Formas canónicas de relato de discurso: discursos directo e indirecto
CAPÍTULO 3. O discurso indirecto livre
3.4. Dois tipos de discurso indirecto livre?
3.4.2. Discurso indirecto livre como expressão de pensamentos
Foi dito anteriormente que, para Ann Banfield, o DIL é, sobretudo, representação de consciência. E mesmo no caso, que a autora também exemplifica, de ser usado para relatar discurso, Banfield afirma que se está perante a percepção que o alocutário tem do discurso relatado, ou seja, perante o reflexo de um discurso na consciência de quem ouve.
Nas ocorrências, muito habituais nos romances de Eça, p.e, em que o DIL é usado para relatar discurso, acontece, por vezes, que as palavras relatadas parecem realmente filtradas pela percepção de um alocutário. A referência ao modo como o discurso relatado em DIL é recebido pelo alocutário não garante, no entanto, que o objecto do relato seja a percepção que ele tem do discurso, a ressonância, na sua consciência, das palavras ouvidas. Tal referência pode significar apenas que aquele discurso foi realmente pronunciado e, como tinha por objectivo provocar determinados efeitos no alocutário, é natural que o narrador diga de que modo o alocutário o recebeu69.
No caso deste estudo, e revisto o corpus analisado, defendo que o centro díctico evoca sobretudo um sujeito de enunciação e, em muito menos ocorrências, um sujeito de consciência, tomando este como um sujeito que pensa sem exteriorizar, por palavras, os seus pensamentos e aquele como um sujeito que produz enunciados verbais. Para Banfield há, sobretudo, o sujeito que ouve produzir enunciados verbais. Sãò poucas, no entanto, as
69 Vem a propósito citar uma interrogação de Fludernik que se espanta por a teoria de Banfield subvalorizar o DIL que relata palavras: «[...], why is it that in Banfield's paradigm the deictic centre seems to evoke a subject of consciousness and not a subject of enunciation?» (Fludernik, 1993: 382). Parece não haver, em Banfield, resposta convincente para esta interrogação.
ocasiões em que podemos afirmar, com certeza, que o enunciado relatado em DIL está a ser relatado tal como o recebe a consciência do alocutário.
Neste sentido, o DIL está indissoluvelmente ligado à vasta problemática da focalização na ficção narrativa. Pode admitir-se, embora seja difícil fazer afirmações categóricas num campo em que faltam provas concretas, que mesmo o DIL de palavras seja um relato filtrado pela consciência do alocutário ou de quem focaliza a cena. Se aceitarmos esta opinião, consideraremos que é através da percepção do Vilaça que «ouvimos» os relatos em DIL do capítulo III de Os Maias, ou da de Carlos que nos chegam os que existem no episódio do jantar do Hotel Central, por serem Vilaça e Carlos, respectivamente, quem focaliza as cenas em causa. Creio que se poderá admitir, com a mesma legitimidade, que o discurso relatado em DIL seja filtrado pela consciência do respectivo alocutário, que pode não ser a personagem que focaliza internamente a acção. E julgo até que, talvez seja por pensar que o DIL transmite sobretudo pensamentos que Banfield, com dificuldade em encaixar, na sua teoria, o DIL que relata palavras, força este tipo de DIL a passar pela consciência da personagem focalizadora: «By defining free indirect discourse not in terms of 'voice' - the intuitive reader's reaction - but by means of a set of linguistic criteria of syntactic and lexical deixis relating to the character's subjectivity or SELF, she [Banfield] eschews the transformational fallacy that goes hand in hand with an 'underlying direct discourse reading'.» (Fludernik, 1993: 319)70.
O DIL consistiria num conjunto de critérios linguísticos, de «syntactic and lexical deixis» certamente relacionado com a subjectividade e o «eu» da personagem mas, segundo penso, relacionado, também, com esse «eu» enquanto sujeito locutor, produtor de discursos.
7 0 Evidentemente que não se pode, hoje, aceitar a «falácia da transformação», quer dizer, a ideia de que haveria um discurso em DD que se trataria de relatar em DIL.
