3 A CÉLULA DO MERCADO FUTEBOLÍSTICO: O CLUBE
3.3 FONTES DE DESPESAS E RECEITAS DE UM CLUBE
As despesas e receitas constituem os determinantes para o desempenho financeiro do clube e, naturalmente, uma gestão que não leve em consideração esses valores em suas decisões irá por em xeque a própria sustentabilidade da entidade enquanto organização futebolística.
O clube, por dispor de um grande número de profissionais ocupando as mais diversas funções, por ter que cuidar da administração de seu estádio e centros de treinamento, ter que arcar com as viagens e hospedagem de seu departamento técnico para jogar as partidas como visitante, sem mencionar ainda outras atribuições, apresenta despesas bem diversificadas e em um nível elevado.
Entretanto, apesar dos variados gastos incorridos pelos clubes, suas despesas basicamente concentram-se em relação ao chamado departamento técnico de futebol. E, internamente a esse departamento, os gastos com jogadores e comissão técnica – principalmente jogadores - são, definitivamente, os mais relevantes em termos de volume de despesas. Assim, não é exagero afirmar que grande parcela das despesas de um clube é oriunda de salários, encargos sociais, amortização referente a contratações e bonificações de jogadores e comissão técnica.
O controle das despesas é algo de suma importância para a performance financeira de um clube. Se ele busca o equilíbrio em suas contas financeiras, o primeiro passo a realizar é controlar o seu fluxo de gastos, eliminando gastos desnecessários, pois a outra face da moeda – a geração de receitas – é algo que exige um tempo de maturação maior para que apresente resultados. Assim, o corte de despesas fornece uma ação com resultado de curto-prazo enquanto o desenvolvimento na geração de receitas, além de necessitar de um prazo maior para apresentar resultados significativos – exceção feita à receita obtida com a venda de jogadores -, envolve também fatores que não estão totalmente sob controle da gestão do clube: renda da população, disposição territorial de seus torcedores, satisfação dos torcedores com o campeonato, posição do clube na tabela, etc.
Nesse sentido, em relação ao controle das despesas, o primeiro item a se considerar é a folha salarial do time, pois esta representa o maior impacto na totalidade das despesas do clube. Assim, o controle da folha salarial implica uma análise com o intuito de não manter no time jogadores que estejam recebendo um salário muito além do desempenho que estejam
apresentando em campo bem como parcimônia da gestão no momento de novas contratações de jogadores. Dessa forma, o controle da folha salarial através da definição de um orçamento pré-estabelecido para tal é importante para minimizar o “aperto” financeiro presenciado pelos clubes oriundo do desejo de seus dirigentes em contratarem cada vez mais e melhores jogadores com o objetivo de presenciarem uma elevação no desempenho esportivo do time.
Com relação às receitas de um clube, estas são o princípio fundamental para que o clube apresente um desenvolvimento sustentável a longo-prazo, de forma a incrementar o seu caixa para que possa ser possível realizar investimentos – tanto em infra-estrutura física como em contratação de jogadores. Já foi destacado o importante papel do controle das despesas para a saúde financeira de um clube, porém, ele apresenta limitações. A redução nos gastos possui um limite, sob pena de desarticular as principais competências desenvolvidas pelo clube, seja no campo dos relacionamentos comerciais e da administração ou seja no seu próprio desempenho no interior das quatro linhas. Sendo assim, se um clube planeja desenvolver-se enquanto organização ele precisa conceber muito bem sua capacidade de geração de receitas, principalmente no ambiente atual regido pela ótica do futebol-negócio.
Os clubes possuem variadas fontes de receita, e já concebida anteriormente a estrutura de relacionamentos do mercado futebolístico, torna-se mais fácil o entendimento dos diferentes tipos de receita dessas organizações a partir dos relacionamentos destas com os agentes consumidores. Dessa forma, serão expostas as operações de receita possíveis para os clubes de acordo com o relacionamento destes com cada um dos agentes consumidores (sejam eles consumidores finais ou intermediários).
Com relação aos consumidores finais, há duas possibilidades de geração de receitas:
a) Bilheteria – Corresponde a uma receita gerada por meio da ida do público aos
estádios. É o tipo de receita mais tradicional das organizações de futebol e o tipo principal de receita nas relações diretas entre clubes e mercado consumidor final; b) Merchandising – Trata-se da venda de produtos com a marca do time. Para que se
configure a operação de merchandising, é necessário que o próprio clube trate da venda desses produtos, não incumbindo a terceiros essa tarefa. A receita de merchandising é oriunda do desejo de torcedores e fãs de futebol em consumir produtos com a marca de seus times, através da simbologia que este tipo de produto fornece aos seus consumidores.
No relacionamento com os consumidores intermediários industriais, os clubes realizam as seguintes operações:
a) Patrocínio – Compreende uma fonte de receita oriunda da associação de empresas aos
clubes de futebol, com o intuito dessas em utilizarem-se do Marketing Esportivo. Assim, as empresas fornecem um aporte financeiro aos clubes e, em contrapartida, se beneficiam de uma maior visibilidade de sua marca e/ou produtos e maior fixação da marca junto ao público, os quais traduzem-se em um crescimento no volume de vendas dessas organizações. Além disso, essas empresas adquirem ainda uma maior afeição por parte dos torcedores dos times a que se associam, justamente por estarem contribuindo para o incremento do caixa desses clubes.
Os patrocínios dos clubes de futebol dividem-se em patrocínio principal e patrocínio
técnico. O patrocínio principal corresponde ao exemplo mais notável de patrocínio no
mercado futebolístico. Ou seja, trata-se do uso da imagem da marca da empresa patrocinadora ou de seus produtos nos uniformes dos times. O patrocínio técnico, por sua vez, está relacionado à confecção e fornecimento de material esportivo por empresas desse ramo aos times.
