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PARTE I – TEORIA GERAL DO DIREITO

2 TEORIA GERAL DO DIREITO: MODELOS DE INCIDÊNCIA DAS NORMAS

3.8 Meios de prova no Direito Brasileiro

3.8.4 Documento

Segundo Chiovenda, documento é “toda representação material destinada e idônea a reproduzir uma dada manifestação do pensamento”, enquanto Renato Saraiva54 afirma que “é o meio utilizado como prova material da existência de um fato, abrangendo não só os escritos, mas também os gráficos, as fotografias, os desenhos, reprodução cinematográfica etc”.

Segundo Fabiana Del Padre Tomé55, pela via documental, constituem-se fatos jurídicos em sentido amplo, com base nos quais o julgador determina o fato jurídico em sentido estrito – o que justifica a afirmação de que todas as espécies de prova assumem a forma documental.

Importa ainda distinguir documento de instrumento, sobre os quais afirma Maria Helena Diniz56 que “os instrumentos públicos e particulares dão existência aos negócios jurídicos, servindo-lhes de prova”, ao passo que “os documentos têm função meramente probatória”.

54 SARAIVA, Renato. Curso de Direito do Trabalho. 4. ed . São Paulo: Método, 2007, p. 362. 55 TOMÉ, Fabiana Del Padre, A prova no direito tributário, op. cit., p. 110

Nos termos do artigo 364 do Código de Processo Civil: “O documento público faz

prova não só da sua formação, mas também dos fatos que o escrivão, o tabelião, ou o funcionário declarar que ocorreram em sua presença”.

Já o documento particular, como destaca Mauro Schiavi57, é emitido sem a participação de um oficial público, vinculada sua força probante à sua natureza e conteúdo, ressaltando que, nos termos dos artigos 372 e 373 do CPC, não havendo impugnação pela parte contrária, há presunção juris tantum de veracidade do documento particular.

No âmbito do Direito Previdenciário, a prova documental representa na jurisprudência o chamado “início de prova material”, uma vez que tem se atribuído somente a esse tipo de representação do fato a qualificação de “material”.

Esse tipo de prova é normalmente exigido para comprovar o exercício de atividade laboral urbana ou rural, nos termos do parágrafo 3º do art. 55 da Lei 8.213/91.

Contudo, não é qualquer representação material que se reveste da qualidade de documento, mas há de ser idôneo. Porém, não basta ser idôneo para se caracterizar como início de prova material. Além da idoneidade, o documento deve ser contemporâneo ao fato que se pretende provar.

3.8.4.1 Documento eletrônico ou digital

Conforme Augusto Tavares Rosa Marcacini58, o documento eletrônico é totalmente dissociado do meio em que foi originalmente armazenado, apresentado assim o conceito de documento eletrônico como:

Uma sequência de bits que, traduzida por meio de um determinado

programa de computador, seja representativa de um fato. Da mesma

forma que os documentos físicos, o documento eletrônico não se resume em escritos: pode ser um texto escrito, como também pode ser um desenho, uma fotografia digitalizada, sons, vídeos, enfim, tudo que puder representar um fato e que esteja armazenado em um arquivo digital. A Lei 11.419/2006, que dispõe sobre a informação no processo judicial, ao tratar do documento eletrônico no artigo 11, determina:

57 SCHIAVI, Mauro. Provas no processo do trabalho. op. cit., p. 117.

58 MARCACINI, Augusto Tavares Rosa. O documento eletrônico como meio de prova. Disponível em:

Art. 11. Os documentos produzidos eletronicamente e juntados aos processos eletrônicos com garantia da origem e de seu signatário, na forma estabelecida nesta Lei, serão considerados originais para todos os efeitos legais.

§ 1o Os extratos digitais e os documentos digitalizados e juntados aos

autos pelos órgãos da Justiça e seus auxiliares, pelo Ministério Público e seus auxiliares, pelas procuradorias, pelas autoridades policiais, pelas repartições públicas em geral e por advogados públicos e privados têm a mesma força probante dos originais, ressalvada a alegação motivada e fundamentada de adulteração antes ou durante o processo de digitalização.

§ 2o A arguição de falsidade do documento original será processada eletronicamente na forma da lei processual em vigor.

§ 3o Os originais dos documentos digitalizados, mencionados no § 2o

deste artigo, deverão ser preservados pelo seu detentor até o trânsito em julgado da sentença ou, quando admitida, até o final do prazo para interposição de ação rescisória.

§ 4o (VETADO)

§ 5o Os documentos cuja digitalização seja tecnicamente inviável devido

ao grande volume ou por motivo de ilegibilidade deverão ser apresentados ao cartório ou secretaria no prazo de 10 (dez) dias contados do envio de petição eletrônica comunicando o fato, os quais serão devolvidos à parte após o trânsito em julgado.

§ 6o Os documentos digitalizados juntados em processo eletrônico

somente estarão disponíveis para acesso por meio da rede externa para suas respectivas partes processuais e para o Ministério Público, respeitado o disposto em lei para as situações de sigilo e de segredo de justiça.

Como ressalta Fabiana Del Padre Tomé59, o documento eletrônico não apresenta maiores dificuldades quanto à sua caracterização. Porém, ressalva a problemática da falsificação, que, aliás, não se restringe aos documentos eletrônicos, uma vez que a possibilidade de falsificação é inerente a qualquer documento.

Nos termos da nova redação dada pela Lei Complementar nº 128/2008 ao art. 29-A da Lei nº 8.213/1991, fica o INSS autorizado a considerar as contribuições e vínculos empregatícios existentes no CNIS:

Art. 29-A. O INSS utilizará as informações constantes no Cadastro Nacional de Informações Sociais – CNIS sobre os vínculos e as remunerações dos segurados, para fins de cálculo do salário-de-benefício, comprovação de filiação ao Regime Geral de Previdência Social, tempo de contribuição e relação de emprego.

Todavia, as informações constantes do CNIS – Cadastro Nacional de Informações Sociais têm sido admitidas mediante presunção relativa, justamente por apresentar certa deficiência na qualidade das informações. Nesse sentido:

PREVIDENCIÁRIO - PENSÃO POR MORTE - COMPANHEIRA - UNIÃO ESTÁVEL COMPROVADA - PERDA DA QUALIDADE DE SEGURADO RECONHECIDA - CNIS - INFORMAÇÃO INEXATA - PROVA INIDÔNEA. I - Em matéria de pensão por morte , o princípio segundo o qual tempus regit actum impõe a aplicação da legislação vigente na data do óbito do segurado. II - A qualidade de segurado do instituidor da pensão não foi comprovada, na data do óbito (12.10.1998), pois o último vínculo de emprego encerrou-se em 14.2.1989, de modo que a perda desta qualidade ocorreu em 14.2.1990 ( art. 7º do Decreto n. 89.312/1984 - CLPS). III - A manifesta inexatidão de informações no CNIS torna este documento inidôneo à comprovação da qualidade de segurado. IV - Apelação desprovida.

(AC 200161150016328, JUIZA MARISA SANTOS, TRF3 - NONA TURMA, 03/11/2010)

Não obstante essa limitação, o CNIS possui evidente caráter de prova documental, pois, mesmo na forma virtual, trata-se de representação material, apta a comprovar inúmeros fatos jurídicos em sentido amplo como a filiação, o tempo de contribuição, os vínculos empregatícios, valor das remunerações e das contribuições sociais.