e da Ciência da Informação possui inúmeras discussões. Autores como Buckland (1997), Ortega (2010) e Briet (2016) são destaques no campo da Ciência da Informação ao conceituarem o que seria um documento.

Briet (2016) considera que qualquer objeto pode ser considerado um documento. O exemplo mais famoso é o de um antílope em um museu, o qual segundo a autora pode transmitir inúmeras informações.

Desta forma, pode-se inferir em uma compreensão genérica, que documento é toda informação registrada em um suporte. Esta afirmativa pode se referir a qualquer tipo de documento, seja este o de arquivo, o de biblioteca ou o de museu, por exemplo. No entanto, não nos revela a peculiaridade e especificidade que cada tipo de documento carrega.

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Na Arquivologia o documento é tratado como de arquivo, ou arquivístico, por registrar as ações de seu produtor e por possuir relação com os demais documentos, daí o seu tratamento como um conjunto, ou um fundo. Estes e os demais atributos serão apresentados posteriormente.

A literatura anglo-saxã comumente aborda em sua terminologia o conceito de registro (record), que conforme Duranti, Eastwood e MacNeil (2002b) é sinônimo de documento de arquivo, ou documento arquivístico (archival document), oriundo da língua latina.

Para a Diplomática o documento de arquivo é tratado no singular, ou seja, no nível do item. E para a Arquivologia os documentos de arquivo são tratados como agregações e não individualmente (DURANTI; EASTWOOD; MACNEIL, 2002b, p.10).

Assim, em uma tradicional definição, o documento de arquivo é um “[...] documento produzido (ou seja, elaborado ou recebido e retido – ou seja, mantido, salvo – para ação ou referência) por uma pessoa física ou jurídica no curso de uma atividade prática, como um instrumento ou subproduto de tal atividade” (DURANTI; THIBODEAU, 2006, p. 15, tradução nossa). Quanto à variação do suporte, esta é válida tanto para o documento em papel quanto para o documento digital, ou eletrônico. Estes últimos, conforme a literatura, se diferenciam em seus conceitos.

Antes de trazermos o conceito de documento de arquivo em ambiente digital, façamos uma breve distinção do que é documento eletrônico e documento digital.

O documento eletrônico é entendido como uma informação analógica. Podendo, ou não, conter dígitos binários, acessível e interpretável por equipamento eletrônico (CONARQ, 2020). Já o documento digital é aquele cuja a “Informação [é] registrada, codificada em dígitos binários, acessível e interpretável por meio de sistema computacional” (CONARQ, 2020, p. 25).

Para Rondinelli (2013, p. 234) os termos são utilizados como sinônimos na literatura arquivística internacional, mas que, no entanto, apresentam diferenças técnicas, refletindo que “[...] todo documento digital é eletrônico, mas nem todo documento eletrônico é digital”, um exemplo disso seria a fita cassete, que embora necessite de uma máquina para ser interpretada, não possui dígitos binários.

Tendo isso em mente, um documento de arquivo digital é, portanto, “[...] um componente digital ou um grupo de componentes digitais que é salvo, tratado e gerenciado como um documento de arquivo”. Ou seja, é um “[...] registro cujo conteúdo e forma são codificados usando valores numéricos discretos (como os valores binários 0 e 1)”

(DURANTI, 2009, p. 44, tradução nossa).

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Por sua vez, um componente digital é entendido como “[...] entidades digitais que contêm um ou mais documentos ou estão contidos no documento e requerem uma ou mais medidas de preservação específica” (DURANTI, 2009, p. 46, tradução nossa). Este foi um conceito elaborado tendo em vista que não é possível preservar um documento digital da mesma forma que é feita com um documento em papel (DURANTI; THIBODEAU, 2006).

Retornaremos sobre o assunto, mais adiante.

Quanto ao fator complexidade e especificidade do documento digital isto é impulsionado principalmente pelo avanço das tecnologias.

Duranti argumenta, por exemplo, que “Enquanto no ambiente tradicional era fácil entender rapidamente quando a entidade que se estava observando era um documento de arquivo ou não, no ambiente digital tal empreendimento pode ser bastante complexo e requer etapas adicionais no procedimento de análise” (DURANTI, 2009, p. 61, tradução nossa). Por isso, foi definido um modelo de análise no InterPARES que identificava os metadados e componentes digitais os quais estão aliados aos conceitos e princípios da Diplomática Digital.

Complexidade quer dizer que os documentos digitais possuem muitos componentes digitais, logo é algo vinculado a sua forma fixa, que deve ser mantida sem alteração ao longo do tempo. Especificidade porque se trata de documentos de arquivo digital e não simplesmente de dados, informações ou até mesmo apenas um objeto digital.

Rocha e Rondinelli (2016, p. 63) recorrem à Diplomática e argumentam que esta “[...]

reconhece a especificidade do documento gerado em ambiente computacional e muda a condição de elemento intrínseco do documento, própria do suporte papel, passando a inseri- lo no contexto tecnológico dos documentos digitais, mais especificamente como hardware”.