Quer Fludernik, quer sobretudo Banfield referem-se, pois, ao DIL como representando, maioritariamente, pensamentos e a primeira cita passagens em que há relato de palavras, como prova de que tais passagens existem. Há um célebre diálogo de E. M. Forster que surge, várias vezes, nos trabalhos consultados sobre DIL. Deve concluir-se, da repetição deste exemplo, que não se trata de um tipo de ocorrência muito frequente71.
«A conversation then ensued, not on unfamiliar lines. Miss Bartlett was, after all, a wee bit tired, and thought they had better spend the morning settling in; unless Lucy would rather like to go out? Lucy would rather like to go out, as it was her first day in Florence, but, of course, she could go alone. Miss Bartlett could not allow this. Of course she would accompany Lucy everywhere. Oh, certainly not; Lucy would stop with her cousin. Oh no! that would never do! Oh yes!»
E. M. Forster, A Room with a View.
Seria tarefa árdua inventariar casos como este na Literatura portuguesa. Em O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e Os Maias, p. e., a cada página se tropeça em ocorrências de DIL que relatam palavras de personagens.
Embora muito menos frequentes, no corpus trabalhado, do que as ocorrências de relato de palavras, as passagens de DIL que representa a consciência de personagens são mais longas. A identificação entre o leitor e o protagonista é também conseguida por aquele ter acesso ao mundo interior da personagem. Ainda que este não seja muitas vezes exposto ao olhar do leitor, a verosimilhança das passagens em que tal exposição ocorre aproxima quem lê da subjectividade de quem experimenta e sente. Esta identificação é própria das convenções da ficção. Mesmo sabendo que quem sofre ou se alegra é um ser de papel, o leitor sofre e alegra-se com
71 Nos romances de Jane Austen, o DIL relata também palavras, funcionando, nos
diálogos, como em Eça, quer dizer, para relatar uma intervenção encadeada noutra em DD (cf. Emma, Persuasion e Pride and Prejudice).
ele, porventura mais do que com o sofrimento e a alegria de seres humanos reais. A leitura de «O menino de sua mãe» de Fernando Pessoa causa, normalmente, uma sensação mais irrecusável de sofrimento do que uma notícia da morte real de um soldado de carne e osso72.
Quanto ao efeito destes enunciados na ficção narrativa, não é fácil defini-lo. Criam empatia, como já foi sublinhado, mas podem gerar, ainda que com muito menos frequência, leituras irónicas e até uma distanciação entre o leitor e a personagem em causa73. As ocorrências de «monólogo
narrado»74 envolvem o leitor no fluxo de pensamento da personagem e por
isso podem afastá-lo ou aproximá-lo dela, conforme os sentimentos da personagem despertem repulsa ou simpatia. Qualquer que seja o caso, o DIL produz, obviamente, um efeito polifónico, de sobreposições de vozes.
O DIL que representa pensamentos é considerado por Leech/Short, historicamente, como um desenvolvimento natural, «keeping much of the vividness of D T [Direct Thought] without the artificiality of the 'speaking to oneself convention.» (Leech/Short, 1981: 345). As tentativas dos romancistas modernos para retratarem a 'fala interior' das personagens têm a ver com um dos principais objectivos da narrativa dos últimos cem anos, i. é, saber de que forma é possível apresentar, com verosimilhança, o turbilhão de pensamentos que atravessam a vida psíquica das personagens.
De acordo com a lógica narrativa, estas ocorrências de DIL de pensamento existem, sobretudo, em momentos de tensão, quando o sujeito se sente particularmente agitado e incapaz de controlar as suas emoções
7 2 Jorge Semprún, no livro de memórias A Escrita ou a Vida (1994), faz várias reflexões
a este respeito, concluindo que só um registo próximo da ficção conseguiria conferir verosimilhança aos episódios inenarráveis de sofrimento humano do campo nazi de Buchenwald.
7 3 E o caso do sonho do Padre Amaro, em O Crime do Padre Amaro, que não pretende
despertar a simpatia do leitor pelo protagonista, sempre vil e desprezível aos olhos daquele.
