4 A TRANSIÇÃO DA SÉRIE B PARA A SÉRIE A
4.2 DOIS MERCADOS DISTINTOS: A DIVISÃO “A” E A DIVISÃO “B”
O Campeonato Brasileiro de Futebol, como já ressaltado anteriormente, é o principal campeonato de futebol do país. Ele foi criado em 1971 como uma sucessão natural dos torneios Roberto Gomes Pedrosa e Taça Brasil, e a partir de sua criação passou a ser o campeonato do país com a função de definir os representantes para as competições sul- americanas.
O Campeonato Brasileiro surgiu com duas divisões distintas já no ano de sua fundação: o
Campeonato Nacional de Clubes, que atualmente representa a série A do Campeonato
Brasileiro, e o Campeonato Nacional de Clubes da Primeira Divisão, que hoje representa a série B do Campeonato Brasileiro. Posteriormente, no ano de 1981, foi criada também uma terceira divisão para o campeonato, sob o nome de Taça de Bronze e que corresponde atualmente à Série C do torneio – naquele ano as séries A e B do Campeonato Brasileiro possuíam os nomes, respectivamente, de Taça de Ouro e Taça de Prata.
O principal aspecto que diferencia tais divisões do Campeonato Brasileiro de Futebol é a força de seus clubes participantes. Nesse sentido, as divisões possuem justamente o objetivo de segregar os clubes de acordo com seu desempenho técnico, visto que um único campeonato com a abrangência em reunir clubes que o Campeonato Brasileiro de Futebol possui seria totalmente inviável em termos de definição de calendário dos jogos. É nesse propósito que as divisões são criadas e a presença destas em todos os campeonatos nacionais de grande porte ao redor do mundo tornam-nas, praticamente, incontestáveis.
Assim, a Série A reúne, em teoria, os melhores times do cenário nacional, seguida pela série B e, por fim, pela Série C. Porém, para que se considere a evolução (crescimento/redução) no desempenho dos times ao longo do tempo, de forma a manter esse ranking entre as divisões, é que surge a função do regulamento do acesso e do descenso.
O regulamento do acesso e do descenso indica que os clubes que ocuparem as piores colocações no campeonato serão rebaixados à divisão inferior no ano seguinte (com o limite da divisão C, onde não há descenso por ser a divisão mais baixa) e, no mesmo raciocínio, os clubes que ocuparem as colocações mais altas do campeonato passarão a disputar o campeonato do ano seguinte na divisão superior (com o limite da divisão A, a mais elevada). Atualmente, os quatro últimos clubes na tabela de classificação de cada divisão sofrem o descenso e, igualmente, os quatro clubes mais bem colocados de cada divisão sofrem o acesso. Porém, apesar de atualmente ser quatro o número de clubes tanto para o acesso quanto para o descenso em todas as divisões, esse número já variou bastante. Inclusive, em certos anos, o número de clubes que sofria o acesso era diferente do número de clubes que sofria o descenso, e esse número também diferia de divisão para divisão.
Cabe ressaltar que para fins desse trabalho, cujo objetivo é explicar como o modelo de gestão estratégica dos clubes que ingressam na série A determina se eles irão conseguir ou não se manter na divisão mais elevada, apenas as séries A e B serão consideradas no estudo. Essa decisão é advinda do Campeonato Brasileiro da Série C englobar um número maior que o dobro de clubes em comparação às séries A e B; de seus clubes participantes serem, em geral, tão frágeis em termos de recursos (tanto de recursos físicos, quanto de recursos humanos, e isto diz respeito também aos membros da gestão) que tornam a existência, mesmo que minimamente, de um modelo de gestão eficiente e preocupado em otimizar desempenho esportivo e desempenho financeiro praticamente impossível de acordo com os padrões de gestão futebolística que se observa atualmente no cenário nacional; e principalmente, pela presença dos participantes na série C ser definida por critérios com base nos campeonatos estaduais, fato que foge do escopo do trabalho e que, dessa maneira, geraria grandes problemas metodológicos ao englobar na análise dois tipos distintos de campeonato para se determinar o desempenho dos clubes. Dessa forma, de agora em diante, sempre que se mencionar as divisões sem especificá-las, o trabalho estará se referindo apenas às séries A e B.
Assim, além da diferença na força de seus clubes participantes – e essa força se relaciona tanto ao desempenho esportivo quanto ao desempenho financeiro -, outras características distinguem o Campeonato Brasileiro de Futebol da Série A do Campeonato Brasileiro de Futebol da Série B. Por exemplo, regras distintas para o sistema de disputa; perfil diferente dos times, o que em termos médios atuais corresponde a times mais jovens e com mais velocidade na Série B do que na Série A, com o contraponto de times mais técnicos na série A; maior desgaste na série B por parte dos jogadores nas viagens, tendo em vista que é muito mais constante nessa divisão a presença de clubes oriundos de regiões afastadas dos grandes centros urbanos, o que torna o acesso mais difícil e cansativo; e, por fim, características diferentes também no aspecto financeiro, o que significa que os clubes participantes da série A tendem a receber um maior aporte de recursos por parte de patrocinadores e por parte da mídia simplesmente por fazerem parte de um campeonato com um valor enquanto produto mais elevado do que o campeonato da série B - isso devido substancialmente pelos ativos intangíveis que o campeonato da série A possui (a marca dos grandes clubes) e pela conseqüente maior visibilidade do mesmo.