Isso se dá porque nesse contexto o suporte antes era elemento norteador da análise diplomática e que mesmo com essa mudança imposta pela tecnologia a Diplomática se mantém firme em identificar, através da sua metodologia, a entidade arquivística em um objeto digital.

A seguir podemos observar os conceitos utilizados para se chegar ao entendimento do documento de arquivo em ambiente digital.

Quadro 2: Conceitos em torno do documento de arquivo digital

Termo Autores Conceito

Objeto digital CONARQ (2020) Unidade de informação em formato digital composta de uma ou mais cadeia de bits e de metadados que a identificam e descrevem suas propriedades.

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Pearce-Moses (2005) Uma unidade de informação que inclui propriedades (atributos ou características do objeto) e pode incluir métodos (meio de executar operações no objeto).

Documento de arquivo

Duranti & Thibodeau (2006)

Documento produzido (ou seja, elaborado ou recebido e retido – ou seja, mantido, salvo – para ação ou referência) por uma pessoa física ou jurídica no curso de uma atividade prática, como um instrumento ou subproduto de tal atividade.

Documento

eletrônico CONARQ (2020) Uma informação analógica podendo, ou não, conter dígitos binários, acessível e interpretável por equipamento eletrônico.

Documento digital CONARQ (2020) Informação registrada, codificada em dígitos binários, acessível e interpretável por meio de sistema computacional.

Documento de

arquivo digital Duranti (2009) Registro cujo conteúdo e forma são codificados usando valores numéricos discretos (como os valores binários 0 e 1).

Fonte: Elaborado pelo autor, 2021

Recorremos, deste modo, aos elementos que compõem o documento de arquivo em ambiente digital, através da ontologia proposta pelo projeto InterPARES.

3.2 Ontologia do documento de arquivo

O termo “ontologia”, originário da Filosofia, foi adotado no âmbito da Ciência da Computação nos anos 80. Seu uso está comumente relacionado à existência de objetos e conceitos sobre o domínio de um sistema (WELTY, 2003; VIANA; NABUCO, 2007).

Para explicarmos como um documento se constitui como um documento de arquivo, o projeto InterPARES elaborou uma ontologia que se divide em: componentes intelectuais, atributos e componentes digitais. Desta maneira, seguiremos esta estrutura para abordarmos os elementos do documento de arquivo digital, logo, sua especificidade e complexidade.

3.2.1 Componentes intelectuais

O conjunto de elementos em torno dos componentes intelectuais são aqueles determinados pela Diplomática e Arquivologia, tais como: forma fixa, conteúdo estável, pessoas, ação, vínculo arquivístico, suporte e contextos. Seguimos com a apresentação de cada um.

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A forma fixa “[...] significa que o conteúdo da entidade deve ser armazenado para que permaneça completo e inalterado, e sua mensagem deve ser apresentada com a mesma forma documental que tinha quando foi definida pela primeira vez (DURANTI;

THIBODEAU, 2006, p. 15-16, tradução nossa). Podendo ser representada em dois tipos, documentos armazenados e manifestados.

O documento armazenado é aquele “[...] constituído de componentes digitais vinculados, que são usados na reprodução do documento, que compreende os dados a serem processados para manifestar o documento [...]” (DURANTI, 2009, p. 46, tradução nossa).

Ou seja, essa manifestação do documento se daria por meio do que é entendido como dados de conteúdo e dados de forma. E as regras de processamento dos dados onde inclui-se as variações, que são permitidos por meio dos dados de composição.

Já o documento manifestado caracteriza-se como “[...] a visualização ou materialização de um documento em um formato adequado para a apresentação a uma pessoa ou sistema” (DURANTI, 2009, p. 46, tradução nossa). Duranti explica que não necessariamente um documento com forma documental manifestada possui um documento que corresponda a uma forma documental armazenada, pois este é recriado por meio dos dados fixos de conteúdo viabilizada pela ação de um usuário que relaciona tais dados aos dados específicos de forma e composição, um exemplo disso seria um documento produzido a partir de uma consulta a um banco de dados (DURANTI, 2009).

O conteúdo estável, como o próprio termo diz, está ligado à estabilidade que o conteúdo, ou as informações, devem possuir em um documento. É uma definição, que do ponto de vista da Arquivologia entende que para o documento ser considerado um documento de arquivo seus dados e informações devem estar registrados em uma forma fixa (DURANTI;

THIBODEAU, 2006).

E como determinar a estabilidade de um conteúdo, tendo em vista as várias formas dinâmicas que este pode assumir? Isso é explicado no conceito de variabilidade limitada, o qual é assim entendida:

Uma entidade tem variabilidade limitada quando as alterações em sua forma são limitadas e controladas por regras fixas, de modo que a mesma consulta ou interação sempre gera o mesmo resultado e quando o usuário pode ter visualizações diferentes de subconjuntos diferentes de conteúdo, devido a interação do autor ou ao caráter dos sistemas operacionais ou aplicativos. Enquanto a primeira definição de conteúdo estável se aplica a entidades digitais estáticas, a segunda é significativa quando as entidades que estamos vendo são interativas (DURANTI, 2009, p. 47, tradução nossa).

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E o que seriam essas entidades estáticas e interativas? Demonstraremos a seguir.