7 4 A terminologia de Dorrit Cohn e de Beltrán Almería parece-me ser um pouco
complicada e creio que não se ganha muito em encontrar sucessivos e diferentes nomes para fenómenos que sao, por vezes, matizes uns dos outros.
fortes75. Estes momentos tensos são propícios à tentativa de racionalização
por parte da personagem, mas continuam a manter exclamações e interrogações que vêm já da retórica romântica (cf. Beltrán Almería, 1992:
132). Evidentemente que o DIL de pensamento exige, por razões de verosimilhança, a solidão da personagem.
Só se pode representar a consciência de uma terceira pessoa na ficção e por um recurso que apenas ela admite, como Kãte Hamburger - e Genette, na sua senda - mostraram. Este tipo de DIL que transmite pensamentos tem, segundo McHale (1978), uma meta-função que é ser um índice de literariedade. Se ainda é possível aceitar que o DIL existe na conversa real e não é uma instrução meramente literária, temos de concordar que esta hipótese só faz sentido em relação ao DIL que relata palavras. O que transmite pensamentos está, por definição, arredado da conversa normal, pois não é possível adivinhar sentimentos e pensamentos alheios que não sejam verbalizados. O DIL tem, indiscutivelmente, uma funcionalidade literária e, quando o narrador procura reproduzir processos de consciência76, é porque quer dissecar, com preocupações
realistas, o interior da personagem77.
7 5 As passagens, muito mais extensas do que as de relato de palavras, revelam sujeitos divididos, sem saberem que decisão tomar, revoltados contra a indiferença cega do destino. A força desses sentimentos contraditórios é transmitida em longas tiradas em DIL, pontuadas de interrogações cuja expressividade Hirsch referiu com agudeza. Quanto ao DIL que representa pensamento, em Os Maias, encontra-se nos momentos de maior tensão narrativa, sobretudo em parte do antepenúltimo e no penúltimo capítulo (uma vez que o último é uma espécie de epílogo, já depois de fechada a acção central), logo que é conhecido o parentesco entre Carlos e Maria Eduarda. A perplexidade, a incredulidade de Ega e de Carlos perante a coincidência trágica, a dificuldade em aceitar o carácter inelutável do real, levam o protagonista e o seu alter ego a longos debates interiores. 7 6 É muito difícil reproduzir tal e qual a corrente de pensamento na Literatura, mesmo na mais recente, que tenta imitar o seu fluxo. Os pensamentos são menos articulados que a linguagem que, ao representá-los, os ordena e disciplina.
7 7 Na parte final de Os Maias, tomada aqui a título de exemplo, a revolta e a perplexidade de Ega perante a força do destino, a sua reconstrução mental de todo o drama que se abate sobre o amigo, a raiva que sente face à inelutabilidade dos factos, o encaixar, com avanços e recuos, de todas as peças do puzzle, depois das revelações de Guimarães, transmitidos com grande proximidade empática, são um bom exemplo de como o romance realista pretende expressar o que se passa na cabeça das personagens.
Um dos efeitos do DIL, segundo Fludernik, é criar justamente «the illusion of an immediate presentation of character's consciousness.» (Fludernik, 1993: 79)78. Se pensarmos em Os Maias, apesar de Eça não
usar com muita frequência o DIL para transmitir a vida interior das personagens, aos referidos momentos dos capítulos XVI e XVII em que tal acontece, são aplicáveis as palavras de Fludernik: «As is well known, free indirect discourse can be utilized to great effect in the detailed portrayal of character's sentiments and feelings and thoughts, free indirect discourse additionally allows their representation in the mode of thinking and speaking most appropriate to those characters. In particular, free indirect discourse can effectfully outline a character's mental situation, his or her emotional upheaval, and follow the train of thoughts and emotions through their turmoil to a possible resolution.»79.» (Fludernik, 1993: 79-80).
Há, como Fludernik escreve, um «gradual zooming in on a character's psyche.» (Fludernik, 1993: 310). E esta parece ser, pelo menos nos casos que recenseei no corpus, o principal efeito do DIL que representa pensamentos: aproximar-se gradualmente da intimidade da personagem, mostrar, em grande plano, as suas perplexidades e vivências interiores, desenhar a sua situação mental, para aumentar a nossa simpatia e a nossa identificação com o sofrimento ou o êxtase dela80.
