• Nenhum resultado encontrado

3. A PROPRIEDADE INTELECTUAL

3.2 DOS DIREITOS AUTORAIS

O direito autoral pode ser entendido como o conjunto de normas jurídicas que visam estabelecer direitos e deveres sobre as criações humanas e para os sujeitos que, direta ou indiretamente, estejam ligadas a elas.

Nesse mesmo sentido, em arrimo a doutrina especializada no estudo dos direitos autorais de Carlos Vide e Victor Drumond (2005, p. 1), assim o analisa:

O direito do autor é o conjunto de normas que estabelecem os direitos e deveres sobre as obras do espírito correspondentes a quem tenha criado ou sejam seus titulares, independentemente dos direitos e deveres de outras pessoas ou entidades – artistas intérpretes ou executantes, editores, produtores de fonogramas etc. – titulares de direitos conexos como aos dos autores, surgidos e estabelecidos à imagem e à semelhança destes, e independentemente também das normas relativas a ações, procedimentos, registros, formalidades e símbolos.

Doravante, as criações para serem consideradas protegidas pelo direito autoral devem, em primeiro lugar, ser produto do engenho humano e, em segundo lugar, devem ser consideradas originais, ou seja, produto do intelecto do seu criador (VIDE e DRUMOND, 2005).

Contudo, no que diz respeito ao critério da originalidade, o mesmo não deve ser entendido de forma absoluta pela ciência jurídica. De fato, o direito considera uma espécie de originalidade relativa, uma vez que existem direitos autorais que venham a estar ligados a criações de terceiros.

Destarte, de acordo com a norma jurídica específica do direito autoral no direito brasileiro53, existem diversas criações humanas passíveis de proteção jurídica, sob a égide

seu tempo, distinguem-se por característicos próprios, apesar dos que lhes são comuns, tornando possível traçar-se nitidamente o limite entre os dois ramos da propriedade imaterial”.

52

A inserção dos direitos autorais como direitos reais encontram resistência na doutrina, não sendo uma classificação que denote um consenso no meio jurídico, como aponta Newton Silveira (2005, p. 87), nos seguintes termos: “[...] muitos especialistas do direito autoral o incluem entre os direitos da personalidade, como o direito à imagem e à privacidade, e não entre os direitos reais. Porém, mesmo que se considere que, pelo aspecto patrimonial, o direito de autor também seja uma forma de propriedade sobre o fruto da criação intelectual, subsiste outra vertente dos direitos do autor, os denominados direitos morais de autor, que sem dúvida se classificam como direitos da personalidade. Assim são o direito à integridade da obra, o direito de inédito, o direito de ligar o nome à obra ou de tirá-la de circulação, direitos esses que competem ao autor como pessoa e são de caráter inalienável, imprescritível e irrenunciável”.

53

Segundo dispõe a Lei nº 9.610/98 em seu art. 7º: “São obras intelectuais protegidas as criações do espírito, expressas por qualquer meio ou fixadas em qualquer suporte, tangível ou intangível, conhecido ou que se

deste instituto, tais como, as obras artísticas, sob suas diversas formas de manifestação que venham a adentrar na categoria de produção intelectual.

Por conseguinte, a proteção autoral a ser conferida ao indivíduo, permite uma tutela jurídica à pessoa, intimamente ligada a sua condição pessoal, na qual se inserem os direitos morais, sendo, pois, direitos mais próximos do direito pessoal e uma outra, a esta relacionada, que se refere à repercussão patrimonial auferida pela criação, mais próxima do direito patrimonial.

Sendo assim, o direito autoral se encontra numa categoria híbrida, de direito pessoal e direito patrimonial, que, como ensina José Afonso da Silva (2001, p. 279), em análise da proteção jurídica conferida pela Carta Magna, assim distingue os tratamentos conferidos aos mesmos:

O autor é o titular de direitos morais e de direitos patrimoniais sobre a obra intelectual (ou seja: obras literárias, artísticas, científicas, musicais, dramática, dramático-musicais etc.) que produzir. São direitos morais do autor: (a) o de reivindicar, a qualquer tempo, a paternidade da obra; (b) o de ter o seu nome, pseudônimo ou sinal convencional indicado ou anunciado, como sendo o do autor, na utilização de sua obra; (c) o de conservá-la inédita; (d) o de assegurar-lhe a

integridade, opondo-se quaisquer modificações, ou à prática de atos que de,

qualquer forma, possam prejudicá-la, ou atingi-lo, como autor em sua reputação ou honra; (e) o de modificá-la, antes ou depois de utilizada; (f) o de retirá-la de circulação, ou de lhe suspender qualquer forma de utilização já autorizada, quando a circulação ou utilização implicarem afronta à sua reputação e imagem; (g) o de ter acesso a exemplar único e raro da obra, quando se encontre legitimamente em poder de outrem, para o fim de, por meio de processo fotográfico ou assemelhado, ou audiovisual, preservar sua memória, de forma que cause o menor inconveniente possível ao seu detentor, que, em todo caso, será indenizado de qualquer dano ou prejuízo que lhe seja causa. Esses direitos morais do auto são inalienáveis e irrenunciáveis, mas, por morte do autor, transmitem-se a seus herdeiros os direitos a que se referem os números I a IV supra.