Para a Diplomática, uma entidade estática

[...] é aquela que não oferece possibilidades de alterar seu conteúdo ou forma manifestada além de abrir, fechar e navegar; por exemplo, e-mails, relatórios, gravações sonoras, vídeos e snapshots de páginas da web. Essas entidades, se todos os requisitos foram atendidos, são documentos de arquivo, porque possuem forma fixa e conteúdo estável (DURANTI, 2009, p. 47, tradução nossa).

Ou seja, as regras de apresentação desse tipo de entidade digital, são aquelas determinadas pela tecnologia. Esta é uma das formas mais comuns de entender um documento de arquivo digital.

Por outro lado, uma entidade interativa “[...] apresenta conteúdo variável, forma variável, ou ambos, e as regras que regem o conteúdo e a forma de apresentação podem ser fixas ou variáveis. Entidades interativas podem ou não ser documentos de arquivo, dependendo se elas são dinâmicas ou não-dinâmicas” (DURANTI, 2009, p. 47, tradução nossa).

Para que estas sejam consideradas não-dinâmicas “[...] as regras que regem a apresentação do conteúdo e da forma não variam, e o conteúdo apresentado a cada vez é selecionado a partir de um armazenamento fixo de um dado (DURANTI, 2009, p. 47, tradução nossa). Exemplos desse tipo de entidade são as páginas web ou catálogos on-line.

Já as entidades dinâmicas

São aquelas para as quais as regras que regem a apresentação de conteúdo e forma podem variar: essas entidades podem ser componentes de sistemas de informação ou “documentos de arquivo em potencial”, pois podem se tornar documentos de arquivo se o sistema digital em que existem, dado o objetivo que ele cumpre, devem conter documentos de arquivo e, portanto, é redesenhado de forma a produzir e gerenciar documentos ou se as entidades que deveriam existir como registro forem movidas para outro sistema que apenas mantenha documentos digitais (por exemplo, entidades estáticas e não-dinâmicas) (DURANTI, 2009, p. 47-48, tradução nossa).

Desta forma, o conteúdo estável está ligado ao conceito de variabilidade limitada, que por sua vez se aplica em entidade digital estática e entidades digitais interativas dinâmicas e não-dinâmicas, que a depender do contexto podem se tornar um potencial documento de arquivo digital.

Outra característica de um documento de arquivo são as pessoas que compõem a sua produção, as quais são: um originador, um autor, um redator, um destinatário e um produtor.

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Este conceito de “pessoas” foi determinado pela Diplomática Digital para “[...]

distinguir documentos de arquivo de objetos digitais resultantes da simples consulta de um banco de dados [...]” (DURANTI; THIBODEAU, 2006, p. 16, tradução nossa, grifo nosso).

Assim temos o seguinte entendimento sobre estas pessoas:

[....] autor é a pessoa que emite o registro, o redator é a pessoa que determina a articulação do discurso no documento e o destinatário é a pessoa a quem o documento se destina. Como um documento de arquivo deve participar de uma ação e qualquer ação deve recair sobre alguém, o destinatário é necessário para a existência do documento (DURANTI; THIBODEAU, 2006, p. 16, tradução nossa, grifo nosso).

Estas são as três pessoas que no mínimo devem ser identificadas na produção de um documento de arquivo. As outras duas, que não são obrigatórias, mas podem se fazer presente são: o originador que é “A pessoa física ou jurídica designada [atribuída] no endereço eletrônico no qual o documento foi gerado e/ou enviado” e o produtor que é “A pessoa física ou jurídica em cujo fundo o documento existe” (DURANTI, 2009, p. 45).

É importante esclarecer que a Diplomática, no século XIX, havia determinado a existência de três pessoas: o autor, o destinatário e o redator. Posteriormente, duas pessoas foram acrescentadas pela Diplomática Digital: originador e produtor.

Enquanto a característica “ação”, pode-se dizer que é aquela “[...] em que o documento de arquivo participa ou que o mesmo apoia procedimentalmente como parte do processo de tomada de decisão” (DURANTI; THIBODEAU, 2006, p. 16, tradução nossa),

Para Duranti (2009, p. 48, tradução nossa) é ainda necessário

[...] determinar se as entidades [...] são documentos de arquivo, é essencial estabelecer de que maneira eles participam das atividades, se houver, no contexto das funções de seu produtor. Existem diferentes maneiras pelas quais um documento pode participar de uma ação e, dependendo de sua função com relação à ação em que participa, um documento pode adquirir um qualificador específico (DURANTI, 2009, p. 48, tradução nossa)

É por isso que os documentos podem ser qualificados como documentos jurídico- administrativos, documentos não-jurídicos e documentos do ambiente digital.

Os documentos jurídico-administrativos são divididos em probatórios e dispositivos.

Nessa categoria o documento é considerado probatório ao “[...] fornecer prova de um ato que veio à existência e foi completo antes de se manifestar por escrito [...] (DURANTI, 2009, p.

48-49, tradução nossa). Alguns exemplos são os certificados, transcrições e recibos. Por outro lado, o documento dispositivo é aquele que “[...] se destina a colocar o ato em prática e,

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