Dos diferenciais citados merecem destaque e maior explanação os diferenciais de ordem financeira e também o diferencial nas regras para o sistema de disputa. Os diferenciais financeiros serão abordados com maior profundidade mais adiante, no tópico 4.3. Com relação às regras distintas para o sistema de disputa, este fator implica em mudança na preparação do time para tentar tirar proveito e melhor lidar com as regras que o campeonato estabelece. Exemplificando, em um campeonato sob o formato de “mata-mata”, o time terá que ser preparado de maneira distinta fisicamente, e muitas vezes também taticamente, a um campeonato sob o formato de “pontos corridos”, onde a regularidade é característica-chave para se obter êxito. Também a lesão de jogadores impacta de forma diferente em campeonatos regidos por regras distintas. A perda de um jogador por motivo de lesão tem impacto muito maior se ocorrer nas fases decisivas de um campeonato sob o formato classificatório ou “mata-mata” do que se ocorrer em um campeonato sob o formato de “pontos corridos”, onde todas as partidas, em tese, possuem um peso igual de importância. Por esse motivo é que muitos treinadores costumam adotar a tática de poupar jogadores quando o seu time disputa uma fase classificatória e já se encontra em uma posição privilegiada na tabela, com o objetivo justamente de ter todos os jogadores à disposição para as fases decisivas. Por outro lado, um campeonato sob o formato de pontos corridos onde todos os times jogam contra todos em turno e returno costuma exigir dos times um elenco mais completo, pelo fato do
campeonato ser longo em termos de número de partidas e também por não permitir (ou permitir mais dificilmente) ao treinador desprezar uma partida e poupar grande parte dos titulares, visto que todas as partidas possuem um grau de importância, em tese, igual. Assim, para se destacar neste tipo de campeonato é importante não apenas possuir bons jogadores no time titular, mas também na reserva, de forma a evitar grandes prejuízos pela ausência de jogadores devido a lesões ou número de cartões (amarelos e/ou vermelhos) recebidos, fatos que ocorrem com maior freqüência nesse tipo de campeonato justamente por ele se caracterizar como de longa duração.
A partir dos casos acima citados, percebe-se que os diferentes sistemas de disputa podem influenciar consideravelmente o comportamento e o desempenho dos times. Dessa forma, a concepção acerca das regras que regem o campeonato é bastante importante para que o departamento técnico do clube tome decisões acertadas. Cabe ressaltar aqui que as séries A e B do Campeonato Brasileiro apresentaram sistemas de disputa diferentes por vários anos, porém, desde 2006, quando a série B instituiu o formato de turno e returno com pontos corridos as duas divisões possuem o mesmo sistema de disputa – a série A passou a adotar tal sistema três anos antes da série B, em 2003.
Todos os fatores apresentados e argumentos utilizados até aqui tiveram a função de mostrar que a mudança de divisão pode constituir um problema substancial para os clubes que sofrem o acesso à Série A, justamente pelas características distintas que as divisões possuem. A mudança da divisão B para a divisão A implica em um novo ambiente de competição para os clubes, com novos e mais fortes competidores, muitas vezes com novas regras que guiam o sistema de disputa e ainda com outras características diferentes, mas menos aparentes. Fazendo uma analogia a outros segmentos econômicos, é como se uma empresa ingressasse em um novo mercado, e é neste sentido que todas as competências organizacionais acumuladas por ela durante anos podem ser postas a perder se não se enquadrarem de maneira correta para o ambiente competitivo desse novo mercado. Por isso é que a percepção correta das características desse novo ambiente (a nova divisão) é bastante importante para que o clube trace as suas estratégias de maneira eficaz e consiga, assim, obter êxito.
Por fim, cabe elucidar que o Campeonato Brasileiro de Futebol foi marcado ao longo dos anos e em todas as suas divisões pela falta de padronização no sistema de disputa e desorganização na esfera do planejamento e da execução do torneio. Exemplos disso são os calendários irregulares e mal planejados dos jogos, mudança constante no número de participantes,
aparecimento/desaparecimento de determinadas divisões em certas épocas devido a alterações nas regras do torneio, campeonatos que terminam sem a definição de um clube vencedor, escândalos de arbitragem e decisões extra-campo que interferem nos sistemas de disputa, as chamadas “viradas de mesa”. Porém, após a aprovação do Código do Torcedor em 2003, verifica-se um ganho crescente com relação à maior padronização e organização do torneio, com calendários melhor definidos e regras mais padronizadas que não variam ano após ano. Inclusive, passou-se a verificar também uma maior uniformidade entre as séries A e B, de forma a aproximar as características dessas duas divisões. Nesse sentido é que as duas divisões atualmente possuem o mesmo sistema de disputa, mesmo número de participantes e mesmo número de clubes que sofrem o acesso e o descenso a cada ano.
4.3 A MUDANÇA NO STATUS DO CLUBE COM A INSERÇÃO NA NOVA DIVISÃO E