Os direitos patrimoniais do autor compreendem as faculdades de utilizar, fruir e dispor de sua obra, bem como de autorizar sua utilização ou fruição por terceiros no todo ou em parte. Esses direitos são alienáveis.

Contudo, em que pese a norma jurídica fazer distinção entre os dois elementos integradores do instituto de proteção do autor, um moral e o outro patrimonial, saliente-se

invente no futuro, tais como: I - os textos de obras literárias, artísticas ou científicas; II - as conferências, alocuções, sermões e outras obras da mesma natureza; III - as obras dramáticas e dramático-musicais; IV - as obras coreográficas e pantomímicas, cuja execução cênica se fixe por escrito ou por outra qualquer forma; V - as composições musicais, tenham ou não letra; VI - as obras audiovisuais, sonorizadas ou não, inclusive as cinematográficas; VII - as obras fotográficas e as produzidas por qualquer processo análogo ao da fotografia; VIII - as obras de desenho, pintura, gravura, escultura, litografia e arte cinética; IX - as ilustrações, cartas geográficas e outras obras da mesma natureza; X - os projetos, esboços e obras plásticas concernentes à geografia, engenharia, topografia, arquitetura, paisagismo, cenografia e ciência; XI - as adaptações, traduções e outras transformações de obras originais, apresentadas como criação intelectual nova; XII - os programas de computador; XIII - as coletâneas ou compilações, antologias, enciclopédias, dicionários, bases de dados e outras obras, que, por sua seleção, organização ou disposição de seu conteúdo, constituam uma criação intelectual”.

que, na prática, ambos se encontram intimamente relacionados, daí porque se justificar a sua inserção numa condição sui generis contemplando as duas facetas.

Não obstante, a previsão normativa especial dos direitos autorais na Lei nº 9.610/98, encontra-se o tratamento oferecido ao programa de computador (software)54, conferido por diploma legal próprio, a partir do advento da Lei de Programas de Computador – Software (nº 9.609/1998), que expressamente, no seu art. 2º, coloca a criação de programa como categoria de direito autoral55.

Em arrimo ao posicionamento adotado pela norma jurídica própria, o Superior Tribunal de Justiça, em julgamento do Recurso Especial nº 443.119/RJ, em que foi Relatora a Ministra Nancy Andrighi, conferiu o tratamento de direitos autorais para o criador de

software, de modo a permitir a indenização pela indevida reprodução do produto, conforme

consta na transcrição do julgado abaixo:

Direito civil. Recurso especial. Ação de conhecimento sob o rito ordinário. Programa de computador (software). Natureza jurídica. Direito autoral (propriedade intelectual). Regime jurídico aplicável. Contrafação e comercialização não autorizada. Indenização. Danos materiais. Fixação do quantum. Lei especial (9610/98, art. 103). Danos morais. Dissídio jurisprudencial. Não demonstração. - O programa de computador (software) possui natureza jurídica de direito autoral (obra intelectual), e não de propriedade industrial, sendo-lhe aplicável o regime jurídico atinente às obras literárias.

- Constatada a contrafação e a comercialização não autorizada do software, é cabível a indenização por danos materiais conforme dispõe a lei especial, que a fixa em 3.000 exemplares, somados aos que foram apreendidos, se não for possível conhecer a exata dimensão da edição fraudulenta [...] (STJ, REsp 443119 / RJ, Relatora Min. Ministra Nancy Andrighi, 3ª Turma, julg. 08/05/2003, DJ 30/06/2003 p. 240).

Desse modo, de acordo com o direito brasileiro, a criação de programa de computador também é considerada como um direito autoral, protegido pelo período de cinqüenta anos, a contar do ano subseqüente ao da sua publicação ou criação (art. 2º, §2º, da Lei nº 9.609/9856).

Todavia, alguns estudiosos do assunto preferem considerar que os programas de computador devem ser inseridos numa categoria à parte, representando uma espécie de tertius

54

Para efeito de proteção jurídica, o art. 1º da Lei 9.609/98, define o programa de computador como sendo “A expressão de um conjunto organizado de instruções em linguagem natural ou codificada, contida em suporte físico de qualquer natureza, de emprego necessário em máquinas automáticas de tratamento da informação, dispositivos, instrumentos ou equipamentos periféricos, baseados em técnica digital ou análoga, para fazê- los funcionar de modo e para fins determinados”.

55

Segundo dispõe de forma clara a redação do art. 2º da referida norma jurídica: “O regime de proteção à propriedade intelectual de programa de computador é o conferido às obras literárias pela legislação de direitos autorais e conexos vigentes no País, observado o disposto nesta Lei”.

56

De acordo com a redação conferida por este parágrafo “Fica assegurada a tutela dos direitos relativos a programa de computador pelo prazo de cinqüenta anos, contados a partir de 1º de janeiro do ano subseqüente ao da sua publicação ou, na ausência desta, da sua criação”.

genus, um meio termo entre os direitos autorais e a propriedade industrial, de modo que se

encontram sujeitos aos preceitos de função social da propriedade (BARBOSA, 2007a).

Sob um outro prisma, diferente da categoria de direitos autorais, o instituto da propriedade intelectual também prevê uma outra proteção jurídica à criação humana, quando estas estiverem voltadas à produção, qual seja a propriedade industrial.