7 8 Káte Hamburger atribui também, ao DIL, esta função que estamos a apontar de apresentar a vida psíquica das personagens: «Both the technique of rendering the novel into extensive dialogue as well as the use of the narrated monologue to render not only streams of conscious, but also of subconscious experience (as in Joyce), are narrative forms whose function is just such presentation of the psychic life.» (Hamburger (1957)
1993: 150).
7 9 E exactamente o que sucede com o DIL que transmite a confusão de sentimentos contraditórios que assaltam Carlos depois de Castro Gomes lhe fazer a terrível revelação de que Maria Eduarda não é sua esposa.
8 0 A alegria de Carlos quando o seu amor por Maria começa a tornar-se possível também nos é transmitida em DIL.
3.4.3. Relato de palavras em discurso indirecto livre
A tendência para o DIL relatar, sobretudo, palavras ditas e, menos, pensamentos ou divagações interiores da personagem é dominante, como tenho vindo a mostrar, nos romances que constituem o corpus usado no âmbito desta dissertação. Nos romances de Eça de Queirós, o DIL usa-se com mais frequência para relatar palavras do que para representar pensamentos. Mau Tempo no Canal, uma narrativa em que o DIL é bastante frequente, revela que esse tipo de relato transmite, predominantemente, palavras de personagens em sequências de conversa (visitas sociais, serões), alternando, nessas situações, com o DD (cf. primeiro exemplo transcrito a seguir). Também aparece, embora menos vezes, no romance de Vitorino Nemésio, o DIL que representa pensamentos e associações de ideias não pronunciados, quer dizer, que não chegam a ser ditos em voz alta (como no segundo exemplo).
«Margarida foi da mesma opinião e pelas mesmas palavras: muito bem escrita; evidentemente um espírito muito fino, pairando alto... Tinha graça...!, nunca reparara bem nas figuras orientais do contador: um índio de umbela aberta; depois, no meio dos reflexos das incrustações avivadas pela chama do candeeiro (em casa das Peters não havia electricidade), sempre o mesmo pagode no espelho de cada gavetinha. Era o contador do tio Raimundo Peters? O presente do rajá? Mas D. Corina preferia chamar-lheaatençãopara a letra de João Garcia, tão miudinha e tão pessoal:» (sublinhados meus).
«A ele o que lhe apetecia era um bocadinho de arroz de forno, uma batata doce assada. Tão bons covilhetes que Henriqueta sabia fazer! E Emília... Mas isso era outra questão, outra louça...»
Nestes casos, a personagem cujo movimento interior é transmitido em DIL está, geralmente, só. Falo de solidão física mas não apenas. As diferentes figuras do romance (João Garcia, o tio, o pai, Margarida, a respectiva mãe) são pessoas isoladas, com fortes vivências íntimas que se quadram bem com o uso do DIL que reflecte sentimentos e pensamentos. Mas é aquele que relata palavras o mais frequente na narrativa.
Quer em Os Maias quer em Mau Tempo no Canal, é muito grande a diferença numérica entre DIL que relata palavras e o que representa pensamentos81. Há mais ocorrências deste último em Nemésio do que em
Eça, o que não admira dada a distância a que se situam um do outro e dado o caminho percorrido pelo romance posterior a Eça, caminho de que Nemésio era um profundo conhecedor. De acordo com as tendências literárias da época em que escreve, o DIL de Mau Tempo no Canal não é, muitas vezes, tão marcado como em Eça, mas não há, como já não havia em
Os Maias, qualquer dificuldade em distinguir se as palavras relatadas em
DIL foram «efectivamente» pronunciadas por uma personagem ou são meras cogitações interiores que nunca chegaram a ser ditas.
O DIL que relata palavras e o que representa pensamentos são distinguidos, quanto à função, por Leech/Short: «Hence while FIS [Free Indirect Speech] distances us somewhat from the characters producing the speech, FIT [Free Indirect Thought] has the opposite effect, apparently putting us directly inside the character's mind.» (Leech/Short, 1981: 344). E verdade que há mais ocorrências irónicas no DIL que relata palavras (das quais, muitas vezes, o narrador se distancia) e também parece que aquele que representa pensamentos cria, sobretudo, proximidade e empatia com a personagem experenciadora. Mas, como se poderá demonstrar com inúmeros exemplos, o DIL que relata palavras nem sempre é exclusivamente irónico.