Vale salientar que o patrocínio envolve uma vinculação de imagem entre clube e empresa patrocinadora e, por conta disso, as duas partes precisam conceber muito bem esse aspecto para que a parceria torne-se realmente eficiente. Qualquer deslize ou má conduta de uma das partes ocasionará em prejuízos morais, ou mesmo financeiros, à outra parte envolvida. Por conta disso é que a sonegação de impostos ou o não pagamento de dívidas fiscais ou trabalhistas por conta de um clube pode manchar toda uma imagem consolidada da organização patrocinadora. Por outro lado, as empresas patrocinadoras passam a ganhar mais visibilidade na mídia e frente ao público, assim como crescimento nas vendas, quando o time patrocinado apresenta um alto desempenho esportivo, traduzido por títulos e vitórias. Além disso, a própria imagem da empresa passa a ser de uma “empresa vitoriosa”. Da mesma forma, um time patrocinado se favorece com o crescimento de sua empresa patrocinadora, tanto pela possibilidade de um maior aporte de recursos financeiros quanto pelo respaldo que a vinculação de uma marca forte confere.
b) Publicidade estática1 – A publicidade estática opera sob os mesmos moldes do
patrocínio, ou seja, empresas que se associam a times e eventos esportivos interessadas no marketing esportivo. Porém, sua aplicação é distinta. No caso da publicidade estática, as empresas despendem recursos financeiros para adquirir certo espaço para exposição de suas marcas ou produtos nos estádios. As placas de publicidade à beira dos gramados são o exemplo mais aparente desse tipo de operação.
Por fim, com relação aos consumidores intermediários de revenda, há três tipos de fontes de receita:
a) Venda de direitos de transmissão – Trata-se da receita obtida com a venda dos direitos
de transmissão dos espetáculos futebolísticos à mídia televisiva. Assim, as empresas de mídia pagam determinada quantia aos clubes ou associações de clubes (Clube dos 13, por exemplo) para se habilitarem ao direito de transmitir as partidas de futebol à população. Cabe destacar que a transmissão de espetáculos de futebol pode ocorrer de duas formas: serviço de entretenimento gratuito ao torcedor por meio da transmissão aberta dos jogos e serviço de entretenimento pago pelos torcedores através de transmissões sob a forma pay-per-view.
A operação de venda dos direitos de transmissão representa atualmente uma importante fonte de receita para os clubes de futebol.
b) Loteria esportiva – Corresponde à cessão de imagem dos clubes e campeonatos de
futebol às loterias. Essa operação pode ser de controle público, não gerando um montante significativo de receitas para os clubes, ou pode ocorrer como na Itália, em que é uma fonte importante de receitas para os clubes.
c) Licenciamento de produtos - Semelhante ao merchandising. Ou seja, trata-se da venda
de produtos com a marca do time. Mas, neste caso, a operação de venda é realizada por terceiros, e não pelo próprio clube. Assim, as empresas interessadas em produzir determinados bens com as marcas dos times pagam aos clubes para utilizarem suas marcas.
Os clubes também possuem um tipo de receita oriunda do mercado de jogadores:
1 Em essência, no campo do marketing, a publicidade estática corresponde a uma forma de merchandising,
porém tais fontes de receita são caracterizadas separadamente para evidenciar que são receitas geradas a partir de diferentes relacionamentos comerciais.
a) Venda de jogadores – Trata-se da venda do passe de jogadores, ou seja, da venda de
jogadores durante a vigência de seus contratos, tendo em vista que a Lei Pelé instituiu passe livre aos jogadores ao término de seus contratos. No Brasil, especificamente, essa operação é baseada muito mais na qualidade técnica do atleta e da equipe que o desenvolve do que propriamente na relação comercial clube-cliente (SILVA; CAMPOS FILHO, 2006, p. 201). Além disso, a venda de jogadores trata-se da principal fonte de receita para muitos clubes brasileiros.
Compreendidos os diferentes tipos de receita para os clubes, a tabela abaixo fornece um bom comparativo das fontes de receita para determinados clubes brasileiros e europeus. Na tabela, as fontes de receitas encontram-se divididas em: venda de jogadores, relacionamento com a mídia, receita comercial e outras receitas. Em se tratando da receita comercial, esta compreende o somatório das receitas de merchandising, licenciamento, patrocínio principal e patrocínio de material esportivo.
Tabela 1 – Fontes de receitas para clubes brasileiros e europeus
* Apesar da venda de jogadores não se constituir como uma fonte de receita expressiva para os clubes estrangeiros quando comparada à receita total de tais clubes, os valores nulos na tabela sugerem uma maior atenção para os dados. Cabe destacar, nesse sentido, que a fonte consultada não faz nenhuma menção à questão dos valores nulos.
Fonte: Adaptado de SILVA; CAMPOS FILHO, 2006, p. 202
Assim, percebe-se a disparidade na origem das receitas dos clubes brasileiros e europeus. Enquanto os clubes europeus baseiam suas receitas na exploração da marca do clube, ou seja, no relacionamento com os consumidores, as receitas dos clubes brasileiros são extremamente dependentes da venda de jogadores. Isso resulta da maior capacidade dos clubes europeus em perceberem o potencial econômico do futebol, desenvolvendo relações comerciais orientadas pela lógica do futebol visto como negócio.
A grande dependência da venda de jogadores por parte dos clubes brasileiros, inclusive, é danosa para o próprio valor do futebol brasileiro enquanto produto. Como grande parcela desses jogadores transacionados – sobretudo os melhores – é vendida para o exterior, os clubes brasileiros apresentam cada vez mais dificuldades em montar bons elencos e os campeonatos tornam-se mais enfraquecidos e menos atrativos.