Quando o DIL, nos textos literários que compõem o corpus que utilizei, relata palavras supostamente pronunciadas, ele atinge um alto grau de tipificação, procurando imitar a fala concreta que relata. Nestas passagens, o DIL inclui traços expressivos e oralizantes em grande quantidade e situa-se a par do DD, na tentativa de ser verosímil e na busca de uma pretensa «objectividade» do relato, própria da ficção realista. O DIL tem como efeito individualizar registos típicos de determinadas personagens, tal como o DD, mas esta individualização exige um estudo a nível textual, para que seja possível destrinçar o registo de uma personagem de outros, diversos, que o autor utilize no texto. É «[...] un medio de gran eficácia expresiva», como escreve Albaladejo (1992: 126) e talvez por isso Eça o tenha utilizado tão abundantemente.
O valor que mais frequentemente se vê ser atribuído ao DIL que relata palavras é de distanciação irónica, quase de paródia. De facto, o narrador/relator transmite, muitas vezes, as palavras de uma personagem em DIL porque, criando um efeito de dupla entoação ao misturar o seu registo com o da personagem, o DIL permite tornar ridículo ou alvo de troça esse discurso.
Ocorrências de DIL de personagens centrais de Os Maias ou de Mau
Tempo no Canal, p.e., são bastante frequentes e só por si invalidam a
opinião de Laparra (cf. 1990: 93), segundo a qual o DIL, juntamente com o Dl e com o DN, provocaria um efeito de colocação em segundo plano e seria relegado para as personagens secundárias82. Não é verdade, se
olharmos para uma sequência longa de conversa do romance Os Maias (a do capítulo III do romance, p.e.), que DN, Dl e DIL estejam reservados a personagens secundárias. E se há um «efeito de colocação em segundo
8 2 Essas personagens poderiam, por vezes nem ser identificadas, e o DIL estar reservado para discursos relatados com função fática ou que contam acontecimentos de palavras já conhecidos. DN, Dl e DIL fariam, também, a ponte entre DD e narração (cf. Laparra,
plano», ele deve ser atribuído, apenas, ao uso de DN e DL O DIL não partilha, em minha opinião, dessa função de secundarização. Pelo contrário. Aliás, as passagens, muito subtis, de uns tipos de relato para os outros, sugerem, no conjunto do texto, aproximações e afastamentos, secundarização de umas intervenções em relações a outras, levando-nos a pensar que o fenómeno da citação é mais correctamente compreendido de um ponto de vista discursivo e até textual e menos enquanto fenómeno estritamente oracional. Mesmo o DIL usado para relatar enunciados das personagens secundárias não tem propriamente um efeito de colocação em segundo plano. E muitas vezes irónico e procura ajudar a fazer a caricatura de personagens que simbolizam defeitos e tipos que, no caso de
Os Maias, Eça criticava na sociedade da época.
A empatia ou a paródia existem, quanto a mim, no DIL que relata palavras, conforme os enunciadores responsáveis pelo enunciado a relatar sejam dignos da simpatia ou da ironia do narrador. Ao compor uma personagem, é-lhe atribuída uma linguagem, tal como lhe são atribuídos um retrato físico e uma história. A linguagem que a personagem fala também a define. O relato das suas palavras permite satirizar a personagem ou reforçar a identificação do leitor com ela.
Está-se perante pequenas passagens com o tamanho, geralmente, de um parágrafo, disseminadas por todo o texto, sobretudo nas sequências de conversa (jantares, serões, encontros). Não se trata de longos blocos de grandes dimensões. Apesar de tudo, o DIL que exprime sentimentos e sensações da vida interior ocorre em sequências mais extensas, enquanto aquele que relata palavras é normalmente breve.
O corpus utilizado revela que o DIL é usado, frequentemente, em alternância com o DD, constatação que já Bally (cf. 1912 b: 598-599) fizera. Fludernik retira desta possibilidade de alternância muitas possibilidades de funcionamento: «this allows the narrative to highlight
important material against stereotypical answers, but can aditionally be exploited to ironize the FID utterances of the character, or metaphorically to reflect the relation between the characters.» (Fludernik, 1993: 80). E verdade que há um efeito de zoom que tem que ver, também, com a